Cada vez mais sozinhos
Patrícia Reis,
Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz – eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.
Nuno Júdice
in MEDITAÇÃO SOBRE RUÍNAS (Quetzal, 1994)
Martha Gellhorn suicidou-se aos 89 anos. Foi a única mulher que pediu o divórcio a Hemingway, a única que fez a vida que quis, deixando cinco anos de casamento para trás (de 1940 a 1945) e fazendo uma vida de correspondente de guerra durante 60 anos. Depois de um diganóstico de cancro e de estar quase cega, suicidou-se em 1998. Dizia ela que nada se comparava ao horror da guerra civil espanhol ou a Dachau, depois disso escreveu sobre muitos outros cenários de guerra. Sobre o amor, disse que o aborrecimento/tédio/rotina é o maior inimigo de todos. Poucos sabem quem ela é. Phillip Kaufmann fez um filme sobre esta mulher, com Nicole Kidman, Clive Owen a fazer do escritor excêntrico que escrevia de pé, bebia rum, achava que um grande escritor é sempre um mentiroso. É um filme que se vê quase como um documentário. Depois do filme, fiquei a pensar que o amor não morreu por monotonia da relação, morreu por causa da competição. Para o Senhor Hemingway era impossível ter uma mulher que fosse melhor que ele. E, tal como ele, muitos homens e mulheres vivem nesta fúria da competição, quando o casamento deveria ser sobre admiração, amor, companhia, compreensão mesmo no pior cenário. Eu nem sempre digo as coisas mais certas, já se sabe, portanto isto pode ser tudo uma grande tanga.
Os miúdos já não são miúdos, são quase-homens, podem fumar e beber mojitos, aprender a guiar e depois ter as dúvidas que os miúdos têm, as mesmas que os homens terão. Uma mãe assiste. A partir de uma certa altura, uma mãe é uma espectadora. Participa se lhe pedem, cala e ouve e aprende. Eu aprendo com os miúdos o que é ser miúdo hoje. O mais novo não está, portanto, parece que é tudo uma coisa de adultos. Não é. Adormecemos a ver o panda Kung Fu II.
A cabeça. Não se pensa na cabeça. Há o cabelo, a cara, os dentes, o sorriso, o pedaço de alface que ficou no dente. A cabeça? Não. Talvez quando se compra um chapéu, para saber que número temos, qual o que nos cai melhor. Seja como for, dou comigo a pensar na minha cabeça pela simples razão de estar há três dias em dor permanente. Sim, uma queixa lamecha, peço desculpa.
Mas isso não é o mais relevante. O que importa é saber a quantidade de coisas que se conseguem fazer, apesar de uma dor de cabeça contínua, sem que seja perceptível se estamos em esforço. Será que as pessoas ainda se olham nos olhos? Ainda reconhecem no outro um possível desconforto? Não faço ideia. O que posso dizer é que falei com muitas pessoas hoje, atendi telefones, andei de carro, entrei numa loja cujo alarme gritava de tal forma que julguei enlouquecer, almocei e jantei, li e revi, fui e expliquei. Não deixei de trabalhar. No fim, uma mulher disse-me
As dores aguentam tudo.
Fiquei a pensar nisso e na minha cabeça. As dores aguentam tudo? Então, vi-me como uma dor ambulante e quase que tive uma noção do que é ser infeliz. Imaginei – fácil, numa pessoa como eu – como seria a minha vida sem dor de cabeça. Acho que tudo se mantinha. Dito isto, não é um drama, são dores que vão e vêm. Para me lembrar, quem sabe?, que a dor aguenta o resto da vida. Mesmo sem cabeça.
O meu filho mais novo saiu da sala de cinema e disse
Passaram-se tantos anos e há tanta coisa que continua na mesma.
Um senhor que descia das escadas em direcção à porta, com um balde de pipocas semi-vazio, comentou
Ainda bem que o Rodrigo Leão conseguiu, por fim, facturar à conta do belo disco que é o “Cinema”.
A senhora loira platinada com a amiga que não largou o telemóvel disse
Gosto muito da Opfra, é assim que se diz?
Eu pensei
O único negro na sala é o meu marido.
A traição começa na cabeça, ele sabe, é um homem do mundo, nada de carências, é rápido e aceita o que há, seja lá isso o que for.
A traição começa no corpo e o corpo deixa-se ir, em movimentos sincopados, sem cadência, mas com um ritmo que ele sabe ser o certeiro, recusa a culpa e diz que o sexo é amor e, por isso, a saudade aumenta. Pode ser. A vida corre na rua, lá fora, pelo mundo sem certezas. As janela não cedem. Os telefones em silêncio. Olha para a mulher que se deixa ir. Não é é ele. É como no Carnaval, um palco que invade o corpo e as palavras e nada é o que parece.
Ou não.
Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
( in “Poesia Reunida”)

Hoje, dia 25 de Agosto de 2013, não é um dia como os outros.
Eduardo Prado Coelho morreu há seis anos.
Há mortos que morrem e outros que não podemos deixar morrer.
O Eduardo faz parte desta última leva de pessoas extraordinárias que mudaram o mundo, o meu mundo, o mundo de outros tantos. Saudade? É pouco. Deixo-vos um poema que ele gostaria.
“You darkness, that I come from,
I love you more than all the fires
that fence in the world,
for the fire makes
a circle of light for everyone,
and then no one outside learns of you.
But the darkness pulls in everything:
shapes and fires, animals and myself,
how easily it gathers them! –
powers and people –
and it is possible a great energy
is moving near me.
I have faith in nights.”
― Rainer Maria Rilke
O mundo. Lá fora. No on-line leio sobre os incêndios, leio sobre dois adolescentes que mataram um atleta, por puro gozo, leio coisas sobre as quais preferia não ler. Manoel de Barros diz que os cavalos são mais perfeitos que o mundo. Os livros são uma cápsula protectora. O mundo? Está lá fora.
You ask me why I spend my life writing?
Do I find entertainment?
Is it worthwhile?
Above all, does it pay?
If not, then, is there a reason?…
I write only because
There is a voice within me
That will not be still.
Sylvia Plath
– Então, mãe, está tudo bem?
– Está muito calor.
– Aqui também, mas a praia é boa.
– Ainda bem. Tu estás bem?
– Sim, sim, estou feliz… Olha, não compres jornais hoje.
– Eu sei.
– Está a morte… está em todo o lado. O Urbano…
– Eu sei.
– Não compres. Nem vás à banca.
– Não vou.
– Gosto muito de ti, mamã.
– E eu de ti, querido.