Os 10% do CDS


Adolfo Mesquita Nunes,

A extraordinária vitória do CDS tem várias explicações. Mas em todas elas serão comuns três factores: o carisma do líder, a clareza do discurso e a afirmação de uma alternativa ao socialismo.

 

Ora, o carisma de Portas e a clareza do seu discurso estiveram presentes ao longo da sua carreira política e nunca lhe tinham permitido chegar aos 10,5% e aos 21 deputados. Assim, o que verdadeiramente possibilitou este resultado foi a afirmação de um discurso verdadeiramente alternativo ao socialismo, que encostou o PSD ao centrão e que seduziu 10% do eleitorado.

 

É por isso que todas as teorias acerca uma eventual coligação com o PS esbarram na realidade: elas desmentem precisamente as razões do sucesso do CDS nestas eleições. E só quem não percebeu nada do que se passou nestas eleições pode achar que a ideia de governo PS/CDS passa pelo Largo do Caldas.

 

Assim como só quem não percebeu nada do que se passou com o eleitorado de direita nestas eleições pode achar que o resultado do PSD se deve apenas à má prestação de Manuela Ferreira Leite, que alcança um resultado pouco superior ao de Pedro Santana Lopes. É que pese os contributos de um e de outro para as derrotas eleitorais de 2005 e 2009, o que verdadeiramente ressalta dos resultados do PSD é a sua incapacidade de combater a invasão pelo PS do espaço natural do PSD. E recupero o que já escrevi em Dezembro de 2008:

 

O PSD, enquanto partido que quer manter-se social democrata, pouco mais pode fazer quanto a isso do que tentar fazer passar a ideia de que o PSD é, naquela área em que se move o PS, mais competente, mais audaz e mais reformista. É coisa pouca e que não cheira a verdadeira alternativa.

 

O PSD sofre neste momento as vicissitudes de ser, enquanto social democrata, um partido a mais no sistema partidário. Esta originalidade portuguesa, de ter dois partidos sociais democratas a ocupar 70% do eleitorado, não poderia, nem poderá, durar muito tempo.

 

E se é certo que qualquer um dos dois partidos poderia estar a sofrer este fenómeno de erosão, a verdade é que, desses dois, apenas o PSD o está a sofrer, e a olhos vistos. Veja-se que se José Sócrates vencer, com ou sem maioria absoluta, e se mantiver no poder durante a próxima legislatura, teremos que o PSD governou, de 1995 a 2013, apenas dois anos e meio. Ou seja, em 18 anos, apenas 2,5 poderão ser associados ao PSD.

 

Esta erosão do PSD é, por isso inevitável, ajudada pelo facto de, lá dentro, credíveis e não credíveis não saberem muito bem por onde deve ir o partido, e com quem. O que é natural, quando se tem o PS à perna, a ocupar o discurso que o PSD sente como seu.

19 comentários em “Os 10% do CDS”

  1. Na substância, verifico que isto não difere de coisas que já em tempos escrevi, Adolfo. Numa perspectiva talvez mais distanciada, abordei algumas vezes esta invulgar contradição portuguesa de termos como alternativas dois partidos semelhantes, encostados um ao outro no nosso leque partidário, quando seria normal que a alternância estivesse (como era suposto estar) centrada num partido de direita e noutro de esquerda, com propostas claramente diferenciáveis.

    A normalidade da lógica, por exemplo, PP e PSOE, Conservadores e Trabalhistas, Republicanos e Democratas, etc., nunca funcionou entre nós. E é esta estranha alternância (cada vez menos real e mais falsa pelo esvaziamento ideológico e pela conquista de um óbvio eleitorado comum) que vai minando inexoravelmente um (pelo menos) dos partidos do “centrão”, cada vez menos capazes de se oferecer como alternativa um do outro face à proximidade crescente do espaço que querem ocupar.

    1. Mas nada teria impedido o PSD de perceber os sinais dos tempos. E MFL recusou-se a fazê-lo nestas eleições, assim como grande parte do partido resiste. E confundem o seu insucesso programático com insucesso de liderança…

      1. Sobre isso, não tenho qualquer dúvida: o PSD, depois de ter desperdiçado (e até recusado, a bem dizer) a oportunidade de ouro que teve em Junho para gerar uma dinâmica inesperada, deve o seu desastre a si mesmo.
        Mas o que está dito não destoa, numa perspectiva ampliada e observada a prazo.

  2. O raciocínio está certo, a análise correcta. Mas há um factor interessante: se o PSD só ficou dois anos e meio no poder, isso não se deve a nenhuma lógica ideológica ou política (quem está mais ao meio ou é mais social-democrata) mas à própria inabilidade dos dirigentes do PSD. Durão Barroso, que tinha tudo para dar certo, inclusive uma orientação das políticas que depois foi repescada por Sócrates, abandonou-nos miseravelmente porque arranjou um poleiro melhor; e Santana Lopes, bem… SL não tem capacidade para tomar conta de nada. Numa sociedade ideal, estaria a vender carros usados, com muito sucesso entre as senhoras de meia idade.
    O PSD e o PS juntos formam um centrão ideológico e prático; é isso que a maioria do eleitorado quer, uma política de centro com preocupações sociais. As meias tintas. Depois, a escolha de um ou de outro depende do carisma dos líderes – e de que permaneçam no posto para que foram eleitos, claro.

    1. Isso é verdade. E por isso digo “que qualquer um dos dois partidos poderia estar a sofrer este fenómeno de erosão”.

      Mas é bom relembrar que Durão perdeu votos diariamente durante a campanha, e Ferro Rodrigues quase lá chegou.

  3. “O PSD sofre neste momento as vicissitudes de ser, enquanto social democrata, um partido a mais no sistema partidário. Esta originalidade portuguesa, de ter dois partidos sociais democratas a ocupar 70% do eleitorado, não poderia, nem poderá, durar muito tempo.”

    Compreendo o que dizes. Não considero que o PSD tenha assumido uma postura 100% fiel à Social Democracia mas naquilo em que não o fez foi pelo silêncio e não por ter seguido um caminho diferente. Essa foi a razão do fracasso. No que a isso diz respeito tiras justas conclusões.

    1. É isso, com uma diferença subtil: o PSD deixou de assumir uma postura fiel à social-democracia porque se tornou um caldinho de tendências, que vão da social-democracia de esquerda à direita liberal, passando pelas mais diversas ‘nuances’.

  4. Caro Adolfo,
    concordo em absoluto com tudo o que referiu, mas na minha opinião há um quarto factor para o resultado eleitoral do cds. O PS combateu sempre o Bloco ou o PS. centrou todas as suas forças nestes dois partidos, o que deu alguma margem de manobra a Paulo Portas. O CDS nao necessitou de responder a desafios, nao foi seriamente questionado. e é aqui que eu acho que em grande parte do eleitorado se ” agarra” para acreditar numa possível coligação CDS/PS, na qual eu também não acredito.

    1. caro tric, demorei mais a responder porque estive a fazer umas contas. li os seus permanentes comentários de que um voto no cds era um voto no ps que decidir ir ver que os deputados a mais que o cds teve em braga, santarém, madeira, faro, porto e coimbra foram roubados ao ps e ao bloco.

      quanto ao endividamento, pág. 113 e ss do programa do cds.
      um abraço

  5. O PSD teve o pássaro na mão, como as sondagens pós-europeias indicavam, e deixou-o fugir. O voto anti-Sócrates foi capitalizado, à esquerda e à direita, por BE e CDS. Portas fez a melhor campanha, foi o melhor nos debates (que tiveram audiências que surpreenderam os ‘analistas’ basbaques, sempre prontos a garantir que o povo não se interessa por política e que aquele formato não prestava, etc). Portas deu uma lição a MFL ao federar tendências: o gesto mais emblemático foi chamar Ribeiro e Castro, seu ex-concorrente à liderança do partido, para encabeçar a lista do Porto – não por acaso, um dos distritos onde o CDS mais cresce. O PSD de Manuela, JPP e Alexandre Relvas seguiu o caminho inverso: subtraiu em vez de somar, gastou energias contra o inimigo interno em vez de se concentrar no adversário que (lhe) interessava.
    Muito mais haveria a dizer sobre esta tua interessante reflexão, Adolfo. Fica para a próxima.

    1. Nem mais Pedro. Um partido mobilizado é sempre um ponto a favor numa campanha. Mas há ainda uma questão de princípio: o combate contra Sócrates é tão duro que o CDS decidiu convocar todas as suas forças e todas as suas tropas. O PSD preferiu insistir que há uns mais PSD que outros.

  6. Não sei. Acho é que há muita malta que se viu sem outras hipóteses e para não fortalecer a Esquerda agarrou-se à única coisinha de Direita que estava ali mais à mão.

  7. Esquecem -se de uma coisa.
    Os verdadeiros mentores desta estrondosa derrota do PSD são:
    Pacheco Pereira, o Sr Branco e o Sr.Borges , sim esses os primeiros a deixarem a senhora sozinha e a pensar porque se meteu nisto em vez de ficar a tomar conta do netinho.
    Ela hoje ainda não sabe o tamanho do “camião” que lhe passou por cima.

  8. Estou genericamente de acordo. Também penso que a clareza ideológica do CDS o beneficiou e pode continuar a beneficiar (como pode constatar por este post: http://escafandro.blogs.sapo.pt/88700.html), fazendo-lhe conquistar eleitorado jovem e menos marcado pelo passado em que a aversão à direita tinha quase força de lei. No entanto, o PSD tem uma grande estrutura no terreno e, através dos autarcas, controla muitas fidelidades, pelo que não cairá facilmente.

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