A morte chegou com anúncio e pompa, assim como o filho de Kate e William. Acho que é simpático chamar-lhes assim, não é? Não tem qualquer interesse o número de nomes que a criança terá, nasceu no dia em que morreu uma mulher, uma mãe, uma avó, uma irmã, uma cunhada.
Uma pessoa é muita coisa ao mesmo tempo.
A família reune-se para as coisas da morte, para as outras nem por isso, mas na morte lá estamos. E, se o caixão calha a estar aberto, alguém grita a dor e um adolescente ampara, a comoção é a de ver o gesto, ver tudo como alguém que paira, que observa.
A morte faz de mim cigana. Ando aqui. Dou de comer ali. Abraço aquele e o outro. Ligo telefones, desligo telefones, marco coisas, desmarco coisas, levanto o corpo para se colocar um último adorno. Brinco e faço um esforço a ver o esforço de todos. As lágrimas não me existem, não estão em mim. Há o momento e, como deduzo que exista num palácio, qual upstairs, downstairs, faço de Hudson, sou um mordomo que assiste às coisas da morte.
Depois, mais tarde, já sem o barulho das coisas estranhas de uma casa mortuária que adormeceu num céu cor de rosa e laranja, escrevo para me resolver e não tenho a mais pequena paciência para as merdas que me aparecem à frente: não há papel higiénico suficiente, há um amigo que decide pontificar num mural do facebook à conta de uma coisa qualquer que, em teoria, eu escrevi e ele achou que merecia resposta, esqueci-me de levantar dinheiro para as senhoras da limpeza, a comida do cão está com um cheiro esquisito, o mais novo odeia desenhar, o mais velho nem quer saber, entrou hoje na faculdade, já tem número de acesso e eu paguei 800 e tal euros. Não tenho paciência para o barulho das gavetas do quarto do meu filho. Para o novo disco da Eliane Elias, dedicado a Chet Baker, belíssimo, mas que só me lembra coisas que não tenho, já não tenho, nunca terei. A seguir volto àquele corpo na caixa, como numa caixa de chocolates, com todos a dizerem que parece que está a sorrir e eu cansada de saber que é uma toalha que se enfia na boca, ainda há pouco tempo o fiz para o meu avô. Mas não, que estupidez.
A mulher que é filha, mãe, avó, irmã e cunhada, sentada na nuvem, já tem o seu cabelo de volta e um sorriso para quem deixou cá em baixo. Eu é que não vejo. São as lágrimas.

Este simples texto é genial. Ao ler, senti. Tenho dito.
um abraço.
Quão maldita é essa fronteira que nos obriga a viver nos dois lados em simultâneo.:(
Compreendi os sentimentos de vazio e nostalgia actual. Texto encantador.
Alexandre
Pensar falar e escrever sobre a Morte é (devia ser) valorizar a Vida.
Bem haja
Helena/Cascais