Modo de Vida (29)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei escrever sobre a morte. Não falo da morte oficial. Falo daquela que se instala devagar, sem ninguém ver, e depois se vai revelando sem que alguém a possa registar. Dito de outra forma: não sei escrever sobre a morte que é morte antes de ser morte. Sei que essa morte tem outros nomes, mas nenhum desses nomes consegue ser tão preciso quanto a palavra morte. Porque há de facto quem morra antes de morrer. Quem se apague, e nos apague, sem querer e sem saber. E é sobre isso que eu, querendo, não sei escrever.    

Modo de Vida (28)


Adolfo Mesquita Nunes,

A estação do frio é uma estação para pessoas felizes. Digo-o muitas vezes, não só porque gosto de aforismos. E agora que, segundo parece, vem aí uma vaga de frio, apetece-me voltar a essa ideia, que nem sempre consigo explicar. E nem tento, para não perturbar a pretensão aforística.   

Modo de Vida (27)


Adolfo Mesquita Nunes,

O Sol no Inverno, como cantava a Simone, não tem calor. Mas se pensarmos bem o melhor que o Sol tem para nos dar não é o calor: é a luz. Não há por isso, como cantava a Simone, um Sol de Inverno. Há Sol, ponto.

Modo de Vida (26)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Um dia, sem mais nem porquê, percebi que o limão reunia o meu cheiro favorito, a minha cor favorita e, como se já não bastasse, o meu sabor favorito. Com tanto favoritismo, habilito-me a acabar afogado num copo de gin tónico na minha próxima reencarnação.

(post republicado, com adaptações; imagem retirada daqui)

Modo de vida (25)


Adolfo Mesquita Nunes,

Gosto muito da noção de recomeço. A coisa talvez me venha da educação católica (“a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias”, escreveu Sophia) mas ficou para além dela. É por isso que aproveito todos os pretextos para ensaiar, ou legitimar, um recomeço. A passagem de ano é apenas um deles, e o menos original.

Modo de vida (24)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei de onde me vem esta cansativa necessidade de a tudo reagir com bom humor, coisa que muitos tomam, naqueles momentos em que a aparência parece contar muito, com ligeireza. Mas nasci assim, de riso ágil e piada fácil. Mas é uma arma, senhores. Não é um refúgio.   

Modo de Vida (23)


Adolfo Mesquita Nunes,

Uma casa vazia não me desafia. Fecho a porta sem sequer perder tempo a imaginar o que poderia fazer com e naquele espaço. O mesmo se passa com uma página em branco. Se a encontro em branco, em branco fica sem que me ocorra qualquer coisa de consistente para a preencher. Mas tudo muda se naquela casa, ou naquela página, existirem vestígios de ocupação. Um candeeiro ou um primeiro parágrafo podem, esses sim, convocar-me ao desafio.

Não sei se esta circunstância tem algum nome, daqueles nomes que hoje se dão a tudo e a nada para descrever tudo e nada. Mas deve ter um nome qualquer, a dar para o patológico. Se esta circunstância estivesse em branco e por classificar eu nem sequer me interessaria por ela. 

Modo de Vida (22)


Adolfo Mesquita Nunes,

Cheguei atrasado ao fado, um pouco como quem se encontra na religião depois de a ter negado. Não dou grande importância ao atraso, até porque permitiu a boa sofreguidão na descoberta, mas não o nego. Não entendo por isso aqueles que, de uma década para a outra, fingem nunca ter desdenhado a coisa. E desdenhado é favor, que houve quem fosse saneado ou esconjurado ou relegado só por, na linguagem de agora, ter dado voz ao sentir português.

Modo de Vida (20)


Adolfo Mesquita Nunes,

Hoje de manhã, num corredor, encontrei um livro da Flannery O’ Connor pousado numa mesa. Se alguém um dia me quisesse fazer seguir um trilho seria assim, pensei eu, com vários livros, todos da Flannery, a indicar o caminho (os livros teriam de ser repetidos, claro, que ela por cá deixou poucos). Mas não havia mais livros por ali e fiquei à espera para saber a quem pertencia. E não esperei muito até perceber que, afinal, a vida nem sempre é mais interessante do que a ficção: que não, que não conhecia a autora; que não, que ainda não tinha começado sequer; que não, que ainda não tinha nada para dizer.  

Modo de Vida (19)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Não custa perceber que uma canção (ou um artista ou um livro ou um quadro, não interessa agora) tenha a capacidade de se colar a nós até a fazermos nossa. O que custa a aceitar é que a vida seja pequena demais (ou circunstancial em demasia, vá) para nos deixar descobrir todas, ou pelo menos algumas, dessas canções. Quantas aí estão, escondidas num álbum qualquer, tão nossas, sem que sequer saibamos da sua existência? Esta, por exemplo, que vos deixo porque o senhor vai estar em Sintra já depois de amanhã, chegou até mim pelo acaso que reservamos à ficção; não esperou anos para vir até mim mas todos os anos que esperasse teriam sido perdidos.

Modo de vida (18)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não consigo precisar qual a minha primeira memória da infância, se é que não é mais importante conseguir coleccionar umas quantas. Mas consigo, com notável precisão, identificar a música que mais facilmente me transporta até lá. Não sei se isso acontece convosco, e se acontece não posso senão convidar-vos a partilhá-la connosco, esta coisa de ter uma música que nos mergulha nos cheiros, texturas e afectos de um tempo que passou mesmo. Eu tenho essa sorte, que nem sempre traz alegrias, de conseguir recuar apenas porque a ouço. Mais do que uma sorte, é uma benção. Aqui está ela, pois.

 

Modo de Vida (17)


Adolfo Mesquita Nunes,

Já por aqui falei da minha capacidade de chegar pontualmente ao local combinado: nem antes, nem depois, mas à hora marcada. Trocava de bom grado essa capacidade, que tenho de sobra, pelo talento, que me falta, de chegar pontualmente às pessoas: nem antes, nem depois, mas no momento certo. 

Modo de vida (16)


Adolfo Mesquita Nunes,

Não sei se acontece convosco mas eu tenho aí umas quatro ou cinco profissões que gostaria de experimentar apenas por um mês ou, vá lá, um ano. Guia turístico é uma dessas profissões. Bastava-me um mês, se tivesse de passar todos os dias pelos mesmos lugares, ou talvez me deixasse ficar mais uns meses se pudesse perder-me, eu próprio, em roteiros ao acaso.

 

Não tendo ainda concretizado a coisa, e não estando para breve a sua concretização, aproximo-me tanto quanto possível da sensação disponibilizando-me para acompanhar estrangeiros que visitam amigos ou oferecendo o meu sofá a estrangeiros desconhecidos que querem saber algo mais sobre Lisboa. Isso mesmo: eu ofereço o meu sofá para que alguém, que eu não conheço senão de perfil web, possa não só dormir em Lisboa sem pagar como também conhecer uma outra Lisboa que não vem nos guias (quem estiver interessado em saber algo mais, aqui fica o endereço: http://www.couchsurfing.org/).

 

Nunca tive qualquer problema com os estrangeiros que recebi lá por casa, já que a segurança deve ser, de certezinha, aquilo em que estão a pensar. Antes pelo contrário, todos, sem excepção, foram de uma correcção notável. E através desses estrangeiros, que tento acompanhar ou, pelo menos, aconselhar, vou descobrindo (mais até do que ajudar a descobrir) uma Lisboa que nos espera, mesmo que não seja Agosto.

Modo de vida (15)


Adolfo Mesquita Nunes,

Há quem encha gavetas com primeiras páginas e se esgote em esboços de uma história que não virá. Há nesse esforço uma qualquer noção de expectativa que sempre ambicionei: a minha imaginação conduz-me sempre para o desenlace de histórias que nunca vieram.   

Modo de vida (13)


Adolfo Mesquita Nunes,

É raro atrasar-me. Corrijo. É raro fazer esperar alguém. Quando percebo que vou atrasar-me, e isto não acontece dez minutos antes da hora mas muito antes, aviso atempadamente para que não me esperem. Sou por isso obsessivamente pontual. E deveria esquecer-me disto mais vezes: em vez de esperar por opção, dou por mim a esperar por estupidez.  

Modo de vida (12)


Adolfo Mesquita Nunes,

Ter um olfacto, como dizer?, quase inexistente pode ser uma bênção numa ou outra circunstância, mas fico sempre com a sensação de que boa parte da vida me passa ao lado. Não teria essa sensação se o olfacto estivesse completamente desligado, mas não está. Há cheiros, poucos, que sinto com intensidade (e segundo sei nem sequer serão cheiros especialmente fortes quando comparados com outros que me passam ao lado).

 

 

E são esses poucos, com as sensações raras que me permitem, que me deixam a pensar no tanto que não vivo. Se o Verão me é trazido pelo cheiro das alfarrobeiras, se a frescura me é recordada pelo limão, se o amor dos meus avós me é lembrado pelo cheiro dos bolos no forno, quanto não me está a ser roubado pela insensibilidade olfactiva? Ou talvez não. Talvez esta minha incapacidade me ofereça a vantagem de ter os cheiros, poucos é certo, como parte importante da minha geografia sentimental.   

Modo de vida (11)


Adolfo Mesquita Nunes,

Passam 11 meses a pedir por Agosto para terem uma Lisboa vazia, disponível, à espera. Chega Agosto e desfilam a vida social no facebook ao jeito de quem faz check in em todas as sugestões das agendas culturais ou de lazer. Mas basta um dia de chuva para desmascarar tanta falta de amor à cidade.

Modo de vida (10)


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Gosto muito de idiomas que nos arranham a pele, feitos de violência, nem sempre triste, que sugerem uma caminhada cheia de paragens pelas bermas. A realidade é melhor carregada por idiomas que não a disfarçam melodiosamente, como o hebraico. Quando tiver tempo, e um dia vou ter, vou tentar aprendê-lo. Até lá, a música.