Um ponto de viragem


Rui Rocha,

Os últimos dias marcam um momento de viragem na Europa. Trata-se da erupção ou afirmação de tendências que serão marcantes na evolução da crise actual. No que diz respeito à União Monetária, o desenho das novas fronteiras está a tornar-se muito nítido. Parece cada vez mais evidente que, a Oriente, a Zona Euro ficará aquém da Grécia. E isso levanta a grande interrogação do momento. Esta diz respeito à fronteira a Ocidente. Isto é, diz-nos respeito a nós. À medida a que cresce a probabilidade de a Grécia ser deixada à sua sorte, menos o nosso destino na União Monetária é uma questão interna de Portugal. Sabe-se que não há regra sem excepção. A excepção da Zona Euro será a Grécia. Embora ninguém consiga prever exactamente as consequências que tal terá, é possível admitir que os danos provocados pela sua saída da moeda única possam ser controlados. A saída contemporânea ou subsequente de Portugal abalaria definitivamente a viabilidade do projecto. Duas excepções seriam, neste caso, uma multidão. É pois sobre a posição de Portugal dentro ou fora do perímetro da União Monetária que a incerteza permanece e é sobre este ponto que incidirá boa parte da atenção nos próximos tempos. Por mal dos nossos pecados, estamos no centro de decisões fundamentais para o futuro da Europa. Não é uma posição confortável, mas tem algum ponto forte. O elo mais fraco define a força de uma cadeia. É também do interesse dos elos mais fortes contribuir para aumentar a resistência do elo mais fraco. O outro ponto significativo de viragem diz respeito ao isolamento da Alemanha. Como aqui se diz, a perda do rating triplo A pela França deixou Merkel sozinha aos comandos da Europa. Qualquer pretensão de paridade de posição da França com os germânicos ficou definitivamente comprometida. Por estes dias, o poder mede-se pelo Estado e pela sua circunstância. A circunstância de cada Estado é o rating que lhe é atribuído. Por isso, as questões relacionadas com as políticas orçamentais de cada um dos membros tornaram-se agora capítulos da política interna da Alemanha. Todavia, o isolamento alemão pode estar a abrir portas para uma alteração da abordagem europeia à crise. A união dos Estados excluídos momentaneamente da condução dos destinos da Europa em torno da necessidade de adoptar políticas que não se reconduzam à austeridade parece estar a ganhar consistência. A substituição de Berlusconi por Monti alterou o valor facial da Itália. A nova credibilidade adquirida torna-a fundamental na definição dos novos equilíbrios. Poderá ser esse o empurrão necessário para alterar o equilíbrio de poder na União Europeia.

3 comentários em “Um ponto de viragem”

  1. «aquém da Grécia»
    Tal como irá ficar aquém dos Pirenéus.
    Os famigerados ‘mercados’, no papel dos árabes quando invadiram a Península ocidental.
    ‘Mercados’ que por sua vez, deixarão um dia o caminho livre a outros.
    O Oriente continua vermelho, mesmo de automóvel e Gucci.

  2. Os Alemães não terão AAA por muito tempo. O caminho deles também tem sido mais estado, mais dívida e se o SPD ganhar as próximas eleições ainda vão mais rápido.

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