Sulfúricas


lauraramos,

 

Encontrei uma solução que gostaria de apresentar.
Em vez de me cortarem um quarto no vencimento, bastaria despedir nove de entre os meus colegas que, ao longo dos anos, não escreveram dez linhas aproveitáveis. Já agora, talvez não fosse má ideia pôr na rua os docentes que não preparam aulas, os que faltam aos compromissos académicos, os que promovem os amigos e os que andam a “salvar” o mundo com propaganda que introduzem na sala de aula.

 

Maria Filomena Mónica

Expresso 29.10.2011

Leituras


lauraramos,

 

É o género de obra que me encanta. Produto de uma investigação apurada e consistente, mas que não despreza, na sua riqueza  documental, a oportunidade estética.

Não é só um livro de autor: é uma construção atravessada de sensibilidade sobre variadíssimos actores da nossa história cívica e cultural. O que exige método, bom olho, ciência e faro de caçador.

Aqui, viajamos pela história do Supremo Tribunal de Justiça, mas é a própria gesta política de Portugal que sedimenta a obra.

– Afinal, o que é da civilização sem ícones, impressões digitais das gerações, fio e meada, legados materiais?

Nada.

E tolos são os que desvalorizam estes vestígios que nos ficam.

Ainda bem que há quem, por entre outros desafios, esteja atento.

Tamanha lavra? É do nosso João Carvalho. E não preciso de tecer loas: que cada um avalie por si.

Por isso, não percam. Foi o que eu fiz. Completamente por conta própria.

– Verdade ou não, João?

Saudades do Brasil em Portugal


lauraramos,

 

Redescobrindo terras de Vera Cruz, nessa união de língua entre os últimos povos do mundo que escrevem uma poesia direita, como dizia Vinicius, a nossa Ana Vidal vai dando uma imensa trabalheira à imprensa brasileira.

Vais pagá-las, Ana, vais pagá-las.

Para a próxima vez, nada menos que cozinha de autor, acompanhada de um vinho de reserva colheita de poema, em pratos ilustrados por feiticeiros da imagem.

Querias, mas não escapas. Devias saber que este é um blogue guloso dos 7 sentidos da vida…

Pedir contas


lauraramos,

 

Devemos pedir contas, sim. Se a lei deixou de nos garantir a palavra dada, se os contratos de trabalho contêm cláusulas que de nada servem, se o imperativo nacional nos coloca numa situação de suspensão de direitos de estatuto, então é lícito trepar à nossa árvore podada e olhar a floresta.
Já não gozamos de uma copa frondosa, já não estamos felizes com os nossos frutos e o horizonte está ali, repentinamente muito mais visível.
Identificamos, gritantes, as torres de marfim. E queremos que o Estado, que deixou de ter condições para pagar as suas ‘despesas de manutenção’, actue com equidade, dividindo proporcionalmente os sacrifícios.

Mas o cimo da árvore é um observatório perigoso, porque também podemos perder a perspectiva. Pedir cabeças a eito não é solução. E entrar numa lógica compulsiva de comparação leva-nos inexoravelmente a querer tratar de igual maneira aquilo que não é igual.
Infelizmente, somos uma sociedade civil imatura e desorganizada, sem hábitos de democracia vigilante, e por isso atiramo-nos agora sem critério a tudo o que mexe, desde que suspeitemos que alguém leva um euro a mais dos bolsos do Estado que somos e que sustentamos.

Pegando num exemplo: – Um representante do povo eleitor que passa a exercer um cargo governamental tem legitimidade para esperar receber um subsídio de alojamento, quando vive a mais de 100 kms da sede do poder? Terá direito a ser ressarcido das despesas efectivas  e imprescindíveis em que incorre por causa desse mandato? Claro que sim. Não se trata de um privilégio, trata-se de uma neutralização de prejuízos. É o preço da representatividade democrática. E ai de nós se  não distingumos estas diferenças, porque amanhã estaremos a exigir a folha de proventos e encargos pessoais do nosso vizinho, exercendo uma espécie de julgamento popular sobre a sua vida financeira. E então, a prazo, morreremos todos com as mesmas armas.

Precisamos de não perder tudo: e para isso, é fundamental manter o distanciamento crítico.

Agora temos na agenda as subvenções vitalícias dos políticos.

– É legítimo exigir a sua revogação? Claro que sim.

– Os constitucionalistas bradam?

Não me lembro de os ouvir rugir quando, inconstitucionalmente, me foi retirado o direito aos subsídios de férias e de Natal, complementos remuneratórios históricos, inalienáveis e impenhoráveis.

 – O que eu espero de Pedro Passos Coelho?

É que veja a floresta. Que a veja acima da sua árvore (o PSD). E, se preciso for, acima da nossa própria árvore de horizonte limitado.

É para isso que ele lá está e foi mandatado.

Além disso, nesta matéria, o primeiro-ministro goza de um atributo que nenhum constitucionalista me pode garantir: a autoridade moral.

A soberana isenção de quem prescindiu, a seu tempo, de uma subvenção do Estado. Quando poucos se importavam com isso e ninguém aplaudia.

Sulfúricas


lauraramos,


Um homem nunca diz tão mal das mulheres como uma mulher.

Um homem tem medo das mulheres.

Corre atrás delas quando elas não o querem para nada e foge delas caso alguma delas o queira.

Mas aprendeu a respeitar as mulheres. Isto é, a não compreendê-las e a levar no coco.

Repetidamente.

 

Miguel Esteves Cardoso

O MFA está com o povo?


lauraramos,

 

A maior parte de nós, homens e mulheres de agora, vive alheada da política de defesa nacional.

É um fenómeno típico das sociedades que experimentam a paz civil duradoura. Afinal, toda a Europa atravessa uma espécie de stand by, se esquecermos as sangrias que escorreram depois da desconstrução da Jugoslávia. E pouco mais.
Por isso, as milícias, as 3 armas – que a maioria observa como uma espécie de forças simbólicas e quase esvaziadas de objectivo imediato – embora nos tranquilizem, vagamente, não preenchem um décimo da nossa energia de observação política.

Curiosamente, toda a atenção que tínhamos com este tema, vista agora, parece ter-se esgotado com o sofrimento  febril e exaltado da guerra colonial. E serenado,  depois, já reconciliados pela gratidão de Abril.

 

Mas a defesa nacional é uma obra bem mais vasta do que a que associamos à gestão das forças armadas. E as forças armadas, por seu lado, têm sobre os ombros muito mais do que a administração de uma guerra teórica, entregue a paradas de rotina e à organização dos de oficiais de dia.

 

Apesar de tudo, nos dias que correm, não há amnistias. E eles também não escapam ao julgamento civil, mesmo que semi desatento. Porque todos sabemos que os militares não se furtaram à maré dos privilégios estatais e que, pelo contrário, a galgaram em prancha olímpica, aproveitando os tempos de sagração do MFA e da sua condição tutelar e libertadora.

Foram os aristocratas da democracia.

 

O ministro José Pedro Aguiar Branco sabe disto. E é um democrata genuíno, que viveu numa distância  milimétrica a ameaça geracional do recrutamento para as guerras de África. Empenhando-se desde o primeiro dia (ainda caloiro, nos bancos da universidade), na vivência total da democracia.

 

Por isso, as suas afirmações não são retóricas, quando diz que «nas ditaduras é que há silenciamento, e em democracia há manifestação, há opinião crítica».

 

De facto, as  Forças Armadas são depositárias dos valores mais estruturantes de Portugal e, por tudo aquilo que representam, espera-se que saibam estar à altura das suas obrigações: a vocação primária que desempenham na coesão nacional.

 

A história não pode justificar tudo.

Mais uma vez, em tempos de cólera, esperemos pelo exemplo de quem deve ser exemplar.

Midnight in Paris ou a revisitação do existencialismo


lauraramos,

 

Onde começa o artifício e termina a realidade? É irrelevante.

Nem mais, Pedro. O que importa é que o imaginário é também uma forma de realidade que nos condiciona e nos faz como somos, tanto ou mais do que o  prosaico dia a dia. O que o filme de Woody Allen tem de genuíno é mostrar Paris como ela é, exactamente: a calçada que pisamos, com os pés bem assentes na terra; e a permanente passagem à estratosfera, através da viagem mental, dos laços culturais (literários, artísticos e lúdicos, sobretudo lúdicos) que nos impelem até à ilusão da proximidade física com os nossos anjos ou os nossos agradáveis demónios, conforme preferirem.

Woody Allen conseguiu isso muito bem, porque transmitiu metaforicamente o que realmente acontece.

Quando nos sentamos em Montmartre e penetramos no fundo dos cafés, estamos com Modigliani ou Soutine. Quando passeamos no Boul’ Mich’, encontramos ainda, e comovemo-nos, com a poeira do Mai 68 a sujar-nos a ponta dos jeans, ou o murmúrio incendiado da resistência estudantil dos anos 40, insurgida contra a ocupação alemã.

Quando vamos aos Puces, lembramos a Sagan, que também nos leva  ao cenário oposto, o Maxim’s, para revermos Proust em carne e osso.

Se nos sentamos no La Paix, é para respirar o mesmo ar que Tchaïkovski, Zola ou Maupassant. E no Boulevard des Capucines, refastelados nas cadeiras de verga diante de um normalíssimo café-crème,  reencontramos Victor Hugo e os irmãos Lumière.

Paris vive carregada da história de todas as idades e de uma cultura que a minha geração ainda entende na perfeição.

O filme Midnight in Paris captou isso com uma substância que só talvez quem viveu esse sortilégio consegue perceber. Nós, os parisienses de empréstimo na tenra idade, reconhecemos tudo como se descobríssemos uma alma gémea. Partilhamos os mesmos demónios em cada trecho da cidade, num atalho para nós próprios, numa armadilha do tempo, num elo transitivo para o que nos é familiar. Por isso, Woody, o teu mix não é uma fantasia, mas sim uma realidade acutilante.

Na verdade, eu já o tinha dito: o meu lugar ideal é o Quartier Latin, sentada, ao som de Brel, à conversa com Joyce que rabisca o Finnegans Wake e promete convencer Modigliani a pintar-me. Uma impossível sincronia.

Depois de ambos termos percebido isto (a irrelevância da diacronia e a fusibilidade das gerações) como é que não nos cruzámos por ali?

Por mero acaso. Ou talvez porque tu vivesses no Plaza, nos Champs Elysées, e eu algures no Marais, quando o 7.ème era o sítio sonhado por Malraux. E  talvez porque tu comesses no Chez Regine, enquanto eu debicava camemberts acompanhados de bordeaux no inesquecível La Bière, em plena Rue Saint Paul.

Mesmo assim, como poderias tu não concordar comigo?

Leste-me os pensamentos, para não dizer que mos roubaste.

Undercover Pop


lauraramos,

Hoje apetece-me trazer aqui este miúdo. É português, economista e vive em Xangai desde 2009.

Tem uma banda, The Crazy 88’ies. E toca guitarra como um pequeno deus.

Ouçam esta portentosa criação dele, Undercover d’Illusion, com que se candidata a ser eleito o Guitar Idol no próximo mês de Dezembro, em Londres.

 

Ah: e se gostarem podem votar nele e derrotar os restantes europeus aqui (alie per alie, momento pop por momento pop, sempre podemos vestir umas camisolas que não sejam só as do futebol).

A moeda de Sócrates


lauraramos,
 

 

 

Primeiro, ignorei. Depois, preocupei-me (estouvadamente e em abstracto).

Pouco depois, acossada, tirei-o do banco e meti-o no secreto caseiro, concebido ardilosamente desde a construção do refúgio, para os bules e os brincos de arrecadas.

A seguir, comecei a desconfiar da segurança do reservado (se aquele homem que vinha ler o contador da luz me rouba às descaras, o que não faria em manobras?).
Meti-o então, derrotada, no colchão, sentindo o peso, envergonhada, do retrocesso civilizacional.

(Avô, como te compreendo).
Dentro de muito pouco tempo posso não ter nada: nem para devaneios, nem para livros, nem para iogurtes, nem para patavina. E tenho (isso sim) a quem alimentar debaixo do meu tecto.

Guardei-o, como um filho.

E eis que amanheceu assim.

 

Amanhã vou às Finanças pagar os meus impostos.

Com isto.

É quanto vale o meu trabalho.

 

Devolvam-me.

Tudo o que gastaram sem minha autorização.

Servidão Humana


lauraramos,

 

Hoje é o  Dia Europeu contra o Tráfico de Seres Humanos.

Falamos da sujeição de pessoas a múltiplas formas de coacção –  como a ameaça, a força, o rapto, a fraude e o abuso de autoridade –  perpetrada sobre homens, mulheres e crianças abandonados à exploração sexual, aos trabalhos forçados, à remoção de órgãos, à escravatura.

 

Por isso mesmo, hoje não é mais um dia internacional.

Em tempos de globalização, estejam atentos, porque às vezes os sinais não estão longe e moram ao pé de nós, ingénuos distraídos.

 

Assisti e gostei: nesta data, dezasseis organizações assumem publicamente um compromisso de entendimento para a troca de dados e informações sobre vítimas e traficantes de pessoas humanas. Entre outras, representantes máximos de todos os órgãos de polícia criminal (PJ, SEF, GNR e PSP) assim como várias instituições e entidades públicas e não-governamentais como o Centro de Acolhimento e Protecção a vítimas de Tráfico de Seres Humanos e seus Filhos Menores; o ACIDI – Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural; a APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, o SJR – Serviço Jesuíta para os Refugiados, a UMAR- União Mulheres Alternativa e Resposta e a Agência Piaget para o Desenvolvimento.

 

É a única maneira que nos resta e a única arma de combate ao nosso alcance: unir forças contra a servidão humana em pleno século XXI.

Abram a pestana.

Sulfúricas


lauraramos,

 

Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.

 

José Luís Peixoto

Os enteados da Nação


lauraramos,

 

Na verdade, ninguém está verdadeiramente interessado em saber porque é que os funcionários públicos são tidos pelo que são.

Se estivermos em dia sim e tomados de complacência, vemo-los como uns pobres diabos.

São aqueles cromos queirosianos de sempre, alheados de qualquer chama, brio ou ambição. Uns mangas-de-alpaca empedernidos e previsíveis, tecnicamente desclassificados e com cara de fraco ordenado (que em absoluto merecem).

Mas se estivermos em dia não e tomados pelos azeites, o julgamento enfurece-se e vemo-los com as cores fortes de uma caricatura de Bordalo.

São os agentes do atraso nacional; a corja de incompetentes do costume; os oportunistas com ideário de pacotilha; os abusadores do erário público, bafejados pela sorte imerecida de um dolce far niente que o tesouro nacional sustenta.

 

É uma vexata quaestio que reproduz o timbre das nossas relações com o Estado, enquanto cidadãos.

Mas o facto é que quem por lá está- ou esteve – sabe bem como as coisas são na realidade.

Um universo laboral igual a muitos outros, onde coexistem bons e maus profissionais; possuídos de espírito de missão ou de puro mercenariado; gente brilhante ou de uma limitação confrangedora; homens e mulheres sérios e ‘menos sérios’.

E quem por lá está sabe também que isto acontece a qualquer nível.

Quer quanto aos trabalhadores do fundo da pirâmide, quer quanto aos directores e sub-directores gerais nomeados pelos governos. Porque se estes lá calharam muitas vezes pelos melhores motivos (a competência técnica) não se livram de ombrear com criaturas incapazes e oportunistas.

 

Cá de fora, vislumbramos sempre a sombra do pecado evidente, os sinais de parasitismo, as garantias especiais (na verdade, lendárias, na pura acepção da palavra).

Presos destes atavismos pré-democráticos, se não conhecemos a realidade, como poderemos sequer apreciá-la?
E perceber os seus efeitos benéficos (ou os seus fundamentos)?

 

Há uma falta de cultura gritante nesta reprovação social: entendem isto?

Tão confragedora que nem permite alcançar o quanto se reflecte negativamente sobre os todos os cidadãos em geral, e não só sobre os membros da dita classe maldita.

Sulfúricas


lauraramos,

«….. De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento onde havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam mácula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreto, do sousão, da tinta carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia. À tona, a roçá-los como talismãs, passeavam então volumosos e verdadeiros sexos dos pisadores, repousados mas vivos dentro das ceroulas de tomentos…..»

A ditadura da República


lauraramos,

 

A Constituição não serve para nada?

Ao que chega o novo-riquismo da democracia, que desdenha a sua identidade e desbarata o que tem por certo e garantido…

Tempos perigosos, estes: obrigam-nos a uma pragmática saudável, mas também abrem portas, na enxurrada do imediatismo, à incultura consciente e dirigida dos utilitaristas.
A lei fundamental não é descartável.

Não admito que a diminuam.

Não temos a ‘Magna Carta’, paciência… Mas temos tido muitas outras Cartas Constitucionais e esta, em particular, custou a construir. Reflecte-nos a nós todos, seus constituintes. E limita os impulsos reguladores dos poderes, executivos ou legislativos, que nos governam.

Acresce que é um diploma em permanente construção. Imperfeito, sim. Com vestígios ditatoriais como o artigo 288º, que vale a pena lembrar hoje, porque impõe a forma republicana do regime e proíbe liminarmente a opção por uma monarquia.

Não sou monárquica, em sentido corporativo.

Mas votaria claramente a favor de um regime monárquico, porque, entre muitas outras razões, é o que melhor serve a estabilidade e o que mais respeita a matriz identitária de um país, algo de que precisaremos cada vez mais nesta Europa em desconstrução.

Além disso, já sabemos (nós, os que queremos saber) que é um regime mais barato do que a república.

– Não dispomos de um Mestre de Avis, nem de um Príncipe Perfeito? Pois não, nem eu os queria assim, lendários e irreais.

Mas irrita-me uma tal norma, digna da assinatura de um caudilho apostado em manter um monopólio desleal. Enquanto se assusta o povo com fantasmas e papões, explorando a sua privação de escolha e descredibilizando constantemente, com recurso a chavões primários e aldeões, toda e qualquer figura, ou simples cidadão, que ouse desafiar-lhe a autocracia ilegítima e forçada (tal como aconteceu em Espanha em seu tempo, com Juan Carlos). 

 

– E a sociedade ‘pensante’, o que é que faz? Prega a doutrina e retribui-lhes ao nível. Aplaude.

 

Não, não sou catequética na minha escolha: sou apenas livre. Além disso, não suporto que me inibam de exercer um direito.

E para quem ainda não percebeu bem o que está em questão, declaro que, tanto quanto a parvoeira republicana nacional  – provinciana, complexada e tacanha – consegue irritar-me o fenómeno correspondente nos monárquicos ‘de seita’ (radicais, fundamentalistas e fixados no seu umbigo, porventura tatuado com ferro de armas).

Uns e outros tiram-me do sério.

Mas que fazer? Tolos há em todo o lado e em todas as frentes.

Dão é muito mais nas vistas do que os outros cidadãos.