Dislate ou diz late?


Pedro Correia,

«Não tenho por hábito fazer sensura mas não tulero insultos, difamações e desrespeito, pelo que apagarei comentários infames e com grande probabilidade bloquiarei no meu Facebook o autor/a.»

A frase é de uma deputada da nação, supostamente licenciada em Antropologia, e está a causar furor (se eu fosse “antropólogo” talvez escrevesse foror) nas redes sociais. Alega a senhora que estava muito cansada à hora a que escreveu aquela frase, digna de antologia, nesse espelho público da ignorância privada que é o Facebook. Diz ainda que se esqueceu (ia eu já a escrever esquesseu…) de aplicar o corrector ortográfico para evitar aquelas gralhas mentais que lhe saíram das pontas dos dedos.

Mesmo assim – cansaço (será cançasso?) a mais e corrector a menos – nada justifica três erros de palmatória numa só frase. O que diz quase tudo sobre a falência do nosso modelo de ensino e sobre a falta de exigência dos estados-maiores partidários na hora (será ora?) de recrutar militantes para a frente parlamentar.

Eu, se pudesse, bloquiava deputados com excesso de tulerância ao dislate. Será dislate ou diz late? Vou ali espreitar o curretor e volto já.

18 comentários em “Dislate ou diz late?”

  1. Tem sido para mim uma luta constante tentar demonstrar que os nossos filhos, mesmo a nível universitário, escrevem com erros. Daqueles de bradar aos céus. Monstruosos assassinos da língua. Alguns, sicários incontestados do AC.
    Não suspiro de alívio por poder provar a minha teoria. Suspiro de tristeza.
    Tanto o FB como o Blogger, o Sapo, a Clix, etc., têm um corrector incorporado. Não é possível esquecermo-nos de “ligar” o corrector, mas é possível desabilitá-lo e isso demonstraria grande confiança na própria escrita. Eu não desabilito o meu corrector. Neste pequeno texto apontou-me três erros ortográficos. Optei por os ignorar, na crença de que estou certa e por saber que o corrector itself têm um problema com plurais.
    Provavelmente a deputada Catarina Marcelino não será a única e escrever mal no hemiciclo. São tantos os licenciados que escrevem com erros medonhos que nas ES e EBs e mesmo nas Universidades, ninguém se dá ao trabalho de corrigir.
    A deputada no FB, em directo, sem rede nem assessoria, espalhou-se ao comprido.

      1. É um estrangeirismo adaptado, por isso tanto pode ser considerado um erro, uma bacorada, uma estupidez, conversa da chacha, como quiserem. ‘Tá-se bem, como já me penitenciei do AC ( cá coisas associadas à minha antiguidade) não faz diferença.

  2. O Partido Sarjeta sempre nos habituou a robustos , e honestos,cultores da língua – mãe, desde o coelho do “há-dem” ( ou será “hádem ?) ao bicharel charlatão, ao vara apedeuta e agora esta profunda catarina , alegada antropóloga, uma entre outras inúmeras, e também alegadas ,prendas que lhe ornarão a vasta fronte.
    A récua súcia ( até em castelhano…) justifica todos os “encómios” que se lhe possam endereçar

  3. faz lembrar aquela do “deus escreve direiro por linhas tortas”, que alguém assegura a pés juntos que está sagradamente escrito em genesis 50-14.

  4. Poder-se-á afirmar, com alguma margem de segurança, que os deputados socialistas precisam tanto de correctores ortográficos como os seus (deles)governantes de máquinas calculadoras, Pedro…?

    ps: a deputada não sofre de dislexia, mas de disritmia.

  5. Pois…

    Quando os antigos diziam “diz lá-te” podia ser para gozar com quem não conjugava “diz-te lá”, no imperativo afirmativo. “Diz lá-te” concatena-se em “dislate”.
    Alternativamente ao “diz lá-te” há o “diz para-te”
    … que é mais subtil, porque o erro é só na acentuação.

    Outras versões etimológicas:
    http://etimologias.dechile.net/?dislate
    têm uma certa “lata”.

    No caso em apreço, a autora pode estar a ironizar “sensura” com “sem surra”, no sentido em que “censura” sem chamar os capangas. Muito bom.

    Quanto a “tulero” pode estar a ironizar com “tu ler o”, e compreende-se a dificuldade, porque “tu lê-lo” não ficaria bem. Menos bom.

    Já “bloquiava” pode ser uma contracção de “bloqueava” com “tosquiava”.
    Ou seja, para além de bloquear, vai tosquiar os toscos. Bom.

    Dificilmente há erros em português, se o autor perceber o que foi levado a escrever, e se houver compreensão alargada. Já me aconteceu dar erros que não corrigi, porque até ficava melhor com o “erro” involuntário.
    Porém, parece que nem a autora sabia o que dizia, nem o caso merece nenhuma compreensão especial.

      1. Sei, man. Acena da Ti Mulagia já num é fish.

        A cena é mesmo parecida é com o 7-1 ao Brasil… pode-se ir passando eliminatórias, mas há um momento em que o “inconseguimento” é inevitável.

        A tolerância excessiva e sucessiva cria catástrofes.

  6. Diz latte macchiato, muito apreciado na Alemanha.
    Mas não só especialidades italianas. O galão (pronunciado “galau”) e as natas (pastéis de Belém) também são muito do agrado dos germânicos.

  7. o espelhos de quarenta anos de melhoria dos resultados da da “politica” de educação a conta de mentira e facilitismo teria que dar frutos bem visiveis.
    Fazer dotores ao ritmo a que certas escolas universitarias os fazem tem que deixar rasto bem visivel. Para que alguns lucrem vamos aumentar a frustação e desestima de milhares – sem que eu estou convencido que um canudo que o proprio percebe que não vale grande coisa não lhe tras uma insegurança visivel neste exemplo ou uma frustação por estar de caixa ou segurança num supermercado com um canudo de dotor.

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