Manuel Alegre está há demasiado tempo na política para se saber tão pouco sobre as concretas ideias que tem para o país. Dele soubemos, durante décadas, aquilo que o PS dele quis que soubéssemos e assim se construiu uma sobrevalorização do seu papel e da sua estatura política. Não foi à toa que Sérgio Sousa Pinto o catalogou como soufflé político, assim como não foi por acaso que Mário Soares, que bem o conhece, dedicou grande parte da sua falhada campanha a tentar escancarar o vazio por detrás do mito que ele próprio ajudara a criar.

Ao contrário do que acontece com Cavaco Silva, em que é possível prever todos os seus vetos e todas as suas discordâncias, Manuel Alegre pauta a sua intervenção política pela imprevisibilidade, fruto da falta de consistência programática que ostenta e, sobretudo, da exuberante diversidade de pessoas que o influencia.
Ao contrário do que acontece com Cavaco Silva, que procura obrigar o Governo a não descarrilar a economia e as finanças, Manuel Alegre pressionará exactamente no sentido oposto, conhecidas que são as suas recentes e erráticas intervenções sobre o assunto. Não admira, por isso, que José Sócrates se considere no bom caminho: ele é a terceira via entre o frio Cavaco e o inconsciente Alegre. Ele é o bom senso entre os que só olham para os números e os que deles se esquecem.
Ao contrário do que acontece com Cavaco Silva, que não se sente representante do regime republicano nem investido de uma autoridade especial que não a da sua eleição e da sua capacidade política, Manuel Alegre sente-se representante do impossível e do sonho e confunde as suas opiniões com a resposta da ética republicana.
Tudo isto contribui, do meu ponto de vista, para fazer de Manuel Alegre um candidato que, sendo mais próximo de José Sócrates, mais compromete a execução do programa governamental, mais reduz a capacidade de ser José Sócrates a escolher o teor das suas alianças e mais instabilidade promete criar no dia-a-dia. Atrevo-me mesmo a dizer, tratando-se de mera especulação e como tal deve ser tratada, que com mais facilidade veríamos José Sócrates dizer-se sem condições para governar com Alegre do que com Cavaco Silva.
(continua)

Para quem não conhece o articulista, talvez fosse de elementar justiça brindar os leitores com um registo de interesses, assim, compreenderíamos melhor o porquê e a justeza ou falta dela, das posições que aqui manifesta relativamente a Manuel Alegre. Tudo isto, naturalmente, sem por em causa a legitimidade cívica e a liberdade de manifestar as posições que entender.
Caro Paulo,
Devo inserir o meu registo de interesses em todos os posts que escrevo? E, já agora, qual é o meu registo de interesses?
Um abraço,
a.
Meu caro AMN, seria de uma deselegância inaudita ser eu, neste contexto, a registar os seus interesses, não acha?
Não sei porquê. Sou eu que lhe peço que os indique, tal qual os vê, e que explique em que medida é que eles condicionam o que escrevo desde 2004, ou o que penso e digo desde 2004 (quando me estreei na blogosfera).
E peço-lhe ainda que me indique em que parte de todo e cada um dos posts é que devo colocar o registo de interesses que atribui.
Depois disso, de assentarmos em que é que consistem, para si, os meus interesses, poderemos então conversar sobre eles.
É uma figura publica, os seus interesses estão patentes a quem queira inventariá-los e são legítimos. O que quis dizer é que deverá ser à sombra deles que deveremos ler as suas posições acerca de personagens politicas da ‘concorrência’, não é propriamente um independente.
Se sou uma figura pública, e não me parece que o seja, os meus interesses são assim conhecidos, não percebendo eu, afinal, qual a “elementar justiça brindar os leitores com um registo de interesses”.
Mas vamos aos interesses, que parecem ser a minha filiação no CDS, a tal que é conhecida e que, por isso mesmo, enforma a minha filosofia política. É a minha circunstância. Mas não é o meu interesse e não é por ele que aqui ando.
Não sou por isso um independente no sentido de não ter partido. Tenho e não me arrependo disso.
No entanto, caro Paulo, gostava de o desafiar a apontar um exemplo de post meu ao serviço da estratégia do meu partido, que não estivesse, precisamente acautelado pelo devido registo de interesses (http://ruadireita.blogs.sapo.pt/).
É porque, quem lê estes seus comentários, parece presumir das suas palavras que eu tenho um interesse (e não uma circunstância) para o qual trabalho.
Podemos, quem sabe, começar pelo aborto (http://aartedafuga.blogspot.com/2007/0 2/sim.html)? Ou pela vigilância sobre o aumento dos preços (http://alaliberal.blogspot.com/2008/0 4/no-este-o-caminho.html)? Aqui estava ao serviço de que interesses?