Parabéns Ivone!
Patrícia Reis,
Há uns anos, um dos meus filhos disse-me que não o tinha educado para ser, passo a citar, “salsicha nobre”.
Por causa disso, na sua opinião, era difícil integrar-se. Pedi desculpa e acrescentei que aos vinte anos talvez me agradecesse. Ficámos assim.
Passou algum tempo, o rapaz, quase homem, entra na faculdade e, três semanas depois do início do curso, anuncia que está infeliz, que quer sair, que quer escrever, que quer ir à procura de um outro curso, não sabe qual nem onde.
Voltei a imaginar a dita da lata das salsichas e senti-me bastante culpada. Isto durou um minuto e meio, metaforicamente (é como quem diz uns dias e umas noites).
Não sou apologista da ida generalizada para a faculdade, nunca fui. Todos os anos, saídos das universidades, 60 mil pessoas enfrentam o mercado de trabalho com desalento. Ao mesmo tempo, não tendo uma bola de cristal, sempre pensei que não devemos ter um excell para a vida dos filhos e, em consequência, sendo solidária, dizendo umas coisas aqui e ali, deixei que a escolha fosse individual. Isto implica responsabilidade, alguma capacidade de ouvir os outros e até uma certa pesquisa, para saber onde se vai meter.
Três semanas volvidas, a faculdade tornou-se um tormento. Ora, a vidinha também é um tormento. Digo eu. E reforço que o melhor será não olhar para o copo como meio cheio ou meio vazio, dar graças por ter um copo. A criatura responde que o dele se partiu. Se é o caso, há pelo menos 90% da população universitária que ficou sem trem de cozinha, pensei eu com alguma ironia.
É evidente que pode sair, mudar de curso. Até de país, embora não o queira fazer. Convém é saber que a vidinha, na generalidade, traz dissabores e ter duas cadeiras menos interessantes não é caso para mandar um curso às urtigas. Digo eu, outra vez.
Eventualmente, ele mandará o curso às urtigas e tudo bem. Pelo menos para mim. Para ele, o caso é diferente. Quer mesmo fazer uma licenciatura e depois um mestrado e um doutoramento, já que pode dar aulas a seguir. É o plano. Dele. Mas o copo partiu-se e ele não cabe na lata.
O que faz uma mãe? Não faço a mais pequena ideia.
Diz um jornal italiano que este livro é escrito de forma “forte, complexa e obsessiva, como Saramago”. Isso não sei, nem me importa muito tecer considerações sobre tal. O certo é que este livro que estou a reler, além de ter ganho o Prémio União Europeia da Literatura (2010), autoria de Goce Smilevski, é bem escrito, intrigante e dá uma outra perspectiva sobre Freud, a família, o tempo da guerra.
Na contracapa lê-se: Terá sido Sigmund Freud responsável pela morte da irmã num campo de concentração?
Não é um livro sobre um campo de concentração, antes uma história sobre uma mulher que não ficou para a História. E, sim, Freud podia tê-la levado para longe de Viena e do nazismo – estamos em 1938 – mas das 16 pessoas autorizadas preteriu a irmã e levou o cão. Goce Smilevski , o autor, nasceu em 1957, a actual Macedónia, estudou em Praga e na Universidade de Skopje, onde trabalha no Instituto de Literatura. É autor de vários romances e peças de teatro. A ler.
O meu filho diz – com o ar descontraído de quem tem 14 anos – que vai fazer um trabalho sobre Jose Luis Borges. Conhecendo a criatura, o filho, não me espantaria se tivesse dito:
Vou fazer um trabalho sobre Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo.
Bom, que é o escritor argentino, eu percebi de imediato. O que não percebi foi a escolha e como é que ele tinha lá chegado. Respondeu-me:
Gosto da forma como ele pensa.
Mantive o silêncio.
Falaram-me de um video de uma revista semanal que foi fazer um questionário à porta das universidades. Perguntas como: quem é o Presidente da UE? Quem pintou a Mona Lisa? Quem escreveu os Maias? É triste dizer que o video só provoca aquilo a que se costuma designar por “vergonha alheia”. Pelo sim, pelo não, perguntei as mesmas coisas ao miúdo cá da casa, ele respondeu tudo direito, desta vez com ar de enfado. Depois perguntei por 3 filósofos e ele respondeu Kant, Aristóteles e Montesquieu. Ok. Tudo bem. Fomos ao hipermercado, carregámos com as coisas para casa, jantámos na cozinha a ouvir o novo disco de Sting e ele perguntou:
Como é que sabemos que o amor é mesmo amor?
Eu não consegui responder.
‘Perspective betrays with its dichotomy:
train tracks always meet, not here, but only
in the impossible mind’s eye;
horizons beat a retreat as we embark
on sophist seas to overtake that mark
where wave pretends to drench real sky.’
‘Well then, if we agree, it is not odd
that one man’s devil is another’s god
or that the solar spectrum is
a multitude of shaded grays; suspense
on the quicksands of ambivalence
is our life’s whole nemesis.
So we could rave on, darling, you and I,
until the stars tick out a lullaby
about each cosmic pro and con;
nothing changes, for all the blazing of
our drastic jargon, but clock hands that move
implacably from twelve to one.
We raise our arguments like sitting ducks
to knock them down with logic or with luck
and contradict ourselves for fun;
the waitress holds our coats and we put on
the raw wind like a scarf; love is a faun
who insists his playmates run.
Now you, my intellectual leprechaun,
would have me swallow the entire sun
like an enormous oyster, down
the ocean in one gulp: you say a mark
of comet hara-kiri through the dark
should inflame the sleeping town.
So kiss: the drunks upon the curb and dames
in dubious doorways forget their monday names,
caper with candles in their heads;
the leaves applaud, and santa claus flies in
scattering candy from a zeppelin,
playing his prodigal charades.
The moon leans down to took; the tilting fish
in the rare river wink and laugh; we lavish
blessings right and left and cry
hello, and then hello again in deaf
churchyard ears until the starlit stiff
graves all carol in reply.
Now kiss again: till our strict father leans
to call for curtain on our thousand scenes;
brazen actors mock at him,
multiply pink harlequins and sing
in gay ventriloquy from wing to wing
while footlights flare and houselights dim.
Tell now, we taunt where black or white begins
and separate the flutes from violins:
the algebra of absolutes
explodes in a kaleidoscope of shapes
that jar, while each polemic jackanapes
joins his enemies’ recruits.
The paradox is that ‘the play’s the thing’:
though prima donna pouts and critic stings,
there burns throughout the line of words,
the cultivated act, a fierce brief fusion
which dreamers call real, and realists, illusion:
an insight like the flight of birds:
Arrows that lacerate the sky, while knowing
the secret of their ecstasy’s in going;
some day, moving, one will drop,
and, dropping, die, to trace a wound that heals
only to reopen as flesh congeals:
cycling phoenix never stops.
So we shall walk barefoot on walnut shells
of withered worlds, and stamp out puny hells
and heavens till the spirits squeak
surrender: to build our bed as high as jack’s
bold beanstalk; lie and love till sharp scythe hacks
away our rationed days and weeks.
Then jet the blue tent topple, stars rain down,
and god or void appall us till we drown
in our own tears: today we start
to pay the piper with each breath, yet love
knows not of death nor calculus above
the simple sum of heart plus heart.
Aqui está o regresso ao jornalismo, ou a uma forma de jornalismo: biografia de Simone de Oliveira que escrevi com imenso gosto, por ser ela, por ser um convite da Matéria-Prima, por saber que uma das melhoras coisas do mundo é uma boa conversa. A partir de dia 17 estará nas lojas, acho eu, lançamento na Fnac do Chiado dia 31. Espero que gostem, eu ri, chorei e aprendi muito. Aprende-se a ouvir os outros.
A escola estava cheia, muita gente nova, famílias com crianças a desatinar, chuva e depois a tristeza de ver a má informação e organização numa freguesia que se quer diferente, dinâmica.
Ao fim de uma hora e pouco, uma senhora respondeu à funcionária da junta: “Ah, não é aqui? Pois, da última vez foi aqui. E eu não sei onde é a escola Manuel Damásio, já se faz tarde, os miúdos precisam de almoçar. Voto na próxima.”
Como esta senhora, muitos outros foram de abalada, indiferentes ao apelo ao voto, indiferentes à ideia de cidadania, de democracia, do que foi conquistado há quase 40 anos.
Eu estive, alegremente, em duas secções de voto e depois, fiquei numa secção diferente daquela que julguei certa, mas votei.
Nos três papéis. Três cruzes, nada de bonecadas ou asneiras. Senti-me quase crescida.
O país tem mais escritores por metro quadrado do que soluções para a crise. Disso todos sabemos. Há sempre um amigo, um tio, um primo, um antigo colega que tem “um livrinho”. Eu sou a pessoa mais burra do mundo, incapaz de rejeitar seja lá que livrinho, vou lendo, vou dizendo da minha justiça, sempre de forma correcta (acho!) e depois levo nas trombas. Ou seja, se ler um capítulo de um livro e apontar algumas questões pertinentes, recebo um email ofensivo e de um calibre que me desarma. Porquê? Por ser burra, claro. Pois, fiquei a saber que não sei ler, que acho muita coisa sem achar nada e que não sou digna de grandes alturas (seja isso o que for). Assim, sem mais demoras, aviso a navegação que a minha casa de edição, gratuita, com horas a ler alto manuscritos alheios, muitas vezes em situações pouco simpáticas, fechou as suas portas. Os meus amigos que são escritores são escritores, irão compreender isto muito bem. Os outros, por favor, não se ofendam, limitem-se a bater a outra porta. Parece-me que o escritor é aquele que não precisa de comer ou ter famíia. Está disponível, importa que esteja sempre disponível, caramba, há o bem maior do povo, por isso, o escritor que se faça à vida, mesmo que esteja muito doente, ou muito velho, ou muito qualquer coisa, que importância tem? Não, não, o escritor escreve, revê, opina, fala gratuitamente em escolas e bibliotecas, paga do bolso portagens e outras ninharias e, no fim, leva nas trombas. Como diria a minha avó: irra!