A vida tem destas coincidências engraçadas. Estava eu numa livraria em Londres, acabado de encontrar uma edição de Wise Blood da Flannery O’Connor, escritora de que muito gosto, quando recebo via sms as declarações de Saramago sobre a Bíblia.
A engraçada coincidência está no facto de em Wise Blood, O’Connor, escritora manifestamente influenciada pelo catolicismo, relatar a história de Hazel Motes, um jovem tão crente na sua descrença que funda a Igreja Sem Cristo, a Igreja "where the blind don’t see and the lame don’t walk and what’s dead stays that way":
"Listen you people. I’m going to preach there was no Fall because there was nothing to fall from and no Redemption because there was no Fall and no Judgement because there wasn’t the first two. Nothing matters but that Jesus was a liar… Where you came from is gone, where you thought you were going to never was there, and where you are is no good unless you can get away from it".
Mas Hazel Motes, como descobrirão aqueles que se aventurarem pelo romance de O’Connor, revela-se, pelas suas escolhas e acções, um verdadeiro crente. Como alguém lhe dirá, "You must believe in Jesus or you wouldn’t do these foolish things. You must have been lying to me when you named your fine church. I wouldn’t be surprised if you weren’t some kind of a agent of the pope or got some connection with something funny".
É esta a ironia que rodeia Saramago e as suas constantes afirmações da inexistência de Deus, contribuindo afinal para a afirmação da Sua existência. E se foi com estas ideias que comprei a edição que tinha na mão, foi já com Sophia que regressei ao hotel: "A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias."

Pois é, Adolfo: tanta insistência e tanta militância contra a Deus, da parte de Saramago, revela uma atitude de “crente na descrença”, como muito bem classificaste. Seja como for, indiferença é que não é.
E obrigada por trazeres aqui o “Retrato de Mónica” da Sophia, um texto magnífico e sempre oportuno.
Em Londres, hein?
Excelente ‘post’, com uma fabulosa citação da Sophia extraída desses ‘Contos Exemplares’ que serão sempre um dos livros da minha vida.
Lúcida reflexão, Adolfo. Muito lúcida mesmo. E com oportuníssimas e belas citações.
O Retrato de Mónica é o meu conto exemplar preferido 🙂