O balanço do ano


Patrícia Reis,

Este ano, o atelier 004, a empresa com a qual durmo (sim, que é uma espécie de casamento) há cerca de 17 anos viveu os seus momentos maus e momentos bons. Os bons estão centrados, em especial, nas pessoas. Os maus também.

Em retrospectiva, depois de ter acreditado que estava a viver o final de um mundo que me deu tanto trabalho a construir, o atelier sobreviveu.

Melhor: ergueu-se com uma dignidade maior graças à equipa e aos apoios de amigos e família.

Não houve espaços para grandes psicoterapias de grupo, lamúrias ou considerações sobre traições, roubos, mentiras e até acusações de bruxaria. Nada disso.Foi só andar para a frente (até por saber que eu cumpro com os meus compromissos e não tenho avenças chorudas com nenhuma empresa, nunca tive, ao contrário do que se possa dizer ou pensar).

Como eu fui criada por um senhor que acreditava piamente que é urgente ensinar a bondade, ouvir o outro e sonhar com uma ilha no Pacífico, mesmo que se termine em Cacilhas, virámos o mundo ao contrário, trabalhos que nem cães, recuperámos clientes, tivemos boas ideias e até conseguimos fazer mais uma edição – a 51ª – da Egoísta.

Uma coisa é certa: se a crise existe, nada está fácil, há pessoas muito estúpidas, o avesso também anda por cá e com força tripla. Portanto, para quem esteve connosco, bem hajam. Para quem nos mandou bugiar e nos deixou numa alhada, da qual saímos rapidamente, espero que estejam a ler isto e a pensar que, afinal, sempre recebemos o que damos.

Posto isto, meus caros amigos, hoje é um dia especial, o meu tio avô faria anos e sem ele, eu seria outra pessoa.

Escapei às agruras do frio de Lisboa e cheguei à chuva do Rio de Janeiro. Volto para o Natal. Tenciono consumir o maior número possível de vitaminas de abacate:) Dizem-me que choveu desalmadamente nos últimos dias. Não me importa. Viemos em viagens que não pagámos e estamos no melhor apartamento do mundo, por termos uma amiga SENSACIONAL (obrigada, Paula!). Depois de um ano a ver como é que tudo se resolveria, é um alívio chegar aqui. Que venha 2014, estamos preparados, somos gladiadores, podemos até fazer o pino. Fazemos é o pino com imensa pinta. Se não se importam, este post é para a minha equipa. Eles, mais do que ninguém, merecem.

Conferência sobre Portugal Agora, ideias para o país


Patrícia Reis,

Eu ia ler isto hoje no pavilhão da ciência no âmbito do evento Portugal é Agora, organizado pelo Fernando Alvim, depois improvisei:)

A grande diferença entre ser-se uma pessoa – ou povo culto – não está no dinheiro, está na cultura geral. Dito isto, frase que ouvi uma vida inteira de um tio autodidacta que nunca teve a oportunidade de ir à escola, mas que aprendeu a ler e sabia distinguir as suites de Bach, posso ser acusada de falta de originalidade já que a ideia que trago é quase – reforço o quase – banal.

Este ano o meu filho mais velho foi, com 17 anos, para a universidade e, como todos os adolescentes, detesta e não compreende por que carga de água é que o sistema de ensino o anda a castrar há anos. É a versão dele. Não me admira, eu tive o mesmo sentimento.

Agora, quase a fazer 43, posso dizer sem qualquer sentimento de amargura: abençoada educação que tive. Tudo se resume a isto. À educação.

Querem mudar o país? Força.

Mas temos de mudar a forma como a educação está integrada nas famílias e nas escolas. Começo pelas famílias por saber que a maioria dos miúdos não tem os suportes que deveria ter, nem as possibilidades que eu tive.

O meu tio-avô, por se achar, porventura, em desvantagem, achou por bem enfiar-me num caldo de educação e cultura semelhante à sopa da pedra. Sim, porque a educação, ou a cultura, não se resume a saber um canto dos Lusíadas ou a conhecer Bach ou a não responder, como sucedeu no início deste ano lectivo, à porta das universidades, que Leonardo di Caprio pintou a Mona Lisa.  A educação implica saber que os gestos de cidadania são uma forma de estar em sociedade e que podem contribuir para mudar o mundo. O racismo existe e é preciso falar dele. Os abusos nas famílias são, estatisticamente, assustadores e a estatística não mostra tudo. De Janeiro a Maio deste ano, 27 mulheres foram mortas pelos maridos. Há miúdos que passam fome e há uma comunidade de sem abrigos, mesmo aqui ao lado, na Gare do Oriente, onde já não se vêem apenas os drogados, os alcoólicos, vêem-se famílias.

Mudar o país? Começa em casa. Começa por sabermos viver sem medo e sem nos escudarmos no anonimato para apresentar queixa. Ou, se preferirem, passa ainda por não ir para as redes sociais mal dizer tudo e todos. Os portugueses são, por reputação, pessimistas. É um facto. Não aprendemos a celebrar o sucesso do outro e, nos dias que correm, tão pouco sabemos ter tempo para o outro ou simplesmente para ouvir. Educar também é isto. Ouvir. Explorar. Deixar falar. Não ter planos para o futuro dos filhos que não são a nossa folha de excell.

Educar não é o papel exclusivo das famílias, os miúdos estão no mundo e, nos dias que correm, têm mais acesso à informação do que alguma vez tiveram. Tudo está disponível. Uma mãe, um pai, não faz ideia do que se passa na cabeça de um adolescente. Os adultos são mais previsíveis, portanto eles dão-nos a volta com facilidade. Mas, voltando à educação, não sendo exclusivo das famílias, teremos de aceitar que não é uma tarefa que possa ser entregue a cem por cento aos professores. E não me importam os maus professores, há maus professores, maus pais, maus jornalistas, maus escritores, maus homens do lixo. Mas há os bons. A educação eficaz é um compromisso entre a família e a escola e, uma vez na escola, os miúdos são expostos a realidades distintas.

Há dois anos, numa conversa mais séria, fui acusada de não educar os meus filhos para serem salsichas nobre. Eles não encaixam no padrão. Eu também não encaixava. Quando a acusação me foi feita, por um adolescente, meu filho, pois limitei-me a dizer que sim, sim, ok, mas se tivermos de voltar atrás, faço tudo como fiz, mal ou bem, e aos 20 anos, com um pouco de sorte, o dito rapaz fará o favor de me agradecer. Ou queixar-se ao psiquiatra.

 

 

Nós, nascidos na década de 70, fazemos parte da geração que não fez o 25 de Abril, temos uma democracia muito nova do ponto de vista histórico, são apenas 40 anos. A única vez que nos manifestámos antes da Troika? Não se lembram? Foi por Timor-Leste. Portugal saiu à rua por um país que abandonou em 1975. Um dos países mais jovens do mundo. E se tivesse que  fazer um país de novo, e no nosso caso é uma utopia e até por termos as fronteiras mais antigas da Europa, continuaria a apostar fortemente na educação.

Porque a escola é o espaço mais democrático que temos: todas as crianças têm acesso e direito à educação, a escolaridade obrigatória é finalmente de doze anos, os mesmos conhecimentos e valores são ensinados a todos.

A democracia começa na escola, aí onde nos são dadas as ferramentas essenciais para o desenvolvimento intelectual e social dos jovens.

Independentemente da classe social, do estatuto económico, da religião dos pais, da etnia, todos têm acesso à educação.

Dentro da escola, todos os alunos são iguais e aprendem a viver em comunidade.

A partir dos anos 90, a escola acelerou o seu processo de democratização, começado anteriormente, após o 25 de Abril: turmas em que se aprende consoante as capacidades, a ritmos diferentes, a educação centrada no aluno.

Criaram-se os territórios de intervenção prioritária onde, à semelhança de outros países da Europa, nas zonas de maior carência económica, o

investimento é ainda maior e mais personalizado.

A educação de adultos estendeu-se a todo o país, não apenas para tirar a 4ª classe obrigatória para a carta de condução, mas para aprender a ler e escrever, para progredir no emprego, para acabar com o fosso entre pais e filhos.

Pela 1ª vez, a percentagem de analfabetismo desceu dos 2 dígitos que caracterizava o nosso país.

 

Mas é preciso não desinvestir, o trabalho em educação exige que não haja retrocessos, pode perder-se em curto espaço de tempo o trabalho das últimas 3 décadas.

 

Em resumo: O que importa? Não se pode só criticar, tem de se dizer que o papel da escola na construção da democracia é essencial, assim como na luta contra a violência, na construção de uma ideia de paz, liberdade, cidadania e solidariedade. Ter uma boa caixa de ferramentas para o mundo e, naquilo que me respeita, não mandar as crianças pensar no futuro num outro país já que este, apesar do escárnio e mal-dizer, dá cartas desde o desporto à ciência, da literatura ao património. Ou seja, somos ou não somos uma boa sopa da pedra? Parece que somos.

a vidinha


Patrícia Reis,

Todos sabemos que isto está mau. Até os miúdos mais pequenos sabem que isto está mau. Pior fica quando ouvimos barbariedades.

Eu ouvi: “a cultura não interessa para a promoção do país, o que importa são as empresas, promover as empresas lá fora e, já agora, não me fale de escritores.” Posto isto, fiquei calada, como é bom de ver.

Temos as fronteiras mais antigas da Europa. Temos escritores e escritoras maravilhosos, poetas e poetisas. Como temos músicos, actores, etc e tal. E temos empresas e um mercado que está como está. A identidade nacional é feita pela cultura, nos vários âmbitos, ou estou enganada?

Carta aberta


Patrícia Reis,

Caro Cristiano Ronaldo, não percebendo eu nada de futebol e na certeza de que nunca lerá esta mensagem, venho por este meio pedir, sff, que no Natal compre apenas e só livros de autores portugueses. Porquê? A Literatura é um dos grande valores nacionais e os escritores merecem.
Agradecida, Patrícia Reis

(deixei na página de fãs do senhor, aquela que tem milhões, acham que estamos cheios de sorte ou que sou só parva? Bom é sexta-feira, posso ser parva)

da total ignorância futebolística


Patrícia Reis,

Não perceber de futebol é quase tão mau quanto não beber álcool, ou seja, ninguém entende. No caso da bebida podemos, em desespero, alegar que somos dos alcóolicos anónimo, mesmo não sendo o caso. Com o futebol, a música é outra. Ora, ao fim destes anos arranjei alguns truques. Um deles, que funciona muito bem, é dizer que sou do Belenenses. Ninguém se aborrece comigo, é como ser alguém simpático e ponto final, não há discussão. Numa conversa com uma jornalista parlamentar, adepta do Benfica, disse – de forma muito cândida, posso garantir – que não sabia (agora já sei!) quem era o Rui Costa. Ela respondeu de imediato e em tom severo: Quem não sabe quem é o Rui Costa, não é português.

Posso agarrar-me à costela espanhola, que a tenho, até no nome, mas isso pouco importa. A verdade é que só percebi quem era o Figo quando apareceu num prédio junto à Segunda Circular num anúncio de uma marca de café.

Durante 13 anos vivi com um portista e as pessoas diziam-me, muitas vezes: então? ontem lá te safaste, hã? não levaste pancada!

Posso garantir que estas coisas eram ditas em jeito de brincadeira e eu não lhes achava grande graça.

Separei-me. Casei com um benfiquista, desses que tem cadeira no estádio, cartão de sócio e mais uma série de coisas. Vivo só com homens, tive dois filhos, os dois benfiquistas. O meu irmão é benfiquista. Isto fez com que eu escrevesse um livro infanto-juvenil sobre o Eusébio e a taça e o treinador húngaro Bela Guta, na colecção Diário do Micas. Espero que seja um sucesso, mas não deve ser, caso contrário a editora já me teria dito alguma coisa.

A minha avó, do alto dos seus 80 anos, é do Sporting e ouve os relatos na rádio (não perguntem). E eu lá vou dizendo que durante o jogo há coisas que preciso mesmo de fazer: lavar roupa, escrever um texto, rever outro, qualquer coisa serve.

Ontem parece que houve um jogo importante. Estou habituada, todos os jogos têm a sua importância. Ok. Vi um filme e fiquei na paz do quarto a ver como o jornalismo à americana é uma treta, o filme também era uma treta. Depois fui bombardeada com o fenómeno Cristiano Ronaldo. Atenção, não tenho nada contra o senhor, decerto que é o melhor jogador do mundo, mas não sei nada sobre o senhor, nem sequer sei onde joga. Sei que é português, que joga bem, que vem de uma família humilde e que foi para a academia do Sporting (disse-me a minha avó) com 11 anos vindo das ilhas. Ok. Até aqui, tudo bem. Posto isto, parece que é muito importante que o Cristiano Ronaldo tenha feito o que fez, a bem da nação e do futebol, ainda bem, folgo em saber. Mas, desculpem, quem é o Messi?

Blogue da semana


Patrícia Reis,

O blogue chama-se Rodrigo Prazeres Saias (rodrigosaias.blogspot.com) e é um êxtase para os olhos. O melhor dos ilustradores da sua geração, na minha opinião – que vale o que vale – mas é a minha. Além de ilustrações para revistas, jornais, campanhas, livros escolares, capas de livros, o ilustrador e designer, dá-nos ainda uma boa ideia de como surgem as ilustrações e qual é o seu processo criativo através de textos da sua autoria.

Uma imagem vale mais que mil palavras? Pois, será um clichhé. Uma ilustração é um trabalho artístico de grande valor, é uma forma de arte que devíamos considerar e encarar com mais interesse. Vão lá ver, pode ser que concordem comigo. E sim, não sou imparcial, sou fã do Rodrifgo. Azarinho… ou não:)