Não percebo nada de futebol.
Nunca me ensinaram e eu aprendi a não gostar do barulho, da forma como os negócios paralelos me fazem comichão no cérebro, das conferências de imprensa após os jogos, do facto de haver um jogo todos os dias. Adiante. Digo que sou do belenenses e ninguém se aborrece comigo. É uma táctica. Hoje, porém, como qualquer um de nós, fico contente por ver um português ganhar pela segunda vez a bota de ouro.
O meu filho mais novo encarregou-se de me explicar a razão pela qual está tão contente com a vitória de Cristiano Ronaldo:
– Vem de uma família muito pobre, ficou na Academia do Sporting, sem pais ou amigos, com 11 anos. Sempre lutou para ser o melhor. Não desiste. Tem uma namorada linda. A família está sempre com ele. Não me importa que ele use brincos, os rappers também usam, e o anel no dedo mindinho pode ser piroso, mas se ele gosta, ’tá-se bem. Além disto, mãe, se queremos olhar para alguém que trabalha para atingir objectivos, – não é disso que estás sempre a falar? – então o Cristiano Ronaldo é a pessoa certa. Um bom exemplo, estás a ver? É só trabalho, mãe.

Isso tudo que elenca e ainda mais. Ainda mais evidências desse mundo acima da lei que é o futebol. Eu não digo que sou do Belenenses, em busca de uma condescendência qualquer, de atenuantes por essa falta imperdoável de não “ser” de um dos alegados “três grandes”; de não gostar particularmente de futebol, de pouco saber das suas regras e de não me deliciar na lama da intriga e dos negócios mal explicados que por cada hora de jogo darão umas cinco de “debates” na televisão e rádio, por estação emissora, entenda-se, além dessa aberração de três jornais diários de futebol, num país de arrepiantes hábitos de (não) leitura.
Era o que faltava.
E quanto a exemplo vou mais pelo do estudo, pelos anos de escola, pelos exames ultrapassados com tenacidade, pelas profissões – simples ou sofisticadas – que fazem de facto falta à sociedade. E quero lá saber se é linda ou feia, a namorada do meu filho. Quero que se amem de facto, que construam, se for esse o seu caminho, uma família feliz e sem exibicionismos de carnes roliças em poses “soft porn” e adereços de fetiche, de calendário de oficina. Ou ostentando publicamente com uma estudada e apenas aparente casualidade as consequências do dinheiro que lhes jorra dos bolsos.
Costa
ok, Costa, está no seu direito em exercer a sua opinião como bem achar e até de me achar parva por me dizer de um clube para não ter de aturar conversas diárias sobre a bola. Eu também espero que os meus filhos trabalhem, estudem e amem apesar das moças serem mais ou menos bonitas. Há uma hostilidade no seu post que, confesso, não entendo, mas a escrita pode levar a equívocos e como não discordo de nada do que diz, apesar de lamentar o tom, pois aqui deixo um bem haja por ter lido o meu post que, afinal, é apenas um adolescente que abandona o estudo da matemática por 10 minutos para celebrar o trabalho de um tipo que se esfolou para chegar onde chegou. O soft porno? Não sei, provavelmente existe por aí, como as jóias nos rappers. Tenha uma boa semana.
Longe de mim, minha senhora, achá-la “parva”. Bem pelo contrário, a sua é uma atitude defensiva bem inteligente e que me apercebo tanta gente toma. Sucede apenas que eu estou farto desta hegemonia perfeitamente desproporcionada – e cinicamente cultivada por quem tem interesse em que a abundância de circo atenue a consciência da falta de pão – do futebol.
Não a modalidade desportiva em si: não sou amante de futebol, não fui tocado pela graça que permite dizer que foi um “jogão” aquele que acabou sem golos, mas nada tenho contra o futebol. É certamente, enquanto tal, uma actividade saudável física e, noutros tempos pelo menos, moralmente. Os tempos em que – coisas agora invocadas a pretexto da morte de Eusébio – os jogadores de diferentes clubes conviviam despretensiosamente fora (e dentro) do campo, em genuína amizade, e os adeptos de diferentes clubes faziam-no também, sem que a pertença a uma das tribos do futebol fosse fundamento e licença para comportamentos de verdadeiro ódio (sibilinamente instigado pelos “dirigentes”), absolutamente anti-sociais e de intocável, quase total, impunidade.
Os tempos em que o derrotado admitia honradamente que o vencedor tinha jogado melhor, apenas isso. Em que o futebol era uma modalidade desportiva , em lugar da fachada de negócios de imobiliária, combustíveis, venda de papel e tempo de emissão, ou o que seja e que, sabe-se lá porquê, necessita dessa fachada. Em lugar da promiscuidade com a política que também aqui grassa, em que da direita e da esquerda não há força política, (quase) não há político em busca de notoriedade, que não venha afirmar a sua paixão pelo futebol e um dos seus clubes. Entre os políticos, conheço apenas um que não tem medo de apontar o dedo ao futebol. E bem o zurzem por isso…
No meio de tudo isso, C. Ronaldo fez o que tinha a fazer: dotado do talento para vingar como jogador, nesse mundo, usou-o. Mérito seu e inquestionável. Já endeusá-lo da forma abjecta, salivante, absolutamente submissa, de adoração religiosa e idolátrica, como se vê fazer, é um péssimo exemplo. Para os mais novos, desde logo. Tudo deve ter uma devida proporção e convém desde cedo instilar na juventude – sem prejuízo do seu direito à infância e aos sonhos de adolescente – um módico de realismo. Ronaldo há-de haver um em centenas de milhares ou milhões de jovens amantes de futebol. Os outros terão que ser talhantes, agricultores, médicos, advogados, lojistas, canalizadores, motoristas, polícias, o que seja. E convém, para bem deles e de todos, que o saibam ser.
Há uma idade para o Peter Pan , os contos de fadas e mesmo para o Super-homem. Depois, fatalmente, chega a realidade. Mas esqueço-me, essas figuras já são hoje praticamente desconhecidas. As criancinhas crescem num mundo de monstros e jogos electrónicos de absurda violẽncia
Quanto ao mais, concordando ou não, é sempre um gosto ler o que por aqui escreve.
Costa
Posso dizer que cá por causa não teremos nenhum jovem futebolista, no máximo teremos um actor. Não sei se existem milhares como o CR, como dito não sei muito sobre futebol. É uma fenómeno, pode ser interessante quando se lê “A Tribo do Futebol” do antropólogo Desmond Morris. Nessas páginas, há muitos anos, aprendi muito, mas não aprendi a gostar do jogo. Paciência, não é? Boa semana.
Costa, descupe mas você não faz ideia do que está a falar.
O futebol moderno exige que jogadores do calibre do Ronaldo sejam verdadeiramente fora de série. Existem estudos sobre o comportamento dos jogadores de alto nível que revelam que estas pessoas são mais possantes fisicamente, pensam mais rápido, tomam decisões mais rápido e analisam os parâmetros de jogo muitíssimo mais rápido que a média dos outros seres humanos. Enquanto você ainda está a olhar para a bola, ele já decidiu o que lhe vai fazer e já calculou 3 ou 4 alternativas na cabeça.
Depois olhe para a idade e para a maturidade necessária. Quantas pessoas não têm a maturidade do Ronaldo aos 40 anos ou mesmo mais? Faz ideia da pressão absurda que uma pessoa de 28 anos (no caso dele) tem que aguentar?
Fazer 2/3 golos por jogo em quase todos os jogos (e são cerca de 50 por época) não lhe parece quase sobre-humano?
E estar a marcar um penalti decisivo num estádio com 100 mil pessoas em suspenso com outros milhões a assistir? Você era capaz de aguentar essa pressão?
Esse maniqueísmo que acha que o futebol é estúpido e que a verdadeira virtude só está em estudar muito e fazer exames é maniqueísta e redutora. É claro que é importantíssimo ter anos de estudo, mas não desdenhemos todo o trabalho, dedicação e tenacidade que um jovem destes tem que ter para estar no nível em que está.
Raciocínio rápido, resistência sob pressão, capacidade de antecipação, não são exclusivo dos melhores do futebol. Eles têm-na, tanto melhor para eles. Muitos outros as têm e até as usam, por exemplo, para salvar vidas. Coisa que suponho não fará o futebol.
Agradeço a sua franqueza, ao afirmar de que eu não faço ideia do que escrevo. Eu diria que você não percebeu o que eu escrevi. O que decerto se deve a uma minha incapacidade de exposição, pois não ouso questionar a sua inteligência e conhecimentos. Peço-lhe o favor de me desculpar e agradeço-lhe a paciência de mo revelar.
Eu não crítico Ronaldo por ter sabido fazer valer os seus méritos e vingar como vingou no mundo do futebol. Creio que o escrevi acima, tentei pelo menos, e tivesse eu essas capacidades teria feito o mesmo. Discordo dos gostos do homem, mas gostos não se discutem (embora se lamentem; sendo que muito legitimamente ele se borrifará para o que eu pense dos seus gostos).
Outra coisa, completamente diferente (creio eu; na minha total ignorância, como me fez o favor de elucidar), é a importância absolutamente desproporcionada que é dada – e não inocentemente – ao futebol e seus protagonistas; ou o mundo de negócios, privilégios e coisas menos claras que parasita o pobre desporto futebol; ou a licença para se ser fora-da-lei que a pertença a uma claque concede. E por aí fora. E foi isso que eu tentei, está visto que com gritante incapacidade, invocar.
Sabe, eu creio, ao contrário do que me imputa (mas eu, cá está, não faço ideia daquilo sobre que escrevo, como você teve a generosidade de me revelar), que o futebol não é estúpido. Pelo contrário, não lhe faltam regras e organismos de supervisão e fiscalização. Com considerável pompa e circunstância, aliás, como se fosse uma religião e sua liturgia. E o que se faz do futebol e com o futebol também não é. Não é, não senhor…
Costa
Apesar de partilhar o seu distanciamento pelo futebol, não posso deixar de concordar com o seu filho e reconhecer que e realmente fantástico que um rapaz de condição tão modesta tenha, a custa de grande sacrifício e de muito trabalho, conseguido mais este grande feito.
IMMC, pois, concordo consigo, temos de reconhecer o trabalho, mesmo que não sejamos adeptos do jogo. Boa semana (se quiser saber mais sobre a vida do rapaz, que de facto não foi fácil, pois aconselho que vá espreitar o blogue do jornalista da Visão Miguel Carvalho: http://www.adivinacomedia.wordpress.com)
Patrícia, não estique muito a corda. Digo-lhe isso por que, se o seu rapaz decide tentar enveredar pela carreira de jogador, ainda vou vê-la a contar-nos as suas peripécias nas bancadas dos campos de futebol, ao sol ou à chuva, a apoiar o seu rebento e a insurgir-se contra os adversários, sejam eles do Belenenses ou de outro qualquer clube. Isto, sem falar nas zangas com os árbitros…
Portanto, ponha-se a pau e siga o meu conselho porque, é bom que saiba, falo com conhecimento de causa!
Há algum tempo atrás, uma pessoa que esteve a estagiar no Real Madrid contou-me uma história sobre o Cristiano. Esta pessoa estava integrada num conjunto de preparadores/fisioterapuetas que estavam a analisar os jogadores do Real Madrid.
Depois de analisarem o Ronaldo, verificaram que ele poderia ser mais rápido se treinasse a frequência da passada (dar muitos passinhos pequenos mas muito rápidos). O Ronaldo, com toda a abertura, perguntou a estas pessoas como é que podia melhorar (reparem no melhor do mundo a aceitar conselhos de pessoas menos colocadas na “cadeia alimentar”). Eles disseram que ele devia subir e descer uma fila de bacadas do estádio algumas vezes sempre em ritmo acelerado.
Pois bem, após o treino (que para um jogador normal já é brutal) o Cristiano ainda foi subir as bancadas…20 vezes.
Que pensará seu filho dos:
Dos Roks in Rios
Dos festivais das Cervejas
Dos Telemóveis?
Das Praias Marítimas e Fluviais
Dos Pavilhões e Coliseus
Onde o “histerismo” da juventude é muito mais patético do que o da “bola”
amendes, como bom adolescente acha óptimo. Não vejo qual seja a novidade:) boa semana.
comcordo plenamente com o autor
é sempre trabalho e amor e disciplina naquilo que se faz