O meu filho mais novo saiu da sala de cinema e disse
Passaram-se tantos anos e há tanta coisa que continua na mesma.
Um senhor que descia das escadas em direcção à porta, com um balde de pipocas semi-vazio, comentou
Ainda bem que o Rodrigo Leão conseguiu, por fim, facturar à conta do belo disco que é o “Cinema”.
A senhora loira platinada com a amiga que não largou o telemóvel disse
Gosto muito da Opfra, é assim que se diz?
Eu pensei
O único negro na sala é o meu marido.

O filme é fantástico! A parte que retrata a eleição do Obama é deveras emocionante. Li em tempos o livro autobiográfico que ele escreveu – A Minha Herança, o que me fez entender o que ele próprio terá sentido ao ser eleito, mas nunca tinha pensado o que tudo isto significou para os negros que o elegeram. Maravilhoso! Quanto ao resto, sem comentários…
É isso, Joana, sem comentários:)
Patrícia,
se me permite, vou confessar-lhe o pensamento que me assaltou depois que li seu texto: Espero que a Patrícia não se sinta mal por ser branca.
É normal que seu marido fosse o único negro na sala, porque nem todos os negros se importam com este tipo de filmes, tal como muitos brancos. E a raça maioritária neste país ainda é a caucasiana.
O que eu estudei na história, e o que vi e vejo, leva-me a concluir que a escravidão não é um fenómeno de raça, mas condição imposta que está aí para ser quebrada ou vergada, custe o que custar. Em todos os sentidos, e principalmente quando somos autores da nossa própria escravidão.
Muitas vezes a impossibilidade de reagir não faz de nós escravos, mas, isto sim, limita a nossa capacidade de acção.
Meu caro desconhecido, nunca me senti mal por ser branca. Mas isso pouco importa, vivo dentro de uma comunidade africana há muito tempo, tenho uma família tão multicultural, como se diz agora, que chega ao Japão. Dito isto, não me parece que tenha uma ideia do que é viver com a noção real da existência do racismo, mas ambos os lados : negros face a brancos, brancos face a negros. E, quer se queira, quer não, o conceito de raça, para mim, está ultrapassado, explicado e arrumado há muito. Espero que fique bem e que fique seja de que cor a sua pele for. Quando o meu filho mais velho tinha quatro anos chegou perto de mim, a chorar, por ter sido “insultado” pela prima, mestiça. Disse ele: ó mãe, ela diz que sou preto, mas eu sou bege, não sou?
Talvez seja melhor dizer que me sinto bege e muito feliz por ter um marido cor de chocolate:)
Patrícia,
não leve a mal que eu não responda com o meu curriculum vitae, porque se o fizesse eu estaria a entrar por um caminho de “meninos” onde cada um procuraria competir com o outro, e a minha via não é esta. Eu não pretendo demonstrar e competir para revelar quem é mais mais ou menos menos. Por isto mesmo as alusões que faz ao meu comentário, e as justificações que oferece, confirmam o sentido de meu primeiro comentário.
Sabe, Patrícia, a felicidade não tem cor, porque se ela o tiver não é felicidade, mas sim euforia e preconceito.
Mas não me interprete mal, todos temos preconceitos. Eu também sou preconceituoso, tenho preconceito ao preconceito.
caro desconhecido, não tenho por hábito responder a pessoas que não se identificam, porém não vejo que haja no seu comentário nada de ofensivo, nem me parece que estejamos em competição ou até em desacordo, cada um vive como pode, com quem pode e como quer. Eu não me considero uma pessoa com preconceitos, mas quem quer ser juiz em causa própria? Sei o que é a minha vida, as coisas boas e as coisas más, diria que é uma sorte, assim posso valorizar o que tenho. A maioria das pessoas não o sabe fazer, até por ser mais fácil dizer mal, apresentar um rol de queixas. Aos 42, quase 43, lamento, mas recuso-me. Dito isto, mais uma vez, desejo-lhe um resto de boa semana.
Patrícia,
creio que me entende mal. Eu não fiz nenhuma alusão à sua vida e/ou às suas opções, eu fiz simplesmente um comentário ao texto que nos presenteou. Foi a Patrícia que “puxou de galões”, procurando demonstrar que tem mais da vida que o seu interlocutor. E o que eu disse foi simplesmente que não vou por aí. Porque não sei de sua vida para poder dizer que a minha é mais rica ou mais pobre ou vice-versa. Mais ainda, as eventuais diferenças em nossas vidas só enriquecerão a ambos sem deixar aquele sabor vaidoso de que uma é mais rica que a outra. Penso que é este o sabor da partilha
Eu partilhei uma visão, e pouco me importa se as pessoas se queixam ou não queixam. A vida delas não me interessa, isto é, só passo a interessar-me por elas se eu puder corresponder a algum pedido que me dirijam. A vida ensina-nos que se quisermos mudar o mundo devemos mudar-nos a nós, e isto já é uma trabalheira danada. Peço-lhe que me perdoe o facto de não ter citado exemplos terceiros nesta conversa que julgava a dois.
Meu caro desconhecido, tenho todo o gosto em trocar opiniões e debater de forma saudável seja com quem for, mesmo com alguém de quem não sei o nome, como é o seu caso, porém lamento não me parece que tenha puxado os galões e se o entendeu assim, pois apresento já as minhas desculpas. Dei exemplos da minha vida por ser o tipo de pessoa que sou. Obviamente que comentários abertos num blogue nunca são uma conversa a dois e, muitas vezes, é pena. Seja como for, acho que já chegamos a um entendimento. O mundo é complicado, por escrito nem sempre nos fazemos entender, a minha vida é distinta da sua, não querendo dizer melhor ou pior, apenas distinta, e não tenho qualquer problema em aprovar a publicação do seu comentário desconhecido pela simples razão de que me parece que tem razão em coisas que aponta e na forma como vê a vida que, como diz, é danada. Todos tentam fazer mais pelo mundo? Nem todos. Cada um faz o que pode. No nosso caso, agradeço que fiquemos por aqui, pelo menos no que toca a este post. Desejo-lhe, de novo, um resto de boa semana.