o exame
O miúdo sabe de Pessoa. Até sabe mais que muitos, já foi à Casa Fernando Pessoa, já disse alto e bom som para um mini filme uma carta que o poeta terá escrito a Ofélia, uma carta que começa com bebé, meu bebezinho. O miúdo sabe e, por isso, não hesita, ataca o exame a pensar que depois é o futuro. Seja ele o que for. Nem pensa na nota de português ou na injustiça da nota de português, pensa nos heterónimos e de como gosta de Álvaro de Campos. Não se lembra se leu ou não o Ano da Morte de Ricardo Reis, talvez sim. A sua caneta anda tão depressa quanto a sua mão o permite. Felizmente não faz parte do lote dos 22 mil alunos que não conseguiram fazer o exame. Para ele é um alívio. Está cansado. Cansado da pressão, do secundário, de dar descontos a este ou aquele. Quer crescer, mesmo sabendo que crescer é difícil.
A prova, mãe? Era difícil, devo ter um 17.

Parecendo um tanto quanto ridículo lamentar ter um 17, eu revejo-me nesse aluno, pois tendo em conta o peso dos exames nacionais na avaliação final da disciplina, um 17 faz descer uma nota final 19 ou 20 para um 18 (e foi precisamente isso que me aconteceu e me fez repetir o exame nacional de português na segunda fase para, finalmente, ficar satisfeita com o 18,2 alcançado na segunda batalha).