Cordas novas para as costas de Mourinho


Rui Rocha,

Num jogo disputado no Dia Internacional do Riso, era bom de ver que só o Barcelona podia ser feliz. Nos embates com a equipa catalã, Mourinho entra sempre condicionado pela história. Se o seu traço característico é o desplante, frente à equipa de Guardiola o Special One transpira medo e frustração. Por isso, refugia-se em tábuas. Acossado pela memória de desastres recentes, monta a equipa com base na tensão muscular. O seu estandarte é Pepe. Um futebolista sem cabeça e sem razão. O método baseia-se na presença, em doses iguais, de ignorância futebolística e pancada, ronha e retranca, contra-ataque e contenção. Nestas ocasiões, o Real Madrid de Mourinho tanto pode ser uma equipa de futebol como um grupo de assentadores de ladrilhos que enfrenta o destino com os dentes cerrados e um rol de queixas do patrão. É claro que um dia por outro lá pode calhar uma vitória.  Foi assim quando Mourinho orientava o Inter do Milão. Pode voltar a ser na 2ª mão desta Copa del Rey. Nunca será, nessas condições, filha do mérito, mas a prova contextual de um axioma organizador da contingência ludopédica: um autocarro parado em frente a uma baliza tem razão duas vezes numa década. Fora disso, o trilho escolhido leva inexoravelmente ao insucesso. Bem pode Pepe resfolegar durante toda a partida. Basta que Messi respire por um segundo, que se distraia da apneia, e logo a arte invadirá o espaço restrito onde não chega o machado do lenhador luso-brasileiro. Consumado o desequilíbrio, já poderá o argentino mergulhar nas profundezas da vulgaridade consentida, como realmente fez durante todo o jogo. Tal como na vida, na bola a condição essencial para ser feliz é querer ser feliz, ousar o sorriso, ansiar pela gargalhada. Ter como único objectivo ceifar as pernas do adversário poderá, pontualmente, levar ao sucesso. Mas, nunca levará à felicidade. Por isso, este Mourinho que começou o jogo a rosnar Ai se eu te pego, acabou a partida a murmurar Nossa, você me mata. Foi exactamente isso que Abidal recordou aos presentes quando festejou o segundo golo do Barça coreografando a canção do insuportável Michel Teló. Por essa altura, já as costas de Mourinho tinham trocado as tábuas pela cordas.

 

 

* publicado também aqui.

16 comentários em “Cordas novas para as costas de Mourinho”

  1. Mourinho vai ter sempre problemas no confronto directo com o Barça porque quer desesperadamente ganhar. Atribuiu uma importância aos jogos com o Barça enorme. Ficou-lhe encravado na garganta desde o famoso, e épico acrescento eu, 5-0. Se não lhes ganhar directamente nunca será melhor. Eu percebo a lógica.

    Quanto ao Pepe: perdeu a cabeça. E ainda por cima temos agora que dizer que aquele anormal é português porque com a desgraça dos outros posso eu bem. Faz-me lembrar a situação do Juanito aqui há uns tempos que também agrediu um jogador (penso que do Coruña) e tomou a decisão de sair do clube. Pepe não tem honra alguma para fazer isto.

  2. UUiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
    Perdeu outra vez com o Barça?
    Mourinho vs Guardiola e CR vs Messi, caiu de novo para o mesmo lado?
    Os jogos com o Barcelona começam a entrar no âmbito da patologia para estes nossos compatriotas (que admiro)!
    Já não vai lá sem umas consultas num sofá!
    Abc

  3. Não concordo com a parte do Inter de Milão. Se na segunda mão houve autocarro, na primeira houve um festival de futebol interista que incluiu uma reviravolta de 0-1 para 3-1 de que pouca gente se lembra

    1. O festival foi do amigo Benquerença, que não me esqueço. Um golo em offside, outro numa jogada de contra-ataque em que o amigo de Leiria não quis ver um penalty sobre Messi. Ou seja, se não fosse o amigo Olarápio, teria fico 2-1 para o Barcelona. Em Milão. Pormenores…
      Quanto aos duelos Real de Mourinho com o Barcelona, creio que se prende com o desejo de mostrar ser melhor que Guardiola e que consegue ser melhor que a que é considerada a melhor equipe do Mundo, o novo dream team. Uma questão, protanto, de orgulho. E isso acaba por limitar o discernimento necessário para preparar devidamente a partida. O Real, que, a meu ver, tem estado ligeiramente melhor que o Barça esta época, claudica de cada vez que o defronta, mesmo no seu estádio, como ontem mais uma vez sucedeu e ainda nem há dois meses também. E a prova foi o primeiro jogo da supertaça espanhola, em Agosto, quando Mourinho agrediu o adjunto do Barcelona. Até o próprio Mourinho cedeu à pressão, o que é transmitido aos jogadores. É uma questão mental. Só assim se esplica que o Real só por uma vez conseguiu vencer este Barcelona (final da Taça do Rei, em Maio e com alguma sorte à mistura), pois não é assim tão inferior ao Barça.
      Abraço.

  4. Prezado Rui Rocha

    Vejo que sabe da “poda”…
    Estou (mos) a perder a paciencia … com o nosso!

    Tem a porta aberta de Alvalade!
    Venha… por favor!

    Presidente do SCP

  5. Caro Rui,

    sou, até à medula, defensor de José Mourinho. Todavia reconheço que a vitória de ontem do Barcelona foi perfeitamente merecida. Nada a opor.
    O problema do Mourinho em relação ao Barcelona remonta a uma época em que a equipa catalã eliminou injustamente o Chelsea , muito à custa de uma arbitragem no mínimo tendenciosa, para não dizer pior. Após esse célebre jogo, jamais José Mourinho teve descanso. Nem mesmo a vitória da Liga dos Campeões pelo Inter amenizou essa batalha interior. Há quem fale que Mourinho sempre quis treinar o Barcelona, mas isso carece de fundamento. Todavia, e em relação aos embates entre Real e Barcelona ou vice-versa, o problema de Mourinho é que quer mostrar em 90 minutos que o Real é melhor que o Barcelona. Mas não é neste momento! E esse é o seu maior desgosto.
    Mas se um dia o Real for para o campo e enfrentar o Barcelona como enfrenta outra equipa qualquer em Espanha, poderá vir a ser feliz. Até lá… é tomar doses industriais de aguentocaína “.
    Mas nada disto retira um milímetro de competência a Mourinho.
    Quanto ao Pepe , já devia ter sido irradiado do futebol. E espero que o actual seleccionador nacional não o convoque para o Euro.

      1. Caro Anónimo,

        não estava falar desse jogo, de tão má memória para o Chelsea , mas de outro em 2006, conforme pode comprovar aqui: http://www.zerozero.pt /jogo.php?id=215211, em que um defesa do Chelsea foi expulso quase no início do jogo e o Chelsea acabou por perder por 2-1 em casa.

        1. Lembro-me desse jogo, mas isso já é mais rebuscado, esse era “outro” Barcelona, e não tenho ideia de ter sido a arbitragem a decidir essa partida. Mas esse Barça não era nem de perto a “melhor equipa da História”, a que o actual se pode candidatar. Mas entendo a sua argumentação, só não concordo com ela, acho que o problema do Mourinho é mesmo com o Guardiola, não um problema de índole pessoal, mas de se sentir numa posição secundária em relação a ele, e de ver que dificilmente ficará na História com o mesmo brilhantismo do Espanhol.

  6. Mas eu pergunto: que se há-de fazer para parar o Barcelona e aos seus 73% de posse absoluta de bola?!

    A menos que passe pela cabeça de Mourinho imitar exactamente a perfeição dos catalães, não se percebe como pará-los.

    Quanto a mim, efectivamente vale tudo para parar o Barcelona [dentro das leis do jogo, claro!] Ainda não vi esse “Tudo”.

  7. Se vamos por ai entao temos de falar no Ovebro sem o qual este ciclo de vitorias nao teria sido o mesmo. E sim foi um festival na primeira mao por muito que queira falar de um fora de jogo de mm.

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