Parece que este negócio vai estacionar na frente do Parlamento. Há-de dar jeito ao deputado Ricardo Gonçalves e a outros esfomeados pelintras.
Olh’á baguette fresquinha!
jmmcc,
Pela enésima vez, o Parlamento voltou a perguntar ao Governo se os impostos irão ou não subir mais. O resultado é sempre o mesmo: ou a resposta é o silêncio, ou a resposta é “não” e a realidade costuma encarregar-se de demonstrar que devia ser “sim”. Por outro lado, não vejo a mesma insistência por parte da oposição no que respeita a estrangular a despesa e menos ainda a perguntar se o Governo não quer saber de mostrar toda a parcimónia possível para dar o exemplo.
Enquanto a situação dramática é ampliada a cada momento que passa, sinto tudo a andar muito devagar e com manifesta pouca vontade por parte de quem decide. Não parece que colocar flores de plástico nos gabinetes e uma ou outra palavra de circunstância a prometer que se vai ver onde poderá cortar-se seja sequer alguma coisa. Ainda por cima, também sinto que os deputados da oposição andam embalados por algo que me escapa.
Nada disto me agrada. O debate parlamentar com o Governo sobre a situação nacional está a cheirar-me mal. E não creio que seja da pizza com extra-queijo.
Era quase inevitável. O Pedro Correia já aqui se referiu a isso e muito bem, mas faltavam os partidos para marcar a agenda política. Nos tempos difíceis que correm, adivinhava-se que não iam demorar a aparecer aqueles que defendem a redução do número de deputados — e apareceram. O tema é velho e cíclico, mas qualquer discussão séria foi sempre sucessivamente adiada. Agora, em período de dramática austeridade, com visível falta de exemplos nas áreas políticas e de cortes decididos nos orçamentos institucionais, perante medidas que começaram hoje a espremer ainda mais uma fatia cada vez maior da população já seriamente afectada por este atoleiro nacional, o tema tinha de regressar. Em vão.
Ainda não é desta que o assunto segue em frente. Logo se levantaram várias opiniões contrárias. Uns, por exemplo, contrapõem que estas coisas não devem ser tratadas a quente, que não devem discutir-se e ser concluídas numa situação específica, mas antes ser abordadas em diferente época que não prejudique o debate e sem que sirvam precipitadamente apenas um dado momento. Acho isto curioso, porque se não se fala quando parece ser preciso falar-se, o certo é que os anos têm rolado sem que se falasse quando não havia urgência próxima. É a pescadinha de rabo na boca: não se discute porque a necessidade é má conselheira, mas também não se discute noutras ocasiões porque não vem a propósito.
O que mais me custa a engolir, contudo, não é bem esse motivo estafado. O que realmente mais me custa é haver quem argumente que reduzir o número de deputados durante uma legislatura tende a amputar a representação parlamentar e a perverter a proporcionalidade pluripartidária. Esta é a posição, por exemplo, dos socialistas, que andam a manifestar-se repentinamente preocupados com aquilo que entendem ser o risco de haver muitos círculos eleitorais que poderiam perder a sua representação na Assembleia da República. E foi isto sem-tirar-nem-pôr que o líder da bancada socialista teve para declarar publicamente sobre o assunto.
Ora, se não se altera a meio das legislaturas e se não se altera com a proximidade de eleições parlamentares, não há dúvida: altera-se é nunca. Mas a coisa acaba até por ser uma triste ironia. Então não se dispensam deputados por haver zonas do país que deixariam de estar representadas? Desde quando é que os deputados, em número escandalosamente significativo, são representantes de zonas que os elegeram e que mal conhecem ou onde nunca puseram os pés?
Se é assim, vou ali e já volto. Aproveitem para meter as mãozinhas nos restos de consciência que possam ter, senhores, e lembrem-se disto: a argumentação deve ser, antes de mais, inteligente. Inteligência devia também ser, por sinal, condição indispensável para se estar no Parlamento.
Os deputados interromperam hoje os trabalhos parlamentares, quando ficaram espantados por causa de um alarme que disparou na Assembleia da República. Se fosse coisa séria, podiam ter ficado espantados e encurralados.
Mas não compreendo o espanto face a um alarme. Não sei se concordam comigo, mas eu olho para o actual funcionamento do regime e também fico alarmado. Às vezes, até me apetece disparar.
A vida pública caiu tão fundo que tudo o que se ponha a circular já ninguém estranha: rapidamente se propaga e logo começa a constar como verdade. Vejam bem que várias pessoas, em poucos dias, me fizeram chegar que há uma deputada pelo PS que, por ter residência em Paris, não só recebe passagens aéreas de ida-e-volta uma vez por semana como ainda anda a receber ajudas de custo diárias da Assembleia da República. Diz-se cada coisa por aí.
A partir desta legislatura, acabaram-se os desdobramentos dos bilhetes de avião e a acumulação de créditos de milhas aéreas para os deputados, por proposta do presidente da Assembleia da República apresentada em conferência de líderes e aprovada por unanimidade. Quer isto dizer que é posto cobro ao hábito de trocar uma passagem aérea em classe executiva por duas em classe turística, para que o beneficiário que se deslocava em serviço pudesse viajar acompanhado, e que o crédito por milhas percorridas deixa de ser uma mordomia para quem não suporta o custo da deslocação.
Com esta louvável iniciativa, Jaime Gama contribuiu para que o comportamento dos parlamentares se torne mais escorreito, em matéria de utilização de dinheiros públicos, e legitimou o apelo que fez de seguida, ao exortar os restantes órgãos de soberania, todos os serviços da administração pública e as empresas públicas a adoptarem o mesmo procedimento.
De repente, com uma medida simples, aqueles casos lamentáveis das "viagens-fantasmas", dos "deputados-batmen" e coisas assim, passados ainda há poucos anos, ficaram a anos-luz desta nova prática. E a ocasião foi de mestre: no início da legislatura e perante os líderes parlamentares, alguém iria opor-se?
Fico pouco espantado que Deus Pinheiro tenha sentido necessidade de vir, tarde e a más horas, dar uma desculpa qualquer sobre a sua inesperada e traiçoeira deserção. Ainda assim, a pressão porventura sentida não resultou em mais do que uma qualquer desculpa esfarrapada e sem nexo. Do que disse hoje publicamente, registo apenas dois pontos.
1. Diz ele que a líder do PSD precisava de um candidato com o perfil dele para cabeça-de-lista em Braga. Fica provado o grande e raro perfil que ele tem.
2. Diz ele que ela insistiu, que ele recusou três vezes e que só à quarta vez aceitou. Fica provado que, para ela, um Alberto João Jardim a mais ou a menos lhe era totalmente indiferente.
O falso candidato ficou muito mal no retrato. Mas Manuela Ferreira Leite também está na mesma fotografia.
(Antes que alguém menos atento venha lembrar que ele hoje manifestou motivos de doença, recordo eu que ontem, a quem lhe perguntou se estava doente, ele respondeu que não e riu-se alarvemente. Vá lá saber-se a graça que achou.)
Seleccionei aqueles que, segundo o meu critério, foram os melhores deputados de cada bancada na sessão legislativa que agora termina.
Estes cinco:
António José Seguro (PS)
Francisco Louçã (BE)
Honório Novo (PCP)
Nuno Melo (CDS)
Paulo Rangel (PSD)
Durante três dias, nesta caixa de comentários, estes nomes ficam à votação dos restantes autores e dos leitores do DELITO DE OPINIÃO – a ver qual deles merece ser eleito deputado do ano. Com a escolha virá uma surpresa que divulgarei na devida altura.
Aguardo então os vossos votos a partir de agora.
Votação também em curso no Corta-Fitas.