Nem todas as mães devem sentir isto.
Digo eu.
Será preciso definir o “isto”.
Não sei o começo ou o fim, mas algures, num tempo que não se controla, os filhos surpreendem-nos por serem gente que desconhecemos.
Podemos estar numa situação social, num momento mais frágil, de doença, podemos até estar irritados. Os filhos chegam e desvalorizam. Ou desviam a conversa e percebemos, nesse instante, que a nossa importância é relativa, que se espera um certo recato, que uma mãe não usa o vernáculo como sempre usou – hábito de jornais, outros tempos – pois agora não fica bem.
Se eu fosse uma mãe como muitas que conheço dava um safanão, um raspanete, ficava ofendida, indignada. No meu caso, mando-os à merda para ver se percebem que minha vida existe para lá da deles. Ficam, é evidente, amachucados, não é suposto, uma mãe deveria ser outra coisa, um ser composto (e sem mudanças de grande monta), formatada, calada, sem opiniões sérias e fomentadas, preferencialmente uma mãe deveria cultivar, a partir de certo momento, uma invisibilidade qualquer para que os infantes, ou infantas, possam crescer na tranquilidade de não terem de dizer:
– Ah, pois, é a minha mãe.
O azar dos meus filhos é que eu não tenho jeito para o invisível, mesmo quando me esforço muito e, acreditem, há dias em que faço de papel de parede. Depois regresso e vem tudo ao de cima.
Afinal, como a minha mãe sempre disse, sou inconveniente. Não me parece que vá mudar.

Durante uma altura, a da adolescência, somos apenas aquela que os trouxe cá. Não uma pessoa inteira e com existência para além deles, mas a que deve continuar a existir num registo minimalista. Somos a que não acompanha os tempos, a que não percebe nada, muito menos a eles. Depois somos aquela de quem se querem libertar, porque querem passar férias com os amigos, estar com os amigos, e ter que conseguir isso é algo pelo qual escusavam de passar.
Mas, depois, voltamos a ser um apoio, aquela a quem querem dar uma novidade boa, a quem confidenciam uma preocupação, a casa de quem querem sempre voltar.
E nós temos que saber ir aprendendo o nosso papel, mantendo sempre a nossa identidade e ajudando-os a conquistarem a sua.
Não é fácil.
Um abraço, Patrícia. O seu texto é bom de ler: todas as mães se reconhecerão, certamente, nele.
🙂 beijo
Talvez o melhor caminho, se é que existe algum padrão standard que assim se possa definir, seja a simples compreensão e interiorização das limitações que cada um de nós tem, como indivíduo, no sentido da sua empatia com os outros; mesmo que isso inclua trole, progenitores, etc.. A base será sempre o nosso próprio ego, e nem mesmo os papeis definidos socialmente conseguem aplacar todas as pequenas e grande impertinências que nos definem.
Patrícia, se me permitires o marketing intelectual de ideias distintas, dá uma vista de olhos: http://tinyurl.com/coincidentia-opposito rum
Vou espreitar, obrigada:) beijos
Está muito bem feito. Sim, porque isto de mandar à merda é uma atitude bastante pedagógica e impede o uso do vernáculo. Já não estou de acordo andar à biqueirada e obrigar os infantes a colocarem-se de joelhos sem uma vocado (chamado) especial e de Alguém com a autoridade máxima.
Mandar à merda é um dever; e é também dever de qualquer infante dizer a seus progenitores: Não vou!, agora não me apetece, porra!
Perante uma reacção destas estamos diante de expressões gramaticais exdrúxulas que conduzem infantes e progenitores a um saudável debate pelas novas regras ortográficas, vincando em absoluto a sua adesão ao palavreado nacional.
Mas mais ainda, é necessário compreender o sentido da pedagogia:
Um dia um cavalheiro apresentou-se ao balcão de um banco para levantar o cheque que tinha sido emitido à sua ordem. O balconista solicita o BI e a assinatura no verso do cheque ao apresentante. Este diz que não tem nada que fazer isso e que pretende o dinheiro. Trava-se então um longo assina e não assino, com a fila aumentar.
Nisto um dos que estavam na fila, esgotado com esta teimosia, dirigi-se ao teimoso e diz:
Assina a merda do cheque seu filho da p*** ou rebento-te com os corn**.!!!
De imediato o teimoso vira-se para o balconista e diz:
Tá vendo, este senhor é que explica muito bem!!!!
Por isso afirmo: pedagogia, sim, mas é necessário escolher muito bem os termos que se usam para comunicar, pois não vá haver mal entendidos e traumas à mistura.
Nota: Este comentário deve-se à expresa solicitação da nossa vizinha Gui Abreu de Lima