Os miúdos já não são miúdos, são quase-homens, podem fumar e beber mojitos, aprender a guiar e depois ter as dúvidas que os miúdos têm, as mesmas que os homens terão. Uma mãe assiste. A partir de uma certa altura, uma mãe é uma espectadora. Participa se lhe pedem, cala e ouve e aprende. Eu aprendo com os miúdos o que é ser miúdo hoje. O mais novo não está, portanto, parece que é tudo uma coisa de adultos. Não é. Adormecemos a ver o panda Kung Fu II.
os miúdos
Patrícia Reis,

Uma mãe já não aprende nada, ou quase nada, pois a escola da vida deu-lhe uma grande bagagem nesta vida desconcertada. Eles, os miúdos graúdos é que pensam que são donos do mundo, tudo sabem e nada aceitam, a não ser um dia quando algo falha aí recorrem aqueles que para eles nada sabiam. Se os miúdos são quase homens de quem será a culpa? Dos pais sem dúvida, é que tudo a seu tempo, pois para se ser miúdo o tempo é aquele e aquele mesmo e para ser homem tem a vida toda.
Maria, compreendo a sua perspectiva e respeito, porém tenho de dizer que tudo depende dos miúdos e não tenho qualquer sentimento de culpa, felizmente. Tenho bons miúdos, com boas notas, que têm dúvidas, a quem tenho de deixar espaço e caminho, não são meus, são do mundo. Como dito, os miúdos diferem, não tenho queixas dos meus. Têm as suas coisas, é certo, mas dizer que a escola os educou, isso não posso dizer. Eu eduquei os meus filhos, abdiquei de muito para o fazer e não me arrependo. Há dias? Sim. Há momentos de frustração? Claro. Fases? Certamente. Mas no fim acabamos a todos a conversar sobre o urinol do Duchamp ou a ver o panda Kung Fu, não me posso queixar. Vejo muitas pessoas que se queixam, muitas que não têm tempo para os filhos, muitas que passam dificuldades, sou uma privilegiada dentro do meu mundo pequeno e com tantos defeitos. Bom fim de semana.
Patrícia, entendo-a perfeitamente pois também eu eduquei os meus o melhor que pude, desde a infância até à melhor universidade e sempre estive presente nos bons e maus momentos. Tenho um filho e uma filha. O meu filho que teve um percurso exemplar até à conclusão do seu mestrado, hoje não sei quem ele é nem o que faz … O perigo espreita-os. Desde que conheceu uma rapariga de mau carácter, deixou de ser ele para passar a ser ela… Faz o que ela quer, não ouve nada nem ninguém, chegando ao ponto de trair o próprio pai… Sei que não sou infelizmente a única e como tal, aconselho todos os pais a terem os olhos bem abertos, porque nunca sabemos quem está ao nosso lado.
Maria, lamento o que me relata, lamento muito e, infelizmente, não é a primeira pessoa que sei viver uma situação familiar – com os filhos – desse calibre. É estranho, parece que crescem contra nós, não é? De certa forma, essa questão, os filhos passarem a ser porventura estrangeiros, foi o que me levou a escrever o último livro que é sobre uma mãe e um adolescente. Tem toda a razão, nunca é demais ter os olhos bem abertos, na certeza de que existem coisas contra as quais não podemos embater sistematicamente, corremos o perigo de deixar de ter a nossa vida e viver apenas em função dos filhos e dos gestos dos mesmos. Um beijo e resto de bom domingo