«….. De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento onde havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam mácula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreto, do sousão, da tinta carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia. À tona, a roçá-los como talismãs, passeavam então volumosos e verdadeiros sexos dos pisadores, repousados mas vivos dentro das ceroulas de tomentos…..»
A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia. À tona, a roçá-los como talismãs, passeavam então volumosos e verdadeiros sexos dos pisadores, repousados mas vivos dentro das ceroulas de tomentos…..»



Mais do que sulfúrica, fermentada.
Sulfúrica diferida. A uva do Douro é especial…
Credo.
Credo… in vinus?
Isto de Vindima de Torga, Laura?
O excerto é mesmo da “Vindima”, Ivone. Pus na tag. Um livro notável, que vi na estante desde miúda e que sempre me provocou um realíssimo tédio… Estava na hora de fazer as pazes com ele.
Bem me parecia. Eu escrevi, naquele inquérito sobre livros que por aí andou este Verão, que o li até ao fim só para ter a certeza que Torga romancista não, definitivamente não.
Ainda o vi em Coimbra, quando para lá fui. Uma figura, tens razão, Laura.
Tens razão: não, definitivamente! E além disso era arisco, rude, mal disposto, sobranceiro, quase insociável. Mas escrevia muito bem: um lavrador das letras, como lhe chamaram. Às vezes vale a pena cavar um pouco mais fundo 007/08/13/a-miguel-torga/
http://denunciacoimbra2.wordpress.com/2
dez Torgas ou outros tantos Aquilinos, a um Saramago…
Prefere? Ou troca já? Não percebi 😉
Ao Sarama(r)go troco-o até pelo “manual do escuteiro-mirin”, quanto mais pelo Aquilino ou o Torga…
(só a descrição do levantar de uma perdiz,feita por este último, lá pelo Casal de Loivos, é todo um poema…)
Fernando, não o tomava por menos, mas quis assegurar-me 😉 Ufa…
Mais do que fermentada, arrepiante. Como seria o Adolfo Rocha pessoalmente, neste capítulo? I wonder. Esta vindima tem muito que se lhe diga.
Não faço a mínima ideia, loool!!! Mas já nos Diários apanhamos surpresas. Durante anos, desci diariamente uma certa “Ladeira dos Lóios”, atalho relâmpago para o liceu, que nos punha lá em 3-4 mns. E muitas vezes desci-a com Torga/Adolfo Rocha, atrás ou à frente, o ÚNICO pai que alguma vez vi frequentar aquele caminho inóspito, acompanhando a filha até às aulas no Dona Maria (os outros paizinhos levavam-nos de pópó, se estivessem bem dispostos). Uma figura, sempre de chapéu ou boina, cara talhada em ângulo, tal e qual a conhecemos das fotos, estranhamente misturado no meio das hordas de meninas que desciam o dito atalho em velocidade turbo… Boas memórias.
Hummm… 😉
Não, expliquei-me mal! Honni soit!
LOL. Não explicaste mal, eu é que estou a meter-me contigo!
Ah, não. Foi um ‘credo’ interjectivo. Pensei que se eu fosse realizador de filmes pornográficos tinha já aqui um belo argumento para um filme. Mas depois caí em mim ao pensar que se tratava apenas de umas masculinas pernas brancas e peludas numa qualquer adega do Portugal rural a esmagar uns cachos de uvas, e tive um ataque de pânico.
(Agora a sério, o texto é bonito e não veja no meu comentário qualquer falta de respeito por quem o aprecia.)
Credo digo eu, José Ricardo!! 😉 Não me ocorreria pensar num filme pornográfico. Apenas que o texto é muito forte e tem a sua beleza, sim senhor. Isso para provar a ideia de que o Torga se inspira na ruralidade sem ponta de … não… não é sem ponta de pecado. É sem ponta de bucolismo.
Gosto desta prosa. Granítica, chamavam-lhe com algum sarcasmo. Granítica, chamo-lhe também sem sarcasmo algum.
Granítico é muito adequado, Pedro 😉
Pois eu também gosto deste Torga, e não me digam que não é eterno.