Eles andam aí


Patrícia Reis,

O país tem mais escritores por metro quadrado do que soluções para a crise. Disso todos sabemos. Há sempre um amigo, um tio, um primo, um antigo colega que tem “um livrinho”. Eu sou a pessoa mais burra do mundo, incapaz de rejeitar seja lá que livrinho, vou lendo, vou dizendo da minha justiça, sempre de forma correcta (acho!) e depois levo nas trombas. Ou seja, se ler um capítulo de um livro e apontar algumas questões pertinentes, recebo um email ofensivo e de um calibre que me desarma. Porquê? Por ser burra, claro. Pois, fiquei a saber que não sei ler, que acho muita coisa sem achar nada e que não sou digna de grandes alturas (seja isso o que for). Assim, sem mais demoras, aviso a navegação que a minha casa de edição, gratuita, com horas a ler alto manuscritos alheios, muitas vezes em situações pouco simpáticas, fechou as suas portas. Os meus amigos que são escritores são escritores, irão compreender isto muito bem. Os outros, por favor, não se ofendam, limitem-se a bater a outra porta. Parece-me que o escritor é aquele que não precisa de comer ou ter famíia. Está disponível, importa que esteja sempre disponível, caramba, há o bem maior do povo, por isso, o escritor que se faça à vida, mesmo que esteja muito doente, ou muito velho, ou muito qualquer coisa, que importância tem? Não, não, o escritor escreve, revê, opina, fala gratuitamente em escolas e bibliotecas, paga do bolso portagens e outras ninharias e, no fim, leva nas trombas. Como diria a minha avó: irra!

3 comentários em “Eles andam aí”

  1. a Patrícia fez-me sorrir.

    a Cultura tem destas coisas, faz com que muitos “apetites” se tornem realidade.

    nós somos culpados, deviamos ensinar a “autocrítica” em casa, aos nossos filhos (na escola não se faz muito isso…), para pelo menos não fazerem figuras muito tristes.

    mas para isso é preciso que também a pratiquemos, não tenhamos a mania que o nosso filho era o único que ía a marchar bem na parada. 🙂

  2. Hoje em dia, todo o gato sapato escreve um livro contando a sua história de princípio de vida, sim princípio de vida, contando o que lhes aconteceu até então. Para agravar, temos governos a quem a cultura pouco diz ou quase nada. Interessa um povo menos informado ou que leia banalidades. É o que temos!…….

  3. Bom dia,

    O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

    Atenciosamente,

    Catarina Osório
    Gestão de Conteúdos e Redes Sociais – Portal SAPO

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