A ilha de Vera de Vilhena


Patrícia Reis,

Existem muitas ilhas dentro de nós.
Há mais de vinte anos que navego em águas calmas ou atormentadas com a Vera de Vilhena.

Nenhuma de nós será “o homem do leme” e o que nos separa também é o que os une, sendo ambas muito diferentes.

É na diferença que se construiu uma amizade que é um pouco mais do que isso, já que lhe roubei, salvo seja, uma parte do filho, o Hugo, de quem digo sempre que é tão meu quanto dos pais. Um abuso da minha parte? Sem dúvida.

Os livros sempre nos uniram. Trocamos ideias, lemos as mesmas coisas, ela mais crítica em relação a umas, eu face a outras.
Vivemos em ilhas diferentes, frente a frente.

Quando a maré vaza, podemos chegar uma à outra. No encontro, temos então os livros que nos salvam, essa ideia de que a escrita é terapêutica, uma dimensão de sonho que pertence exclusivamente à Vera e um pragmatismo do meu lado que muitos consideram arrogância e que, para o caso, me é indiferente.

Ela é uma mulher doce, eu sou frontal.

Ela gosta de descrever, eu gosto de escrever no osso.

Eu li ficção científica na adolescência, ela rebolou nos encantos de uma qualquer paisagem bucólica ou numa palpitação.
Podíamos – postas as coisas desta forma – não ser tampa do mesmo tacho, tacho da mesma panela. Mas somos. Curiosamente.
Por sabermos que o não reconhecimento do que uma gosta, não afecta o que nos liga, a tal amarra que é feita de tanta coisa que a vida vem trazendo para a costa: pedaços de festas, lágrimas, fotografias, momentos estranhos, risos e, claro, os filhos, o dela e os meus.

Uma vida inteira a compartilhar com a Vera as coisas da escrita, serviu para eu entender algo que, para muitos, pode ser básico: somos leitores distintos, escritores distintos, porém podemos partilhar e celebrar os mesmos conceitos básicos de humanismo.
Além disso, sem punhos de renda, concordamos que discordamos com imensa facilidade, o que, nos dias que correm, é muito raro.

Cereja no topo do bolo: celebramos o melhor que nos acontece sem a mesquinhez e inveja que por aí cresce e dá cabo de tanto. Não somos felizes uma com a outra, nem deixamos de ser, somos.

E só isso – ser – é suficiente.

Assim, há dez anos, ou pouco mais, que este livro me persegue como tantas outras coisas da vida da Vera e não há mal nenhum em dizer que, ao fim desta temporada larga, ver o livro pronto para ser partilhado é um alívio. Para mim seria sempre mais um livro, para a Vera é um passo em frente que lhe pode permitir, se ela assim o desejar, escrever outras coisas.

Enquanto esta ilha estivesse num qualquer limbo, dificilmente a Vera escreveria outra coisa. Pode parecer estranho para quem não escreve, para quem não é atormentado com personagens que, de forma algo absurda, parecem ter vida própria.

Estive doze anos para publicar o meu primeiro livro, uma novela mínima, de 124 páginas. Ganho então no campeonato da espera por dois anos. Pouco importa, a escrita não é uma competição, ao contrário do que muitos possam pensar.

Levei o tempo que tinha de levar, sabendo que não escreveria mais nada enquanto aquela coisa, aquele conjunto de personagens, não estivesse entregue. O mesmo se passa com este livro da Vera que, sendo uma fantasia, pode ser lido em registos vários, como uma metáfora dos dias que vivemos, como a tentativa de nos iludirmos, como fazer perguntas é sempre mais redentor do que aceitar o que nos colocam à frente. É um bom livro, portanto.

Como facilmente compreenderão, não posso, nem devo, contar a história. Ficariam a perder e não seria justo. Os livros merecem ser lidos com atenção e são um bilhete de viagem extraordinário.
A Vera leva-nos pela história com os seus cuidados, sem pressa, colocando pequenas “cenouras” aqui e ali, sendo impossível não querer ler mais. Queremos sempre mais quando uma história é boa, não é?

Pouco importa dizer que a Vera escreve bem, não é relevante neste contexto, é o que se espera de alguém que apresente um livro: ai que bem que a autora escreve.

E escreve.

No entanto, o crucial é o entendimento da narrativa, a forma como esta se desenrola, aquilo que distingue a Vera de outros autores. E ele há tantos! Devemos ser o país com mais autores por metro quadrado. Uns bons, outros maus.

O que importa? Não é apenas saber articular as palavras ou ter uma boa história, é fazer com que a verdade da mesma seja perceptível, que o leitor se possa sentir incomodado, como diria Agustina Bessa-Luís, ou possa apenas identificar-se com um sentimento.

Ler um livro é combater a solidão e, nesse sentido, o escritor é um gladiador, afasta as coisas más e dá-nos outras para pensarmos. Na fantasia, dirão alguns, a felicidade está garantida. Pode ser. O que importa é esta viagem que o escritor nos oferece e a generosidade com que o faz.

Quando se escreve, e se é mulher, correm-se mais riscos que a maioria. Não é uma reflexão, infelizmente sei bem do que falo.
O risco é colocarmos o nosso nome na capa, existir uma exposição que significa que alguém pode arruinar o nosso trabalho em três linhas ou, pior ainda, num sistema altamente injusto de estrelas num jornal de esquina. Claro que isto acontece se o livro for parar às mãos dos críticos – basta um – que o leia com atenção. Ou nem por isso.

Será que importa?

Todos gostamos de elogios, porém é de salientar que o mercado está saturado e que poucos são os livros que são festejados como o deveriam ser. Esta é uma das razões que leva as pessoas a reunirem-se em lançamentos e tertúlias, não só para estar mais próximo do autor, conhecer melhor, mas também para dar carinho. Escrever, embora um acto solitário, também é um dever de reciprocidade.

Por isso, nesta ilha que agora irão visitar, entre talismãs e tarefas antigas, ideias e magias, façam o favor de ver o trabalho de quem dedicou tanto tempo a pensar que é possível, apesar das amigas que se tem, que o final seja feliz ou, no limite, que o final está aberto a todas as boas possibilidades.

Nuno Júdice


Patrícia Reis,

E pergunto-te: que outras palavras queres?

A música sonora de um ócio?

O espesso manto com que o veludo se escreve?

O fundo luminoso do azul?

Poderia dar-te todas as palavras na caixa do poema;

ou emprestar-te o canto efémero em que se escondem do mundo.

Mas não é isso que me pedes.

E a vida que pulsa por entre advérbios e adjectivos esfuma-se depressa,

quando procuramos seguir a linha do verso,

O que fica?, perguntas-me.

Um encontro no canto da memória.

Risos, lágrimas, o terno murmúrio da noite.

Nada, e tudo.

Eusébio por Manuel Alegre


Patrícia Reis,

Havia nele a máxima tensão

Como um clássico ordenava a própria força

Sabia a contenção e era explosão

Não era só instinto era ciência

Magia e teoria já só prática

Havia nele a arte e a inteligência

Do puro e sua matemática

Buscava o golo mais que golo – só palavra

Abstracção ponto no espaço teorema

Despido do supérfluo rematava

E então não era golo – era poema.

 

Via sonhar a realidade


Patrícia Reis,

UM POEMA DE NUNO JÚDICE 

 

Quero dizer-te uma coisa simples:

a tua Ausência dói-me.

Refiro-me a essa dor que não

Magoa, que se limita à alma, mas que não deixa,

Por isso, de deixar alguns sinais – um peso Nos olhos, no lugar da tua imagem, e

Um vazio nas mãos, como se tuas mãos lhes

Tivessem roubado o tato. São estas as formas

Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

As coisas simples também podem ser complicadas,

Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.

Porém, é o sonho que me traz à tua memória; e a

Realidade aproxima-te de ti, agora que

Os dias que correm mais depressa, e as palavras

Ficam presas numa refração de instantes,

Quando a tua voz me chama de dentro de

Mim – e me faz responder-te uma coisa simples,

Como dizer que a tua ausência me dói.

4 da manhã 1 de Janeiro, 2014


Patrícia Reis,

 O mais velho ficou em casa, com os amigos, num jantar que organizou. A vida dele.

O mais novo, na aldeia, está contente. Tem o amigo. Tem amigos.

O cão olha-o com uma ternura imensa.

Choveu muito de manhã, mas não teve importância.

O ano começou com uma sala num restaurante a gritar 5, 4, 3, 2, 1. O meu marido fez de DJ durante três horas e meia. Tudo começou com bee gees, acabou com xutos e pontapés. O mais novo dançou e mostrou a sua camisa preta, muito cool. Está contente por a aldeia ser assim, os mesmos rostos, os amigos de sempre.

Além de paz, desejou-se saúde e brindou-se à família.

O mais velho ligou a dizer que a cozinha incendiara. Mantive a calma. Era uma brincadeira,  já sabia; não posso dizer, porém conheço-lhe a voz, de gozo, de aflição, de dúvida.

Gozou a sua passagem de ano com 18 anos, em casa, com os amigos, na cidade, longe de nós. Pela primeira vez. Não custou nada.

Nada custa muito. Ou pouco.

Não sinto os pés e ninguém pode dizer que tenha usado mais que uns ténis, são mesmo os meus ossos que não prestam. Quando cheguei à caixa de fósforos que temos na aldeia, acendi a lareira, tomei banho, deixei o keith jarrett tocar a melody at night with you, um disco para sempre, e fiquei no meu quarto branco sozinha.

Os miúdos na sala, no sofá cama, na brincadeira, quentes, perto do lume.

Podia ler ou deixar-me estar. Lembro-me da minha tia Chica. Francisca Celeste Garcia. Se fosse viva, faria hoje anos. Já perdi a conta a quantos.

Estamos numa idade em que começamos a ver as pessoas morrer, já se sabe. Foi de repente que me lembrei dela. A pedir para lhe ler uma novela de Mary Love, o meu tio fora de casa, ela a ouvir, atenta, e eu, uma miúda, com jeito para leituras alto.

Nessa altura, o meu mundo era outra aldeia: o meu tio-avô, as minhas tias, a minha bisavó. Não pensava em muita coisa má. Só quando estava longe daquele consolo.

Ao mesmo tempo, sabia que o melhor seria envelhecer rapidamente, para ter a certeza de ter sobrevivido. Não mudei de ideias. A velhice não me rala.

O que mudou foi apenas a compreensão relativa ao tempo.

Precisamos de tempo. Para viver os filhos, para descobrir que o amor é estranho, que a morte e a vida se combinam, que a paz não é o contrário da guerra, não obrigatoriamente. O ano velho foi-se e os doze desejos foram engolidos de uma só vez. Tive vários pensamentos em simultâneo, a coisa treinada. Celebrando um ano novo, não me esqueci dos meus mortos e a esses saudei.

No restaurante, numa cadeira de rodas, um homem novo ocupava a parte da pista de dança improvisada. Há lições que só mesmo tempo é que nos pode dar.

São 4h16, os miúdos ainda riem na sala, o cão ficou por aqui.

Fui.


Patrícia Reis,

Quero

 

Senhor neste

 

Natal, armar uma

 

árvore, dentro do meu

 

coração, e nela pendurar, em

 

vez de presentes, os nomes de

 

todos os meus amigos. Os antigos e os

 

mais recentes. Os de perto e os de longe.

 

Os que vejo a cada dia, e os que raramente

 

encontro. Os sempre lembrados e os que às vezes

 

ficam esquecidos. Os das horas difíceis, e os das horas

 

alegres. Os que sem querer magoei ou sem querer me magoaram.

 

Aqueles que pouco me devem e aqueles a quem muito devo. Meus

 

amigos humildes e meus amigos importantes. Os nomes de todos os que

 

já passaram pela minha vida.

 

Especialmente os que já partiram

 

e que me lembro com tanta saudade.

 

Que o natal esteja vivo,

 

em cada dia do ano novo.

 

 

(Desconheço a autoria deste postal de Natal, foi-me enviado pela Helena Sacadura Cabral há quatro anos e guardei-o para o partilhar convosco este ano. Obrigada Helena, um Santo Natal para todos)

José Tolentino Mendonça


Patrícia Reis,

“Desejo muito que a humanidade do futuro se deixe desconcertar pelo esplendor inexplicável de cada amanhecer; que se conserve sem palavras perante o mar; que se sinta irresistivelmente atraída pela variação de cores, de volumes e de odor da paisagem diurna e noturna; que estremeça ao primeiro contacto com a água; que mantenha a capacidade de espanto perante o modo como o vento arrasta as nossas vozes felizes na distância…”

os amantes por Rubem Braga


Patrícia Reis,

 

Os Amantes por Rubem Braga

Nos dois primeiros dias, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem vai atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele trinado repetido fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando. Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse.

Então tínhamos um suspiro de alívio. Havíamos vencido mais uma vez os nossos inimigos. Nossos inimigos eram toda a população da cidade imensa, que transitava lá fora nos veículos dos quais nos chegava apenas um ruído distanmte de motores, a sinfonia abafada das buzinas, às vezes o ruído do elevador. Sabíamos quando alguém parava o elevador em nosso andar; tínhamos o ouvido apurado, pressentíamos os passos na escada antes que eles se aproximassem. A sala da frente estava sempre de luz apagada. Sentíamos, lá fora, o emissário do inimigo. Esperávamos quietos. Um segundo, dois – e a campainha da porta batia, alto, rascante. Ali, a dois metros, atrás da porta escura, estava respirando e esperando um inimigo. Se abríssemos, ele – fosse quem fosse – nos lançaria um olhar, diria alguma coisa – e então o nosso mundo seria invadido.

No segundo dia ainda hesitamos; mas resolvemos deixar que o pão e o leite ficassem lá fora; o jornal era remetido por baixo da porta, mas nenhum de nós o recolhia. Nossas provisões eram pequenas; no terceiro dia já tomávamos café sem açúcar, no quarto a despensa estava praticamente vazia. No apartamento mal iluminado íamos emagrecendo de felicidade. Devíamos estar ficando pálidos,e às vezes, unidos, olhos nos olhos, nos perguntávamos se tudo não era um sonho. O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia distante, do dia dos outros, ia se perdendo, e então era apenas uma pequena lâmpada no chão que projetava nossas sombras nas paredes do quarto e vagamente escoava pelo corredor, lançava ainda uma penumbra confusa na sala, onde não íamos mais.

Pouco falávamos: se o inimigo estivesse escutando às nossas portas, mal ouviria vagos murmúrios; e a nossa felicidade imensa era ponteada de alegrias menores e inocentes, a água forte e grossa do chuveiro, a fartura festiva de toalhas limpas, de lençóis de linho.

O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso; agora a vida era nós dois apenas.

Sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar olhares, dizer coisas, ferir com maldade ou tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podíamos defender um dia ou dois, nosso mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais haverá.

No sexto dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios – que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?

Entretanto, a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar: e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se os meus cabelos já tivesse o cheiro de seus cabelos, como se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nosso corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde filtrava um eco pálido de luz, eu a contemlava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”.

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamsse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me, lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos, o homem fez um grande embrulho; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre se acabara; alguém viera e batera à porta e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo recibo de uma carta registrada e, quando o telefone bateu, foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isto num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo que não os via assim, em plena luz) um olhar de apelo e de tristeza, onde, entretanto, ainda havia uma inútil, resignada esperança

Um texto que chega do Brasil


Patrícia Reis,

O amor acaba

 

Por Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro “O amor acaba”, Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

66 anos para que reforma?


Patrícia Reis,

Aqui onde estou chove.

Leio as notícias no computador, abençoada internet (para umas coisas, não tanto para outras), e fico a saber que a reforma será então aos 66 anos.

Até eu chegar aos 50, decerto que passará para os 70. E assim sempre em frente até eu morrer sem reforma.

Como desconto desde os 17 anos, tenho 43, não sou de nenhum partido, não sou da maçonaria ou do opus dei, tenho por garantido que não terei reforma ou um emprego com um ordenado estrambólico.

A opção por ter uma empresa – mínima, mas de saúde controlada – deve-se à maternidade. Trabalhava uma média de 16 horas por dia nos jornais. Perdi algumas gravidez (não há plural). Pensei que tinha de mudar de vida se queria uma família e assim fiz. Fui para a Marie Claire, engravidei, tive um filho antes do tempo e, depois da baixa, no dia em que voltei, o dono da Marie Claire em Portugal, um senhor chamado Carlos Barbosa, acho que agora é presidente do ACP, decidiu fechar a porta à revista e inviabilizar o negócio entre a casa-mãe francesa e o grupo Lusomundo.

Fomos para a rua. Valeu-nos o sindicato dos jornalistas e a directora, Inês Pedrosa, que foi incansável.

Depois desta experiência, estive na Elle em part-time durante um ano e uns meses nos projectos especiais do jornal Público. A seguir, por causa da Expo98 (fiz a pesquisa em 1989 que deu origem ao primeiro documento oficial sobre a exposição), comecei a 004 com mais 4 pessoas. Ao fim de seis meses, fiquei com a empresa nos braços, sem saber mais do que sabia: sabia de jornais, de fechar páginas, de escrever e entrevistas.

Aprendi sobre impostos e pagamentos por conta, subsídios e muito sobre a natureza humana, ainda hoje aprendo, felizmente.

Nunca pensei que queria um emprego. Queria, e quero, trabalhar. Ponto.

Nunca pensei na reforma e chapa ganha é chapa gasta.

Os miúdos cresceram e eu consegui apanhá-los na escola às 16h20 durante anos. O mais novo só foi para a escola com três anos. É certo que nasceu numa sexta-feira e, por causa de uma exposição, na segunda seguinte estava a trabalhar comigo na Cordoaria.Quem tem uma empresa não tem 22 dias úteis de férias, não tem feriados ou fins-de-semana. Tem dias.

A reforma passou para os 66 anos. Ok.

Não faço ideia se vivo até lá, quem sabe?, posso morrer a qualquer momento.

O que me importa não é maldizer os políticos e as decisões, nada disso. Devo, aliás, dizer que me enerva muito quando se despreza o sistema político só com fel e não se contribui com uma ideia, uma acção. Dizer mal é tão fácil, não é?

Os meus filhos não querem ir viver para fora. Mesmo que não tenham reforma. Querem mudar o mundo. E eu, aos 43 anos, não quero mudar o mundo, mas acho possível ir mudando o país. Ter uma cultura de empresa saudável. Acabar com as bestas com aquelas coisas de plástico de matar moscas e mosquitos. Acho possível ser justo. Escrever e refilar para todas as entidades e, muitas vezes, para espanto de várias almas, ver mudanças, ter respostas.

Em resumo? Quem está à beira da reforma não terá grande simpatia, nenhuma simpatia, por este post e tem a minha compreensão. Quem tem menos idade do que eu, faria melhor em estar-se nas tintas com este tipo de decisão e continuar a trabalhar. É o que vou fazer.  

Alimentar o Amor


Patrícia Reis,

Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir. Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter. Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma «iniciativa», que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte. É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Valtam-nos guardiões. É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas — sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades — é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor — são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar. Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade. É tão fácil ser rebelde. Pica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou. Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros. Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que «salvaguardar»? É fácil uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela. Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar.

 

Miguel Esteves Cardoso, in ‘As Minhas Aventuras na República Portuguesa’

(obrigada, Manuela, por me teres enviado esta crónica do MEC)

da fragilidade da amizade


Patrícia Reis,

Há uma amiga que se fará à estrada, rumo a Faro, para se “despedir do homem que foi a grande referência da sua vida”.

O pai.

Estou tão longe, o céu está carregado de nuvens, não se vêem os morros, as favelas parecem presépios e a ideia está tão gasta que me mete pena só de a escrever.

Ser amigo é cuidar. É estar. É ouvir. Ser amigo é saber ser amigo. É perceber a fragilidade do outro e dizer-lhe que é uma rocha. É mostrar-lhe as brechas quando se sente uma rocha. Ser amigo é difícil, a mais complexa forma de amor. A melhor.

A minha amiga vai perder o pai.

No ano passado, perdi o meu avô. Outros perderam amigos, familiares, filhos, vizinhos. É a vida, dizem.

É pena que a vida seja isto.

Maria Teresa Horta


Patrícia Reis,

FEMININO

É quando o ar estremece levemente indo

Em busca da transparência azul da Índia

Improvável luz feminina que só a placenta coa enquanto gera e no cristal vibra

Difuso momento onde a flor hesita

Se desdobra primeiro e em seguida vacila

(Inédito)