Perdemos Urbano, eis o último texto que escreveu para a Egoísta


Patrícia Reis,

As vozes da Natureza

A transparência do orvalho gemia no meu esquecimento de mim, tornava-me todo eu atenção ao saltitar das rãs amanhecendo na clara alegria do tanque grande.
O meu sangue cantava na ondulação das folhas da figueira.
Agora estou nascendo a toda a volta de mim no riso verde das searas, na brisa que se quebra contra a rude atalaia, sobranceira ao rio com seu açude e seu moinho árabe, e sacode as franjas de silêncio nos altos choupos onde as cegonhas fazem ninho, nos pegos de eu nadar quando a Páscoa aquece as águas.
E ouço os meus segredos mais secretos no gemer das oliveiras e chaparros, meus tão íntimos parentes. E a ternura das sombras estende-se, para lá do rio e das suas narcejas, pelos ermos da Deveza de São Brás até ao Guadiana.
A frescura do silêncio cai um instante sobre as lavradas e as folhas onde o meu ser se recria.
Comecei muito cedo a ouvi-las, as vozes da natureza.
Conheço-as desde que tenho memória de mim. Depois houve a doença, que me impedia de sair do «monte» e, quando melhorei um pouco, conseguiram que eu fizesse a primeira comunhão, mas nunca acreditei naquele inferno que me pintavam e continuei a fugir de casa e embriagar-me de luz, a correr ao lado dos rebanhos de vacas e ovelhas nesse meu regresso à natureza, de que me sentia pertença.
Foram o azul profundo das noites estreladas e o que o vento e as nuvens diziam aos meus ouvidos que fizeram nascer em mim palavras que depois naturalmente começaram a escrever-se.
Da pobreza e do sofrimento dos trabalhadores que me rodeavam só mais tarde me apercebi e senti a necessidade de lhes dar voz por entre as vozes da natureza e pela estrada da vida fui andando com eles no pensamento e nos actos.
Nas ruas de Lisboa e de outras cidades onde não entra o sol de Inverno, tapado por altos edifícios, experimentei a saudade profunda dos descampados alentejanos, das vozes do rio e da tristeza dos homens, dos seus cantares. Levei-os comigo para França e para o mundo, para as aulas que dei e até para as prisões onde os meus ossos enregelaram.
O livro é palavra de combate, mesmo quando não parece sê-lo, se apenas nos mostra os homens nas suas fainas e penas.
Assim continuarei sempre a escutar as vozes da natureza e a dar delas notícia.

O mar é longe,mas somos nós o vento;


Patrícia Reis,

O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

 

Pedro Tamen

UM POEMA DE MANOEL DE BARROS


Patrícia Reis,


Via Poetas Poemas Poesias

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

O que estou a ler (10)


Patrícia Reis,

“Na minha casa não havia livros. Vi um livro pela primeira vez naquele dia em que parti o vidro da escola com uma fisga, feita com um ramo em forma de Y, duas tiras de pneu e um bocado de couro.”

 

É assim que começa o livro “Antiquários” do escritor argentino Pablo De Santis (Prémio Planeta – Casa de América 2007, Prémio da Academia Argentina de Letras 2008 com o livro anterior, “O Enigma de Paris”, já editado em Portugal pela mesma editora, Dom Quixote).

Eu gosto de misturar leituras – acho que tenho esse defeito ou qualidade, partilho com o Pedro Correia:) – e não consigo ler apenas um livro, mas escolhi este por ter um começo que me agarrou de imediato e por estar relacionado com máquinas de escrever (uma pancada minha), jornalismo, misticismo, livros antigos e antiquários.

É fantástico? Sim, é uma fantasia, com várias voltas e revoltas, com surpresas e momentos que nos transportam para Buenos Aires na década de cinquenta do século passado. Ao mesmo tempo, vou relendo coisas, mas “Os Antiquários”, li em dois dias. Não é um livro grande, tem 231 páginas, a tradução é de Helena Pitta. A escrita é apelativa, a história transporta-nos com facilidade. Como gosto de literatura latino americana e gostei muito do livro anterior, lá fui por arrasto para esta fantasia. Nos tempos que correm, onde todos precisamos de um pouco mais de imaginação para viver, diria que é um livro aconselhável. Se pelo meio estiver a “Rua de Nenhures” de Pedro Tamen (poesia), pois melhor.

E agora a bola fica do lado do Pedro Correia.

Boas leituras 

Respect


Patrícia Reis,

 

O senhor doutor entende-me, não é verdade?

Ah, eu espero que sim.

Olhe que nunca pensei em ter de recorrer a estas coisas da psicanálise e da terapia, mas uma colega convenceu-me e a minha angústia é tão grande que achei melhor marcar uma consulta com urgência. A sua assistente foi de uma delicadeza sem fim, percebeu logo o desespero na minha voz, até me disse de que nada valia estar assim, que vou morrer e que preciso de canalizar as minhas energias para coisas positivas. Mal sabe ela, a sua assistente, o que eu faço para pagar as contas.

Há mais de vinte anos que escrevo sobre mortos. Não fique tão admirado. É um trabalho honesto. É, para ser sincero, a minha especialidade. Nos dias que correm já não escrevo sobre nada a não ser sobre os mortos.

Se o senhor doutor me disser um nome de um morto, pois decerto que escrevi o obituário e, posso dizer com certo orgulho, tenho livros publicados, sempre correctos, sem margens de risco para a difamação ou eventuais processos judiciais. Escrevi sobre quase todas as personagens importantes da nossa História.

As pessoas confiam em mim, sabe? As famílias. E contam tudo o que podem. Mostram os objectos, as cartas, os guarda roupas, as coisas mais íntimas. Muitas vezes, sou eu que faço censura. Claro que o editor não sonha que tenho informações sobre as quais não escrevo uma linha, mas que sabe um editor? Actualmente? Sabe pouco.

O que me custa mais, senhor doutor, é o arrivismo extremo da juventude que ainda não percebeu que a morte é algo respeitável e que lhes irá acontecer, mesmo que tenham um automóvel de marca ou uma namorada nova a cada quinze dias. Nada disso tem importância.

O que acontece, senhor doutor, é que é muito diferente escrever sobre os mortos, muitas vezes no próprio dia da morte, sob pressão, com os olhos de todos em cima de mim, todos à espera do meu texto. Muito mais fácil do que escrever sobre os vivos. Aqueles que irão morrer.

Pois, a minha ansiedade deriva desta lista que aqui tenho. Veja só o senhor o que me incumbiram de fazer até finais do mês de Junho. Estiveram fechados numa sala a ver quem tem mais probabilidades de morrer e depois, com um enorme desplante, entregaram-me a lista dizendo que deveria ser um alívio ter tempo para escrever sobre um putativo morto.

Não, não estou a brincar, o editor disse “putativo”. Não é uma palavra da minha eleição, mas… enfim, nem todos somos versados no melhor português e morte com palavras destas não andam bem de mão dada.  Mesmo que isto pareça um cliché, terá de me perdoar, mas estou deveras perturbado. À cabeça da lista, como pode ler, está o nome dela.

Ora, foi ao ler o nome dela que eu entrei neste frenesim. Eu posso fazer os obituários que quiserem, de políticos a estrelas de cinema, mas da Aretha Franklin? Sabe quantas vezes eu canto “the moment I wake up…”… Todos os dias, senhor doutor, todos os dias.

Só seria mais dramático se o nome fosse o da Barbra Streisand, confesso.  Sim, sim, todos temos os nossos fétiches, os nossos sonhos e momentos de euforia pessoal. Comigo são estas duas e, senhor doutor, não consigo. Simplesmente não consigo escrever a história de Aretha.

Não sei se está a par. Não tem tido uma vida fácil, agora está semi-retirada. Há três anos ainda a vi em Nova Orleães, comprei o bilhete on-line, estava cheio de medo que as coisas não corressem de feição, no entanto na hora lá estava eu e ela a cantar como mais ninguém. Trazia um vestido com as mangas rendadas. Eu sei que há homens que preferem as mulheres esqueléticas, cadavéricas. Aretha, para cantar como canta, preciso de ter peso, de ter caixa. Como as cantoras de ópera, de certa forma.

A revista Rolling Stone escreveu, há uns anos, que é a melhor cantora de todos os tempos. Eu subscrevo. Gosto especialmente de a ouvir cantar o que começou por ser o seu chão, o gospel. É uma forma de conversar com Deus e, quando a ouvimos, Ele fica mais próximo e acreditamos, mesmo quando não somos crentes.

Em Memphis, onde ela nasceu, pois o gospel era obrigatório e Aretha não tardou a ser solista. Daqui até à fama foi um salto. O Estado de Michigan declarou a voz desta deusa como uma das maravilhas naturais. É a rainha da soul, a rainha do gospel, a rainha. Olhe, é tão importante, que é a primeira mulher a ter conseguido chegar ao Rock & Roll Hall of Fame. Tem dezoito grammies. E mais uma série de prémios que não vale a pena enumerar. Está a olhar para mim um pouco alarmado? Cristo! Não sabe quem é Aretha?

Espere lá… Gosta de George Michael, aquele rapaz que é constantemente apanhado em casas de banho a assediar outros rapazes? Pronto. Aí tem: Aretha gravou com ele o “I knew you were waiting for me”. Não está a ver? Certo. Deixe ver se eu consigo cantar um bocadinho…

 

Like a warrior that fights
And wins the battle
I know the taste of victory
Though i went through some nights
Consumed by the shadows
I was crippled emotionally
Somehow i made it through the heartache
Yes i did. I escaped.
I found my way out of the darkness
I kept my faith (i know you did), kept my faith

When the river was deep i didn’t falter
When the mountain was high i still believed
When the valley was !ow it didn’t stop me, no no
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

With an endless desire i kept on searching
Sure in time our eyes would meet
Like the bridge is on fire
The hurt is over, one touch and you set me free
I don’t regret a single moment, no i don’t looking hack
When i think of all those disappointments
I just laugh (i know you do), i just laugh

When the river was deep i didn’t fairer
When the mountain was high i still believed
When the valley was low it didn’t stop me
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

So we were drawn together through destiny
I know this love we snared was meant to be
I knew you were waiting, knew you were waiting
I knew you were waiting , knew you were waiting for me

 

Acha mesmo que tenho boa voz? Já a minha mãe, Deus a guarde, dizia o mesmo. Eu dediquei-me a esta coisa da escrita e fiquei por aqui. Não é uma escrita qualquer, está a ver? Escrever sobre os mortos é importante e a fronteira entre a elegância e o macabro pode ser ténue. Não imagina o que eu passei para escrever o obituário da Withney Houston. Coitadinha. Estava disposta a recompor a sua vida… Era sobrinha da Dionne Warwick.

Outra que está aí na lista e eu não consigo, não consigo, garanto, escrever uma linha sobre as pessoas como se elas já tivessem ido. É de mau gosto.

Se me pedirem para escrever sobre a Maryln Monroe? Faço as páginas que me pedirem, acho que sei mais da loira burra, que não tinha nada de burra, que muita gente. Há uma série de televisão muito interessante, está a passar agora. Já viu? Chama-se Smash. A ideia é fazerem um musical com base na vida de Maryln. Estou ali a ver, na sala com a Mimi, a minha gata, e fico com os nervos em franja só com os disparates que dizem sobre a senhora.

Com Aretha, tenho de ser honesto, nem sei por onde começar e, depois de a ter visto cantar, acho que preferia que outro colega lhe escrevesse o obituário. Sim, não fique aí a pensar que sou só eu a escrever sobre os mortos. São sete cães a um osso. E nos dias de hoje, a competição é ainda mais estranha. Eu tenho um certo estatuto e tal, talvez por isso me tenham dado a lista. Como é que lhes vou dizer que posso escrever sobre todos menos sobre a Aretha?

O senhor doutor, diga-me, que comprimido é que devo tomar?

 

 

 (este texto faz parte da colecção Divas, colecção que tem saído às sexta-feiras com o DN e JN, sempre com CD e um texto de Ruy Vieira Nery a acompanhar)

por aí


Patrícia Reis,

Leio que há trinta anos que não se consumia tão pouco.

Leio que a crise política não terminou e que a ministra das Finanças não devia aquecer o lugar.

Leio as regras da universidade para onde vai o meu filho mais velho, mil euros mais tarde.

Leio Amos Oz, por ter a graça de ter uma editora generosa.

Leio o livro de Vanda Anástacio, Antologia improvável, sobre a escrita das mulheres desde o século XVI até ao XVIII (edições Relógio de Água). Não mudou nada. Por muito que façamos um esforço, as mudanças são poucas e tudo é risco enorme.

Eu continuo a tentar. Seja lá isso o que for. Acho que aprendo às vezes. Outras tenho vontade de berrar com tanta estupidez junta.

Ao jantar, o meu filho mais novo não abre a boca, o mais velho age como os crescidos e eu tenho uma coisa no cabelo que não condiz com a minha idade, mas who cares?

Podia estar a escrever, a escrever um livro, a fazer tournees e a dizer coisas inteligentes, mas estou aqui por opção, por saber que sou um bicho do mato. Um bicho é uma criatura com algumas fragilidades e ataca antes de ser atacado.

Acho que é muito simples de entender. Para alguns, é impossível.

Eu sou impossível. E pior ainda por dizer que, tal como o Lobo Antunes, pois não escrevo como ninguém. Ninguém escreve ou se escreve é um copista, prefiro o original.

A falta de frontalidade e verdade perturbam-me.

A minha cabeça já só aguenta algumas coisas e ainda bem. Não tenho a menor paciência para a minha imagem no espelho e tão-pouco para os ditos amigos que me cobram as horas – sim, as horas – que não lhes posso dar.

O meu marido, muito calmo, sabendo que vive com alguém que é perigoso, que é desbocado, que precisa de dizer palavrões, não se incomoda. Creio que nada o incomoda. A morte, talvez. Temos tido muitas mortes. E muitas traições. Tentamos todos os dias falhar melhor, como escreveu o poeta, e até esta ideia está gasta.

O mundo é muito maior do que qualquer coisa que se possa deixar no rasto das redes sociais.

Nada disto tem qualquer importância. Está na minha cabeça e é para mim, nem sequer é para vocês. É um exercício de egoísmo. A escrita.

Como aquelas pessoas que abrem as janelas dos automóveis e colocam a mão para sentir o vento. O ritmo muda, a vida muda, o vento muda, o automóvel até pode parar. O pior é o pensamento.

nuno júdice


Patrícia Reis,
Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

da imensa estupidez da morte


Patrícia Reis,

A morte chegou com anúncio e pompa, assim como o filho de Kate e William. Acho que é simpático chamar-lhes assim, não é? Não tem qualquer interesse o número de nomes que a criança terá, nasceu no dia em que morreu uma mulher, uma mãe, uma avó, uma irmã, uma cunhada.

Uma pessoa é muita coisa ao mesmo tempo.

A família reune-se para as coisas da morte, para as outras nem por isso, mas na morte lá estamos. E, se o caixão calha a estar aberto, alguém grita a dor e um adolescente ampara, a comoção é a de ver o gesto, ver tudo como alguém que paira, que observa.

A morte faz de mim cigana. Ando aqui. Dou de comer ali. Abraço aquele e o outro. Ligo telefones, desligo telefones, marco coisas, desmarco coisas, levanto o corpo para se colocar um último adorno. Brinco e faço um esforço a ver o esforço de todos. As lágrimas não me existem, não estão em mim. Há o momento e, como deduzo que exista num palácio, qual upstairs, downstairs, faço de Hudson, sou um mordomo que assiste às coisas da morte.

Depois, mais tarde, já sem o barulho das coisas estranhas de uma casa mortuária que adormeceu num céu cor de rosa e laranja, escrevo para me resolver e não tenho a mais pequena paciência para as merdas que me aparecem à frente: não há papel higiénico suficiente, há um amigo que decide pontificar num mural do facebook à conta de uma coisa qualquer que, em teoria, eu escrevi e ele achou que merecia resposta, esqueci-me de levantar dinheiro para as senhoras da limpeza, a comida do cão está com um cheiro esquisito, o mais novo odeia desenhar, o mais velho nem quer saber, entrou hoje na faculdade, já tem número de acesso e eu paguei 800 e tal euros. Não tenho paciência para o barulho das gavetas do quarto do meu filho. Para o novo disco da Eliane Elias, dedicado a Chet Baker, belíssimo, mas que só me lembra coisas que não tenho, já não tenho, nunca terei. A seguir volto àquele corpo na caixa, como numa caixa de chocolates, com todos a dizerem que parece que está a sorrir e eu cansada de saber que é uma toalha que se enfia na boca, ainda há pouco tempo o fiz para o meu avô. Mas não, que estupidez.

A mulher que é filha, mãe, avó, irmã e cunhada, sentada na nuvem, já tem o seu cabelo de volta e um sorriso para quem deixou cá em baixo. Eu é que não vejo. São as lágrimas.

tragic


Patrícia Reis,

 

Old enough to be her dad
But the young men were just mad they nursed their grievances
And she was flattered by his charm
It wouldn’t do her any harm they all had their chances

He sent her flowers and limousines
She was treated like a queen
Anything she ever wanted
It was no problem for a man like him
And everyone expected soon
That she could ask him for the moon
If she would wear his ring

Knowing glances from his friends
In the homes at the weekends of high society
But he didn’t give a damn
He never felt more like a man

And all the time the clock was ticking
And all would envy the older man and his beautiful young wife
Yes, all would envy

In a house upon a hill
She was there with time to kill
She lived a life she’d only dreamed
The life was never what it seemed
To all her friends that she’d ignored
She denied she was bored
She had no time for dancing, no time for dancing

But the clock upon the wall
That was ticking in the hall
Always reminded her
That life was going on as well
But she was happy and she would swear she wouldn’t change a thing

And all would envy the older man and his beautiful young wife
Yes, all would envy

Now it’s 5 o’clock am
She must have spent the night again with that old friend of hers
She loves to dance
She’s missing more and more these days
But he’s still stuck in his old ways
Perhaps she needs a little more romance
But the clock upon the wall is still ticking in the hall
She must be home soon, soon
Where a younger man would weep
He takes a pill and goes to sleep

Now who would envy the older man and his beautiful young wife
Who would envy?
Who would envy?

ai


Patrícia Reis,

Não era um suspiro, era uma dor nas costas. Não era um lamento, era uma inevitabilidade biológica. Tomou mais um comprimido e fez contas. Mais dois dias e teria de remar até à farmácia. Se o calor não trouxer a morte.

o livro de Ella


Patrícia Reis,

 

O jovem olhou o outro com desconfiança.

Não podia dizer que fosse grande adepto dos mais velhos. Sentia-se intimidado. Jornalistas que se arrastam nas redacções, bradando aos céus, evidenciando a má escrita, os artigos que são feitos por favor ou conveniência política? A evitar. Tinha sido alertado por todos os colegas. Os mais novos.

Mas aquele era um outro tipo de jornalista. Teria mais de sessenta anos e funcionava no jornal como uma espécie de memória externa. Quando era preciso saber alguma coisa que não aparecia na internet, ele tinha a resposta e não falhava. Nunca. A sua capacidade de assimilar informação era infinita e, de certa forma, revelava a enorme curiosidade face a tudo o que o rodeava. Estava na vida para a compreender, dizia. Por isso, o jovem encarava-o com alguma veneração e, em simultâneo, com um receio estranho, nervoso, receio de falhar, de fazer figura de parvo. É fácil fazer figura de parvo numa redacção de jornal.

O velho parecia não notar. Não perguntou que idade é que o jovem tinha e calculou, assim que lhe viu as camisas às riscas, que teria feito gestão ou algo assim. Cursos, murmurava. Com uma destreza extraordinária, atacava o teclado e escrevia, todas as semanas, uma coluna que era já uma espécie de lenda: as músicas da gaveta do meu pai. Esta rubrica existia há uns anos e o jovem tinha lido algumas crónicas do agora colega. Naquele dia, o velho levantou os olhos e, por cima dos óculos de meia-lua, perguntou:

 

– Imagina lá sobre quem vou eu escrever esta semana.

 

O jovem pensou de imediato que lhe seria impossível adivinhar. Do jazz só lhe ocorriam os nomes óbvios e, por isso, e para não dar parte fraca, encolheu os ombros, num gesto que esperou ser entendido como dúbio.

 

– Ah, não te atreves ao jogo da adivinha? Pois seja. Vou escrever sobre a mulher que inventou os songbooks para o mundo do jazz: Ella Fitzgerald. Mas não vou contar a história do costume. Tu sabes a história?

 

O jovem jornalista, ainda estagiário se as coisas fossem como eram há vinte anos, encolheu os ombros de novo.

 

– A história é conhecida. Nasceu pobre, teve problemas desde sempre, como a Billie Holiday, chegou a trabalhar num bordel e até em casas de jogo clandestinas. A mãe morreu cedo, o pai desapareceu. Ella Fitzgerald foi metida num reformatório. Fugiu. Como acontecia muito à época. Viveu nas ruas e acabou no Asilo de órfãos de cor da Riverdale. Sabes onde é Riverdale?

 

– É no Bronx… acho. Nova Iorque.

 

– Isso, isso. Bom, mas não é sobre isto que eu vou escrever ou sobre a primeira vez que cantou e o concurso que ganhou. Olha, nem vou escrever sobre o facto de a senhora ter ajudado a compor o seu grande sucesso a A Tisket-A-Tasket. E também me recuso a falar da doença. Ela sofria de diabetes, sabias? No fim da vida tiveram de lhe cortar as pernas. É uma ideia horrível. E sabes que chegou a fazer publicidade para Kentucky Fried Chicken? Pois não sabes. Mas isso também não interessa nada. O que importa mesmo, rapaz, é o que vou escrever sobre a Ella, uma mulher que conseguia brincar com a voz em três oitavas distintas, e a sua amiga Marilyn.

 

– Marilyn Monroe? Está a gozar? Nem se devem ter cruzado.

 

O velho sorriu e acendeu um cigarro. O jovem olhou à volta. Estavam, como todos os outros jornais, num prédio com restrições a fumo, portanto os cigarros eram levados até à porta do edifício onde um conjunto infeliz de adictos à nicotina se encontrava de meia em meia hora. O jovem sempre considerara a medida contra-producente, os jornalistas perdiam mais tempo a fumar na rua do que a trabalhar, mas talvez fosse uma ideia errada. Não queria ser categórico em relação a nada, estava ali há uma semana e meia. O velho chupou o cigarro com um prazer visível e riu-se:

 

– Não te preocupes, não me dizem nada. Têm medo de mim. Sou mais velho que o director. Sou mais velho que o prédio, portanto estás a ver? Faço o que quero. E tu, meu menino, estás enganado.

 

-Enganado?

 

– Sim. Ella e Marilyn eram amigas. Muito amigas. E têm algumas semelhanças interessantes. É uma boa história e é sobre a amizade das duas que vou escrever. Quero lá saber que a maioria esteja mais interessado em ouvir as vozes mais novas. Se lhes falo da Lee Wiley, da Maxine Sullivan ou do Mel Tormé ficam de cara à banda. Há muita ignorância…

 

– Aqui no jornal?

 

– Sim, aqui e no mundo. Nós escrevemos para o abominável homem das neves e eu tenho esperança de que alguém ainda me leia.

 

– Eu lia as suas crónicas antes de vir para aqui. – O jovem reconheceu a admiração de uma forma quase banal, porém o velho percebeu que era um elogio.

 

– Obrigado. Só por isso, conto-te a história das duas moças, queres?

 

Apagou o cigarro num cinzeiro que tirou de uma gaveta. Da cara retirou os óculos tão velhos como as rugas que exibia. Tinha um sorriso algo infantil, pensou o jovem. Não disse nada. Pressentiu que, a qualquer momento, seria testemunha de uma história que guardaria para sempre.

 

– A história de Ella e Marilyn reza assim…

 

A imagem que temos de Ella Fitzgerald é de uma negra grande com uma voz extraordinária e uma apetência para o scat, certo? Pensamos nela como uma mulher grande. Queria ser bailarina, como a Billie. Era uma forma, à época, de entrar nos bares e clubes. O racismo não era uma realidade que se conferia nas estatísticas. Era palpável. Real. E os músicos negros sofriam as consequências. A Ella chegou a ser presa, já não me lembro onde, num estado do sul dos Estados Unidos, e depois na prisão pediram-lhe um autógrafo. Foi presa com o Dizzie Gillespie… Enfim… A vida dá as suas voltas. Ella tinha, como agente, um homem que dava pelo nome de Norman Granz, um verdadeiro apologista dos direitos humanos e da igualdade  entre raças. Acontece que a nossa miúda loira, a tal que cantava os parabéns num sussurro para o amante que também fazia as vezes de presidente, não era propriamente burra. E também não era uma loira verdadeira, no entanto também isso não importa agora. Era uma adepta feroz dos direitos dos negros e da paridade entre homens e mulheres. Além disso, Marilyn tinha um fraco pela voz de Ella Fitzgerald. E sabia que tinha poder. Poder verdadeiro. No sentido em que o seu nome abria portas. Então? Calma, já lá chego. Onde é que Sinatra e Dean Martin cantavam muitas vezes? Qual era o clube mais famoso de Los Angeles? Mocambo. Um local mítico para quem gosta das coisas da história do jazz. Mocambo ficava no seio mais apetecível de Hollywood e, por isso, era frequentado por actores. Chaplin, Clark Gable, até Lauren Bacall já com Bogie, imagina tu. Portanto, era um sítio da moda.

Ella Fitzgerald não podia cantar no Mocambo. A razão? Simples: a cor da pele. Tão estúpido quanto isto. Marilyn, assim que soube, não achou graça e decidiu telefonar ao proprietário do clube, um tipo chamado Charlie Morrison.

 

– Mas, diga lá, como é que sabe essas coisas todas?

 

– Não tenho telemóvel, rapaz. Leio e retenho informação sobre as coisas de que gosto. Não é muito complicado. Queres saber o resto da história?

 

– Sim, sim, desculpe ter interrompido. – O jovem corou. – Desculpe…

 

– Não faz mal, já estou habituado a ser interrompido. São poucos os que me ouvem. Quem é que quer saber destas histórias? Adiante. Maryln pegou no telefone e pediu para falar com Charlie Morrison. Não era, como facilmente calculas, possível não atender a grande vedeta que era Maryln. Era até uma honra. A questão era saber o que ela queria. Imagina tu… não, esquece, nunca vais conseguir imaginar. Marilyn exigiu a presença de Ella Fitzgerald no Mocambo dizendo que se sentaria numa das mesas mesmo em frente ao palco todas as noites que a cantora estivesse. Maryln no Mocambo significava o quê? Um bando de jornalistas e de fotógrafos. Jornalistas que eram, claro, diferentes desta cambada que temos aqui. Outros tempos. Era publicidade ao clube, gratuita, sendo certo que Charlie Morrison já sabia quem era a cantora. Ultrapassar a questão racial por Maryln Monroe? Com certeza. E, assim, quando perguntavam à grande cantora negra quem fora decisivo na carreira dela, não se fazia rogada. Espera um pouco… tenho aqui escrito. Ella Fitzgerald disse exactamente isto:  “I owe Marilyn Monroe a real debt … she personally called the owner of the Mocambo, and told him she wanted me booked immediately, and if he would do it, she would take a front table every night. She told him – and it was true, due to Marilyn’s superstar status – that the press would go wild. The owner said yes, and Marilyn was there, front table, every night. The press went overboard. After that, I never had to play a small jazz club again. She was an unusual woman – a little ahead of her times. And she didn’t know it.” Queres que te traduza?

 

O jovem abanou a cabeça. Não era preciso. Estava impressionado. Para ele, Ella Fitzgerald era uma parceria com Louis Armstrong ou então todos os standards da música americana, incluindo aqueles que foram escritos para os filmes com Fred Astaire. Não sabia se deveria acreditar na história do velho e, ao mesmo tempo, tudo parecia tão verdadeiro. Arriscou:

 

– E ficaram amigas?

 

– Claro. Chega aqui. Tenho um livro com fotografias delas. Não é nenhuma montagem. Eram mesmo amigas. E tinham muitas coisas em comum: ambas sofreram muito na infância e adolescência. Nenhuma delas teve filhos. Ambas sofriam de uma insatisfação que talvez a Ella tenha conseguido dominar através da música. O que aconteceu a Marilyn, todos sabemos.

 

– E se tivesse de adivinhar, qual seria a canção que Ella gostaria de cantar para Marilyn?

 

– É uma pergunta interessante.

 

O velho acendeu outro cigarro. O jovem sentiu, no bolso das calças, o telemóvel a vibrar. Felizmente estava no silêncio. Não queria perder o resto da história. O outro levantou-se, ficou a olhar pela janela, uma paisagem sem graça, num dia sem sol. E, depois, devagar, com uma rouquidão quase comovente cantou:

 

Misty

Look at me, I’m as helpless as a kitten up a tree

And I feel like I’m clingin’ to a cloud,

I can’t understand

I get misty, just holding your hand.

 

Walk my way,

And a thousand violins begin to play,

Or it might be the sound of your hello,

That music I hear,

I get misty, the moment you’re near.

 

Can’t you see that you’re leading me on?

And it’s just what I want you to do,

Don’t you notice how hopelessly I’m lost

That’s why I’m following you.

 

On my own,

When I wander through this wonderland alone,

Never knowing my right foot from my left

My hat from my glove

I’m too misty, and too much in love.

 

Too misty,

And too much

In love

 

 (este conto faz parte da colecção Divas que sai, todas as sextas-feiras, com o Diário de Notícias e com o Jornal de Notícias. Além do conto, o leitor ganha um CD e um texto de Rui Vieira Nery sobre a cantora em questão)

seis linhas de ficção


Patrícia Reis,
ele tinha uns ténis que, no interior, diziam: I’m what I am. Vermelhos, verdes, azuis, um arco-íris nos pés, de marca, como convém. Ela tinha uns sapatos horríveis, daqueles que fazem de uma mulher, qualquer mulher, uma deficiente. Não que isto fosse relevante. Mas estavam ali, os dois, podiam dar descanso aos pés – no caso dela -, e conversar, a conversa do costume que, entre eles, já nem faz sentido por não ter princípio ou fim, ser apenas uma tentativa de explicar qualquer coisa. Ele podia dizer: sabes uma coisa? Não tenho paciência para tanta pergunta, para tanta carência, para fragilidades repetidas. Ela podia ripostar, encolhida, que o que sente é que se abandonaram. Mas não. Aliviou os pés, bebeu mais um pouco, tentou comer com o estômago às voltas, depois foi à casa de banho e, quando regressou, ele já lá não estava. Leu, no bilhete abandonado: não precisas de te preocupar, já paguei a conta.

Oscar Wilde – De Profundis


Patrícia Reis,
Ao serem libertados, muitos homens levam consigo a prisão, escondem-ma no coração como uma desgraça secreta, e por fim, como pobres coisas envenenadas, deixam-se cair num buraco e morrem. É uma pena que tenham que fazê-lo e é errado, terrivelmente errado, da parte da Sociedade, forçá-los a isso. A Sociedade apropria-se do direito de inflingir castigos espantosos aos indivíduos, mas também tem o supremo vício da vulgaridade, e não compreende o que fez.

biografias


Patrícia Reis,

Dizem – aqueles que acham que o mercado guarda segredos para uns eleitos – que as biografias não vendem.

O mercado português – seja isso o que for – não gosta (para quem estiver interessado, O Inferno de Dan Brown sai dia 10 de Julho).

Pois, eu sempre gostei e há uma em especial que acarinho. Minto. Duas. Não, há mais, pronto, não vou fazer a lista. Mas para quem precisar de dicas para as férias leiam a biografia de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector, leiam a biografia de Ruy de Carvalho ou a biografia ficcionada – brilhantemente – por David Lodge de um dos meus autores de sempre, Henry James, chama-se Autor, Autor. Tendo-lhe tomado o gosto escreveu recentemente uma outra sobre H.G.Welles e quem lê só pode suspirar de admiração.

a coisa de se ser de outra maneira


Patrícia Reis,

Nem todas as mães devem sentir isto.

Digo eu.

Será preciso definir o “isto”.

Não sei o começo ou o fim, mas algures, num tempo que não se controla, os filhos surpreendem-nos por serem gente que desconhecemos.

Podemos estar numa situação social, num momento mais frágil, de doença, podemos até estar irritados. Os filhos chegam e desvalorizam. Ou desviam a conversa e percebemos, nesse instante, que a nossa importância é relativa, que se espera um certo recato, que uma mãe não usa o vernáculo como sempre usou – hábito de jornais, outros tempos – pois agora não fica bem.

Se eu fosse uma mãe como muitas que conheço dava um safanão, um raspanete, ficava ofendida, indignada. No meu caso, mando-os à merda para ver se percebem que minha vida existe para lá da deles. Ficam, é evidente, amachucados, não é suposto, uma mãe deveria ser outra coisa, um ser composto (e sem mudanças de grande monta), formatada, calada, sem opiniões sérias e fomentadas, preferencialmente uma mãe deveria cultivar,  a partir de certo momento, uma invisibilidade qualquer para que os infantes, ou infantas, possam crescer na tranquilidade de não terem de dizer:

 

– Ah, pois, é a minha mãe.

 

O azar dos meus filhos é que eu não tenho jeito para o invisível, mesmo quando me esforço muito e, acreditem, há dias em que faço de papel de parede. Depois regresso e vem tudo ao de cima.

Afinal, como a minha mãe sempre disse, sou inconveniente. Não me parece que vá mudar.

a tal da greve


Patrícia Reis,

A questão é a de saber se fiz greve. Perguntaram-me várias vezes.

Dá-me vontade de sorrir e pouco mais.

Explico: há quase 17 anos que tenho uma empresa, nunca deixei de pagar subsídios de férias, os empregados têm sete semanas para gozar e, em caso de gravidez, seis meses em casa pagos pela empresa e depois, conforme a lei, têm mais seis meses para sair cedo e entrar mais tarde.

Não têm horário, portanto se ligarem para lá às nove da manhã, o mais certo é estar deserto.

Se ligarem às nove da noite, a conversa talvez seja outra.

Temos frigorífico e partilhamos refeições.

Mesmo os que estão a recibo verde têm direito a subsídio de férias e de natal. Nunca fugi ao fisco. Nunca deixei de pagar nada. Não tenho uma dívida, é certo que também não tenho uma fortuna sorridente à minha espera. Vivo sem qualquer tranquilidade, sem conseguir projectar o que estaremos a fazer. Às vezes, não sabemos o que vamos fazer no dia seguinte.

Bato às portas, vou a concursos, faço relações públicas (sou péssima!) e não posso dizer que faça de comercial por não ter jeito e nunca ter contratado ninguém dessa área. Posso dizer que os clientes que temos ficam connosco. Sabem que não falhamos, mesmo que as horas de sono sejam poucas. Sabem que os nossos orçamento são um quarto dos orçamentos de outros ateliers, de agências de comunicação, de publicidade, etc e tal.

Sabem que não chegamos atrasados e que, apesar do contrato com Nossa Senhora (ela não faz design, nós não fazemos milagres), temos tido sorte e levado a carta a Garcia.

Durante quase 13 anos tivemos a revista mais premiada da Europa, a Egoísta, mas a quantidade de coisas que já fizemos é brutal e é um orgulho imenso. Quero lá saber da lei se calha a ter de despedir alguém: dou o que posso, dou para lá da lei se for o caso e possível, dou computador e, até já aconteceu, voltar a contratar a mesma pessoa.

Portanto, não. Não fiz greve.

Porque não tenho um patrão, só o meu rosto do outro lado do espelho e conheço uma quantidade de gente que se queixa, que se queixa muito mas que não vejo trabalhar. Sim, há uma diferença enorme entre trabalhar e ter um emprego.

E não, não tenho fins-de-semana e 21 dias de férias, tenho o que posso, quando posso e muitas vezes sem subsídio.

Optei por ter uma empresa por causa dos horários flexíveis, para educar os meus filhos de outra forma.

Agora estão grandes, a crise é mais que muita e eu trabalho que nem uma louca. Há coisas que me dão imenso gozo, outras são uma grande seca. Fazer greve não posso. O que posso dizer é  estão à vontade para perguntar às três pessoas que trabalham comigo se, por mero acaso, querem ir para outro lado. Por favor, perguntem. Eu já sei a resposta. E não, não fizeram greve.