Eu gostaria de ver a política imitar o melhor do futebol. Afinal por cá vejo o futebol a imitar o pior da política. Não o futebol jogado, note-se. Refiro-me ao futebol falado. Ultimamente o espaço do comentário futebolístico nas televisões tem sido invadido por dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, numa réplica do espaço habitual do comentário político, hoje parasitado por deputados de todos os partidos.
Tanto os comentadores-dirigentes como os comentadores-deputados são parte interessada em tudo quanto comentam. Cada frase que proferem deve ser entendida no contexto das suas ambições pessoais e das suas legítimas expectativas: a meritocracia em Portugal mede-se pelo número de aparições nos ecrãs televisivos, que funcionam como passaporte automático para patamares cada vez mais elevados.
Na política, nada disto é novo. Em 2002, Emídio Rangel convidou Pedro Santana Lopes e José Sócrates para formar um duo de comentadores na RTP: dois anos depois emergiam ambos como líderes dos dois principais partidos, tendo ascendido à chefia do Governo. Em 2007, pela inefável mão de Pacheco Pereira, António Costa iniciou-se como comentador regular da SIC Notícias: estava lançada a sua candidatura à liderança do PS. Em vez de mergulhar no Tejo, como sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa em 1989, mergulhou na telepolítica. Terá engolido alguns sapos, mas pelo menos evitou engolir salmonelas.
De resto, o percurso do actual Presidente da República, construído essencialmente nas últimas duas décadas como comentador alternado de um canal privado e do canal público, confirma esta estreita ligação entre a ascensão política e os holofotes televisivos. Mas Marcelo é Marcelo – um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.
Algo muito diferente é assistir ao penoso desfile de deputados que marcam os serões televisivos nos canais noticiosos. Com raras excepções, nada mais têm a debitar do que umas solenes vacuidades, confrangedoras na forma e despojadas de conteúdo. Tanto lhes faz, desde que consolidem o território na respectiva trincheira. Podem todos proclamar-se fiéis ao lema dos novos tempos: em política, o que aparece é.
Eu já evito escutá-los – desde logo porque sei tudo quanto dirão ainda antes de abrirem a boca. Mas não cesso de me espantar quando vejo que as televisões abdicam cada vez mais dos seus próprios comentadores para cederem tempo de antena à confraria dos deputados.
Agora está a acontecer algo semelhante no reduto do comentário futebolístico, cada vez mais confiado aos representantes das confrarias dos dirigentes e dos treinadores. Também aqui só quem aparece é. Saiba ou não saiba falar, tenha ou não tenha coisas originais para dizer, saiba distanciar-se ou não de rancores e ódios pessoais que lhe contaminem o discurso.

![maxresdefault[1].jpg maxresdefault[1].jpg](http://3.fotos.web.sapo.io/i/B9f086cb5/19785184_q8AH4.jpeg)
“Mas Marcelo é Marcelo – um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.”
Para mim, não. Há muito que o não ouvia na tv.
Não votei nele.
Até agora, considero-o o melhor Presidente que já conheci. E conheci bastantes.
Sobretudo pela dessacralização do Poder que tem levado a cabo.
Sacralização, que constitui ainda uma das tábuas de salvação a que os políticos dos partidos se tentam agarrar na angústia do seu naufrágio.
João de Brito
Toca no ponto exacto: a saudável dessacralização do poder. Estou de acordo consigo.
Quanto ao Marcelo-comentador, gostos à parte, era na verdade uma voz inconfundível. E os telespectadores retribuíam-lhe em fidelidade, domingo após domingo: foi sempre líder de audiência, muito acima de qualquer outro. lhe/marcelo_tira_210_mil_telespectadores _a_tvi.html
De tal maneira que a TVI ressentiu-se desde que ficou sem ele:
http://www.cmjornal.xl.pt/tv_media/deta
Bom dia, sem dúvida concordo totalmente consigo. Também não votei nele. …”Sacralização do poder”…
Estes senhores, usam os cargos políticos para se auto-promoverem e orientarem a sua “vidinha”…Sem dúvida, é mesmo assim…Infelizmente…Não é, pela abnegação dos interesses pessoais. Ninguém, que para lá vá, vai fazer milagres em favor do povo. E no fim disto tudo, julgam-se intocáveis…Sempre a bendita imunidade…
Fiquei sem saber de que comentador está a falar.
Sempre achei os comentários do Professor assertivos e objectivos e gostava das suas propostas de leitura. Raramente me escapou um final de noticiário, mesmo em diferido.
Que é o melhor Presidente da República até agora é para mim indiscutível.
Só vejo o Eixo do Mal. Porque sim. Porque me habituei. Já não posso jurar que gosto muito, mas que venha o Diabo e escolha.
Eu aprecio os comentários do Miguel Sousa Tavares no Jornal da Noite da SIC. E as intervenções do José Gomes Ferreira em questões económicas. Alguns mais. Mas não muito.
Gosto mais de ler Miguel Sousa Tavares do que ouvir a suas opiniões, que de modo algum desconsidero, mas não vou procurar nunca perder.
O Gomes Ferreira é o meu Guru de Economia, porque explica fácil e sucintamente aquilo que para mim é uma geringonça sem trambelhas . Nem ligo aos detractores do costume. As pessoas têm que se entreter a dizer mal de alguma coisa, é idiossincrático.
Também prefiro ler MST – até porque escreve correctamente, ao contrário do que sucede com alguns analfabetos funcionais no mesmo jornal, que fazem gala em mutilar consoantes.
Mas na TV continuo a preferi-lo à quase totalidade dos deputados-comentadores. Qualquer dia publico aqui um texto mais detalhado sobre este assunto.
Também não oiço esses “comentadores”. Que se pode esperar ouvir, que objectividade, de um dirigente benfiquista, ou de um deputado de um partido qualquer? Só não percebo é o porquê desta opção das tvs. Mas isso deve ser falha minha, claro.
A opção é simples, pelo menos na política. É a mais barata. Aos deputados não pagam (julgo). Ocupam interminável tempo de antena a custo zero.
Mas o que é barato muitas vezes sai caro. Também aqui. Gostaria de saber os níveis de audiência destes programas: não custa adivinhar que voam muito baixinho, se é que chegam a descolar.
Tem razão: será o dinheiro, sim! E nós, deste lado, que nos lixemos, mesmo com F maiúsculo.
Ou minúsculo.
isto mesmo