Leio que há trinta anos que não se consumia tão pouco.
Leio que a crise política não terminou e que a ministra das Finanças não devia aquecer o lugar.
Leio as regras da universidade para onde vai o meu filho mais velho, mil euros mais tarde.
Leio Amos Oz, por ter a graça de ter uma editora generosa.
Leio o livro de Vanda Anástacio, Antologia improvável, sobre a escrita das mulheres desde o século XVI até ao XVIII (edições Relógio de Água). Não mudou nada. Por muito que façamos um esforço, as mudanças são poucas e tudo é risco enorme.
Eu continuo a tentar. Seja lá isso o que for. Acho que aprendo às vezes. Outras tenho vontade de berrar com tanta estupidez junta.
Ao jantar, o meu filho mais novo não abre a boca, o mais velho age como os crescidos e eu tenho uma coisa no cabelo que não condiz com a minha idade, mas who cares?
Podia estar a escrever, a escrever um livro, a fazer tournees e a dizer coisas inteligentes, mas estou aqui por opção, por saber que sou um bicho do mato. Um bicho é uma criatura com algumas fragilidades e ataca antes de ser atacado.
Acho que é muito simples de entender. Para alguns, é impossível.
Eu sou impossível. E pior ainda por dizer que, tal como o Lobo Antunes, pois não escrevo como ninguém. Ninguém escreve ou se escreve é um copista, prefiro o original.
A falta de frontalidade e verdade perturbam-me.
A minha cabeça já só aguenta algumas coisas e ainda bem. Não tenho a menor paciência para a minha imagem no espelho e tão-pouco para os ditos amigos que me cobram as horas – sim, as horas – que não lhes posso dar.
O meu marido, muito calmo, sabendo que vive com alguém que é perigoso, que é desbocado, que precisa de dizer palavrões, não se incomoda. Creio que nada o incomoda. A morte, talvez. Temos tido muitas mortes. E muitas traições. Tentamos todos os dias falhar melhor, como escreveu o poeta, e até esta ideia está gasta.
O mundo é muito maior do que qualquer coisa que se possa deixar no rasto das redes sociais.
Nada disto tem qualquer importância. Está na minha cabeça e é para mim, nem sequer é para vocês. É um exercício de egoísmo. A escrita.
Como aquelas pessoas que abrem as janelas dos automóveis e colocam a mão para sentir o vento. O ritmo muda, a vida muda, o vento muda, o automóvel até pode parar. O pior é o pensamento.

Belíssimo texto sobre o cansaço que é estar vivo, neste lugar, neste momento, nesta nossa cabeça e no nosso coração. Neste inverno num verão que não chega. Nesta ausência de não se sabe bem de quê…
Abraço-te!