O Presidente de Sócrates (3)


Adolfo Mesquita Nunes,

Tentei descrever, no anterior post, aquelas que para mim são as principais diferenças que entre Cavaco Silva e Manuel Alegre e, bem assim, de que forma é que elas interferem na estabilidade e conforto que José Sócrates precisa de encontrar para levar esta legislatura a bom porto. Concluí que, de um ponto de vista de serenidade institucional, Cavaco Silva é um Presidente mais apetecível para José Sócrates do que Manuel Alegre.

Gostava agora de evidenciar de que forma as diferenças entre os dois eventuais candidatos (Cavaco tentando impedir que Sócrates arruíne a economia, Alegre tentando impedir que Sócrates fuja ainda mais do socialismo assistencialista) interferem na imagem que José Sócrates pretende transmitir, e que lhe será útil durante e após a governação.

Ao lado de Cavaco Silva, José Sócrates aparece como o Primeiro-Ministro que resiste em colocar a economia à frente das pessoas e dos seus dramas. Quando enfrenta Cavaco, José Sócrates procura transmitir a imagem de que enfrenta a rigidez e a frieza do Presidente. A sua rebeldia face ao Presidente é em nome das pessoas e pelas pessoas.

Ao lado de Manuel Alegre, José Sócrates aparecerá, precisamente, no papel a que José Sócrates pretende encostar Cavaco. Enquanto autoproclamado verdadeiro representante do socialismo, Alegre pressionará Sócrates para um conjunto de reformas e medidas que nem mesmo Sócrates pretende assumir. Será ele a representar a frieza e o rigor dos números e será Alegre a representar o humanismo socialista.

Ao lado de Cavaco, José Sócrates é um socialista. Ao lado de Alegre, José Sócrates é um trânsfuga. Se o Governo e o Presidente continuarem a ser olhados, na análise dos portugueses, em conjunto, José Sócrates sai, para aquilo que lhe interessa, mais favorecido na fotografia com Cavaco do que com Alegre.

 

 (continua)

O Presidente de Sócrates (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

Manuel Alegre está há demasiado tempo na política para se saber tão pouco sobre as concretas ideias que tem para o país. Dele soubemos, durante décadas, aquilo que o PS dele quis que soubéssemos e assim se construiu uma sobrevalorização do seu papel e da sua estatura política. Não foi à toa que Sérgio Sousa Pinto o catalogou como soufflé político, assim como não foi por acaso que Mário Soares, que bem o conhece, dedicou grande parte da sua falhada campanha a tentar escancarar o vazio por detrás do mito que ele próprio ajudara a criar.

Esta realidade, tal qual a interpreto, não prejudica a capacidade de Alegre alcançar, e eventualmente manter, a capacidade de congregar um milhão de votos. Apenas prejudica a possibilidade de José Sócrates nele ver um Presidente capaz de lhe conferir a estabilidade e o conforto que necessita para governar em minoria com uma oposição apostada em assumir a sua importância.

 

 

 

Ao contrário do que acontece com Cavaco Silva, em que é possível prever todos os seus vetos e todas as suas discordâncias, Manuel Alegre pauta a sua intervenção política pela imprevisibilidade, fruto da falta de consistência programática que ostenta e, sobretudo, da exuberante diversidade de pessoas que o influencia.

Ao contrário do que acontece com Cavaco Silva, que procura obrigar o Governo a não descarrilar a economia e as finanças, Manuel Alegre pressionará exactamente no sentido oposto, conhecidas que são as suas recentes e erráticas intervenções sobre o assunto. Não admira, por isso, que José Sócrates se considere no bom caminho: ele é a terceira via entre o frio Cavaco e o inconsciente Alegre. Ele é o bom senso entre os que só olham para os números e os que deles se esquecem.

Ao contrário do que acontece com Cavaco Silva, que não se sente representante do regime republicano nem investido de uma autoridade especial que não a da sua eleição e da sua capacidade política, Manuel Alegre sente-se representante do impossível e do sonho e confunde as suas opiniões com a resposta da ética republicana.

Tudo isto contribui, do meu ponto de vista, para fazer de Manuel Alegre um candidato que, sendo mais próximo de José Sócrates, mais compromete a execução do programa governamental, mais reduz a capacidade de ser José Sócrates a escolher o teor das suas alianças e mais instabilidade promete criar no dia-a-dia. Atrevo-me mesmo a dizer, tratando-se de mera especulação e como tal deve ser tratada, que com mais facilidade veríamos José Sócrates dizer-se sem condições para governar com Alegre do que com Cavaco Silva.

 

 

(continua)

 

O Presidente de Sócrates (1)


Adolfo Mesquita Nunes,

A recente estratégia de confronto com o Presidente da República que José Sócrates empreendeu tornou-o frágil perante os sucessos e vitórias de Cavaco Silva.

 

Na verdade, José Sócrates não precisava, para a sua consolidação política, de derrotar um Presidente da República na sua recandidatura, conhecidas que são as taxas de popularidade dos Presidentes recandidatos. De certa forma, uma postura de alguma indiferença perante o resultado (semelhante, mas para melhor porque mais consistente, à de Cavaco Silva aquando da reeleição de Soares) beneficiaria a postura institucional de um Primeiro-Ministro que precisa de negociar para governar e permitir-lhe-ia não ter que enfrentar nestes conturbados tempos mais um combate.

 

 

No entanto, no pé em que as coisas estão neste momento, uma vitória de Cavaco Silva é já uma derrota para José Sócrates, pelo que o Primeiro-Ministro terá de empreender esforços e tempo e disponibilidade para o combate eleitoral presidencial. Tudo o que o país não precisava.

 

Apesar de tudo, a entrada em combate de Sócrates poderia trazer-lhe vantagem se o PS dispusesse de um candidato que, podendo ganhar, de alguma forma garantisse um conforto institucional ao Governo para governar em minoria e no sentido mais próximo ao que está previsto no seu Programa. Mas o PS só tem, até ao momento, Manuel Alegre. E Manuel Alegre garante tudo menos conforto institucional ao Governo. (continua)

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

Não existe ainda em Portugal a tradição de os deputados prestarem também contas do que pensam e do que dizem para além dos noticiários através de blogues não institucionais, com a evidente excepção daqueles deputados que eram bloggers antes mesmo de serem deputados.

Por "blogues não institucionais" refiro-me à utilização de um blogue não como mero suporte para a postagem de discursos ou intervenções ou artigos mas, isso sim, a utilização de um blogue para o debate político e para a divulgação, para lá do relato oficial, da sua actividade e pensamento político. 

Não me parece essencial que um deputado tenha um blogue não institucional, embora me agrade a ideia de que tenha. Já me causa mais estranheza, isso sim, que deputados que o não tenham, por falta de tempo ou de jeito ou de gosto ou de disciplina, adiram com tanta facilidade ao twitter, onde comunicam em meia dúzia de caracteres que rapidamente se esfumam, e ao facebook, onde em meia dúzia de caracteres que se esfumam ao segundo comunicam o que pensam.

Assim, e por ser o mais recente o que mais próximo me é, o blogue da semana que destaco é o Da Última Fila, que reúne os deputados Cecília Meireles Graça, Filipe Lobo d´Ávila, João Pinho de Almeida e Michael Seufert. Mas, se me permitirem a fuga à regra, este post continuará em aberto e elencará, assim os comentadores começarem a apontar injustas omissões, outros blogues com as mesmas características. 

A alternativa que o não é (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

Uma das mais sérias e fortes objecções à aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo é aquela que chama a atenção para a intromissão estadual nas relações humanas, de que esta medida legislativa é mais um exemplo, sobretudo olhando para grande parte da sua informal exposição de motivos .

Tendo a concordar com essa posição e a partilhar o receio das engenharias sociais impostas pelo Estado. Mas essa objecção aplica-se, também ela, a grande parte do regime do casamento (e não só, como alguns parecem afirmar, às recentes alterações socialistas ao divórcio) assim como se aplica necessariamente à contratualização tipificada da união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Por isso mesmo, a correcção das engenharias sociais em matéria de família implica, do meu ponto de vista, uma disponibilidade para a revisão do regime do casamento civil que poucos parecem dispostos a empreender e que, por isso mesmo, não me aparece actualmente como alternativa no debate legislativo em curso.

A alternativa que o não é


Adolfo Mesquita Nunes,

Sabendo que sou favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo* há quem me pergunte se a união civil apresentada pelo PSD não poderia ser uma boa solução alternativa.

Tenho respondido sempre o mesmo: seria uma alternativa se o PSD (ou o CDS, se a vier a apoiar) alguma vez a tivesse apresentado para a ver aprovada. Assim sendo, e independentemente da sua maior ou menor virtualidade, é politicamente um nado morto, que serve quem a apoia para ajudar a passar pela questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo com o menor desconforto possível; e enquanto nado morto é uma não alternativa. 

É evidente que essa proposta pode ser analisada e pensada; coisa diferente é tomá-la por aquilo que não é. Não se trata de uma proposta-iniciativa pensada para melhor enquadrar as uniões entre pessoas do mesmo sexo em alternativa ao casamento, de tal forma que nunca foi apresentada nem mesmo quando o casamento foi votado (e chumbado). Trata-se de uma proposta-reacção (legitimamente) destinada a impedir que essas uniões se chamem casamento. 

 

*A minha posição foi expressa num artigo publicado na Atlântico, que pode ser lido aqui. O artigo está já desactualizado, uma vez que há coisas que já não escreveria, assim como há coisas que estão por escrever ou que fui escrevendo por outros lugares. Mas a posição global anda mais ou menos por ali. 

Duas apostas


Adolfo Mesquita Nunes,

Hoje à noite há jantar do Delito, que é dia de festa e cantam as nossas almas. E eu, que há muito por aqui não escrevo, apenas por falta de tempo (já que também não escrevo em mais lado nenhum), não posso deixar chegar a hora de jantar sem deixar um postzito, não vá a censura dos restantes abater-se sobre mim em regime de claustrofobia democrática.

Porque o tempo não abunda, fica a minha aposta, que tenciono desenvolver mais tarde, sobre quais serão os dois movimentos de política interna que podemos esperar no primeiro semestre de 2010: (i) o dos ratos a abandonar o navio socialista, percebendo que o problema da governabilidade não está no navio, mas no timoneiro e o (ii) da progressiva adaptação de Cavaco Silva aos que os portugueses querem ouvir, preparando a sua recandidatura.

Um e outro terão profundas implicações na paisagem política nacional e poderão mesmo condicionar os contornos de um dos maiores problemas políticos que Portugal tem por resolver desde o 25 de Abril: a inexistência de alternativa de Governo.

A isto voltarei. Sob pena de censura no próximo jantar.

Oposição hiperactiva


Adolfo Mesquita Nunes,

Começa a haver quem se queixe da hiperactividade da oposição parlamentar aos socialistas e nela encontre um factor de perturbação da governabilidade. E são essas queixas que nos recordam o quão pouco tempo levamos de democracia.

 

É que a actual competição pelo prémio ‘eu sou mais oposição do que tu’, pese os excessos motivados pela descoberta das virtualidades parlamentares após 35 anos de oposição pífia e retórica, mais não constitui do que a normal decorrência do que devem ser os trabalhos parlamentares.

 

E se é certo que o tom da oposição é proporcional à arrogância de que foi vítima na anterior legislatura, havendo nela um tom revanchista que seria dispensável, não menos certo é de que não nos podemos dar ao luxo de dispensar os deputados que, por fim, perceberam para que serve o parlamento e apreenderam quais os propósitos da oposição.

 

Aliás, só com oposição activa e militante é possível obrigar o governo, este ou qualquer a outro, a abandonar a estratégia, muito em voga por estes cantos, de transformar a prestação de contas ao parlamento, e através deste ao país, num proforma sem significado. 

 

A oposição parlamentar limita-se, pois, a fazer o seu trabalho, obrigando o PS parlamentar a fazer aquilo que há muito não estava habituado – trabalhar em vez de aplaudir – e obrigando o governo a prestar contas sobre o que anda a fazer ao invés de distribuir boutades a torto e a direito contra a oposição.  

Enriquecimento ilícito


Adolfo Mesquita Nunes,

Preocupa-me a animada  defesa de propostas de criminalização do enriquecimento ilícito como se esta não fosse a mais preguiçosa forma de lidar com as dificuldades que a presunção de inocência traz a uma investigação, criando uma espécie de crime sobre um crime.

 

E se tudo isto é muito bonito de aceitar quando imaginamos os poderosos no banco dos réus (neste caso arguidos), alimentando os nossos costumeiros ódios sociais, talvez fosse melhor parar para pensar nos menos poderosos que poderão ser visados por aquela proposta: todos nós. É que ao contrário do que possa pensar-se, e como sempre acontece, é o mexilhão a levar com esta absurda inversão das presunções que deveriam nortear a investigação. 

 

A corrupção, sobretudo se instalada e sistémica, não se resolve com leis relativas à sua criminalização, que aliás já existem e que são aplicadas precisamente pelo e com o sistema. Resolve-se com a drástica diminuição das hipóteses de corrupção, só possível com uma redução substancial dos pequenos poderes que hoje atribuímos ao Estado.  

“You must believe in Jesus or you wouldn’t do these foolish things” (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

Ainda a propósito das declarações de Saramago sobre a Bíblia e sobre a coincidência de as ter lido no preciso momento em que segurava no Wise Blood, de que falei no meu anterior post, gostava de voltar à ideia de Saramago como alguém que certifica, no seu afã negacionista, a existência de Deus. E volto com palavras da própria autora, a propósito do romance, que me parecem oportunas (destaques meus):

 

"It is a comic novel about a Christian malgré lui, and as such, very serious, for all comic novels that are any good must be about matters of life and death. Wise Blood was written by an author congenitally innocent of theory, but one with certain preoccupations. That belief in Christ is to some a matter of life and death has been a stumbling block for readers who would prefer to think it a matter of no great consequence. For them Hazel Motes’ integrity lies in his trying with such vigor to get rid of the ragged figure who moves from tree to tree in the back of his mind. For the author, Hazel’s integrity lies in his not being able to."

 

E se volto a este assunto, não o faço por Saramago, por quem não me interesso muito,  nem pela minha fé, que existe e resiste. Mas porque Flannery O’ Connor é a minha escritora de eleição e este é apenas um pretexto para a trazer até aqui, pese o desconforto que sinto de cada vez que escrevo sobre outra coisa que não política.  

“You must believe in Jesus or you wouldn’t do these foolish things”


Adolfo Mesquita Nunes,

A vida tem destas coincidências engraçadas. Estava eu numa livraria em Londres, acabado de encontrar uma edição de Wise Blood da Flannery O’Connor, escritora de que muito gosto, quando recebo via sms as declarações de Saramago sobre a Bíblia.

 

A engraçada coincidência está no facto de em Wise Blood, O’Connor, escritora manifestamente influenciada pelo catolicismo, relatar a história de Hazel Motes, um jovem tão crente na sua descrença que funda a Igreja Sem Cristo, a Igreja "where the blind don’t see and the lame don’t walk and what’s dead stays that way":

 

"Listen you people. I’m going to preach there was no Fall because there was nothing to fall from and no Redemption because there was no Fall and no Judgement because there wasn’t the first two. Nothing matters but that Jesus was a liar… Where you came from is gone, where you thought you were going to never was there, and where you are is no good unless you can get away from it".  

 

Mas Hazel Motes, como descobrirão aqueles que se aventurarem pelo romance de O’Connor, revela-se, pelas suas escolhas e acções, um verdadeiro crente. Como alguém lhe dirá, "You must believe in Jesus or you wouldn’t do these foolish things. You must have been lying to me when you named your fine church. I wouldn’t be surprised if you weren’t some kind of a agent of the pope or got some connection with something funny".   

 

É esta a ironia que rodeia Saramago e as suas constantes afirmações da inexistência de Deus, contribuindo afinal para a afirmação da Sua existência. E se foi com estas ideias que comprei a edição que tinha na mão, foi já com Sophia que regressei ao hotel: "A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias."

Factos


Adolfo Mesquita Nunes,

Em 2005, o PSD ganhou sozinho 138 presidências de Câmara (o PS apenas tinha ganho 109), às quais somou 18 outras presidências de Câmara com o apoio do eleitorado do CDS. Em 2009, o PSD ganhou sozinho 117 presidências de Câmara (o PS ganhou mais do que o PSD, tendo ganho 131), às quais somou 19 outras presidências de Câmara com o apoio do eleitorado do CDS.

Uma minoria não é uma maioria


Adolfo Mesquita Nunes,

A dificuldade dos socialistas em perceber o verdadeiro sentido da palavra compromisso é tal que, para aqueles lados, compromisso significa a oposição ceder sempre ao programa do PS. Mas a palavra compromisso não significa isso, como bem se sabe. Significa que o PS e as oposições têm de encontrar, em determinadas matérias, pontos de encontro. Umas vezes cede o PS, outras cede a oposição, algumas cedem ambos.

 

Só esta dificuldade em entender a palavra compromisso justifica o post em que o Carlos Santos comenta aquilo que aqui escrevi. Na verdade, o Carlos parece inferir que eu considero que as oposições não devem ceder em nada quando a minha frase a que o Carlos se agarra se limitava a oferecer, por absurdo, contraponto à tese socialista de que o PS não tem de ceder em nada e as oposições em tudo. Mas vamos à questão de fundo.

 

Quem lê o Carlos Santos, e quem ouve os dirigentes do PS, é levado a pensar que ter minoria parlamentar é a mesma coisa que ter maioria parlamentar, ao estilo the winner takes it all. No fundo, é indiferente que o partido vencedor tenha ou não maioria. Se a tem, governa em maioria. Se a não tem, governa como se a tivesse porque impende sobre a oposição o dever político de deixar passar as propostas socialistas. Mas não é bem assim. Aliás, essa ideia levada ao extremo conduziria não à formação de maiorias parlamentares mas à formação de unanimidade parlamentar.

 

E ao contrário do que diz o Carlos Santos, eu não tenho qualquer forma colectivista de olhar para os resultados eleitorais. Quem a tem é o Carlos que, olhando para a composição parlamentar, considera que os portugueses, no seu conjunto e a uma só voz, quiseram que fosse o PS a governar e as oposições a ceder. E assim esquece todos os indivíduos, a maioria, que votaram noutros partidos e que gostariam que o PS olhasse para o que disseram através do seu voto. Cabe ao Governo, consoante as matérias, estabelecer os compromissos que menos se afastam do que pensa para o país.

 

E já agora, sendo verdade que sou militante do CDS, não falo pelo CDS nem ando ao serviço do CDS na blogosfera. 5 anos de blogosfera falam aliás por mim, e se há coisa que eu não faço são fretes ao meu partido, como aliás já tive várias oportunidades para o demonstrar. Por isso é escusado o Carlos Santos fazer dois posts seguidos a identificar-me como apoiante do CDS. Na blogosfera, eu sou eu, falo por mim e não falo pelo CDS. Presumo que o Carlos fale por si também. E é com o Carlos Santos que discuto. Não é com o Carlos Santos apoiante do PS.

Engraçada teoria (2)


Adolfo Mesquita Nunes,

O PS tem insistido, a propósito da governabilidade, na ideia de que o povo português ofereceu ao PS a legitimidade para governar, chumbando as propostas da oposição, pelo que tem de ser a oposição, e não o PS, a ceder nos seus programas eleitorais. Afinal de contas, diz-se pelo PS, o programa do PS foi o que recolheu mais votos.

Engraçada esta teoria socialista que trata os portugueses como uma massa colectiva, cuja vontade se traduziu no resultado eleitoral e que parece esquecer-se que cada voto é um voto e que a maioria dos votos quis penalizar a governação socialista. Se o PS quer governar o país de acordo com a vontade dos portugueses, não pode valorizar mais os votos da minoria de eleitores que votou no PS, como se essa minoria valesse mais do que a maioria dos que votou por uma mudança de política.

Engraçada esta teoria socialista que parece esquecer que a maioria dos portugueses não quis o programa do PS e que, mais do que isso, pretendeu que este chegasse a compromissos vários com as oposições. Se o eleitorado quisesse que fossem as oposições a ceder perante o PS e não o contrário, teria dado maioria aos socialistas.

Seria por isso preferível que o PS, respeitando os resultados eleitorais e a vontade expressa pelo povo, se preparasse para ceder no seu programa eleitoral em vez de fazer-se de virgem ofendida de cada vez que alguém profere a palavra compromisso. É que, desta vez, e muito enganado posso eu estar, o ónus da governabilidade recai sobre o governo e não sobre qualquer um dos partidos da oposição. A isto voltarei.

ADN do PSD


Adolfo Mesquita Nunes,

É verdadeiramente extraordinário que os que ponderam ponderar candidatar-se a Presidente do PSD continuem sem explicar ao certo ao que é que vêm e o que é que correu mal nestes últimos anos no partido e prefiram análises estratégicas e não programáticas. Poderia tratar-se de táctica, o que torna este meu post precipitado, mas a verdade é que tudo parece passar-se como na última disputa pela liderança, tempos em que reinava a ideia de que o PSD falhava apenas pelo líder e pela sua circunstância.

Ora, como na altura disse, nos idos tempos de Abril de 2008, é finalmente a hora de o PSD descobrir qual o seu espaço na nova década. Qual o seu papel. Se é que tem algum. Ora, essa descoberta será difícil enquanto o PSD estiver dominado não só por quem não vê para além dos dois meses que sucedem à manchete do jornal como também por todos aqueles que insistem e continuam a insistir que o PSD se deve posicionar no centro esquerda e a defender o modelo do Estado social.

Não me parece que seja isso que esteja neste momento a acontecer nem me parece que seja isso que venha a suceder. Simplesmente porque, de entre os vários que ponderam ponderar, nenhum é propriamente conhecido por negar o caldo social democrata que tem enformado o partido.

Engraçada teoria


Adolfo Mesquita Nunes,

Num jantar em Alcobaça em que se debruçou sobre o próximo governo, Manuela Ferreira Leite veio colocar o ónus da governabilidade nos outros partidos. Cabe ao CDS, PCP e Bloco, segundo ela, assegurar as condições de governabilidade do país (não encontro o link para as declarações, que ouvi pela televisão).

 

Engraçada esta teoria de Manuela Ferreira Leite que parece esquecer que, no espectro político português, o partido que menos afastado está do PS é o PSD, distância essa que é atravessada unicamente por um TGV.

 

Engraçada esta teoria de Manuela Ferreira Leite que parece esquecer-se que a derrota sistemática do PSD nos últimos anos se deve à excessiva proximidade de políticas entre o PS e o PSD.

 

Engraçada esta teoria de Manuela Ferreira Leite que parece esquecer que cada partido sabe interpretar, com toda a legitimidade, o que fazer com os deputados eleitos e com os mandatos que o povo lhes deu.

 

Enraçada esta teoria de Manuela Ferreira Leite que quase parece esquecer que quem votou no CDS não votou seguramente alimentado por qualquer esperança de aliança governativa com os socialistas, algo que não pode propriamente dizer-se dos eleitores do PSD que foram embalados pela conversa do bloco central, vinda do Vice-Presidente do PSD e de outros cabeças de lista.

Boca na botija


Adolfo Mesquita Nunes,

Sentindo-se vigiado, eventualmente pelo Governo, Cavaco Silva foi apanhado com a boca na botija a tentar resolver o assunto através da pequena intriga jornalística. A sua declaração de ontem mais não foi do que a desesperada tentativa de fazer sobressair as suas desconfianças e de camuflar a desastrada e pouco digna forma como procurou fazer-lhes face. Vitimizar-se, no fundo. E dizer-se cercado pelo Governo.

 

Sendo impossível escapar à querela institucional com o Governo, a vitimização de Cavaco Silva poderia, apesar de tudo, servir-lhe para arregimentar numa qualquer indignada vaga de fundo o eleitorado de direita que nele votou e que ainda não digeriu bem a reeleição de Sócrates. Acontece que Cavaco Silva foi precisamente um dos artífices da vitória de José Sócrates e o PSD é, neste momento, o último partido com vontade de manifestar comiseração pelo cerco feito pelo Governo ao Presidente.

 

A declaração de Cavaco Silva teve, por isso, um efeito contrário ao pretendido. Alargou a vitória de José Sócrates e reduziu em muito a margem de manobra de uma oposição que poderia e deveria continuar a insistir no espírito controleiro do governo socialista, levando de caminho a credibilidade de um jornal que cometeu o erro de acreditar que a Presidência jamais poderia estar a meter-se na pequena intriga. O que não deixa de ser irónico, uma vez que, tanto quanto posso adivinhar, o Presidente considera mesmo que o Governo andou a vigiar a Presidência.

 

A Cavaco Silva resta aproveitar a lição e, desta vez com tino e rigor, colocar a circular um bom e insuspeito motivo para não voltar a candidatar-se à Presidência.

Rua Direita


Adolfo Mesquita Nunes,

Durante algumas semanas fiz parte do blogue que apoiou o CDS nestas últimas eleições, o Rua Direita, que chegou hoje ao fim e que em larga medida motivou a minha ausência do Delito.

Deixo aqui parte da nossa declaração final, porque me parece que ela corresponde aos novos tempos por que atravessará o CDS. Espero que quem por lá tenha passado possa concordar com a nossa declaração final, ainda que possa ter discordado de tudo o que por lá se debateu ou escreveu.

 

Os partidos não devem ser espaços monolíticos onde só cabe uma ideia, nem lugar nenhum onde cabe tudo. Nós, que não somos a voz do CDS, somos o CDS dos eleitores (dos que têm e vêm à net, mas não só). Os eleitores que aqui passaram não são apenas o futuro do CDS. Eles são o presente do CDS e foi por eles e com eles que se testemunhou o crescimento eleitoral do CDS. De resto, esta Rua mostrou como o CDS é muito mais do que aquilo que muitas vezes o fazem parecer. Coisa que os leitores da Rua perceberam e os eleitores também.

Os 10% do CDS


Adolfo Mesquita Nunes,

A extraordinária vitória do CDS tem várias explicações. Mas em todas elas serão comuns três factores: o carisma do líder, a clareza do discurso e a afirmação de uma alternativa ao socialismo.

 

Ora, o carisma de Portas e a clareza do seu discurso estiveram presentes ao longo da sua carreira política e nunca lhe tinham permitido chegar aos 10,5% e aos 21 deputados. Assim, o que verdadeiramente possibilitou este resultado foi a afirmação de um discurso verdadeiramente alternativo ao socialismo, que encostou o PSD ao centrão e que seduziu 10% do eleitorado.

 

É por isso que todas as teorias acerca uma eventual coligação com o PS esbarram na realidade: elas desmentem precisamente as razões do sucesso do CDS nestas eleições. E só quem não percebeu nada do que se passou nestas eleições pode achar que a ideia de governo PS/CDS passa pelo Largo do Caldas.

 

Assim como só quem não percebeu nada do que se passou com o eleitorado de direita nestas eleições pode achar que o resultado do PSD se deve apenas à má prestação de Manuela Ferreira Leite, que alcança um resultado pouco superior ao de Pedro Santana Lopes. É que pese os contributos de um e de outro para as derrotas eleitorais de 2005 e 2009, o que verdadeiramente ressalta dos resultados do PSD é a sua incapacidade de combater a invasão pelo PS do espaço natural do PSD. E recupero o que já escrevi em Dezembro de 2008:

 

O PSD, enquanto partido que quer manter-se social democrata, pouco mais pode fazer quanto a isso do que tentar fazer passar a ideia de que o PSD é, naquela área em que se move o PS, mais competente, mais audaz e mais reformista. É coisa pouca e que não cheira a verdadeira alternativa.

 

O PSD sofre neste momento as vicissitudes de ser, enquanto social democrata, um partido a mais no sistema partidário. Esta originalidade portuguesa, de ter dois partidos sociais democratas a ocupar 70% do eleitorado, não poderia, nem poderá, durar muito tempo.

 

E se é certo que qualquer um dos dois partidos poderia estar a sofrer este fenómeno de erosão, a verdade é que, desses dois, apenas o PSD o está a sofrer, e a olhos vistos. Veja-se que se José Sócrates vencer, com ou sem maioria absoluta, e se mantiver no poder durante a próxima legislatura, teremos que o PSD governou, de 1995 a 2013, apenas dois anos e meio. Ou seja, em 18 anos, apenas 2,5 poderão ser associados ao PSD.

 

Esta erosão do PSD é, por isso inevitável, ajudada pelo facto de, lá dentro, credíveis e não credíveis não saberem muito bem por onde deve ir o partido, e com quem. O que é natural, quando se tem o PS à perna, a ocupar o discurso que o PSD sente como seu.

Blogue da Semana


Adolfo Mesquita Nunes,

Uma das melhores coisas que a blogosfera me trouxe foi a possibilidade de confrontar, com algum rigor e rapidez, a forma como, em Portugal e no resto do Mundo, os factos nos são relatados pela comunicação social. Evidentemente que com isto estou a afirmar, e sob o pesado manto de uma generalização que é muito injusta, que desde há muito tempo que desconfio que muitos jornalistas se resumem a relatar histórias lidas ou ouvidas de terceiros sem questionar verdadeiramente os seus pressupostos.

 

Pensam que estou a exagerar? Vejam, por exemplo, esta impressiva galeria de fraudes fotográficas que a Reuters andou a vender ao Mundo inteiro sob o belo propósito de nos doutrinar sobre o conflito entre Israel e o Líbano, como quem se acha no direito de torcer a realidade para ver se ele cabe nos insuspeitos pontos de vista de quem tudo parece saber. Veja-se que durante semanas fomos inundados com fotografias que, procurando relatar o conflito, não passavam de encenações destinadas a dramatizar e a convencer-nos de algo. Encenações tão evidentes que não era preciso um blogue para as desmascarar: qualquer jornalista deveria tê-lo feito.

 

É por isso que gosto de consultar um conjunto de blogues que, de tempos a tempos, se dedica a evidenciar até que ponto os órgãos de comunicação social estão ao serviço não dos factos e da verdade mas sim, por preguiça ou por desejo, de uma ou outra divina convicção. São blogues parciais? Com certeza que sim. Mas estes, ao menos, não têm a pretensão da isenção e assumem as suas posições com clareza.

 

Assim, destaco para blogue da semana, precisamente no dia em que o Diário de Notícias acha que o aquecimento global abriu uma brecha no Árctico (via Blasfémias), o EU Referendum. Lá se pode ler, por exemplo, que a brecha no Árctico está lá (e é utilizada) há décadas, pelo que pouco deve ter que ver com o aquecimento global (vale muito a pena ler, por exemplo, aquilo que por lá se desmascara de Al Gore, por exemplo).