De uma forma perigosa, a relidade confunde-se e supera a ficção.
Recolho histórias que são bizarras, absurdas, medonhas, de partir e congelar o coração.
Tudo isto para um livro que talvez venha a ser, ou nem por isso. Nunca se sabe.
A maioria das histórias não as posso escrever, a realidade tem um peso suplementar que não co-existirá bem no preto e branco. Há ideias que deveriam ser deixadas de lado, já sei. Mas sou tão teimosa que insisto.
Já nem digo:
Irra!
ou
Cruzes!
ou
Meu Deus!
Neste mundo onde agora me movo, como jornalista de investigação que, afinal, acho que não deixarei de ser, qualquer expressão de pasmo é inútil. Absolutamente inútil. Perguntam-me:
Mas andas a fazer o quê?
Posso garantir que ando pelos degraus do inferno. Se, um dia, o livro sair, contarei tudo, contarei mais. Agora não posso, não consigo. Estou de tal forma espantada e zangada que me sinto incapaz de discutir o Governo, as praxes, o Hollande, a bola, o fisco, os cortes, a troika, a imprensa, seja o que for. Há momentos na vida em que o prioritário é mesmo prioritário e resume-se a isto: sobreviver.

E assim, como é difícil escrever face à viralidade do Absurdo!
Tenho muitas vezes esta sensação de que a realidade ultrapassa a ficção. Por vezes através de situações cruéis, mas outras vezes através de momentos geniais, de tão desconcertantes.
Se calhar é por isso que tenho muita dificuldade em escrever ficção. Acho sempre a realidade infinitamente mais poderosa.
Francisca, acredito piamente no que dizes: a realidade é mais poderosa. Escrever, para alguns, é uma terapia, uma forma de pensar, de resolver questões, perguntas, receios. Não sei explicar melhor, já que, ao mesmo tempo, escrever implica exposição, risco, possibilidade de levar nas trombas dos críticos ou amigos, e algum sofrimento quando se escreve sobre determinados assuntos. Beijos
Percebo tão bem o que dizes. Eu encontro isso no formato crónica.