as coisas que aparecem no meu email


Patrícia Reis,
SENHORAS E SENHORES: O PRODUTO MAIS DIABÓLICO DA HUMANIDADE

O que mais dói não é – desengana-te – a infelicidade. A infelicidade dói. Magoa. Martiriza. É intensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade não é o que mais dói. A infelicidade é infeliz – mas não é o que mais dói.

O que mais dói é a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que não se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade não magoa – vai magoando; a subfelicidade não martiriza – vai martirizando. Não é intensa – mas é imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar – mas em silêncio, em surdina, em anonimato. Como se não fosse. Mas é: a subfelicidade é. A subfelicidade faz-te ficar refém do que tens – mas nem assim te impede de te sentires apeado do que não tens e gostarias de ter. Do que está ali, sempre ali, sempre à mão de semear – e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade é o piso -1 da felicidade. E não há elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas. Anda daí.

Sair da subfelicidade é um drama. Um pesadelo. Sair da subfelicidade é mais difícil do que sair da infelicidade. Para sair da infelicidade, toda a gente sabe – tu mesmo o sabes: tens de tomar medidas drásticas. Medidas radicais. Porque a infelicidade é, também ela, radical. Mas sair da subfelicidade é uma batalha interior muito mais dolorosa. Desde logo, porque não sabes se queres, mesmo, sair da subfelicidade. Porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a desilusão – terás, no máximo, a subdesilusão; porque é na subfelicidade que consegues ter a certeza de que evitas a perda – terás, no máximo, a subperda. Estás a ficar perdido com o que te digo?

A subfelicidade é o produto mais diabólico que a humanidade criou. Formatado pela consciência, o homem assimilou um conceito que, na verdade, não existe: o da felicidade segura. Espero que estejas bem seguro nessa cadeira quando leres o que aí vem no próximo parágrafo.

A felicidade segura não existe. A felicidade segura é segura, sim – mas não é felicidade. A felicidade pacífica é pacífica, sim – mas não é felicidade. A felicidade, quando é felicidade, assolapa, euforiza, arrebata. E não deixa respirar, e não deixa sequer pensar. A felicidade, quando é felicidade, é só felicidade. E tudo o que existe, quando existe felicidade, é a felicidade. Só ela e tu. Ela em ti. Ela em todo o tu. A felicidade, para ser felicidade, não tem estratos, não tem razão. Ou é ou não é. A felicidade é animal, de facto – mas é ainda mais demencial. Deixa-te louco de felicidade, maluco de alegria, passado dos cornos. Só quando estás dentro da felicidade é que estás fora de ti. Liberto do corpo, da matéria, da sensação – e imerso naquela indizível comunhão. Tu e a felicidade. Já a sentiste, não?

Não há como dizer de outra maneira: se estás acomodado à subfelicidade, se tens medo de ser feliz e preferes a certeza de seres subfeliz: és um triste de todo o tamanho. A subfelicidade é uma tristeza. Uma tristeza de hábitos, de rotinas, de sorrisos – uma tristeza que inibe a surpresa, o imprevisível, a gargalhada. Uma tristeza que te faz refém do que fazes e te impede de te seres o que és. Olha em redor: a toda a volta há pessoas subfelizes, pessoas que dizem “vai-se andando”, pessoas que dizem “tem de ser”, pessoas que dizem “eu até gosto dele”, pessoas que dizem “sou feliz” com os olhos cheios de “queria ser feliz”, pessoas que dizem “é a vida”. Mas não é. A vida não é a quase felicidade. A vida não é a subfelicidade. E, se é a primeira vez que vês isso, fica entendido o que sentes. Ou subentendido, pelo menos.

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in “Eu Sou Deus”, de Pedro Chagas Freitas
Para encomenda de um ou mais exemplares autografados, basta enviar e-mail para pedrochagasfreitas1@gmail.com

Cristo!


Patrícia Reis,

Leio no on line do sapo uma nova do Expresso que reza assim: Passos e Seguro em choque sobre as obras de Miró.

Confesso que dei uma gargalhada. Estão em choque? A sério? Quem diria.

Home alone


Patrícia Reis,

Hoje, por razões que pouco importam, passei o dia em casa.

Li no on-line de vários jornais o drama do quadro do Miró, os estudantes que querem ser, acham que têm direito, a ser humilhados, o Miguel Sousa Tavares a pontificar sobre o Facebook como lugar para encontrar putativos namorados ou namoradas.

E ainda: Xanana Gusmão lança um livro.

Li sobre o testamento que Nelson Mandela deixou escrito e que é de uma enorme inteligência, digo eu por experiências idiotas com partilhas de bens. Tudo isto e mais umas coisas sem ligar a televisão. Choveu horrivelmente, o que torna mais difíicl a tarefa de aliviar o cão, mas tudo bem, parece que precisamos de chuva e que vamos ter muita nos próximos tempos.

Dizem os cientistas que o tempo está a mudar. Ok. A minha avó já o diz há mais de dez anos.

Não foi um dia perdido, nada disso, e não me estou a queixar.

Quem se queixou foi o miúdo mais novo que foi revistado na escola.

Para minha felicidade não tinha nada de suspeito consigo.

Há dias em que não vale a pena querer saber do mundo? Nunca acreditei nesta ideia, ou no isolamento, mas começo a ajustar-me aos seus méritos.

realidade versus ficção


Patrícia Reis,

De uma forma perigosa, a relidade confunde-se e supera a ficção.

Recolho histórias que são bizarras, absurdas, medonhas, de partir e congelar o coração.

Tudo isto para um livro que talvez venha a ser, ou nem por isso. Nunca se sabe.

A maioria das histórias não as posso escrever, a realidade tem um peso suplementar que não co-existirá bem no preto e branco. Há ideias que deveriam ser deixadas de lado, já sei. Mas sou tão teimosa que insisto.

Já nem digo:

 

Irra!

 

ou

 

Cruzes!

 

ou

 

Meu Deus!

 

Neste mundo onde agora me movo, como jornalista de investigação que, afinal, acho que não deixarei de ser, qualquer expressão de pasmo é inútil. Absolutamente inútil. Perguntam-me:

 

Mas andas a fazer o quê?

 

Posso garantir que ando pelos degraus do inferno. Se, um dia, o livro sair, contarei tudo, contarei mais. Agora não posso, não consigo. Estou de tal forma espantada e zangada que me sinto incapaz de discutir o Governo, as praxes, o Hollande, a bola, o fisco, os cortes, a troika, a imprensa, seja o que for. Há momentos na vida em que o prioritário é mesmo prioritário e resume-se a isto: sobreviver.

Pedro Tamen


Patrícia Reis,

Regando lentamente as flores do riso,
vou já de neve em neve e lume em lume,
contornando a nordeste o paraíso
em terrenos de pedras ou de estrume,
com pequenas palavras na algibeira
das calças que mantenho ainda frias
da presença dos lares à minha beira.

E meto mãos e dentes nas vazias
flanelas limpas para o flanar antigo,
marcho directo e escasso, colocando
os pés azadamente.
Não persigo
ventos ou cores: sou pedro, zé, femando,
nomes comuns, impróprios, que desdigo
baixinho e surdo, curto, enquanto ando.

in DANIEL NA COVA DOS LEÕES (Moraes Editores, 1970)

da enorme dificuldada de se ser


Patrícia Reis,

Não vamos discutir o sentido da vida que isso é uma chatice e não adianta.

 

Se tu dizes.

 

Vamos discutir a nossa vida.

 

Alguém me disse, há muito tempo, que quando começamos a falar da nossa relação é porque esta terminou.

 

Que pessimista.

 

Queres falar sobre o quê?

 

Tu estás satisfeita?

 

Satisfeita com o quê?

 

Com a relação?

 

Nunca pensei nisso. Tu estás?

 

Preciso de tempo para pensar.

 

Ah.

 

Decidi ir uns dias para fora… Para pensar.

 

Mas…

 

É o melhor.

 

Para ti ou para mim? Ou para nós?

 

Para todos.

 

Ainda bem que pensas assim. Vais ali como quem vai comprar cigarros?

 

O que queres dizer?

 

Quero saber se voltas ou se posso mudar a decoração da porra da sala e tirar o plasma enorme e desproporcionado, desactivar a BenficaTV e mais umas porras?

 

Estás muito agressiva?

 

Achas? Não me parece. Sinto-me bastante calma.

 

O homem levantou-se da mesa. Saiu da sala e reapareceu, minutos depois, com um saco desportivo na mão.

 

São uns dias.

 

A mulher serviu-se de mais vinho e sorriu. Acendeu um cigarro e olhou pela janela. Continuava a chover.

 

(nota: este diálogo é pura ficção. Agradecida)

Da página de FB de António Capucho


Patrícia Reis,

MARCELO E AS PRESIDENCIAIS Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que o perfil definido por Passos Coelho para o candidato a PR a apoiar pelo PSD pretendeu exclui-lo da corrida a Belém. Ora, o Presidente do PSD escreveu “comportar-se mais como um árbitro ou moderador (…) evitando tornar-se numa espécie de protagonista catalisador de qualquer conjunto de contrapoderes.” Ou seja, Passo Coelho pretende um Presidente amorfo, não interveniente e, se possível, seguidista. Ficamos esclarecidos, se dúvidas ainda existissem. Mas Passos Coelho diz mais sobre em desrespeito pelo ex-Presidente do PSD e actual Conselheiro de Estado (para além de ser o comentador político com maior índice de audiências): “evitando tornar-se (…) num catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político”. A brutalidade destas considerações foram tidas por Marcelo como a ele dirigidas, pelo que me espanta que não reaja a não ser com o anúncio do abandono da luta! Eis como o PSD vê as eleições presidenciais e como o seu Presidente trata um militante histórico. Uma tristeza…

Filhos


Patrícia Reis,

Um filho vai para a Faculdade, com 17 anos, média alta. Um filho escolhe o curso. Nada de pressões, excel ou pesquisas sobre isto ou aquilo, o rapaz deve estudar o que quiser. Um filho odeia o curso, a mediania e tudo o que por ali abunda. Continua a marrar e a ter boas notas. Vai ao director de curso e, respeitosamente, explica que se vai embora, para outro lado qualquer, para um curso que “alimente o cérebro”. Uma mãe apoia. Um pai apoia. Um padrasto apoia. Fácil? Nah!

Tribunal Constitucional, alô? Está alguém aí?


Patrícia Reis,

Pronto. Vamos para um referendo. Se a lucidez e inteligência prevalecerem, pois o Tribunal Constitucional mandarão o referendo para um buraco. Entretanto, há mais de 17 mil crianças em instituições e aposto que nenhum dos senhores que votou a favor do referendo para a co-adopção por homossexuais sabe ou entrou numa instituição. Perdoem-lhes, não sabem o que fazem? Uma ova.

Estás a ver o Cristiano Ronaldo? É trabalho, mãe


Patrícia Reis,

Não percebo nada de futebol.

Nunca me ensinaram e eu aprendi a não gostar do barulho, da forma como os negócios paralelos me fazem comichão no cérebro, das conferências de imprensa após os jogos, do facto de haver um jogo todos os dias. Adiante. Digo que sou do belenenses e ninguém se aborrece comigo. É uma táctica. Hoje, porém, como qualquer um de nós, fico contente por ver um português ganhar pela segunda vez a bota de ouro. 

O meu filho mais novo encarregou-se de me explicar a razão pela qual está tão contente com a vitória de Cristiano Ronaldo:

 

– Vem de uma família muito pobre, ficou na Academia do Sporting, sem pais ou amigos, com 11 anos. Sempre lutou para ser o melhor. Não desiste. Tem uma namorada linda. A família está sempre com ele. Não me importa que ele use brincos, os rappers também usam, e o anel no dedo mindinho pode ser piroso, mas se ele gosta, ’tá-se bem. Além disto, mãe, se queremos olhar para alguém que trabalha para atingir objectivos, – não é disso que estás sempre a falar? – então o Cristiano Ronaldo é a pessoa certa. Um bom exemplo, estás a ver? É só trabalho, mãe.