Hoje em fragmentos


Patrícia Reis,

Hoje, a subir a Avenida da Liberdade, quase junto ao senhor marquês, ouvindo a rádio, feliz por ver o sol, a pensar em não sei quantas coisas, de repente, vejo uma jovem com um cartaz: SE AMAS ALGUÉM LIGA OS 4 PISCAS.
Podia ser só isto, mas dez metros à frente estava outro cartaz e os carros começaram todos a piscar. Não sei o que era, porventura uma manobra da publicidade, mas foi lindo ver tanto amor ali mesmo, nos piscas dos carros à minha frente.

 

Hoje, sem saber o que fazer, fui conversando e ouvindo, comendo peixe. Estávamos numa bolha, duas mulheres, loucas, com vidas loucas, de empregos e contas, de filhos e mais coisas, filmes, livros, pensamentos de horas incertas.

 

Hoje, o meu filho disse que teria saudades do professor Viveiros, o professor que é temido pelos alunos e por quem o meu filho nutre o maior amor.

 

Hoje, a minha mãe perguntou-me cinco vezes se preciso de alguma coisa.

 

Hoje, também eu liguei os 4 piscas.

Derek Walcott


Patrícia Reis,

O AMOR APÓS O AMOR
Virá o momento
em que, com júbilo
haverás de te cumprimentar ao chegares
à tua própria porta, ao teu próprio espelho
e ambos haverão de sorrir às boas-vindas um do outro,
dizendo, senta-te aqui. Come.
Amarás novamente o desconhecido que foi o teu eu.
Serve o vinho. Serve o pão. Devolve o teu coração
a si próprio, ao desconhecido que te amou
durante toda a tua vida, que ignoraste
em troca de outro, que te conhece de cor.
Vai buscar as cartas de amor à prateleira,
as fotografias, os bilhetes desesperados,
desprende a tua própria imagem do espelho.
Senta-te. Regala-te com a tua própria vida.

(tradução de Vasco Gato)

Nuno Júdice


Patrícia Reis,

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.
Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.
E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.

Paul Célan


Patrícia Reis,

Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima. Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Manoel de Barros, O Livro das Ignorãças


Patrícia Reis,

VII

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da
vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele perguntou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

poema de Margarida Ferra


Patrícia Reis,

Todos os que não sou
escolhem a camisa singular
de olhos fechados.
Trago no bolso dois poemas
e o desejo de toda a gente,
sou um discreto herdeiro
das relíquias que recolho de mesas de café
e em degraus de rua meio desfeitos.

Depois de me descalçar,
arranquei o arame tenso que vos ligava.
Do vértice tento avistar as caras,
queria ser eu e outro,
mas sei que não tenho valor de troca.
Se pensas vestir-me
debaixo do teu casaco
desapareces comigo.

Dom José Policarpo


Patrícia Reis,

A última vez que o entrevistei, há três anos, no patriarcado, Dom José fumou sete cigarros, explicou-me o que gostava de ver na internet e o alívio de não ter sido “escolhido” para Santo Pontífice, para ocupar o lugar de Pedro.

Falámos de crianças, do aborto, de gays e direitos, rimos e demos tempo a Augusto Brázio para o fotografar devidamente.

Hoje, Dom José foi ver a Deus, como dizemos, nós que somos cristãos.

 

Eu recebi o telefonema de uma amiga que me disse:

 

– Eu sei que, apesar de tudo, gostavas dele e queria ser eu a dizer-te.

 

Apesar de tudo ficou a martelar na minha cabeça.

Manuel António Pina


Patrícia Reis,

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel Pina, in ‘Um Sítio onde Pousar a Cabeça’

Maria do Rosário Pedreira


Patrícia Reis,

Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte –
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

in O Canto do Vento nos Ciprestes, 2001

Ah?!!!


Patrícia Reis,

Leio no portal do Sapo: Putin candidato a Nobel da Paz.

Nem sei comentar. A perplexidade toma conta de mim e talvez seja melhor agarrar numa pastilha e dormir.

a sério?


Patrícia Reis,

Obama diz que Putin não engana ninguém.

Na televisão, um jovem estudante ucraniano, a viver em Portugal tenta explicar a razão pela qual um conflito terá repercussões no ocidente. A jornalista ignora e pergunta se são muitos os que se manifestaram em frente à embaixada russa.

Poema de David Mourão-Ferreira


Patrícia Reis,

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

o fim do mundo


Patrícia Reis,

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.

 

Esta frase é de Eduardo Lourenço, assim a disse, ontem, nas Correntes d’Escrita, edição 2014.

O meu coração encolhe-se.

O que quer dizer é que já não vê o futuro, que partilhou mais de 50 anos de vida com alguém que não está, que talvez possa deixar de pensar, de escrever, de querer saber. Não o diz assim. Nunca o dirá. Mas sente-o.

No Congresso Internacional Fernando Pessoa em Novembro de 2012, andando para cá e para lá, a ver a morte rondar, não parou um segundo.

Dei-lhe boleia. A minha mão nas mudanças, a dele na minha. Um gesto de conforto. De ternura. Os meus olhos ficaram nublados com a história que me contou. Não a repetirei, não é para isso que servem estes espaços. E, ao mesmo tempo, há no silêncio de algo que nos foi digo uma certa ideia de sagrado. Disse-lhe

 

Gosto de o ouvir pensar.

 

Parece-me holocáustica a forma como algumas das minhas pessoas estão tão perto do abismo. A justiça disso será o quê? A minha verdade é fruto da experiência, logo distinta da dos outros. O meu abismo é só meu. Gostaria de dar, a quem amo, planíces para caminhar, para gozar o sol, o silêncio. Um mundo plano, sem quedas. Depois repito o que sei ser verdade e, porventura, inevitável para todos

 

Eu sei o que é estar à beira do abismo. Estou a olhar para ele, para o meu fim.

Obrigada TC


Patrícia Reis,

Tribunal Constitucional chumbou o putativo referendo relativo à co-adopção. Tenho um casal amigo, gay, que adoptou um miúdo maravilhoso. Interrogo-me se os meninos da jota do psd pensavam que, com o referendo, estas crianças entregues a casais gays seriam devolvidas, tipo objecto da Fnac. Nestes tempos tão estúpidos, haja algum bom senso.