Poesia para domingo


Patrícia Reis,
«Animais doentes as palavras
Também elas vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos de conta que fazem de conta
Pequiníssimas pulgas de uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil de
De manejar de lançar de provocar
De reunir
de fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves na solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só do tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou diamante
O minuto rídiculo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Catava das entranhas ociosas.»

Alexandre O’Neill in ‘No Reino da Dinamarca’, 1958. (obrigada Margarida por mo recordares)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *