Então, o homem


Patrícia Reis,

Então, o homem, no café, cigarro pronto para ser aceso, lá fora, disse-me

 

– Sabe, a menina, não posso aderir à greve. Votei nestes gajos. Tem de existir uma certa coerência.

 

E eu, muito rápida, muito parva:

 

– Acha que sim? Pois, eu sei sempre achei que coerente uma vida inteira é um acto de estupidez, temos o direito a mudar de ideias.

 

O homem olhou-me. Calado. Depois sorriu, ou pareceu-me ver um qualquer sorriso, e saiu.

Parabéns, Vasco Graça Moura


Patrícia Reis,

 

O júri do Prémio Morgado de Mateus 2013, constituído por Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva e Nuno Júdice, atribuiu o prémio, por unanimidade, a Vasco Graça Moura, pelo conjunto da sua obra.

 

O Prémio Morgado de Mateus foi instituído em 1980, ano em que foi atribuído ex-aequo a Miguel Torga e Carlos Drummond de Andrade, e não voltou a ser entregue até agora.

 

A sessão solene de entrega do prémio terá lugar na Casa de Mateus, no dia 21 de setembro de 2013, pelas 18.30.

«”Não contava, de todo, com o prémio, mas é muito gratificante”, disse o autor, referindo que teve uma longa ligação à Fundação Casa de Mateus e [que] este prémio é uma espécie de “chave de ouro” a encerrar essa relação»

Esta mulher


Patrícia Reis,

Na cadeira verde está uma mulher que faz parte da banda sonora da minha vida, de quem sei algumas coisas, agora mais, que me faz rir e chorar. Tem o dobro do sangue dos outros, sim. E perto dela a vida corre mais depressa ou mais devagar, não sei dizer. Sei que as palavras correm, atropelam-se, as histórias entram umas nas outras e, de repente, eu podia estar nas tábuas de um palco, eu que morro de medo dessas coisas, de mão dada com esta mulher podia ir onde fosse, podia mesmo ao fundo do poço, ali onde ela tem o seu lugar e sabe como sair. Há momentos de privilégio na vida. Hoje tive mais umas horas que ninguém me pode roubar, aprendi, ri e quase chorei. Quem me move desta forma? Simone de Oliveira.

 

Puttin’on the Ritz


Patrícia Reis,


Dedicatória: para a minha mãe

 

Epígrafe: Puttin’on the Ritz

Have you seen the well-to-do

Up and down Park Avenue

On that famous thoroughfare

With their noses in the air

 

High hats and narrow collars

White spats and lots of dollars

Spending every dime

For a wonderful time

 

Now, if you’re blue

And you don’t know where to go to

Why don’t you go where fashion sits

Puttin’ on the Ritz

Different types who wear a daycoat

Pants with stripes and cutaway coat

Perfect fits

Puttin’ on the Ritz

 

Dressed up like a million dollar trooper

Trying hard to look like Gary Cooper

Super-duper

 

Come, let’s mix where Rockefellers

Walk with sticks or “umberellas”

In their mitts

Puttin’ on the Ritz

 

 

Sempre pintei ao som do fado. Não por causa da música, mas pelos poemas, palavras que se casam com um sabedoria até aí desconhecida. Prefiro os homens no fado; gosto de tentar igualar a fraqueza da minha voz com a voz deles. Os homens que cantam o fado em Portugal encenam-se menos que as mulheres, preservam uma certa ingenuidade. As mulheres seguem as pisadas de Amália Rodrigues e, afinal, é por ela que aqui estou. Quarto 113 do Ritz de Lisboa.

Subi do deserto melancólico e quase vazio do interior alentejano para imitar a grande diva. Pareceu-me a coisa acertada. Vi aquele documentário sobre ela, uma coisa bem feita, ela já de cabelo aloirado, com rugas, as mãos dançando acompanhadas pelas unhas pintadas de vermelho… é impossível de pintar a dança. A dança, seja ela qual for, é secreta e íntima, não se reproduz. Vi, ao longo da vida, muitas fotografias de bailarinos. Não mostram a dança. Ficamos presos na ideia do corpo, dos músculos, daquele corpo igual ao nosso que pode ir mais. Da delicadeza de movimentos. Ir mais longe. Fazer o impossível. Nunca pintei a dança. Pinto mulheres e homens, pinto a terra e a desolação. Os críticos chamam-me original. Suponho que seja um elogio, ou que deva ser encarado como um elogio. Original num século XXI tão estafado de imagens e ideias é qualquer coisa, todavia não me comove. Não consigo encher-me de mim. Amália, agitando as mãos, diz, no tal documentário, que nunca foi feliz, apesar de tudo o que Deus lhe deu. A mim, Deus deu-me a minha mãe, ela que trabalhou e trabalha para nos obrigar a fazer o nosso caminho.

Trabalha, Maria, trabalha que vais lá chegar. Cada um tem o seu caminho, terás de construir o teu.

Quando lhe disse que queria seguir Artes, a minha mãe nem pestanejou, arrastou todas as suas posses até Lisboa. Eu tinha quinze anos. Fiquei num quarto para os lados de Campo de Ourique, casa de uma senhora viúva, americana,  uma designer de jóias chamada Nora. Aprendi a amar o fado com Nora e descobri Lisboa pelas mãos de uma estrangeira. Talvez por isso ela quisesse ir aos sítios onde os lisboetas não vão. Eu seguia-a aos fins de semana. Conheço todos os miradouros da cidade. Sei histórias de santos e de mártires que ninguém ensina na escola. Uma tarde, seguimos até junto à Pascoal de Melo para espreitar a fachada mais estreita da Europa na rua Aquiles Monteverde, número 16. Ficámos ali apenas a ver por uns momentos. Sentámo-nos depois no jardim e Nora reparou nos miúdos e nas brincadeiras. Foi um bom dia.

Durante a semana estava na escola. Desenhava, moldava, experimentava.  Não estava numa fase de rebelião, como tantos colegas meus. Não pintei o cabelo de roxo, não me interessava a moda dos góticos ou dos outros. As minhas mãos eram o reflexo exacto do que fazia. Todas as noites as limpava – e continuo com esse ritual diário –  com cuidado; todos os vestígios de tinta que se imprimem no meu corpo desaparecem por umas horas e depois voltam a instalar-se. A pinta sempre foi a minha moda.

A minha mãe telefonava pelas sete da tarde. Fazíamos o relato completo das actividades. Ouvia-lhe o riso miudinho, a dizer que sim, que era engraçado, que tinha razão sobre qualquer questão banal, a contar a última asneira do Zé da Chica e outras familiaridades. Todos os meses, eu mandava para casa uma carta com desenhos de Lisboa, de Nora, do Jardim da Parada, da vista do Tejo perto da escola. Até hoje, a minha mãe guarda esses envelopes.

Depois entrei no Conservatório. Ganhei uma bolsa de estudo. Mantive-me com Nora que, por essa altura, já começava a dar sinais de instabilidade. Os papéis inverteram-se. Comecei a colocar post it amarelos pela casa a identificar as coisas:

fogão, desligar

limpar a ferida

tirar a roupa do estendal

Fazer a cama

Abrir o correio

 

Coisas assim. Nora seguia-me. Baralhava as coisas, datas e acontecimentos. Guardava, contudo, memórias extraordinárias da América e eu fui tomando notas à minha maneira: desenhava para ela.

­Era assim?

Não, não, a rua tinha mais pessoas e ali havia uma loja de antiguidades. Preciosa. Era quase um segredo. Era preciso tocar num botão para entrarmos. Nunca comprei nada, claro, não havia dinheiro para isso, mas adorava ir ver.

 Que idade tinha, Nora?

 Uns dezassete? Sim, talvez.

 E desenhava jóias com essa idade?

 Sim, mas isso foi tudo antes do Bill e do casamento.

Era muito nova.

 Nunca somos demasiado novos, Maria. Não estamos é atentos como deveríamos estar. Demoramos a cá chegar.

Depois encostava-se ao cadeirão de orelhas e ficava a ouvir Carlos do Carmo, Pedro Moutinho, Marco Rodrigues, Camané, António Zambujo. Por vezes, na cozinha cantarolava o “Fado do Estudante”, imitando o Vasco Santana, e dizia que era em minha honra. Ríamos do sotaque dela, da pose, da almofada que enfiava debaixo da camisola para se fazer barriguda como o Vasquinho amaldiçoado pela “da franja”.

 

 

Quando é cantado e a rigor

Bem afinado e com fulgor

É belo o Fado, ninguém há quem lhe resista

É a canção mais popular, toda a emoção faz-nos vibrar

Eis a razão de ser Doutor e ser Fadista

 

Ríamos com tanta facilidade que não chegámos a entender que estávamos a viver os melhores momentos de todos. Aprendi tanto com ela, mas isso já disse, não é? Repetir as coisas é uma forma de viver, também isso aprendi com a Nora e, decerto, com a minha mãe, sempre a dizer as mesmas coisas.

Tem cuidado contigo. Não te canses. Faz o teu melhor, não precisas de ser a melhor e nunca faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

A minha mãe. Nora. A minha orientadora de tese, Inês, uma mulher que dobrava a pedra e o ferro com astúcia e violência, contra o mundo conformado, contra os preconceitos. Só existem mulheres fortes na minha vida, mulheres que tanto admiro, e que agora, quem sabe?, vou desiludir. Mas ainda cedo. O quarto tem a luz de fim de dia de Lisboa. Ando descalça e os pés pisam a alcatifa mole quase amorosamente. Cheguei ontem. Fui à minha mãe, como se diz, fiquei por lá uns dias e regressei. A casa de Nora já não existe, claro; ela está nos Estados Unidos há uns anos.

Deve ter sido uma coisa assim: a filha telefonou uma vez e achou que Nora estava confusa; telefonou mais vezes e meteu-se num avião. Num americano anasalado, repetidamente invocando o Senhor num “Ó my God”, a filha rica levou a mãe para casa. Nora estava com princípio de Alzeihmer. Eu sabia e não sabia. Fiquei órfã de Nora e das suas histórias. Nesse ano, desenhei tudo o que consegui lembrar-me da vida daquele mulher pequena que me acolheu. Aluguei um quarto e enfiei o que tinha debaixo da cama alta de ferro preto. Não era uma cama como esta, nada disso. Era uma cama que rangia com vida própria.

Acabei a escola e uns coleccionadores estimados no meio competitivo das artes compraram as peças que exibi no fim de curso. Fiquei, pareceu-me então, rica. Mandei dinheiro à minha mãe que, diligente, voltou a colocar a mesma quantia na minha conta bancária.

Ó mãe, mas isso era preciso?

É dinheiro do teu trabalho, Maria. Nem penses. Eu estou bem.

Aluguei uma casa e deixei a cama que rangia. Para não correr riscos, coloquei o colchão no chão e, com um certo desprezo, decidi que não precisava de móveis. Ainda que me lembro da cara da minha mãe quando me visitou a primeira vez.

 

Então, mas tu vives assim? Sem cama, sem cortinados, sem tapetes…

Não preciso nada disso, basta-me o estirador e boa luz, mãe.

Se tu dizes.

Não me lembro de uma zanga entre as duas. A minha mãe deixa as coisas fluírem, tem essa sabedoria, mesmo agora que já não é nova. Demonstra um certo orgulho no meu percurso, faz recortes de jornais desde que comecei a expor e, quando fui a Madrid pela primeira vez, decidi levá-la: ela com tanto medo de multidões, ela sem perceber o que os espanhóis diziam; parecia um papel de parede, uma mulher na meia idade a sorrir por causa da filha.  Nunca senti tanta ternura por ela como nesse momento. Portugal era um dos países tema de um certame importante. O escritor alentejano, José Luís Peixoto, um homem bonito ornamentado de tatuagens e piercings, numa noite de jantar e alguma formalidade, disse, maravilhosamente, o poema “Cinco à Mesa”. A minha mãe abandonou a sala a chorar.

Foi a única vez que a vi chorar.

Agora, a imagem dela à soleira da porta — eu a entrar no carro com sacos de bolo pobre feito com aguardente e mel, com pão fresco e queijo — está presa a tudo. Não sei o que faço aqui, mãe. Podia ter ido para casa. Mas não, está lá o Miguel e, por isso, não posso, seria como ir à guerra.  O Ritz era um sonho antigo.

Quando for rica vou dormir para o Ritz.

Disse-o muitas vezes, em tom de brincadeira, sem pensar no que dizia. Imaginava o Ritz como ele é, cheio de histórias e solene, com alcatifa mole no chão dos quartos e camas feitas de forma impecável. Imaginava o Ritz com música de fundo.

Amália dizia que tudo lhe aconteceu por acaso, que foi Deus, mas que também foi a Sorte, já que possuía a coragem para reinventar o fado, de cantar rancheras  e outras coisas, de aceder aos poetas e músicos, de representar nos filmes por mera intuição. Ela a quem nunca ensinaram nada. Eu não posso dizer o mesmo. Talvez tenha uma espécie de talento que me leva ao carvão ou ao óleo; sim, posso ter isso, todavia sou um elo de esforços, pessoas que fizeram caminho uma vida inteira para eu cá chegar. Não tenho um tumor na cabeça nem noutro sítio, tenho-o no coração. Amália fugiu para Nova Iorque para se matar. Era o medo da traição do corpo, desse diagnóstico infeliz. Enfiou-se num hotel, não sei qual, e deduzo que tenha bebido e visto televisão, até que foi salva por Fred Astaire. É ela quem o afirma. Começou a percorrer as lojas todas atrás dos filmes de Fred Astaire. Ficava o dia inteiro sentada a vê-lo dançar. Dançar com Judy Garland, com Audrey Hepburn, com Cid Charisse, com Gene Kelly, com Ginger Rogers, com Bing Crosby.

Consigo imaginá-la com facilidade e essa imaginação leva-me ao desenho. Tenho Lisboa aos meus pés, literalmente, e desenho os passos elegantes de Fred Astaire a cantar “Puttin’ On the Ritz”. Parece-me justo. Já disse que não é possível desenhar a dança? A dança tem uma teimosia, digamos, que não se captura. Trouxe comigo um dos meus filmes preferidos, “Blues Skies” ou “Romance Inacabado” em boa tradução portuguesa. Tenciono vê-lo no computador daqui a pouco. Enquanto isso, penso. Penso e desenho e oiço a Amália na minha cabeça, a “Gaivota”, o “Grito”, a “Estranha Forma de Vida”. Sei os poemas de cor. Sei-os por causa de Nora, ela que os dizia num português emprestado, sibilante e arrastado. Por esta altura, deve estar num lar e não sei se me reconheceria. Por vezes, ligo a Helen, a filha: ela começa logo a dizer coisas de forma estridente e pouco ou nada diz da mãe.

She’s fine, dear. It’s so nice of you to care, but there’s nothing one can do.

Irrita-me a falta de tristeza de Helen.  Talvez eu a tenho pelas duas. Não sei. Consigo ser injusta quando não estou bem. Quando sou assolada por estes pensamentos. Amália foi para Nova Iorque para se matar. Queria que o tumor desaparecesse sem dramatismo. Estava decidida a isso. Não contava, porém, com o poder hipnotizante de Fred Astaire. Um homem magro, com pouca voz, para quem todos os grandes compositores americanos escreveram.

Now, if you’re blue

And you don’t know where to go to

Why don’t you go where fashion sits

Puttin’ on the Ritz

Different types who wear a daycoat

Pants with stripes and cutaway coat

Perfect fits

Puttin’ on the Ritz

Deixo o bloco em cima da secretária, junto à jarra com flores, corro as cortinas  e deixo-me ficar na cama a fazer de estrela do mar. O corpo tenso, os braços abertos e as pernas abertos. Tenho quase quarenta anos agora. O Miguel está à espera de explicações. É um homem que aprecia a troca de palavras, pode até ser violento, mas sobre isso não falarei. Não sei se consigo voltar para casa. A minha mãe, sempre na soleira da porta, a gritar para dentro do carro em andamento:

O teu quarto está sempre pronto, querida. Volta.

Não tenho forças, mãe. Já não sei o caminho das coisas certas. Não consigo falar do Miguel, é apenas um homem na minha vida. Não me dá paz, nem luz, não se confunde nas minhas tintas. Julga-me e condena-me. Diz coisas absurdas. Odeia o cheiro da água raz, dos pincéis, das telas. Se me soubesse aqui, bem quente no Ritz, escondida do mundo, rir-se-ia com desdém. Tem um absoluto desprezo pelo luxo. Azar o dele.

Vou ficar aqui dentro deste quarto, como num aquário, e tentar dormir. Invocarei a senhora dona Amália, pedir-lhe-ei que me assalte os sonhos e apareça a dançar com Fred Astaire aqui mesmo. Terei um vestido negro e colocarei umas pérolas para os acompanhar na dança majestosa, alcançarei uma graça que nunca possuí.  Serei uma personagem do Ritz. Vou entrar num filme dentro do meu sonho. Depois disso, talvez, possa voltar para casa. Mandarei ao Miguel um desenho a servir de fim de conversa e peço aos anjos para se colocarem na direcção do campo, do Alentejo mais calado e profundo. Pode ser que aí seja, por fim, feliz. Ou, como na canção de Amália, sem secar as minhas lágrimas, vá adormecer cantando baixinho

 

Cheia de penas me deito

E com mais penas me levanto

Já me ficou no meu peito

O jeito de te querer tanto

 

Nota: Amália Rodrigues morreu a 6 de Outubro de 1999.  A expressão “puttin’ on the Ritz,” significa “vestir de forma sofisticada” e teve como inspiração o Ritz Hotel em Nova Iorque. Fred Astaire cantou e dançou esta música de Irving Berlin, escrita em 1929, no filme “Romance Inacabado” de 1946.


Este conto faz parte da colecção Divas, que sai no Diário de Notícias, todas as sextas-feiras. Além de uma ficção, o leitor ganha um texto de Rui Vieira Nery e um CD sobre a Diva em questão: já tivemos a Callas, a Amália, a Ella Fitzgerald.

Conferência o Tempo no Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva


Patrícia Reis,

Programar um evento cultural pode ser divertido ou um tormento. No caso da conferência do Tempo, no Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva – é sempre uma diversão. Laborinho Lúcio fez uma conferência inaugural brilhante, os debates correram bem, a SIC Notícias esteve em directo, até mesmo o programa Expresso da Meia Noite, tivemos cinema (ainda decorrem filmes a esta hora!) e discoteca (que continua em crescendo e sempre um bom pretexto para ver os amigos). Defeitos? Nada. Apenas um cansaço súbito e uma dor nos pés.

A equipa do pavilhão está de parabéns, bem hajam pelo empenho e entusiasmo. Vocês são os maiores.
Amanhã a coisa continua, festejamos o tempo, a entrada no Verão e das 9 da manhã com ginástica até à conversa final com João Lobo Antunes, há ateliers diversos, exposições, workshops, debates. Enfim, uma programação de luxo que merecia mais público? Sim, é verdade. Temos a desculpa da música no Terreiro do Paço, de ser sexta-feira, de um qualquer jogo de futebol. Quem esteve e encheu o auditório para ouvir e fazer perguntas ficou a saber muitas coisas e terá ficado com curiosidade sobre outras tantas. Aviso: no Observatório na Ajuda, no domingo, pelas 21h00 podem ver a lua cheia e aprender mais com Rui Agostinho, o homem que desfez todo o meu imaginário sobre o Planeta e o tempo:) Ah, esqueci-me: amanhã continuam os jogos matemáticos. Já não teremos a prova de vinho – obrigada à Fundação Eugénio de Almeida – e também não teremos o movimento slow food, mas há maneiras de fazer gelatina que nem imaginam.

o subsídio


Patrícia Reis,

O subsídio dá jeito para muita coisa, já sabemos. Quando me aparece na vida – esta coisa de ser patroa não dá muito jeito na hora da distribuição e das contas – fica sempre para as escolas, para o material, para a merda dos azulejos da cozinha que estalaram, para as telas da varanda que rebentaram pela sétima vez ou, na pior das hipóteses, para entregar ao bate-chapas, um estaminé legítimo e catita em pleno Casal Ventoso. Sim, que eu tenho muita sorte com os carros, é um risco aqui e ali e há sempre uma coisa destas no meu caminho. E, se porventura pensar em apanhar um táxi, é certo e sabido que irei chegar ao meu destino atrasada e com os nervos em franja.

Ontem, pela noite, um taxista disse-me que dos 4600 taxistas que existem na praça nenhum votará no Costa. Tudo por causa das mudanças na avenida da liberdade. Ok. Hoje, na rua, ouvi um senhor a dizer que está à espera de ver a campanha do “tipo do Benfica” para se decidir. Eu sou do belenenses, não tenho esses dramas existenciais, pensei para os meus botões.

O que eu gostava de ter mesmo era uma decisão tomada, conseguir dizer: tenho dinheiro para pagar todos os subsídios a tempo e horas, como acontece há 17 anos. Não sei porquê mas algo me diz que, depois de uma força aqui e um empurrão acolá, chegarei ao meu objectivo. Eu não terei subsídio? Não faz mal. Quem tem uma empresa no mercado, uma micro empresa, diga-se, tem de viver com estas coisas.

O dobro do sangue dos outros


Patrícia Reis,

Hoje tive o privilégio de passar a tarde à conversa com Simone de Oliveira. Uma mulher que tem o dobro do sangue dos outros, com uma história de vida que é uma lição, um pano encharcado nas trombas, uma miséria, uma montanha russa. Aos setenta e cinco anos, tiro-lhe o chapéu e, podem acreditar, está a cantar melhor do que nunca, ela que diz que a outra voz, a voz da miúda do Festival, da “Desfolhada”, não era bem a dela.

Há poucas pessoas com o dom da boa conversa. A Simone é uma delas. A Helena Sacadura Cabral é outra. A Lídia Jorge, que fez anos ontem, é outra. Mas há mais, a minha vida está cheia de mulheres extraordinárias e isso é uma benção. Por serem todas diferentes, por reclamarem todas os seus direitos e não se esquivarem aos deveres, por olharem pelos filhos, mesmo quando estão longe. Umas cantam, outras escrevem, outras pintam, outras estão em casa nos tesouros da poesia, outras estão na vida a fazer coisas, a mexer o mundo. Sim, é um privilégio. Nada isto significa que não existam homens do mesmo calibre na minha vida, acreditem. Conclusão? Não me posso queixar de nada.

O exame


Patrícia Reis,

o exame

O miúdo sabe de Pessoa. Até sabe mais que muitos, já foi à Casa Fernando Pessoa, já disse alto e bom som para um mini filme uma carta que o poeta terá escrito a Ofélia, uma carta que começa com bebé, meu bebezinho. O miúdo sabe e, por isso, não hesita, ataca o exame a pensar que depois é o futuro. Seja ele o que for. Nem pensa na nota de português ou na injustiça da nota de português, pensa nos heterónimos e de como gosta de Álvaro de Campos. Não se lembra se leu ou não o Ano da Morte de Ricardo Reis, talvez sim. A sua caneta anda tão depressa quanto a sua mão o permite. Felizmente não faz parte do lote dos 22 mil alunos que não conseguiram fazer o exame. Para ele é um alívio. Está cansado. Cansado da pressão, do secundário, de dar descontos a este ou aquele. Quer crescer, mesmo sabendo que crescer é difícil.

 

A prova, mãe? Era difícil, devo ter um 17.

24 horas de tempo no Museu da Ciência Viva à borla


Patrícia Reis,

Tomem nota: 24 horas sobre o Tempo, no Pavilhão da Ciência Viva, Parque das Nações, dia 21 para 22, entrada livre a partir das 18:00 até às 18:00 do dia seguinte.


Vejam o programa e tragam o corpo, sim?

Vão ser 24 horas que começam com Laborinho Lúcio, mais debates, filmes, dança, comes e bebes, workshops e mais não sei o quê! Partilhem, por favor, divulguem e apareçam, é cultura e é nossa e de borla. É preciso dizer mais? É para todas as idades e para todos os gostos, façam o favor de divulgar.


Nota: esta programação pode ser alterada.

Aventuras no Diário de Notícias


Patrícia Reis,

Começou na sexta-feira da semana passada a colecção Divas no Diário de Notícias. Além de um disco, de um texto do Rui Vieira Nery, escrevo uma ficção. Foi uma aventura muito divertida e agradeço a produção à Bela e o Monstro, sempre imparáveis. Aqui vos deixo o conto sobre a Callas, esta semana já saiu o volume sobre a Ella Fitzgerald.

 

Eu não sou a minha voz

Dizem que desfaleci.

Gosto do verbo: desfalecer.

Parece que a traição do corpo não é apenas na voz ou na cabeça. A traição come-me por inteiro. Bellini entenderia. Estou certa de que teria a sua compreensão. Quando Norma estreou não foi o sucesso que ele sonhara, é o que diz a história. E o segundo acto… matar os filhos é sempre difícil. Na minha cabeça ainda me oiço cantar

 

(NORMA)
Dormono entrambi,
Non vedran la mano
Che li percuote.
Non pentirti, o core;
Viver non ponno. Qui supplizio,
E in Roma obbrobrio avrian,
Peggior supplizio assai;
Schiavi d’una matrigna.
Ah! No! Giammai!

(Sorge risoluta.)

Muoiano, sì.
Non posso avvicinarmi.
Un gel mi prende
E in fronte mi si solleva il crin.
I figli uccido!
Teneri figli.
Essi, pur dianzi delizia mia,
Essi nel cui sorriso
Il perdono del ciel mirar credei
Ed io li svenerò?
Di che son rei?
(risoluta)
Di Pollione son figli
Ecco il delitto.
Essi per me son morti!
Muoian per lui.
E non sia pena che la sua somigli.
Feriam.

 

Não sei explicar o que levou a este desmaio. O pano que cai e o meu corpo nas tábuas do palco. Inerte. Inconsciente.

Sei – ah, sim, sei bem – que amanhã as primeiras páginas dos jornais terão o meu nome e não dirão que sou “sublime”, “extraordinária”. Não. Os jornais escreverão (neste preciso momento, um crítico qualquer deverá estar a martelar numa máquina de escrever, a escrever palavras que são tiros certeiros), com a dureza de sempre, quase como se os jornalistas fossem a Tebaldi, num exercício de inveja e competição: a Callas chegou ao fim. Como se soubessem o que é estar no fim…

As fotografias que publicam, as minhas fotografias, mostram uma mulher que não reconheço. Nada mais normal, diria a minha mãe se fosse viva. Nunca entendeu a razão que leva as pessoas a chorar. “Choram a ouvir-te cantar. Mas porquê?” Sempre o senti como um elogio máximo, uma forma de comoção única que só eu conseguia provocar nos outros. Explicar à minha mãe? Não. Recolhida em Deus e eu na música, ambas separadas por exigências divinas mais perto de uma qualquer loucura que os outros não têm.

Agora estou dentro do silêncio do quarto. Sei que todos andam pela casa, andam como fantasma, de sala em sala, vigilantes, à espera. Crêem no meu sono – nessa possibilidade –  que eu apenas finjo. E fingir é fácil. A ópera é um dos melhores palcos de fingimento. Dor e desespero. Amor e alegria. Vida e morte. Tudo se canta ali em cima, em frente ao fosso da orquestra, espreitando a plateia, ignorando o maestro por sabermos que somos aquela personagem. Gioconda? Violetta? Norma? Amina?  Qualquer uma, pouco importa.

A música começa e eu já sei que o corpo me dói, que o coração encolheu, mas tenho de me esticar, a voz precisa de ir, ainda precisa de ir. Tenho de ser aquela que é maior que as outras. Podia ter abdicado de tudo? Sim. Por amor. Ninguém entendeu. Talvez não o tenha explicado devidamente. Esperei pelo divórcio dele, esperei horas sem bondade. E depois, com o meu rosto, nas suas mãos, pouco importava o lugar de actriz, o papel decorado, a música estudada. O bater do coração era uma partitura distinta. Sim, podem dizer que é piroso. Não me importo.

E não me apetece cantar.

Não sei nada de Onassis. Não sei de mim ou da minha voz. Citam-me nos jornais, dizem que tenho um feitio difícil e que a voz, a minha voz, se perdeu por ter andado em iates e festas. Já não estou nas festas de Onassis. Está apaixonado por outra, uma mulher que foi de um presidente, uma mulher com nome francês, uma mulher que não terá, acredito, um temperamento mediterrânico.

A força de se ser pelo confronto? Está em mim. Juntou-se ao meu sangue Não como antigamente. Ele não se apaixonou por mim. O seu imenso amor, aquele que o levava a comprar jóias de um brilho assustador, não era meu. A paixão daquele homem estava apenas concentrada na minha voz. Eu cantava e ele enviava flores, flores frescas, vermelhas de desejo. E as flores eram tão inebriantes quanto o vinho que bebíamos noite dentro. Esta voz que é uma maldição. E ele pedia:

Canta, canta. Canta para mim. Só para mim.

E eu cantava e depois deixei de cantar e ele não gostou dessa falha, da decisão que não lhe foi comunicada. Não me queria apenas para si, afinal. O espanto do palco, da plateia a aplaudir em pé, num fulgor de entusiasmo que não tem medida, enchia-lhe o peito de um orgulho que era apenas exibicionismo.

Esta mulher é minha. Tenho-a. É só minha.

Quis ser só sua. Não entendi e ele tão-pouco. Talvez por isso, por ser homem e pequeno no pensamento, era impossível compreender que eu apenas queria uma casa de seda, um casulo perfeito, para um amor que seria nosso e apenas nosso. A minha voz estaria sempre a mais, por não ser minha. Onassis não percebeu. E eu não expliquei. Jacqueline não lhe cantará. Sorrirá com elegância e terá sido isso, o poder desse sorriso que um dia foi do outro, de um homem morto com um tiro inesperado. Ela refaz a sua vida com Onassis e na América não compreendem. Se conhecessem os encantos de Onassis, o espanto seria menor. Ele casa com a fama dela, a roupa dela, os colares dela, a imagem dela.

E eu? Eu continuo aqui. Canto. Posso fazer o que quiser da voz ou não fazer nada? Já se tornou famosa a frase: a minha voz não é como um elevador. Já foi. Houve momentos…. Hoje é apenas uma ínfima parte do que eu sou. Do que fui. A voz não sou eu e, se o disser alto, ninguém acredita.

Fabriquei a Callas. Queria ser a diva – sou a diva – e quando quis deixar de o ser, traíram-me. Abandonada por ter deixado de cantar, por querer amar em vez de cantar. Não posso compreender, mas há muito tempo que deixei de me interrogar sobre as coisas. Nem todos os porquês têm correspondência, nem todos possuem fatalmente um porque.

O médico daria tudo para que eu não fizesse perguntas. Mostra-se preocupado. Quer que eu coma umas coisas, que não beba, que descanse. Sobretudo isso: descansar. Não faz ideia da impossibilidade prática do exercício. Quando se é como eu é como ser múltipla, não há descanso. Cansei-me dos vários médicos e eles cansam-se de mim. Talvez Vittorio vá ficando por devoção. Já não sou a sua doente, sou a sua “casta diva”, a sua criatura frágil. A maquilhagem estragada com lágrimas não o impressiona e eu sei que posso ser – e sou – feia, tão feia como todos os fantasmas das trevas. Os meus ataques de fúria deixam-no calmo. Parece apreciar a minha fúria. De uma forma estranha espera que eu rebente para depois me consolar. Como se eu fosse uma criança birrenta e, quem sabe?, talvez eu seja mesmo isso. O talento não traz felicidade. Vittorio diz que as mulheres com mau feitio duram mais tempo, a vida preserva-se na raiva. Acredito nele uns dias, noutros faço por criar outra realidade.

Já morri no palco a cantar tantas vezes. A fazer de tuberculosa, a fazer de amante traída, a fazer o que pedem para fazer: ser outra, dar voz a outra. Tullio Serafin compreenderia? Dizem que foi o meu mentor. Não desminto. Há coisas sobre as quais não vale a pena falar. Onassis ensinou-me isso? Não, todos os libretos me ensinaram que criar um mito é escolher a verdade que se quer contar. Assim faço. Por isso, não tenho voz e não sou a minha voz e não sendo, deixo de existir. Sei que não faz sentido. Nos dias que correm poucas coisas fazem sentido. Peguei na ansiedade e tomo o que posso, os comprimidos nem os sinto, escorregam com facilidade se acompanhados de vinho. Tomo quando quero e nas quantidades que me servem, aquelas que eu sei que posso aguentar, e depois transfiguro-me. 

Nasci nos anos trinta, podia não ter tido a sorte de aprender, de ir para o Conservatório em Atenas. Podia ter sido somente uma rapariga do campo, com o destino marcado pelo peso da velhice antes dos trinta anos, filhos a puxar as saias sob o sol que queima. Podia ter sido qualquer coisa. Mas a voz venceu. Vivi a guerra, sei coisas que outros não sabem. Levei emoção aos sítios onde ma pediram. Cheguei a cantar árias que desconhecia, salva pelo ponto, escondido do público, e sempre obtive as ovações que me enchiam a alma e o camarim com flores e cartões. O poder de se ter algo que os demais não possuem. Eu sei que fico na História. A Tebaldi? Duvido. Aprendi a detestá-la. Aprendi que era melhor para a minha carreira e, no fim, o que eu vejo, agora, nesta cama onde estou a dormir um sono que não existe? Vejo que estão desiludidos comigo. A minha voz perde-se e ninguém me perdoa. Perco a voz, perco a identidade.

Quando morrer voltarei ao azul que me viu crescer, quero as minhas cinzas no Mar Egeu, regressar aos deuses e a tudo aquilo que podia ter sido. Não quero viver muito tempo. O tempo assusta-me e não sei fazer mais do que exigir de mim a possibilidade de encarnar uma personagem e dar-lhe voz. Há quem me diga, amigos próximos, que deveria dar aulas, que deveria retirar-me, que deveria… Todos sabem mais do que eu e, apesar disso, desconhecem o essencial.

A minha vida começou depois de um casamento de dez anos, quando me senti mulher plena nos braços de Onassis, aí no momento em que a vida começou de verdade, e desde que me deixou só me resta este pobre definhar.

Eu sei o que dirão os jornais amanhã. O declínio da Callas. A sua morte anunciada. O escândalo de estar o presidente da república com convidados ilustres e a diva ter perdido os sentidos, a cortina, apressada, a esconder o corpo tombado. Terão a percepção do que significa ter de agradar a todos? A culpa é minha, será sempre minha. Não descobri a lei de me tornar o que queria. Fui-me moldando para ser a Callas e morrerei assim, de coração partido, sem a voz que deu o meu nome ao mundo. E, como as mulheres nas óperas de tantos compositores diferentes, morrerei sozinha. Se a minha fé o permitisse encontraria Onassis numa nuvem longe do céu. Mas já deve ter feito um contrato com Deus. Nem olhará para mim. Como tantas vezes lhe pedi

Olha para mim, olha para mim.

 

Não queria que me visse como a Callas, queria dar-lhe a mulher debaixo da pele da cantora. Ele queria, como todos os outros, ouvir-me.

Posso ter ficado uma mulher amarga, já sei.

A voz é uma patroa exigente e não é controlada por mim. Continuo aqui, a fingir que o sono me dá o descanso merecido. Lá ao fundo, muito ao longe, ainda oiço as nossas gargalhadas, os dois no barco, pele contra pele, olhos nos olhos. Se me concentrar mais um pouco, consigo ouvir o silêncio que fazíamos juntos. E, assim, talvez consiga dormir.

Escrever é lutar


Patrícia Reis,

Hoje, ouvindo José Carlos Vasconcelos, director do JL, jornalista, cronista, escritor, o homem que, lado a lado com Assis Pacheco (ai as saudades), teve o primeiro programa dito literário na televisão pública, em 1974, um programa chamado: Escrever é Lutar, pensei: Hoje escrever é lutar, é arriscar, é reflectir, é espelhar o que se vê e o que se imagina. Depois cheguei a casa e vi que as eleições autárquicas foram marcadas para 29 de Setembro. Votar também é uma forma de luta. O Instituto Nacional de Estatística diz-nos que a maior abstenção está na faixa etária que vai dos 18 aos 40 – aos 40! -, portanto mesmo que esteja um dia de sol, pensem nisto: votar é um direito e um dever, é uma possibilidade, é ainda uma esperança, mesmo que a democracia possa atravessar momentos duvidosos. Ao escrever isto, aqui onde alguém se encarregará de me dar na cabeça (por favor, não hesitem), sei que escrever é lutar e eu luto, como tantos antes de mim e tantos outros depois de mim, por ter uma opinião, por querer reflectir e não viver alheada e empacotada na realidade que me vendem. Dou graças por homens como o José Carlos, como o Assis Pacheco, como o Rui Zink que há 30 anos que publica e continua a sua intervenção cívica sem papas na língua, louvando ainda tantas mulheres, tantas, como Maria Manuel Viana, Maria Teresa Horta, Inês Pedrosa, Lídia Jorge, entre outros e outras, que pela intervenção cívica e pela palavra não desistem de lutar. Pena que a televisão pública não tenha um programa cultural digno desse nome? Pois.

Já agora, este ano é o ano internacional do cidadão, talvez seja altura de reflectir sobre esse direito à cidadania. Digo eu.


Patrícia Reis,

FESTIVAL DO DESASSOSSEGO vai até dia 13, na Casa Fernando Pessoa, procurem a programação. Vale a pena.

Ontem ao fim da tarde, na Casa Fernando Pessoa,
houve leitura de poemas. Presentes, os poetas António Cícero
(Brasil), Gastão Cruz, Golgona Anghel, Nuno Júdice e Maria Teresa Horta,

Entre outros poemas, Maria Teresa Horta leu este inédito:

POEMA DE AMOR

Quando me despes
visto a roupa toda

Quando me vestes
tiro o meu vestido

Eu sou aquela
que desgoverna o fogo

E a ordem do amor
insubordino

Festival do Desassossego


Patrícia Reis,

PROGRAMA FESTIVAL DO DESASSOSSEGO
CASA FERNANDO PESSOA


11, 12 e 13 de JUNHO 2013
Dia 11
16h – Exibição do filme Pessoa, Pessoas Brasil
17h – Sessão inaugural.
Boas-vindas pela Directora da Casa Fernando Pessoa, Embaixador do Brasil e Vereadora da
Cultura da CML.
Leituras de Portugal e do Brasil, poemas lidos por:
Antonio Cicero
Gastão Cruz
Golgona Anghel
Maria do Rosário Pedreira
Maria Teresa Horta
Nuno Júdice
19h – Varandas do Desassossego (Associação Tenda)
Dia 12
16h – Exibição do filme: Consideração do Poema do Instituto Moreira Salles
17h – Lançamento de “Fernando Pessoa & Ofélia Queiroz: correspondência amorosa completa
1919 – 1935” (edição Capivara) com Eduardo Lourenço, Richard Zenith e os editores Bia
e Pedro Corrêa do Lago
18h – Debate: A prosa de Portugal e do Brasil na voz de quem a escreve
(moderação de Maria Manuel Viana)
Amílcar Bettega, Jacinto Lucas Pires, João Gabriel de Lima, José Luís Peixoto e Teolinda Gersão.
Dia 13
14h30 – Exibição do filme: Um serão com Caetano
16h – Debate: Literatura e jornalismo, amantes da travessia
(moderação de Patrícia Reis)
Bia Corrêa do Lago, João Gabriel de Lima, José Carlos de Vasconcelos e Rui Zink.
18h – Debate: Há uma poesia de língua portuguesa?
(moderação de Inês Pedrosa)
Antonio Cicero, Fernando Pinto do Amaral, Nuno Júdice e Teresa Rita Lopes.
21h30 – Concerto de Jorge Palma.

Mário Cesariny, in “Pena Capital”


Patrícia Reis,

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Crónica da Feira do Livro II


Patrícia Reis,

Há um grupo de mulheres na Feira do Livro que se destaca. As pessoas passam a vê-las partilhar histórias, as conversas não são cruzadas, são delas, há um bolo, risos, comentários, acontecimentos recentes. Uma adolescente observa num silêncio constrangido. Do outro lado, o sol esmagador e tirano andou a fazer das suas, mas pouco importa por se saber, assim sem grandes dramas, que as conversas se mantêm, num sítio ou no outro, os livros são diferentes, os leitores aparecem com coisas que nunca vimos e há ainda aqueles que nos intimidam a trazer para a feira o que já não existe em stock. Os sorrisos convivem com as farturas e, para alguns, há chã à Cardoso Pires, em sua homenagem, um copo de whisky que o José Francisco descobre e que lá traz com um sorriso algo felino, enquanto a Cecília se abana com um leque e se desdobra para que nada falta a ninguém, nem mesmo a mesa que pode perder o balanço, o piso é irregular.

O Pedro Correia lá está, animado, no acordo do desacordo ou no desacordo do acordo, a minha Pátria é a minha língua e, como se diz em Luanda, desconsegui de perceber este acordo e já sei que o senhor Pessoa escrever o livro do desasossego com c com cedilha, mas quem mais saberá e que importância terá tudo isto? Na verdade pouco ou muita, tudo depende da hora do dia e do meu estado de espírito, como o post é meu, a coisa fica por aqui. Dois beijos e um sorriso, olá Pedro, como estás? Que bom ver-te. Passo para o outro lado. Leio Leya. Leya na praia, na prisão, no carro, na cama, porra, leia sff e preferencialmente um dos meus livros ou dos meus amigos, por nos esforçarmos tanto e não sermos o Dan Brown e não queremos, atenção, não queremos… Nem por sombras, cinzentas ou outras. Essas não as vejo, sendo míope Deus é misericordioso comigo. Há um placard gigante que mostra o Papa Francisco com os seus sapatos pretos e as pessoas tiram fotografias. Afinal, está ali por alguma razão, é aproveitar. Olha, mãe, é o Papa. Na Feira do Livro de Lisboa, nem precisamos de ir a Roma, ah? Pois.

A Patrícia Portela trouxe sapatos de Antuérpia, o João Ricardo brinca com a minha triste história da senhora que perguntou: tem cancro, não tem? Decidimos todos, com a Inês e a Maria Manuel, que é uma boa frase para começar um livro. Depois recordamos todos os que têm e ainda os amigos que dizem que vêm à feira para comprar livros sobre essa mesma temática, dá-me um arrepio, prefiro o bolo de laranja da Cristina Carvalho ou um sorriso do jornalista do Jornal de Letras que todos tratam por Luís e eu por Ricardo. O tempo passa e passa rápido, o telefone perde-se. Caiu. Aparece o Nelson Sauté com a Ana Juliana, a sua mulher. Ele promete um livro para o final do próximo ano e a Cecília a sorrir, a dizer que sim, pois. E eu: és preguiçoso. O Nelson ri-se e fomos, a Inês e eu, para o outro lado e parece que ando a fazer piscinas, de lá para cá e de cá para lá, mas é mesmo assim. Um miúdo pequeno pede-me um autógrafo num livro da colecção O Diário do Micas, volto a pensar na falta de vergonha da Quidnovi, mas já não espero nada e o miúdo tem um sorriso lindo e uma t-Shirt com graça.

O Urbano Tavares Rodrigues tem uma fila que o aguarda e o filho vem, com os olhos cheios de mar, silencioso, perto da mãe. Marcello Mathias deve conspirar alguma coisa com o João Vasco, não ouvi nada. Mais lá para o fundo vejo o Miguel Carvalho e depois a entrada da Fernanda Serrano e a menina das farturas pisca-me o olho e nada disto está por ordem e eu não me ralo muito.

Crónica da Feira do Livro


Patrícia Reis,

A multidão aperta-se para ver os saldos na Praça Leya, há fila para os gelados e um senhor que teima em passear um cão minúsculo que, decerto, não sairá dali mais culto. Aflito? Isso é fatal. O desgraçado do bicho é mínimo e encara os homens e as mulheres, as crianças que podem – por ser dia da criança – comprar um livro. Baratinho, diz uma mãe. Depois fica para lá e dizes que lês e nunca lês, acrescenta naquele tom que certas mães têm, um tom que é o poder de desprezar as crianças. Mais tarde, num suspiro, dirá a uma amiga enquanto faz a manutenção das unhas de gel que o marido acha que custam 10 euros, quando custam 35: Fiz tudo para que o meu filho fosse um leitor.

Pois. Ok. Certo.

Tento fazer que não vejo, que oiço mas não oiço. Há uma senhora muito simpática que quer tirar uma fotografia. Um ex ministro da Justiça, do alto dos seus 70 anos, que se levanta, quase numa alegria infantil, e grita-me: Ó Patrícia, sou um sucesso, vendi dois livros. Ao contrário da Fernanda Serrano, digo-lhe eu enquanto admiro as curvas da senhora num daqueles placards de cartão, bem recortado, para se ver o que é preciso ver quando uma mulher bonita exibe um vestido vermelho. Nada contra a senhora, nada contra o vestido vermelho, por isso decidi que ia tirar uma foto por ali, para ver como fico. Não fico nem mal, nem bem, fico verde. Sim, sim. Verde, por excesso de sol. Explicam-me que é o excesso de sol que faz com que um poster com as minhas trombas esteja verde. Ao lado, o desgraçado do enorme poeta que é Nuno Júdice, está igualmente verde. Talvez a Rainha Sofia tinha sido indigesto, diz alguém ao meu lado. Os risos da ordem. O Nuno Júdice está de parabéns, mantendo o tom de pele ou parecendo mais marciano, eu estou ali ao lado, por ser uma princesa, e por solidariedade. Faço uma foto para o Instragram. O editor sobressalta-se, ai que não fica bem. Fica, fica, que estas coisas são para levar com ligeireza. Olhe, a senhora foi no outro dia à televisão? Pode ser, não sei a que se refere. Mas não tem cancro, ou tem? Não, eu não tenho, a Fernanda Serrano já teve e está ali o livro, não bastassem as revistas, para o comprovar. Ai, obrigada, mas sabe que a sua cara não me é estranha. Escreve sobre o quê? Na minha cabeça, a frase da minha mãe: merda, cagou-a o cão. Escrevo sobre pessoas, sobre o que me perturba. Ah, isso deve ser muito difícl. Pois. Fico então um pouco mais verde, alguém me traz um perna de pau, eu lembro-me que Johnny Depp largou a mulher e que é uma pena que não esteja ali a fazer de pirata. Há algo de circo em tudo isto? Não, meus amigos, eu já vi de tudo na feira, mesmo uma senhora de calções mini, sapatos de salto alto e chapéu largo, com um pacote de pipocas na mão, a pedir a um escritor de referência se ele não se importava que ela se sentasse ali ao seu lado, ela que tinha escrito (ou alguém por ela) um livro sobre a sua vida enquanto stripper. O escritor respondeu: Importo-me, importo-me muito, eu dispo a alma para escrever e há décadas.

A moça acabou por se sentar uns metros à frente e todos – sem excepção – admirámos a extensão das suas pernas e o cruzar suave, o sorriso lindo de boca vermelha que come pipocas. Para quê a literatura, meu Deus?, pensei então. A moça das pipocas não fez furor, temos pena, mas não temos passarinho e a feira este ano é sobre a crise ou as conversas são sobre a crise. Até a Quidnovi, editora com edital publicado a pedir insolvência, com doze páginas de credores, entre eles esta vossa amiga, brilha na feira, num lançamento de um livro de um desgraçado que, obviamente, não percebeu que não será distribuído e que nunca verá um tostão. O vento assobia, como escreveu Lídia Jorge, porém não vejo gruas, apenas a bandeira lá no topo. Está na minha hora. Como a fartura que não me dará um grama mais e vou-me. A feira do livro? Um evento cultural. Amanhã regresso. 

Mais dois prémios e um agradecimento para sempre


Patrícia Reis,

 

Egoísta, a edição número 50, dedicada aos Artistas ganha menção honrosa para design e Grande Prémio Revista na edição dos Prémios Papies referentes a 2012. Foi um privilégio trabalhar nestes 50 números e, mesmo agora, sentir que os prémios recordam o que tentámos fazer. Parabéns a todos os que colaboraram (ao Rodrigo Saias e à Sara Cunha), à Norprint que imprimiu, à Estoril-Sol que apostou na cultura durante tanto tempo e a todos escritores, pintores, ilustradores, fotógrafos, jornalistas, experimentalistas e mais… – todos sem excepção – que fizeram da Egoísta uma casa para mim, uma boa casa. O meu agradecimento nunca será suficiente.

O blog da semana


Patrícia Reis,

O bicho do jornalismo instala-se e não desaparece. Às vezes adormece. Outras parece, morto. De repente, regressa. Anabela Mota Ribeiro é jornalista há mais de 15 anos, menos de 20, escreve ela. Na semana passada decidiu fazer um blog: http://anabelamotaribeiro.blogs.sapo.pt/

Escolhi-o para blog da semana por ter sorrido com a capacidade de reinvenção que a Anabela tem: uma jornalista free-lancer não tem uma vida fácil. Uma jornalista que nunca esteve ligada às redes sociais aparece com uma visão que é, ao mesmo tempo, um repositório de memórias, para dizer que o jornalismo não é efémero. E, por isso, aqui podemos encontrar entrevistas com anos e anos, boas conversas, com as mais variadas pessoas. O blog divide-se em itens e podemos seleccionar o que nos apetece na hora em que ali chegamos: cultura, duetos, lifestyle, negócios, política, sociedade, post-its, arquivo e um perfil da autora. Escreve:

“Há anos (são mais de 15 e menos de 20) que escrevo para jornais e revistas. Mais do que tudo, fiz entrevistas. Faço perguntas porque quero saber as respostas. Também porque é mais fácil a um jornalista freelance exercitar esse músculo. Mas pode ser que isto seja apenas uma parte, e não a mais significativa, da verdade. Talvez faça sobretudo entrevistas porque gosto de conhecer as pessoas num cenário de um para um, concentrar-me nelas, em quem são, ouvir a narrativa que fazem de si próprias”.

“Frequentemente perguntam-me qual foi a pessoa que mais gostei de entrevistar. Se foi um privilégio entrevistar o Plácido Domingo, por exemplo. Gostaria de citar o cirurgião plástico Ivo Pitanguy para responder a essa questão. “Algumas me decepcionaram, outras me enriqueceram, tudo isso faz parte da vida. Umas foram pacientes, outras foram amigas, outras foram circunstanciais… Mas estou sempre preparado para encontrar outra pessoa.” Pitanguy, como é sabido, operou “todo o mundo”. Mas disse-me que num momento de vulnerabilidade, não importa que a Clarice seja a Clarice Lispector. “Essas pessoas que você diz que poderiam ser importantes, quando estão dependendo, elas são tão dependentes quanto qualquer outra.” Todo mundo é, por instantes, um menino perdido numa noite escura. O importante é manter essa disponibilidade para o encontro. Com curiosidade. Sem preconceitos, sem juízos. Todos temos zonas de sombra e de glória. E estima e admiração não são sinónimos”.

Reconhecendo que o trabalho que fez, ao longo dos anos, tem irregularidades, Anabela Mota Ribeiro devolve-nos um olhar de época e um estilo de conversa: “Gosto de pensar que há uma identidade profissional que foi sendo construída, errando e acertando, à vista de todos, e que conto com a benevolência dos leitores para eventuais imprecisões e desnivelamentos.”

Todos os dias, existem novidades neste blog e, já que se atira às redes sociais, Anabela Mota Ribeiro já tem up-dates no twitter, para quem estiver interessado. Para quem gosta de jornalismo, aqui encontramos boas entrevistas, reportagens de viagem, crónicas e outras coisas. Para ir espreitando, portanto.