The Newsroom: Quarto poder


eventhorizon,

 

A HBO confirmou que The Newsroom vai ter uma terceira e última temporada – o que para todos os efeitos constitui duas boas notícias. A primeira, claro, é o facto de a série ter mais uma temporada – é sempre um prazer regressar à redacção do noticiário das oito da fictícia Atlantis Cable News, com personagens tão memoráveis como o pivot Will McAvoy (Jeff Daniels num papel já premiado, e com toda a justiça), a produtora executiva MacKenzie McHale (Emily Mortimer), a comentadora de economia Sloane Sabbith (Olivia Munn) ou a magnata das comunicações Leona Lansing (Jane Fonda). E a segunda é o facto de a série ter apenas mais uma temporada. Algo que contrasta pela positiva com boa parte das séries televisivas americanas de hoje em dia. Já todos demos por elas: séries que deviam ter tido três, no máximo quatro temporadas, a serem esticadas para seis, sete e oito – com a inevitável perda de qualidade (assim de repente, ocorrem-me House e Dexter – não, nunca fui fã de Lost).

 

A verdade é que The Newsroom se tem revelado numa série televisiva especialmente divisiva, sobretudo nos Estados Unidos. O seu criador, Aaron Sorkin (conhecido, entre outras coisas, pela criação da aclamada The West Wing, transmitida em Portugal como Os Homens do Presidente), tem sido criticado pelo tom demasiado preachy da série (falta-me o adjectivo em português) e pela desconstrução impiedosa do discurso político do movimento Tea Party que foi tomando conta do Partido Republicano. Mas tal desconstrução e tal crítica estão intimamente ligadas à reflexão sobre a natureza do jornalismo que Sorkin proporciona – afastando-se do infotainment que parece estar a dominar as redacções (televisivas e não só) nesta época da Web 2.0 e dos Social Media e rejeitando quaisquer noções de objectividade abstracta que serve propósito nenhum, para se centrar no rigor, na fundamentação lógica e no valor informativo que fazem do jornalismo de qualidade um dos pilares de qualquer sociedade democrática. E se considerarmos o estado do jornalismo contemporâneo, torna-se fácil compreender por que motivo o discurso de The Newsroom se torna tão relevante – e por que motivo tem gerado tantos anticorpos. 

 

Mas The Newsroom é mais do que a sua reflexão política e jornalística – ela proporciona também uma perspectiva fascinante sobre a actividade jornalística e sobre a construção noticiosa, sobretudo pela forma inteligente como se liga a vários momentos mediáticos dos últimos anos. Do incidente na plataforma petrolífera Deepwater Horizon da BP ao décimo aniversário do 11 de Setembro, da morte de Bin Laden às eleições americanas de 2012, do movimento Occupy Wall Street ao atentado a Gabrielle Gilfords – histórias reais perfeitamente enquadradas na trama, servindo-lhe tanto de pretexto como de pano de fundo. Uma escrita superlativa e um elenco excepcional fazem o resto.

 

O primeiro episódio da primeira temporada de The Newsroom, intitulado We Just Decided To, será talvez o melhor episódio de estreia que vi numa série desde que Ronald D. Moore abriu o remake de Battlestar Galactica com o inesquecível 33; a primeira cena do episódio, com Will McAvoy num debate numa escola de jornalismo, é a todos os níveis memorável (só com ela Jeff Daniels justificou o Primetime Emmy que recebeu). A amiga que me recomendou a série disse-me, momentos antes de me mostrar esses oito minutos iniciais: “vês isto e vais querer seguir o resto da série”. Não se enganou; e a recomendação que ela me deixou, deixo-a agora aos leitores.

 

(Em Portugal, The Newsroom é transmitida no canal TV Séries)

 

16 comentários em “The Newsroom: Quarto poder”

    1. “Galactica” foi excelente durante duas temporadas e meia. A partir de meio da terceira começou a descarrilar (ainda nem acabei a quarta, confesso; ao quinto episódio a coisa estava a parecer-me muito estranha). Mas as duas temporadas de “The Newsroom” foram do melhor que vi em televisão em muito, muito tempo.

  1. Caríssimo,

    preachy vem de preacher ? Se sim já tem como traduzir…

    Vi a Serie pela primeira vez nos Estados Unidos (2012) e gostei. E sim a leitura atenta de uma ou outra personagem poderá trazer a caracterização supra-citada.

    Forte abraço

  2. Com a ressalva de que ainda só vi a primeira série, concordo e discordo. Concordo que os primeiros minutos são excelentes, que a série levanta boas questões sobre o jornalismo actual e que os diálogos e as situações, não sendo sempre totalmente realistas, são frequentemente deliciosos de seguir (uma marca registada de Sorkin , visível também em The West Wing ou no filme A Rede Social). Mas, para mim, a série tem alguns problemas graves. Aqueles de que me consigo lembrar assim de repente:
    1. As histórias sentimentais da primeira série são dignas de uma soap opera, em especial a que envolve a lourinha (não me lembro do nome) e os dois homens interessados nela;
    2. É suposto a personagem Mackenzie McHale ser altamente competente mas ao longo da primeira série parece mais uma barata tonta;
    3. Certas personagens são subaproveitadas e, pior, colocadas a fazer papel de parvo (por exemplo, a interpretada por Dev Patel, com a sua obsessão pelo Bigfoot);
    4. Certos momentos de comédia quase-slapstick (e eu adoro comédia slapstick) são inadequados – e contraproducentes;
    5. Numa série sobre ética e verdade, é irónico que, no último episódio, se recorra à chantagem (no fim de contas, os fins justificam os meios?);
    E, acima de tudo:
    6. Não me incomoda que a série se dedique a desconstruir a mensagem do Tea Party. Incomoda-me que seja um bocadinho hipócrita ao fazê-lo. Numa clara tentativa de afastar acusações de facciosismo, Sorkin tornou Will um republicano “sensato”. Nada contra. Podia ser uma boa premissa. Mas, ao longo da primeira série, nunca o republicanismo dele se viu. Ou, até, nunca se viu isenção. O Tea Party tem muito que criticar, mesmo por parte de republicanos, mas será que os democratas não cometem erros ou fazem propostas insensatas? Que me lembre, durante a primeira série nunca tal se percebeu (mesmo a abordagem das escutas por parte da NSA passou de raspão). O que faz com que até o (excelente) Daily Show, de Jon Stewart, pareça mais isento.

    1. Bom, vamos por partes:

      1) Concedo; pessoalmente, porém, julgo que as sub-histórias amorosas conseguiram aligeirar um pouco a série e tornar as personagens um pouco mais verosímeis. O romance em causa não me pareceu exagerado (mas já li essa crítica em vários sítios).

      2) O facto de a personagem parecer caótica (e parece) nem por isso me dá a sensação de incompetência, mas percebo o ponto de vista. Julgo que logo no primeiro episódio da segunda temporada isso é resolvido de forma exemplar.

      3) Isso do Bigfoot é num único episódio. Na segunda temporada, é essa mesma personagem que se vai interessar pelo tema do Occupy Wall Street, por exemplo.

      4) Nada contra a comédia slapstick, desde que não tenha o Adam Sandler.

      5) Diria que isso depende dos fins e dos meios 🙂 Julgo que a utilização do tema do News of the World serviu justamente para abordar a diferença entre infotainment (onde de facto vale tudo – como se viu) e a informação. De qualquer forma, na segunda temporada a coisa perde importância.

      6) Julgo que a questão da NSA é mais recente do que os acontecimentos que a série retratou até ao final da primeira temporada (mas posso estar enganado). Até ao momento, apenas se falou da Wikileaks de raspão. Na segunda, por exemplo, fala-se muito da polémica dos drones – e a história toda gira à volta de uma peça que, a confirmar-se, derrubaria o Presidente. Talvez na terceira temporada o tema se torne pertinente (espero que sim).

      Quanto ao Daily Show, está melhor agora. Muito melhor. Durante o segundo mandato de George W. Bush o programa era intragável – precisamente porque não fazia outra coisa que não malhar no Bush.

      1. A questão da NSA foi abordada, em termos pré-Snowden, quando um funcionário da agência propôs ceder informações ao programa, entre as quais as que provavam que a revista tablóide usava processos similares aos do News of the World. De qualquer modo, globalmente acho que não estamos assim tão em desacordo. Só pesamos de forma diferente alguns aspectos da série.

        Já agora, uma nota sobre a Galactica. As últimas séries tornam-se um bocado metafísicas, por vezes roçando mesmo o ridículo, mas ainda assim acho que merecem ser vistas. O final consegue a proeza de ser ao mesmo tempo bastante inteligente e altamente irrealista.

        1. Tens razão, tens razão. Houve o caso do final da primeira temporada. Vamos lá ver se recuperam o tema na terceira.

          (Quanto a Galactica, tenciono acabar de ver. Vi a série com um entusiasmo raro até meio da terceira temporada; mas a reviravolta do final dessa pareceu-me tão forçado… e a transformação da personagem de Gaius Balthar tão disparatada que o entusiasmo desapareceu em poucos dias. Enfim, fica para resolução de 2014).

  3. Uma série de propaganda do Partido Democrata, como todas as do Sorkin.
    Não admira que ataque o Tea Party pois são os únicos que têm uma polítca diferente ao endividamento nos EUA e por isso uma ameaça.

  4. Concordo contigo sobre o episódio inicial – e, em particular, a cena que referes. Muito em breve tenciono escrever também sobre isso. Porque há ali uma crítica contundente e certeira ao jornalismo que se pratica na actualidade. Lá e cá.
    É, verdadeiramente, uma cena de antologia. Que só por si me agarrou à série.
    Infelizmente, ‘Newsroom’ prometia mais do que ofereceu – e falo apenas da primeira temporada, a única que vi. Como o JAA anota algures mais acima, a série foi hesitando entre o ‘slapstick’, com os seus diálogos acelerados e sincopados (ninguém fala assim numa redacção, garanto eu, que durante 30 anos trabalhei em redacções), e a ‘soap opera’, quase ao estilo ‘Anatomia de Gray’.
    Mas sim, João: esse episódio vale mesmo a pena reter.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *