Os últimos dias marcam um momento de viragem na Europa. Trata-se da erupção ou afirmação de tendências que serão marcantes na evolução da crise actual. No que diz respeito à União Monetária, o desenho das novas fronteiras está a tornar-se muito nítido. Parece cada vez mais evidente que, a Oriente, a Zona Euro ficará aquém da Grécia. E isso levanta a grande interrogação do momento. Esta diz respeito à fronteira a Ocidente. Isto é, diz-nos respeito a nós. À medida a que cresce a probabilidade de a Grécia ser deixada à sua sorte, menos o nosso destino na União Monetária é uma questão interna de Portugal. Sabe-se que não há regra sem excepção. A excepção da Zona Euro será a Grécia. Embora ninguém consiga prever exactamente as consequências que tal terá, é possível admitir que os danos provocados pela sua saída da moeda única possam ser controlados. A saída contemporânea ou subsequente de Portugal abalaria definitivamente a viabilidade do projecto. Duas excepções seriam, neste caso, uma multidão. É pois sobre a posição de Portugal dentro ou fora do perímetro da União Monetária que a incerteza permanece e é sobre este ponto que incidirá boa parte da atenção nos próximos tempos. Por mal dos nossos pecados, estamos no centro de decisões fundamentais para o futuro da Europa. Não é uma posição confortável, mas tem algum ponto forte. O elo mais fraco define a força de uma cadeia. É também do interesse dos elos mais fortes contribuir para aumentar a resistência do elo mais fraco. O outro ponto significativo de viragem diz respeito ao isolamento da Alemanha. Como aqui se diz, a perda do rating triplo A pela França deixou Merkel sozinha aos comandos da Europa. Qualquer pretensão de paridade de posição da França com os germânicos ficou definitivamente comprometida. Por estes dias, o poder mede-se pelo Estado e pela sua circunstância. A circunstância de cada Estado é o rating que lhe é atribuído. Por isso, as questões relacionadas com as políticas orçamentais de cada um dos membros tornaram-se agora capítulos da política interna da Alemanha. Todavia, o isolamento alemão pode estar a abrir portas para uma alteração da abordagem europeia à crise. A união dos Estados excluídos momentaneamente da condução dos destinos da Europa em torno da necessidade de adoptar políticas que não se reconduzam à austeridade parece estar a ganhar consistência. A substituição de Berlusconi por Monti alterou o valor facial da Itália. A nova credibilidade adquirida torna-a fundamental na definição dos novos equilíbrios. Poderá ser esse o empurrão necessário para alterar o equilíbrio de poder na União Europeia.
Um ponto de viragem
Rui Rocha,

«aquém da Grécia»
Tal como irá ficar aquém dos Pirenéus.
Os famigerados ‘mercados’, no papel dos árabes quando invadiram a Península ocidental.
‘Mercados’ que por sua vez, deixarão um dia o caminho livre a outros.
O Oriente continua vermelho, mesmo de automóvel e Gucci.
De facto, há coisas que nunca mudam, Monti.
Os Alemães não terão AAA por muito tempo. O caminho deles também tem sido mais estado, mais dívida e se o SPD ganhar as próximas eleições ainda vão mais rápido.