Crónica da Feira do Livro II


Patrícia Reis,

Há um grupo de mulheres na Feira do Livro que se destaca. As pessoas passam a vê-las partilhar histórias, as conversas não são cruzadas, são delas, há um bolo, risos, comentários, acontecimentos recentes. Uma adolescente observa num silêncio constrangido. Do outro lado, o sol esmagador e tirano andou a fazer das suas, mas pouco importa por se saber, assim sem grandes dramas, que as conversas se mantêm, num sítio ou no outro, os livros são diferentes, os leitores aparecem com coisas que nunca vimos e há ainda aqueles que nos intimidam a trazer para a feira o que já não existe em stock. Os sorrisos convivem com as farturas e, para alguns, há chã à Cardoso Pires, em sua homenagem, um copo de whisky que o José Francisco descobre e que lá traz com um sorriso algo felino, enquanto a Cecília se abana com um leque e se desdobra para que nada falta a ninguém, nem mesmo a mesa que pode perder o balanço, o piso é irregular.

O Pedro Correia lá está, animado, no acordo do desacordo ou no desacordo do acordo, a minha Pátria é a minha língua e, como se diz em Luanda, desconsegui de perceber este acordo e já sei que o senhor Pessoa escrever o livro do desasossego com c com cedilha, mas quem mais saberá e que importância terá tudo isto? Na verdade pouco ou muita, tudo depende da hora do dia e do meu estado de espírito, como o post é meu, a coisa fica por aqui. Dois beijos e um sorriso, olá Pedro, como estás? Que bom ver-te. Passo para o outro lado. Leio Leya. Leya na praia, na prisão, no carro, na cama, porra, leia sff e preferencialmente um dos meus livros ou dos meus amigos, por nos esforçarmos tanto e não sermos o Dan Brown e não queremos, atenção, não queremos… Nem por sombras, cinzentas ou outras. Essas não as vejo, sendo míope Deus é misericordioso comigo. Há um placard gigante que mostra o Papa Francisco com os seus sapatos pretos e as pessoas tiram fotografias. Afinal, está ali por alguma razão, é aproveitar. Olha, mãe, é o Papa. Na Feira do Livro de Lisboa, nem precisamos de ir a Roma, ah? Pois.

A Patrícia Portela trouxe sapatos de Antuérpia, o João Ricardo brinca com a minha triste história da senhora que perguntou: tem cancro, não tem? Decidimos todos, com a Inês e a Maria Manuel, que é uma boa frase para começar um livro. Depois recordamos todos os que têm e ainda os amigos que dizem que vêm à feira para comprar livros sobre essa mesma temática, dá-me um arrepio, prefiro o bolo de laranja da Cristina Carvalho ou um sorriso do jornalista do Jornal de Letras que todos tratam por Luís e eu por Ricardo. O tempo passa e passa rápido, o telefone perde-se. Caiu. Aparece o Nelson Sauté com a Ana Juliana, a sua mulher. Ele promete um livro para o final do próximo ano e a Cecília a sorrir, a dizer que sim, pois. E eu: és preguiçoso. O Nelson ri-se e fomos, a Inês e eu, para o outro lado e parece que ando a fazer piscinas, de lá para cá e de cá para lá, mas é mesmo assim. Um miúdo pequeno pede-me um autógrafo num livro da colecção O Diário do Micas, volto a pensar na falta de vergonha da Quidnovi, mas já não espero nada e o miúdo tem um sorriso lindo e uma t-Shirt com graça.

O Urbano Tavares Rodrigues tem uma fila que o aguarda e o filho vem, com os olhos cheios de mar, silencioso, perto da mãe. Marcello Mathias deve conspirar alguma coisa com o João Vasco, não ouvi nada. Mais lá para o fundo vejo o Miguel Carvalho e depois a entrada da Fernanda Serrano e a menina das farturas pisca-me o olho e nada disto está por ordem e eu não me ralo muito.

5 comentários em “Crónica da Feira do Livro II”

  1. Belo texto minha querida. E se eu te tivesse sabido lá desgarraria do meu poiso ao sol para te dar um abraço. Estou morta, melhor dizendo assada. Fui às 16h e saí às 18h para dar lugar à Clara Ferreira Alves. A vida é dura para quem escrevinha…

  2. Incompreensível para mim como pessoas que dizem amar os livros e os escritores passam por eles e os ignoram, com medo de fazer figuras ridículas, limitando-se a tirar uma fotografia de longe…
    O escritor só pode gostar (e ficar talvez emocionado) ou achar ridículo (e ficar feliz e divertido); de qualquer modo está ali para ser abordado e não para ser ignorado, digo eu, não sei.
    Se o leitor fizer uma figurinha ridícula (como a senhora do cancro, por exemplo) who cares anyway?
    Até pode ser inspiração para abertura de um livro ahahah!
    Antonieta

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