O cancro, na minha família, matou as duas pessoas que mais amei: a minha mãe e o meu filho. Ambos passaram pelo IPO.
O Miguel fez do Instituto a sua casa. Recebia o partido, os amigos e a família como se todo aquele cenário fosse normal e o convívio destas três categorias de pessoas tornou-se na coisa mais natural do mundo. A mim, esse condição retirava-me a intimidade com ele e, por isso, confesso, em certas alturas custou-me imenso. Beijar ou acariciar um filho na presença de pessoas que apenas conhecia da televisão, foi muito complicado. Mas teve o condão de me fazer estima-las.
A minha mãe, no início, sofreu bastante porque os tratamentos eram muito duros. Mas encontrou em Inglaterra, onde o meu irmão mais velho então estava colocado, o médico que a salvou, pelo que o IPO lhe foi menos familiar.
Falo disto porque sei o que representa, numa família, ter um dos seus membros com tal doença. E sei que é preciso falar dela, para que o medo não se torne silencioso. O que todos mais tememos não é a morte, porque essa é segura e garantida. O que todos mais tememos é o sofrimento. E é esse que faz a grande diferença entre o que era esta doença há trinta anos, quando a minha mãe a teve, e aquilo que ela é agora, quando o meu filho a viveu.
Ambos morreram com extrema dignidade. A minha mãe, entregando-se a Deus. O Miguel, entregando-se a nós. É capaz, afinal, de não ser muito diferente!


Entregou-se a nós ou a Deus. Sim, é a mesma coisa. Tens razão. A morte ronda-nos a casa e há o medo ou outro sentimento ainda mais atroz que é a ansiedade de viver o sofrimento do outro. Abraço-te eu daqui, sem longe ou distância
Comovente, a dignidade e a resistência do Miguel. Até ao limite. Um beijo muito amigo, Helena.
Um beijo enorme, minha querida Helena.
Citando Aquilino Ribeiro na obra Quando os Lobos Uivam (108) ” Deus é grande, mas a vontade do homem também não é pequena.” A vontade do Miguel, permita-me trata-lo assim, era enorme e as suas sementes germinaram em pessoas como eu. Apesar de o corpo, lamentavelmente, não estar entre nós, as suas ideias e os conselhos prevalecerão por muitos anos. E que ideias… Shadow
Quero cumprimentá-la por ter dado à vida seu filho; e em contrapartida e ele deu-nos a sua vida.
Celebremos:
http://www.youtube.com/watch?v=DFZxBvUMl G0
Querida Helena
Sei do que fala, ou melhor, penso saber, a dor quando perdemos quem nos pertence é uma dor imensa, sem peso ,nem medida – apenas o buraco que em nós deixou e a impotência perante o que não nos pertence. Não há bitolas, nem imagens, nem poesia, nem literatura. Não há nada a não ser o amor dos amigos.
Atravessei o ano de 2013 com um cancro, sofri, fui operada duas vezes, tive dores e senti-me a mais miserável das pessoas. Não sofri apenas as minhas dores, sofri as dores de quem esteve sempre a meu lado e me deu a mão quando, desamparada e impotente não sabia o fim desta história. Tenho dois filhos adolescentes e pais com oitenta anos, vivemos numa célula apertada e almofadada, gostamos muito uns dos outros, mas eu não sabia responder-lhes às perguntas e aos receios, nunca se sabe muita coisa sobre o cancro,apresar de ele saber muito sobre nós. Vivi maus momentos,perdi a coragem, pedi colo e confortei , mas sofri a espera do desenrolar da eficácia do tratamento e a dor da sua ineficácia. Neste momento, no meu caso especifico a única terapia é a prevenção, uma vigilância constante e uma dieta rigorosa, E, é tudo, mas não é nada-Todos os dias tenho mais um questão a colocar e uma dúvida a esclraecer, preciso de falar como
Minha querida Linda Cristina
O seu comentário deve ter excedido os caracteres permitidos e ficou cortado. Quer fazer, por mim, o favor de re-escrever o resto?
Obrigada!
(desculpe Helena,mas também não percebi o que aconteceu, vou retomar o texto no momento em que parei)
se nada tivesse acontecido, preciso de esquecer que um dia estive doente, preciso de ter uma visão trágica da vida, como diz uma amiga comum, preciso de seguir em frente e não pensar no resultado dos exames que terei de fazer, preciso de viver um dia de cada vez,
( haverá outra maneira de viver os dias?) como insistem em dizer-me, preciso de pensar que terei de fazer de cada dia um dia novo e inteirinho para ser ser vivido. Não é fácil, nada é fácil quando se usa a cabeça para pensar. mas tento não dar “muita confiança” a pensamentos mais tristes e afasto, com a ajuda dos amigos, as nuvens negras que vão aparecendo. Há dias mais tranquilos e dias mais compridos. Um dia atrás do outro, não é?
Aprendi a olhar para mim de outra maneira e a valorizar as vitórias mais pequenas, encontrei-me na escrita (ai, de mim!) e faço de pequenas vitórias grandes triunfos. Há dias que nem penso no assunto. Há dias que penso que foi tudo um pesadelo e há dias em que penso que todas estas pedras são degraus. Mas o melhor é pensar que estou a viver o que melhor que sei e que posso, que tenho todos os dias o Amor dos meus amigos e da minha família, acredito que na minha profissão sou respeitada e que os meus alunos gostam de mim, acredito ainda que tenho muita coisa para aprender e para fazer e aprender a fazer e fazer a aprender – não, não são jogos semânticos – é assim que penso.
O resto, qual resto?
Todos nós morremos um dia, certo?
( Tenho conhecido nos últimos tempos gente extraordinária, gente com vidas tão adversas, gente tão lutadora, pessoas admiráveis, que sempre estiveram no seu lugar eu é que nunca as tinha visto. )
Obrigada, Helena.
Um abraço.
Minha querida Linda Cristina
É assim exactamente que todos os que passaram por isso ou algo equivalente tentam fazer. Nunca o “viver um dia de cada vez” foi mais verdadeiro.
Todos os dias que passei com o Miguel começavam assim
“Obrigada meu Pai, por mais este dia em que ambos estamos vivos”.
Hoje e todos os dias desde que ele morreu digo
“Obrigada meu Pai por mais este dia que o sinto comigo”. E assim será, espero, até que seja altura de ele me vir receber e levar aos meus Pais. Porque será o Miguel, tenho a certeza, que me levará para junto dos meus!
Só hoje te li, acabo de chegar de férias. Sei do que falas, por mim própria e pelos meus. Beijo grande, querida guerreira.
A minha Mãe também morreu de cancro com extrema dignidade, a Mãe dos meus filhos também combateu um cancro da mama e uma das minhas irmãs teve e está permanentemente de vigia. Detestava e detesta o IPO, como qualquer hospital. Eu, por outras razões, sinto-me bem internado em hospitais e clínicas, sinto-me em paz e protegido. Só na família da minha ex-Mulher havia antecedentes de cancro, por isso nunca esperei que tal acontecesse. No final, o meu Pai que está a morrer como segundo AVC odeia repulsa mesmo hospitais, Confesso que de todas as doenças é o AVC que me procupa mais, em que se sofre ainda mais com a paralisia e isolamento do mundo exterior, mas é o que diz, a dignidade caracteriza e vale tudo e a aceitação da vontade de Deus e / ou do que a vida nos proporciona o mais importante. Bem haja.