Uma vergonha


Pedro Correia,

Serei só eu a indignar-me pelo facto de apenas metade dos deputados se encontrarem no hemiciclo quando teve início a sessão parlamentar dedicada ao debate do relatório da comissão técnica independente sobre a tragédia de Pedrógão Grande?

Isto revela quais são afinal as prioridades de suas excelências, os supostos representantes da nação. Confirma o fosso crescente entre eleitores e eleitos em Portugal. E serve para demonstrar, por evidente contraste, que não é por acaso que o Presidente da República se destaca hoje – e a larga distância dos demais – como o político com maior popularidade em Portugal.

Não poupemos nas palavras: a ausência dos deputados num debate tão relevante como este – acompanhado por 30 representantes das famílias das vítimas nas galerias da Assembleia da República – é uma vergonha.

Em política, o que aparece é


Pedro Correia,

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Eu gostaria de ver a política imitar o melhor do futebol. Afinal por cá vejo o futebol a imitar o pior da política. Não o futebol jogado, note-se. Refiro-me ao futebol falado. Ultimamente o espaço do comentário futebolístico nas televisões tem sido invadido por dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, numa réplica do espaço habitual do comentário político, hoje parasitado por deputados de todos os partidos.

Tanto os comentadores-dirigentes como os comentadores-deputados são parte interessada em tudo quanto comentam. Cada frase que proferem deve ser entendida no contexto das suas ambições pessoais e das suas legítimas expectativas: a meritocracia em Portugal mede-se pelo número de aparições nos ecrãs televisivos, que funcionam como passaporte automático para patamares cada vez mais elevados.

Na política, nada disto é novo. Em 2002, Emídio Rangel convidou Pedro Santana Lopes e José Sócrates para formar um duo de comentadores na RTP: dois anos depois emergiam ambos como líderes dos dois principais partidos, tendo ascendido à chefia do Governo. Em 2007, pela inefável mão de Pacheco Pereira, António Costa iniciou-se como comentador regular da SIC Notícias: estava lançada a sua candidatura à liderança do PS. Em vez de mergulhar no Tejo, como sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa em 1989, mergulhou na telepolítica. Terá engolido alguns sapos, mas pelo menos evitou engolir salmonelas.

De resto, o percurso do actual Presidente da República, construído essencialmente nas últimas duas décadas como comentador alternado de um canal privado e do canal público, confirma esta estreita ligação entre a ascensão política e os holofotes televisivos. Mas Marcelo é Marcelo – um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.

Algo muito diferente é assistir ao penoso desfile de deputados que marcam os serões televisivos nos canais noticiosos. Com raras excepções, nada mais têm a debitar do que umas solenes vacuidades, confrangedoras na forma e despojadas de conteúdo. Tanto lhes faz, desde que consolidem o território na respectiva trincheira. Podem todos proclamar-se fiéis ao lema dos novos tempos: em política, o que aparece é.

Eu já evito escutá-los – desde logo porque sei tudo quanto dirão ainda antes de abrirem a boca. Mas não cesso de me espantar quando vejo que as televisões abdicam cada vez mais dos seus próprios comentadores para cederem tempo de antena à confraria dos deputados.

Agora está a acontecer algo semelhante no reduto do comentário futebolístico, cada vez mais confiado aos representantes das confrarias dos dirigentes e dos treinadores. Também aqui só quem aparece é. Saiba ou não saiba falar, tenha ou não tenha coisas originais para dizer, saiba distanciar-se ou não de rancores e ódios pessoais que lhe contaminem o discurso.

Um tributo merecido


Diogo Novo,

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Pobreza gera terrorismo. Sempre que somos abalroados por actos de uma brutalidade indizível como os de ontem, há sempre alguém que levanta o braço para dizer que este tipo de violência tem as suas raízes na precariedade, nas desigualdades e, em geral, na pobreza. Desta vez, foi Miguel Tiago, deputado do PCP, a assumir a causa, designando pobreza sob a forma de “política de direita”. O post entretanto foi apagado, o que demoveu o Sérgio de o comentar. Ainda assim, e dado o assunto, acho que se justificam dois ou três apontamentos.

 

Embora recorrente, o argumento que associa pobreza a terrorismo carece de fundamento. Aliás, nunca teve qualquer sustentação. A literatura que aborda o referido lugar-comum é vasta (veja-se, a título de exemplo, estas páginas, estas ou ainda estas) e, como tal, é difícil resumi-la aqui. No entanto, repare-se que os ideólogos e os líderes do jihadismo – Hassan al-Banna, Osama Bin-Laden, Ayman al-Zawahiri, entre outros – são, em regra, oriundos da classe média-alta ou mesmo dos sectores mais privilegiados das sociedades que os viram crescer. Note-se igualmente que muitos dos que executam atentados, por vezes estando até disponíveis para abdicar da própria vida – Mohammed Atta (célula do 11 de Setembro), Umar Farouk Abdulmutallab (underwear bomber), entre outros –, pertencem a estratos socioeconómicos não muito diferentes daqueles que os lideram. Isto para não abordar o óbvio: se existisse um vínculo de causalidade entre terrorismo e miséria, países como o Congo, a África do Sul, Cuba ou a Venezuela seriam viveiros de actividade jihadista. E, para não deixar pontas soltas, se quisermos olhar para o fenómeno através de uma amostra cronológica mais ampla, veremos que organizações terroristas como o Baader Meinhof, a ETA ou as Brigate Rosse tornam ainda mais difícil estabelecer uma ligação entre violência e pobreza (embora a ligação entre extrema-esquerda e terrorismo se torne mais fácil). Abreviando, não há relação entre terrorismo e pobreza.

 

Mas este argumento gasto, para além de infundado, é ainda insultuoso. Dele resulta que em todo o pobre há um terrorista em potência. Talvez alguém tenha explicado isto a Miguel Tiago e, por essa razão, o post tenha desaparecido.

 

Em Teoria Geral da Estupidez Humana, Vítor J. Rodrigues diz-nos que, nos dias de hoje, a estupidez consiste numa resistência estóica à inteligência. Dada a enorme difusão de conhecimento, e a facilidade em aceder a esse conhecimento, a estupidez é produto de um esforço notório. Escreve Vítor J. Rodrigues que “a exuberância dos fenómenos estupidológicos, a sua extrema variedade, a riqueza das suas realizações ou a elegância dos seus refinamentos [esta última parte, evidentemente, não se aplica a Miguel Tiago], tudo nos faz encontrar na estupidez mais, muito mais do que uma vacuidade, uma ausência de inteligência”. Por esta razão, e apenas por esta razão, importa prestar algum tributo a Miguel Tiago.

Ao nível do estábulo


Sérgio de Almeida Correia,

A raiva é uma doença grave que ocorre, em regra, em cães e gatos, embora seja transmissível aos humanos. Manifesta-se, ao que aprendi, embora seja naturalmente um leigo em matéria de medicina, seja veterinária ou para humanos, por acessos furiosos e ataques de cólera, a que se seguem momentos de paralisia. Também pode ser o nome de uma doença das gengivas que se manifesta nas crianças.

Não sei se o deputado Duarte Marques sabe o que é a raiva para, referindo-se ao primeiro-ministro e a José Pacheco Pereira, dizer que “António Costa é menos raivoso contra o PSD do que Pacheco Pereira“.

Confesso que nem queria acreditar no que li.

Duarte Marques, sendo deputado da nação, não passa de um fedelho. De nada lhe serviu ser aos 21 anos, de acordo com o seu brilhante currículo, assessor de Morais Sarmento, visto que não conseguiu aprender a escrever decentemente e a ter boas maneiras com o então ministro, como também de nada lhe serviu que Marco António Costa, vice-presidente do seu partido, se tivesse queixado do uso de linguagem imprópria e excessiva por parte do PS, acusando este partido de ter uma linguagem própria de partidos extremistas. Que dirá agora Marco António Costa da linguagem do seu colega de bancada ao referir-se ao primeiro-ministro e a Pacheco Pereira? Será linguagem própria de quem? De um rufia? De um estábulo? Do “putedo”, como diria Arnaldo Matos?

Eu, que já por várias vezes me manifestei contra o tipo de linguagem usada em São Bento por alguns senhores deputados, de todas as bancadas, sublinhe-se, não gostei de ler as declarações de Duarte Marques. Bem sei que alguns dos senhores deputados, apesar de não serem asininos se comportam algumas vezes como se usassem arreios, em sentido figurado, evidentemente, mas nunca pensei que um deputado se referisse ao primeiro-ministro e a Pacheco Pereira nos termos em que o fez, como de se animais raivosos se tratassem, e ele próprio não fosse um deputado e conselheiro nacional (!) do PSD.

Nenhum dos visados me passou procuração. Nem é isso que está aqui em causa. Mas o baixo nível de que o deputado Duarte Marques volta a dar mostras, aliado à projecção que tem, pelos vistos, no seu partido com a consequente amplificação que lhe é dada pela comunicação social, não podia passar em branco.

Pela linguagem que usa, Duarte Marques revela não ter categoria nem para servir como mainato do primeiro-ministro ou de Pacheco Pereira, esquecendo-se de que são os impostos dos portugueses, incluindo os dos visados, que lhe pagam o salário para que possa dizer os dislates que diz nos termos em que o faz.

O Dr. Passos Coelho, que em matéria de educação é pessoa correcta e que não usa linguagem desbragada, devia dar uma reprimenda ao sujeito e obrigar o senhor deputado a pedir desculpas públicas aos portugueses pela linguagem que usa. E, se possível, aproveitar para lhe enfiar uma rolha e dar-lhe qualquer coisa para fazer. De preferência uma ocupação que não o obrigue a escrever e a falar em público.

Começar bem


Pedro Correia,

Na sua estreia parlamentar, o deputado socialista Paulo Trigo Pereira – já por várias vezes mencionado neste blogue – protagonizou hoje o melhor momento do debate do programa do XX Governo Constitucional.

Bastou-lhe dizer no início da sua intervenção estas palavras de tão rara ressonância no hemiciclo:

“Cada um de nós tem de dignificar esta casa da democracia e respeitar a opinião – seja ela qual for – dos nossos colegas ou adversários políticos. Temos de requalificar a política e a democracia.”

Começou bem. De tal maneira que me apeteceu de imediato registá-las aqui.

Faltou referir um critério


Sérgio de Almeida Correia,

Eu ouvi Ana Catarina Mendes dizer quais é que eram os critérios. E concordei. E compreendo perfeitamente que haja uma mescla de veterania, experiência e juventude. Mas é evidente que há escolhas que não têm nada a ver com os critérios enunciados, porque os maus resultados políticos, o rasto de desilusão, o serviço às mais diversas “coligações”, a defesa de interesses pessoais e de grupo em prejuízo da comunidade, a falta de visão política e a gestão local não recomendavam assomos à janela. Quanto mais a pretensão de lugares de proa. 

Tenho pena que assim seja, mas reconheço que há um critério que continua a imperar e que foi o mesmo que os levou a apoiar todos os líderes anteriores e o actual sempre com a mesma convicção. E interesse. Falo do amiguismo. E por isso é que, perdoe-se-me a presunção, estou como o Jorge de Sena. Tenho imensas saudades do país, das gentes, dos amigos, da família, de todos vós. Do Portugal que suportam, não. E aqui, neste meu exílio voluntário, “é evidente que não alterei em nada a minha posição, nem a minha firmeza. Apenas cada vez melhor vejo as engrenagens da política, e desespero da incompetência, que vejo mais generalizada e prestigiosa“.

É a vida, eu sei. E com ela não me conformo. Mesmo longe.

Pedro Saraiva


Sérgio de Almeida Correia,

Já se tinha percebido que o trabalho que estava a ser produzido pela Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES não estava a ser igual ao de outras comissões anteriores. Comprova-se finalmente que quem lá esteve não andou a fazer fretes aos respectivos partidos. Estão todos de parabéns e isso deve ser assinalado, mas em especial convém fixar o nome deste senhor deputado. Ele fez aquilo que qualquer português espera dos seus deputados: um trabalho sério. Seja pela sua formação, maneira de ser ou carácter, isso foi também reconhecido pelos seus pares, deputados de outros partidos, incluindo os da oposição. E isto não pode deixar de ser devidamente elogiado, até para servir de exemplo aos portugueses que com razão criticam a sua classe política e o estado de podridão que o regime e o sistema político atingiram. Nos partidos políticos, como por aqui se vê, não há só cábulas, carreiristas e facilitadores de negócios.

Queixas anónimas só se forem contra opositores políticos


Sérgio de Almeida Correia,

Teresa Leal Coelho, aquela senhora deputada que queria punir os juízes do Tribunal Constitucional e inverter o ónus da prova nos casos de “enriquecimento ilícito”, insurgiu-se hoje na TSF contra o facto da denúncia da situação verificada com os pagamentos da AR e da Tecnoforma ao primeiro-ministro ser anónima. E perguntava por que razão a queixa seria anónima.

Eu que sou contra todo e qualquer tipo de anonimato, incluindo em matéria de queixas e denúncias, gostaria apenas de recordar à criatura que são múltiplos os portais em que serviços públicos, com o aval da maioria e do seu governo, disponibilizam formulários para apresentação de queixas anónimas. E registo que na perspectiva da senhora deputada possa haver umas queixas mais anónimas do que outras consoante a qualidade do visado e a natureza das provas. Mas o que me deixou ciente sobre a sua postura ética e moral foi saber que a sua preocupação não era com o esclarecimento da verdade nem com as amnésias do primeiro-ministro sobre os avultados montantes que recebeu, mas sim com o facto da queixa ser anónima e não poder perseguir o malandro que destapou mais um rabo-de-palha do bando. Elucidativo.

Dislate ou diz late?


Pedro Correia,

«Não tenho por hábito fazer sensura mas não tulero insultos, difamações e desrespeito, pelo que apagarei comentários infames e com grande probabilidade bloquiarei no meu Facebook o autor/a.»

A frase é de uma deputada da nação, supostamente licenciada em Antropologia, e está a causar furor (se eu fosse “antropólogo” talvez escrevesse foror) nas redes sociais. Alega a senhora que estava muito cansada à hora a que escreveu aquela frase, digna de antologia, nesse espelho público da ignorância privada que é o Facebook. Diz ainda que se esqueceu (ia eu já a escrever esquesseu…) de aplicar o corrector ortográfico para evitar aquelas gralhas mentais que lhe saíram das pontas dos dedos.

Mesmo assim – cansaço (será cançasso?) a mais e corrector a menos – nada justifica três erros de palmatória numa só frase. O que diz quase tudo sobre a falência do nosso modelo de ensino e sobre a falta de exigência dos estados-maiores partidários na hora (será ora?) de recrutar militantes para a frente parlamentar.

Eu, se pudesse, bloquiava deputados com excesso de tulerância ao dislate. Será dislate ou diz late? Vou ali espreitar o curretor e volto já.

Honestidade intelectual


José Maria Gui Pimentel,

É por esta, e por outras que o Daniel Oliveira é o cronista de esquerda (esquerda mesmo, não me refiro ao centro-esquerda) que mais aprecio. Numa palavra — aliás, em duas — honestidade intelectual, algo tão raro quanto valioso.  

 

“A ver se nos entendemos: um deputado não é um exemplo de tudo o que nós devíamos ser e não somos. É um representante. Se usar o seu cargo para proveito próprio – e tantos usam – deve abandoná-lo. Assim como qualquer trabalhador corrupto ou funcionário desonesto. Se tentar que as leis que aprovou não lhe sejam aplicadas também não pode ser legislador. Falta-lhe autoridade. Não foi o caso. A deputada violou a lei e será julgada como qualquer cidadão. A lei não estipula, nem deve estipular, que ser deputado é uma agravante. Não estipula, nem deve estipular, que conduzir alcoolizado é razão para perda de emprego, de cargo político ou de função da administração pública. A lei estipula que a senhora, que não conheço, deve ser julgada. E caso seja condenada pode ser punida com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias. Por mim, defendo que os deputados, os ministros, os secretários de Estado ou os autarcas não podem estar acima da lei. Mas não defendo que devem estar abaixo da lei.”

Mais esta


enlil,

Parece que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista renovou a frota automóvel adquirindo um Audi 5 e três VW Passat. Tratando-se de meros deputados e não de ministros, teria sido política mais sensata e não ficariam menos bem servidos se optassem por uns Golfs, ou Civic ou qualquer outro digníssimo carro dessa gama. Seriam irrelevantes os patacos que poupariam, mas relevante o sinal que davam à nação. Todavia o caso é de somenos e é mais uma triste marca dos dias que correm que possa provocar algum escândalo, denotando apenas o crescente e punitivo ressentimento social que grassa em Portugal.

Só que o sr. Carlos Zorrinho veio à liça justificar-se na sua página pessoal do Facebook e, como parece ser timbre da sua corporação, teve artes de transformar uma frivolidade numa asneira, escrevendo, ou melhor, alinhavando, esta preciosidade:

“Eu sou democrata e quero que tudo se saiba. Até que deixei de puder usar em serviço um BMW 5 para usar um Audi 5 porque era signitivamenrte [sic] mais barato.”

Descontem-se as gralhas de quem escreveu sem rever (mau sinal!) mas atente-se no português macarrónico, próprio de quem se diploma ao Sábado (a frase é, no mínimo, crítpica) e na miserável mentalidade que denota. Um bocadinho de juízo, não há?

Da representatividade


André Couto,

 

Vamos a factos porque o tema é delicado: “Portugal já tem hoje o menor número de deputados por habitante de todos os países da Europa Ocidental”, como bem analisou o nosso Pedro Correia. O discurso desta redução tem duas fontes: a revolta dos cidadãos com os políticos, sendo os deputados o seu principal rosto, e os movimentos antipartidários e anarcas, que vêem nele uma forma fácil de granjear simpatias. O problema da democracia não está no excesso de deputados, está, quanto muito, no excesso de assessores, motoristas e afins, que ganham o mesmo e, em muitos casos, acrescentam pouco. Um razoável número de deputados garante representatividade às minorias, permitindo um melhor e mais variado debate e expressão de opiniões e sensibilidades não dominantes ou alinhadas. A generalidade dos que defendem a redução do número de deputados ignora que essa seria a melhor forma de perpetuar aquilo que querem combater com essa opinião.

 

O facto de o PS trazer esta questão a debate assusta-me. Uma medida destas não faz parte da sua espinha dorsal ideológica. O PS defende a pluralidade de opinião e o garante das diversas formas de expressão. Limitar o número de deputados é limitar a voz a outras forças políticas e evitar que novas possam surgir. É secar o debate político e a troca de ideias e fazer com que fique insuportavelmente redondo.

Quantas mais análises faço a qual terá sido o motivo desta iniciativa, pior. Se o objectivo foi o perpetuar do centrão no poder, numa fase em que PS e PSD se sentem ameaçados pelas ruas e pelas sondagens, é lamentável que se esteja a tentar contornar a previsível vontade popular desta forma. Se for uma jogada política para criar conflitos entre PSD e CDS, uma vez que é sabida a dissonância entre ambos quanto a esta questão, preocupa-me que a liderança do PS abdique do seu pensamento para gerar um arrufo, por tacticismo puro. Criar este novo sound bite, lançando este debate profundo na semana em que o Governo anunciou o maior assalto fiscal da história da democracia portuguesa, é um valente tiro nos pés. Nem votos renderá porque, nesta altura, as pessoas estão iradas com as medidas que não pensam em mais nada que não seja o combate às mesmas.

 

PS. Faria bem mais sentido que o PS desse cobertura ao sentimento popular abrindo a Assembleia da República à possibilidade de candidaturas de movimentos de cidadãos, algo expressamente vedado pela Constituição. Isso sim seria liderar a reforma da nossa democracia e abraçar a sensibilidade e a descrença das pessoas.

Socorro!


enlil,

 http://www.tvi24.iol.pt/politica/25-de-abril-deputados-ignorancia-tvi24/1343694-4072.html

 

Estas imagens são arrasadoras. O respeito que se deve à função de deputado é curto-circuitada pelo própria ignorância dos eleitos acerca do regime no qual ascenderam à condição de protagonistas. Isto não é uma questão de cultural geral, de conhecimento escolar da história – é uma questão política. Quem é que eles representam além da organização que os escolheu?

Depois é sempre a descer: a língua de pau  do rapazinho engravatado que foge à questão com ridículas generalidades; a total falta de decoro emocional (falta de educação, filha) da menina do PSD; a submissa ortodoxia da jovem do PC a dizer que foi ali parar porque o partido mandou e o relaxamento blasé do moço creio que do Bloco, o partido que tem os quadros políticos há mais tempo em actividade do espectro parlamentar. Para maior desconsolo resta-nos imaginar que a tremenda má fé desta reportagem poderia fazer ricochete se fosse atirada contra as redações que gostam tanto de apontar o dedo – diz o roto ao nu.

A chamada para a linha 112 : mais um caso típico de “sai da frente Guedes”


Rui Rocha,

 

A questão é esta, bom povo eleitor. A deputada do 112, Joana Barata Lopes, tem 26 anos e, antes de ser eleita, frequentava uma licenciatura em direito e exercia como Assistente Notarial. Saber se uma chamada para a linha de emergência médica constitui ou não crime é uma questão que deve ser discutida em Juízo. Se lá chegar. Mas, está ao alcance de qualquer pessoa com um mínimo de juízo concluir que utilizar os dados de um telefonema como argumento numa discussão sobre a qualidade do serviço revela uma certa imbecilidade. Quem o faz desconhece por completo os princípios básicos de auditoria de qualquer sistema, as mais elementares regras estatísticas e, eventualmente, algum artigo do Código Penal. E prescinde, imagino que involuntariamente, do mais elementar bom senso. Confirma-se que colocar uns cartazes em campanha eleitoral, dizer umas palavras de ordem e envergar umas t-shirts aparvalhadas em comícios não é preparação adequada para o cargo de deputado da nação. Embora possa ser suficiente para se chegar a Primeiro-Ministro ou a candidato ao cargo pelo principal partido da oposição. É claro que é igualmente condenável o aproveitamento político por parte de quem tem os gravadores da Sábado na mão. E que o episódio não deve ser utilizado como manobra de diversão face à indispensável auditoria de um serviço de importância crítica. Todavia, o que fica no final disto tudo é,  mais do que uma situação de emergência, um estado de indigência. Que não se resolve  com uma chamada para o 112, mas impõe uma reflexão profunda sobre os métodos de eleição.

A bacoquice parlamentar


jmmcc,

Não é a primeira vez que registo isto, mas o insucesso com que o fiz antes desafia a minha teimosia. A Assembleia da República é um dos infelizes espelhos dos desmandos na utilização da nossa língua e mesmo que quisesse listar aqui os casos mais correntes seria fastidioso. Porém, não resisto a voltar à norma parlamentar sobre os vocativos que devem abrir cada intervenção: «Senhor presidente, senhores deputados».

Bacoca a inventar falsos requintes, talvez inspirada na quota destinada às mulheres, a maioria dos parlamentares (seguida por membros do governo como Jorge Lacão) decidiu estender a coisa e estender-se ao comprido: «Senhor presidente, senhoras e senhores deputados». Um preciosismo saloio, como facilmente se percebe cá fora e não se percebe no interior do Palácio de S. Bento. Preciosismo saloio porquê? Simples: apenas porque o substantivo “deputado” tem a forma feminina de “deputada”.

Portanto, quando os parlamentares ignoram que a forma masculina também aglutina gramaticalmente ambos os géneros e, nessa ignorância, não são capazes de perceber que «senhores deputados» é um vocativo q.b., só têm uma saída: «senhoras deputadas e senhores deputados». Não o fazendo e insistindo em «senhoras e senhores deputados», a asneirada é óbvia e lê-se assim: “senhoras coisa-nenhuma e senhores deputados”.

Que o Fernando Mendes no seu programa interminável na RTP-1 ainda não tenha conseguido aprender, ao fim de tantos anos, que não devia dizer inúmeras vezes por programa «meus senhores e minhas senhoras», mas sim «minhas senhoras e meu senhores», pode dar-se de barato. Que os nossos deputados se reduzam à mesma saloiada bacoca é que me incomoda.

Afronta atrás de afronta


jmmcc,

Jorge Lacão não é um político especialmente simpático no tom das suas habituais intervenções, mas sempre tem a pasta dos Assuntos Parlamentares no actual governo. Era natural, por isso, que a sua proposta para futura redução do número de deputados fizesse parar para pensar os seus pares. Mas não: Francisco Assis recusou que o PS lhe desse atenção e já deu o caso por encerrado. O encontro que Lacão quer ter com o PSD sobre o assunto é, portanto, uma iniciativa sem qualquer significado que não seja afrontar os seus pares. Ele lá saberá porquê. Para os portugueses, fica a dúvida: entre os limites mínimo e máximo possível de deputados, mesmo com o país falido e com o saque institucional ao trabalho dos cidadãos, há algum motivo para o Parlamento continuar a ter o número máximo de deputados que a Constituição permite?

Desastrosa, no mínimo, é a declaração do ministro Silva Pereira para justificar o alheamento perante a proposta: o programa do governo não prevê qualquer alteração à Lei Eleitoral. Mas, com excepção dos homossexuais e transexuais, haverá alguma coisa na acção do governo que coincida com o programa que foi apresentado ao país, ou é outro tipo de afronta de mau gosto aos cidadãos?