Sempre me pareceu forçado o argumento de acordo com o qual o cão é o melhor amigo do Homem. Digo que alguma dúvida sobre o ponto sempre deveria resultar da velha regra prática jornalística que estabelece que só serão notícias situações em que o homem ou a mulher mordem o cão. E isto só pode dever-se à circunstância de mordidelas caninas em humanos serem relativamente frequentes e absolutamente excepcionais aquelas em que um ser humano espeta os caninos nos canídeos. Por outro lado, os que apregoam que os cães são melhores que os humanos esquecem algumas considerações essenciais. Tal proclamação é feita por aqueles que levam o cão a passear. Acompanham o cão ao veterinário. Partilham a casa com o cão e, não poucas vezes, o quarto de cama. Limpam a merda do cão. Catam as pulgas do cão. Compram refeições gourmet para o cão. Preocupam-se com o equilíbrio nutricional da alimentação do cão. Fazem festinhas ao cão porque os afectos, a estabilidade emocional e a auto-confiança do animal também são importantes. Mens sana in corpore sano dizia-se em latim embora talvez não se soubesse então que a máxima teria aplicação aos emissores de latidos. Ora, sejamos razoáveis. Compreende-se bem que, em geral, os cães que são objeto de tal deferência e desvelo correspondam dando a patinha. Pudera! Experimentassem os adoradores de cães dispensar a mesma atenção e cuidado à generalidade dos humanos, proporcionando-lhes casa, alimentação, roupa lavada e carinho e logo veriam que seriam igualmente correspondidos com meia-dúzia de afáveis lambidelas e olhares reconhecidos. Leva-nos isto a outra falácia argumentativa dos adoradores de animais. A que refere que a humanidade de alguém se mede pelo modo como trata a canzoada e demais membros da criação não humana. Isto é, fulano e sicrano podem ser gente da pior espécie (e a pior espécie é, como sabemos, a humana) que ainda assim atingirão o nível avançado de humanismo extremo se proporcionarem três refeições diárias de whiskas premium e corte de unhas semanal ao felino que decidiram ter em cativeiro no apartamento em que partilham duas assoalhadas. Escrevi há dias que o conceito de animal de companhia já conheceu épocas mais gloriosas e que lhe sucederia o do Homem como companhia do animal. Não podia estar mais certo. Basta ler o regulamento da Maratona do Cão promovida pelo Continente para percebermos que já aterrámos nesse admirável mundo novo. De acordo com o ponto 1.2, designar-se-á de participante o elemento canino – cão – e como acompanhante(s) a(s) pessoa(s) designada(s) para participar nas provas de Corrida e na Caminhada Canina. Espero, sinceramente, que no final da prova vão todos dar banho ao cão.
O animal de companhia
Rui Rocha,

«Experimentassem os adoradores de cães dispensar a mesma atenção e cuidado à generalidade dos humanos, proporcionando-lhes casa, alimentação, roupa lavada e carinho e logo veriam que seriam igualmente correspondidos com meia-dúzia de afáveis lambidelas e olhares reconhecidos» – tem a certeza, Rui?
«Quando recolhes um cão faminto e lhe dás de comer, ele não te morde. Esta é a diferença fundamental entre o cão e o humano». – Mark Twain
De qualquer maneira, eu não espero «afáveis lambidelas» nem «olhares reconhecidos» das pessoas que ajudo.
Homessa!
Então quem ganha em Ascot?
É o nosso cavalo ou é a criatura de baixa condição a quem damos uma boa refeição quente em troca do privilégio da montada?
E que diz a esta? Eu não digo nada, não tive pachorra para ver; nem ontem, nem agora.
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?art icle=679053&tm=4&layout=122&visual=61
Abaixo de cão.
És injusto com os canitos. É sabido que até aos donos que os maltratam em regra não são capazes de fazer mal. E nem todos os amantes de animais o são contra os humanos. E já agora os que o são muitas vezes é por ressentimento, porque já se decepcionaram muito.
Mas claro que há corações que só amolecem com os bichinhos e seguem insensíveis ao seu semelhante. Temo que sejam mais que muitos, pela simples razão de que é mais fácil amar um animal do que uma pessoa, porque um animal não cobra, não avalia, não censura. Esses, sim, merecem todo esse teu azedume.