Uma minoria não é uma maioria


Adolfo Mesquita Nunes,

A dificuldade dos socialistas em perceber o verdadeiro sentido da palavra compromisso é tal que, para aqueles lados, compromisso significa a oposição ceder sempre ao programa do PS. Mas a palavra compromisso não significa isso, como bem se sabe. Significa que o PS e as oposições têm de encontrar, em determinadas matérias, pontos de encontro. Umas vezes cede o PS, outras cede a oposição, algumas cedem ambos.

 

Só esta dificuldade em entender a palavra compromisso justifica o post em que o Carlos Santos comenta aquilo que aqui escrevi. Na verdade, o Carlos parece inferir que eu considero que as oposições não devem ceder em nada quando a minha frase a que o Carlos se agarra se limitava a oferecer, por absurdo, contraponto à tese socialista de que o PS não tem de ceder em nada e as oposições em tudo. Mas vamos à questão de fundo.

 

Quem lê o Carlos Santos, e quem ouve os dirigentes do PS, é levado a pensar que ter minoria parlamentar é a mesma coisa que ter maioria parlamentar, ao estilo the winner takes it all. No fundo, é indiferente que o partido vencedor tenha ou não maioria. Se a tem, governa em maioria. Se a não tem, governa como se a tivesse porque impende sobre a oposição o dever político de deixar passar as propostas socialistas. Mas não é bem assim. Aliás, essa ideia levada ao extremo conduziria não à formação de maiorias parlamentares mas à formação de unanimidade parlamentar.

 

E ao contrário do que diz o Carlos Santos, eu não tenho qualquer forma colectivista de olhar para os resultados eleitorais. Quem a tem é o Carlos que, olhando para a composição parlamentar, considera que os portugueses, no seu conjunto e a uma só voz, quiseram que fosse o PS a governar e as oposições a ceder. E assim esquece todos os indivíduos, a maioria, que votaram noutros partidos e que gostariam que o PS olhasse para o que disseram através do seu voto. Cabe ao Governo, consoante as matérias, estabelecer os compromissos que menos se afastam do que pensa para o país.

 

E já agora, sendo verdade que sou militante do CDS, não falo pelo CDS nem ando ao serviço do CDS na blogosfera. 5 anos de blogosfera falam aliás por mim, e se há coisa que eu não faço são fretes ao meu partido, como aliás já tive várias oportunidades para o demonstrar. Por isso é escusado o Carlos Santos fazer dois posts seguidos a identificar-me como apoiante do CDS. Na blogosfera, eu sou eu, falo por mim e não falo pelo CDS. Presumo que o Carlos fale por si também. E é com o Carlos Santos que discuto. Não é com o Carlos Santos apoiante do PS.

2 comentários em “Uma minoria não é uma maioria”

  1. Não conheço os intervenientes nesta discução por isso peço desculpa de estar a meter o bedelho.
    A República deu o poder ao povo;
    O povo é plural nas suas opiniões;
    As diversas opiniões são representadas por partidos;
    A Democracia sujeita esse povo à vontade da maioria;
    O partido da maioria, escolhido por sufrágio universal em função dos programas anunciados, é quem governa;
    Cabe à oposição vigiar o cumprimento desse programa por parte do Governo e não sabotar, chumbar, lutar contra ele.
    Ao lutar contra o Governo em vez de vigiar o cumprimento do seu programa, as oposições estão a recusar a sua sujeição à vontade da maioria. Isto é, estão contra a “base” da democracia. Porque foram então a votos, se tencionam não os respeitar?

    1. “O partido da maioria, escolhido por sufrágio universal em função dos programas anunciados, é quem governa”.

      Caro Álvaro, não só não há actualmente nenhum partido da maioria como, mesmo que houvesse, a democracia encontra especial fundamento, precisamente, na protecção das minorias.

      Mas, salvo o devido respeito, a questão não é tanto essa. A questão é outra: a maioria só pode fazer-se, nesta legislatura, através de compromissos. E isso implica cedências de parte a parte. É que o voto dos que minoritariamente votaram PS não é vale mais do que o voto de todos aqueles que acharam que o Programa do PS não merecia o voto.

      Um abraço

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