A pescadinha de rabo na boca


jmmcc,

Era quase inevitável. O Pedro Correia já aqui se referiu a isso e muito bem, mas faltavam os partidos para marcar a agenda política. Nos tempos difíceis que correm, adivinhava-se que não iam demorar a aparecer aqueles que defendem a redução do número de deputados — e apareceram. O tema é velho e cíclico, mas qualquer discussão séria foi sempre sucessivamente adiada. Agora, em período de dramática austeridade, com visível falta de exemplos nas áreas políticas e de cortes decididos nos orçamentos institucionais, perante medidas que começaram hoje a espremer ainda mais uma fatia cada vez maior da população já seriamente afectada por este atoleiro nacional, o tema tinha de regressar. Em vão.

Ainda não é desta que o assunto segue em frente. Logo se levantaram várias opiniões contrárias. Uns, por exemplo, contrapõem que estas coisas não devem ser tratadas a quente, que não devem discutir-se e ser concluídas numa situação específica, mas antes ser abordadas em diferente época que não prejudique o debate e sem que sirvam precipitadamente apenas um dado momento. Acho isto curioso, porque se não se fala quando parece ser preciso falar-se, o certo é que os anos têm rolado sem que se falasse quando não havia urgência próxima. É a pescadinha de rabo na boca: não se discute porque a necessidade é má conselheira, mas também não se discute noutras ocasiões porque não vem a propósito.

O que mais me custa a engolir, contudo, não é bem esse motivo estafado. O que realmente mais me custa é haver quem argumente que reduzir o número de deputados durante uma legislatura tende a amputar a representação parlamentar e a perverter a proporcionalidade pluripartidária. Esta é a posição, por exemplo, dos socialistas, que andam a manifestar-se repentinamente preocupados com aquilo que entendem ser o risco de haver muitos círculos eleitorais que poderiam perder a sua representação na Assembleia da República. E foi isto sem-tirar-nem-pôr que o líder da bancada socialista teve para declarar publicamente sobre o assunto.

Ora, se não se altera a meio das legislaturas e se não se altera com a proximidade de eleições parlamentares, não há dúvida: altera-se é nunca. Mas a coisa acaba até por ser uma triste ironia. Então não se dispensam deputados por haver zonas do país que deixariam de estar representadas? Desde quando é que os deputados, em número escandalosamente significativo, são representantes de zonas que os elegeram e que mal conhecem ou onde nunca puseram os pés?

Se é assim, vou ali e já volto. Aproveitem para meter as mãozinhas nos restos de consciência que possam ter, senhores, e lembrem-se disto: a argumentação deve ser, antes de mais, inteligente. Inteligência devia também ser, por sinal, condição indispensável para se estar no Parlamento.

10 comentários em “A pescadinha de rabo na boca”

  1. Como já escrevi, defendo a redução do número de deputados – dos actuais 230 para 200 ou 210. Mantendo a actual regra da proporcionalidade, sem prejudicar qualquer partido. Recordo que a Constituição da República contempla uma redução ainda mais drástica, para 180. Não vou tão longe. Entretanto, sinto-me bem acompanhado: o actual presidente da Assembleia da República, o socialista Jaime Gama, defende o mesmo. O seu antecessor, o social-democrata Mota Amaral, idem aspas. O mesmo acontece com Marcelo Rebelo de Sousa.
    Esta ideia, como tantas outras, vingará se resultar de um largo debate de ideias que vai sendo travado, nomeadamente nos blogues. O caminho faz-se caminhando.

    1. Pois. Nunca gostei de posições extremadas. No leque constitucional de 180 a 230 deputados, não vejo que tenham de ser 230, mas também não discuto argumentos baseados nas consequências de serem 180. Acho que o debate pode começar nos 200 a 210. E convém não esquecer que a representação de alguns círculos eventualmente afectados pode ser salvaguardado pela inclusão de métodos próprios (tal como se aplica nas legislativas regionais açorianas, por exemplo).

      Aliás, por falar em representação: entendo que é por aí que deve começar-se, porque haver candidatos totalmente alheios aos círculos pelos quais se apresentam a eleições é coisa nenhuma.

  2. Sem mais… Muito bem explicado. O que falta a estes nossos representantes é serem eleitos por competência e não pelo partidarismo. Se assim fosse, muita da asneria nunca seria transformada em lei… mas, como competência é requisito que não faz parte de uma lista de candidatos a deputados, teremos cada vez mais incompetentes a decidir sobre o futuro dos nossos filhos e do nosso país. um bom exemplo, foi a anterior ministra da Educação. E esta não parece muito diferente! Obteve o lugar como Inês de Medeiros: Não por Competência mas por caciquismo. Não admira que cada vez mais tenhamos mais actores no parlamento. E que esse lugar que deveria ser de seriedade seja mais de circo… Sim. Um circo semelhante ao que se assiste hoje nas nossas escolas onde o chico-esperto, o cortudo, o cacique é que tem lugar… Sim, tal como o que se pode ver aqui: Avaliação de Professores Para Além das Fachadas

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