Afinal, o que defende o Bloco? (3)


jorgeassuncao,

O Avante enumera aquelas que deverão ser as medidas urgentes de um programa eleitoral do PCP. Qual a particularidade das mesmas? Comparemos com o que consta no projecto de programa do BE: 

[Medidas do PCP – Medidas do Bloco]

 

1. "Alargamento dos critérios de acesso e prolongamento do período de atribuição do subsídio de desemprego" – "Alteração à lei do subsídio de desemprego para reduzir os prazos de garantia, aumentado o período de concessão e aumentado o valor."

 

2. "O aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN) para pelo menos 600 euros até 2013" – "Salário mínimo nacional de 600 euros."

 

3. "A alteração dos aspectos negativos do Código do Trabalho (designadamente o restabelecimento do efectivo direito à contratação colectiva) e da legislação laboral da Administração Pública" – "A revogação do Código de Trabalho e da sua regulamentação, a começar pelas que respeitam ao direito de contratação colectiva."

 

4. "A fiscalização rigorosa do recurso ao lay-off combatendo a violação dos direitos dos trabalhadores e a redução dos salários" – o Bloco nada diz sobre os lay-off, mas afirma que "Exige a investigação das contas das empresas que declaram falência e a fiscalização de contas bancárias e bens patrimoniais dos gerentes a administradores, para impedir fraudes."

 

5. "A revogação do estatuto da carreira docente e alteração do modelo de avaliação" – "O Bloco de Esquerda esteve desde a primeira hora na denúncia dos atropelos feitos à carreira docente e contra todos os mecanismos de estrangulamento da carreira (avaliação, concursos, etc.)."

 

6. "O aumento real das pensões e reformas, revogação das normas penalizadoras do seu valor (factor de sustentabilidade e fórmula de actualização anual) e diversificação do financiamento da segurança social com base na riqueza criada" – "Aumento das pensões e reforma da segurança social […] eliminando o “factor de sustentabilidade” que reduziu as pensões."

 

7. "A salvaguarda do direito à reforma aos 65 anos e possibilidade da sua antecipação sem penalizações para carreiras contributivas de 40 anos" – "O direito à reforma sem penalização a quem já cumpriu 40 anos de trabalho e descontos."

 

8. "A distribuição gratuita dos manuais escolares para todo o ensino obrigatório, já a partir do próximo ano lectivo" – o Bloco não defende propriamente o mesmo que o PCP, mas diz que "defendeu e defenderá as bolsas de empréstimos de manuais […] Aposta na obrigatoriedade de as editoras ficarem sujeitas à oferta de manuais escolares a todos/as os/alunos/as carenciados como condição de adopção, mas valoriza a diversificação. Neste contexto, deverão ser apoiadas todas as escolas que assumam no seu projecto educativo a não adopção de manual."

 

9. "A revogação da Lei do Financiamento do Ensino Superior" – "A rejeição da lei de financiamento que estrangula as instituições de ensino superior e a dotação orçamental adequada para a sua prioridade."

 

10. "Um programa especial para garantir o acesso à consulta no próprio dia nos Cuidados Primários de Saúde" – o Bloco não refere nada sobre o assunto.

 

11. "A gratuitidade do acesso dos trabalhadores à justiça laboral" – o Bloco é mais generalista, mas na mesma linha defende "o acesso à Justiça não é um simples serviço público, o acesso à Justiça é um direito fundamental, que não deve nem pode obedecer a um pagamento particular. O Bloco de Esquerda apresentará uma proposta de Alteração ao Regime de Custas Processuais e às regras de acesso ao Apoio Judiciário."

 

12. "O reforço dos efectivos e meios para um policiamento de proximidade e uma política de segurança com mais prevenção" – o bloco nada refere sobre o assunto.

 

13. "A redução da factura de energia – electricidade, gás e combustíveis – para famílias e empresas" – "O Bloco compromete-se com uma política de nacionalização do sector da energia […] permitindo ainda o controlo social dos preços no consumidor, em tempos de enorme turbulência dos mercados internacionais."

 

14. "A garantia de um rendimento mínimo nas explorações agrícolas familiares e unidades de pesca artesanal, pela criação de adequado seguro às suas actividades" – "Os agricultores devem ver reconhecido e valorizado o seu trabalho, principalmente através de preços justos para os seus produtos […] As ajudas directas ao rendimento, quando sejam necessárias, têm de estar vinculadas à actividade agrária das explorações (ajudas por activo agrário), de forma a permitir uma redistribuição dos fundos com legitimidade económica e social. Não somos favoráveis ao desacoplamento das ajudas, sendo fundamental manter a actividade agrária (contrariando o abandono das explorações pequenas)."

 

15. "A eliminação do pagamento especial por conta (PEC) para as micro e pequenas empresas e redução dos prazos de reembolso do IVA" – O bloco nada refere sobre o assunto.

 

16. "A taxação de todas as mais valias bolsistas e criação do imposto sobre o património mobiliário (acções, obrigações, etc.)" – "Deve ser aniquilado o regime de excepção para a especulação financeira, tributando com englobamento todas as mais-valias bolsistas."

 

17. "A imposição de uma taxa mínima efectiva de IRC de 20% ao sector financeiro, banca e seguros" – O bloco nada refere especificamente sobre o assunto, embora afirme que "Não existirá nenhuma nova redução do IRC" e esteja contra "os benefícios fiscais obtidos por empresas no paraíso fiscal da Madeira, que deve ser encerrado", o que vai de encontro à medida do PCP.

 

18. "O estabelecimento de valores referência das taxas de juro, margens (spreads) e comissões da Caixa Geral de Depósitos para um funcionamento adequado do mercado de crédito" – "A CGD deve cobrar juros não especulativos que, protegendo a sua actividade, sejam indutores de uma concorrência que penalize os juros altos, tornando-se possível a qualquer contrato de crédito ser transferido sem custos entre bancos."

 

O que concluir com isto? Que aquilo que o BE defende não anda muito longe do que o PCP defende. É sobretudo ao nível da comunicação que o BE se distingue do PCP. Mas por muito que o discurso do BE seja diferente do discurso do PCP (o que também é fruto do primeiro dirigir-se a um segmento mais jovem, enquanto o segundo continua preso a um eleitorado mais velho), quando chega a hora de colocar no papel as medidas que julga necessárias para o país, o BE faz fotocópia das medidas do PCP.

Afinal, o que defende o Bloco? (2)


jorgeassuncao,

A propósito da pergunta feita pelo José Gomes André, fui dar uma vista de olhos ao programa, ainda em construção, do BE. No primeiro esboço do seu programa eleitoral, o bloco, entre outras coisas, defende o seguinte (naquilo a que se referem como as medidas prioritárias de um futuro governo):

 

1. Período de contratos temporários reduzidos a 1 ano. Proibição de despedimentos em empresas com lucros.

2. Nacionalização da energia. Nomeadamente a EDP e a Galp.

3. O banco público deve dirigir o crédito.

4. Aumento das pensões e reforma aos 40 anos de trabalho.

5. Levantamento completo do segredo bancário, punição do enriquecimento injustificado e ilicito. Fim do offshore da Madeira.

6. Diminuição das custas nos processos judiciais.

7. Fim das taxas moderadoras na saúde.

8. Escola pública gratuita para uma medida de inclusão.

9. Retirada do Afeganistão.

10. Legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 

Sobre estas dez medidas, algumas observações:

1. Implica maior desemprego e maior duração desse mesmo desemprego. É também promotora de empresas pouco competitivas e diminui a margem de manobra  das empresas na resposta a variações da actividade económica.  E convenhamos, afinal o BE não anda muito longe da camarada Carmelinda Pereira quando provocou o riso da plateia  num Prós e Contras ao defender a proibição dos despedimentos.

2. Para além dos ganhos duvidosos com uma medida do género, imagino como pagará o BE a nacionalização de tais empresas. 

3. Pura demagogia: o BE quer decidir politicamente qual o juro que a banca deve exigir aos indivíduos e empresas. O BE quer, tão simplesmente, desvirtuar o mercado bancário com a utilização da CGD para promoção de políticas sociais, na concessão de crédito com maior risco. Risco esse suportado pelos contribuintes portugueses, está claro.

4. A irresponsabilidade do BE não tem limites. Numa época em que o maior problema da segurança social é o da sua sustentabilidade, o BE não só defende o actual regime como ainda promove o agravar dos seus problemas.

5. Percebe-se que o BE quer acabar com o offshore da Madeira sem antes garantir que todos os offshores acabem. Mesmo antes de discutir se os offshores devem acabar, acho que não é difícil perceber que tal medida  aplicada única e exclusivamente em Portugal é-nos prejudicial.

6 e 7. Qual o motivo da existência de custas judiciais ou de taxas moderadoras na saúde? Esses sistemas têm um custo para o contribuinte português. Ambos os mecanismo evitam que quem recorra a tais serviços o faça sem que tenha a certeza da necessidade de recorrer aos mesmos.

8. A minha dúvida aqui era até onde o BE alargava a escola pública, como mais tarde defendem no documento a "gratuidade da frequência do ensino superior", percebe-se que para o BE o dinheiro do Estado é ilimitado. Ou antes, a capacidade do Estado cobrar ao contribuinte deve ser ilimitada. Seja para financiar a educação, a saúde ou a justiça.

9. De encontro à lógica da saída do país da NATO. Aliás, o bloco defende mais tarde no programa a saída das forças militares de todos os países estrangeiros onde estão envolvidas: Afeganistão, Iraque, Kosovo, Bósnia e Líbano. Mas parece que no Afeganistão é mais urgente porque "a NATO está a defender o governo de narcotraficantes". Presumo que o anterior governo que dava cobertura a terroristas era melhor.

10. É uma das bandeiras do bloco. Pessoalmente, entre o que existe e o que o bloco defende, prefiro o que o bloco defende.

 

Mas o BE vai mais longe. Defende, no quadro das políticas sociais de resposta à crise, o "salário mínimo nacional de 600 euros" e "a redução do horário de trabalho sem perda de direitos nem salário, com o objectivo das 35 horas semanais.". Sendo um dos principais problemas portugueses a falta de competitividade, o BE tudo parece querer fazer para aumentar esse problema (as expressões "produtividade" e "competitividade" só aparecem um total de 4 vezes nas 137 páginas do documento até agora elaborado, já "neoliberal" ou "neoliberalismo" têm direito a 10 aparições).

Perante aquilo que o BE defende, fica sempre a dúvida sobre os mecanismos que  o BE irá utilizar para fazer face ao mais que certo aumento da despesa. É por isso importante prestar atenção à reforma do sistema fiscal proposta pelo partido, onde encontramos coisas como a criação de "um novo escalão de IRS de 45% para os rendimentos mais elevados" ou o "imposto de Solidariedade sobre as Grandes Fortunas para financiar a convergência das pensões mínimas". A que se a junta a aniquilação do "regime de excepção para a especulação financeira, tributando com englobamento todas as mais-valias bolsistas". Estando subjacente a ideia nas propostas do bloco de que os ricos pagam as suas medidas, quem conhece minimamente o funcionamento do sistema sabe que, para além dos ricos terem alguma facilidade em escapar a este tipo de medidas, o valor que se pode esperar destas é insuficiente para pagar a maioria das coisas que o bloco propõe.  Tanto mais quando, mesmo no campo fiscal, o bloco afirma que "o IVA deve ser reduzido, interrompendo e revertendo o aumento da regressividade fiscal.". Uma coisa parece certa, o actual Estado que já arrecada para si quase 50% do que é produzido no país, não será suficiente para satisfazer o modelo do bloco.

É, portanto, um panorama cor-de-rosa aquele que o bloco nos apresenta. Um pequeno grupo, os ricos (nunca totalmente especificado quem são: gostava por exemplo de saber o que é uma "grande fortuna" para o BE e quanto espera ganhar com a tributação dessas mesmas grandes fortunas), pagará quase tudo. E os restantes, ao que parece quase todos os portugueses, terão acesso a um mundo melhor à custa desse pequeno grupo de pessoas com "grandes fortunas". Na prática, as ideias do bloco garantiriam um Portugal mais pobre, onde seriam cada vez menos os "ricos" a quem sacar rendimento. Onde o assistencialismo seria a norma e o incentivo à iniciativa individual, alicerçada na defesa da meritocracia, seria cada vez menos valorizada.

Para terminar, uma pequena nota irónica, não deixa de ser curioso ver o bloco referir que "o governo do PS foi durante o seu mandato um dos fiéis seguidores da ideologia neoliberal que promove um estado minimalista", ao mesmo tempo que o PS no seu manifesto Vencer 2009 afirma que "o mundo acaba de assistir à clamorosa derrota do pensamento político neoliberal". Aqui a critica não é para o BE, mas antes para o PS que continua, teimosamente, a adoptar para si expressões típicas de uma esquerda mais radical, cuja única função é evitar a discussão de ideias e promover fantasmas inexistentes. Quanto mais tempo demorar o PS a perceber isso, colando por vezes o seu discurso ao do BE, mais contribui para tornar o BE numa alternativa credível ao próprio PS. O que, como é verificável com os resultados das eleições europeias, não lhes é particularmente favorável.

Como se não houvesse crise


jorgeassuncao,

O Eduardo Pitta neste post pretendia transmitir a ideia que, apesar da crise, "as pessoas (uma grande maioria) é que se portam como se não houvesse crise". Isto porque o Algarve estaria cheio de turistas nacionais e parte do país, nomeadamente Lisboa, estaria com muitas empresas e serviços fechados ou a meio gás. O João André, neste comentário, já havia demonstrado como a lógica subjacente ao que Eduardo Pitta pretendia transmitir não era perfeita. Mas para percebermos porque a dedução de Eduardo Pitta pode não fazer sentido, vale a pena ler esta notícia do Jornal de Negócios relativa às receitas hoteleiras no passado mês de Abril. E o quê que esta nos diz? Que na comparação com igual período do ano passado, o número de dormidas aumentou, mas os proveitos diminuíram. Para Junho a situação não deverá ser diferente. Afinal de contas, as pessoas talvez adoptem comportamentos típicos para um país em crise.

Solidariedade (1)


jorgeassuncao,

 

Confesso que, ao contrário da Ana, na contratação do Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid não encontro nada de particularmente escandaloso. O futebol é um negócio e os activos mais valiosos para as empresas que actuam no sector são os jogadores. É normal que o mais rico clube de futebol do mundo, o Real Madrid, procure aqueles que são considerados os jogadores mais valiosos do mundo. Ronaldo tinha um contrato de prestação de serviços com o Manchester, é normal que pela cessação desse contrato de serviços o segundo clube mais rico do mundo queira ser recompensado. Noventa e quatro milhões é um valor muito elevado? É, mas recordo que é valor semelhante ao que o Man United recusou a época passada, o que talvez diga alguma coisa da própria avaliação que o clube inglês faz do jogador português. Quanto à crise, se as empresas que dispõem de dinheiro, como é o caso do Real Madrid, cuja actividade financeira passou à margem dos problemas que afectam milhares de empresas noutros sectores, não dispenderem milhões, quem o fará? Se em tempo de crise quem tem dinheiro, tem de ser poupado, numa qualquer solidariedade para com aqueles que viram as suas finanças apertadas, estará tão só a prolongar a crise.

Já encontro alguma imoralidade quando estes clubes de futebol, com tantos milhões, são ajudados financeiramente pelo poder local ou central. Portugal, nesse aspecto como em tantos outros, é um péssimo exemplo. A construção de dez maravilhosos estádios de futebol a propósito de um evento em 2004 está ai para demonstrá-lo. Mas na ligação do poder político com o desporto, não é só com o futebol que encontramos casos escandalosos. Recorde-se a ajuda de dois milhões de euros que o Estado atribuiu a Tiago Monteiro para garantir a sua participação na fórmula 1 (segundo consta, uma ajuda não só imoral, como ilegal). É um valor que representa pouco mais de 2% da transferência de Ronaldo, mas um valor muito mais preocupante. Porque esse mesmo Estado que ajuda desportistas medíocres em desportos de elite é aquele que exige mais e mais dinheiro ao contribuinte português em nome de uma suposta solidariedade social. Pelos vistos, houve quem achasse que tínhamos de ser forçosamente solidários para com o Tiago.

Da parte fraca


jorgeassuncao,

O porta-voz dos clientes do BPP, Durval Padrão, disse à Lusa que os clientes apoiam a solução defendida pelo presidente do BPI, Fernando Ulrich, que apontou para a necessidade de ser o Estado a gerir o "mega-fundo". O presidente executivo do BPI defendeu na terça-feira que o Estado deve comprar os títulos dos clientes do Banco Privado Português (BPP) considerados de retorno absoluto e apelou às autoridades para que resolvam depressa a situação. E eu, simples contribuinte português, defendo que o presidente do BPI antes de defender o que o Estado deve ou não deve fazer, deve ser o primeiro a chegar-se à frente. Quanto à questão de fundo, compreendo perfeitamente a revolta dos clientes do BPP, mais ainda quando são discriminados face aos clientes do BPN, mas o essencial aqui é que se perceba que o contribuinte português não pode ir a todas e os clientes devem responsabilizar aqueles que são os verdadeiros culpados pela situação em que se encontram: os gestores privados da instituição em causa. Espero, portanto, que o governo português saiba dizer não aos clientes do BPP, evitando ceder à pressão a que está a ser sujeito.

Topem, mas topem bem


jorgeassuncao,

Ana Gomes pede que "topem quem figura neste quadro de horrores das candidaturas ao PE, que o PSE acaba de divulgar". Ora, no quadro de horrores surge Monica Macovei, romena conhecida por lutar contra a corrupção no seu país e não só. A propósito vale a pena ler isto. E sim, topem, topem como os socialistas aparentam estar contra alguém que é um símbolo na luta contra a corrupção.

O circo


jorgeassuncao,

Em entrevista dada hoje à TVI, o Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, ao ser apelidado de “bufo” por Manuela Moura Guedes, respondeu violentamente à jornalista afirmando: “você não tem autoridade nenhuma para emitir juízos de valor acerca do que se passa na justiça”, e continuando no mesmo tom, acusou a jornalista de fazer um “péssimo jornalismo” que “viola sistematicamente o código deontológico”. O que se passou hoje à noite no Jornal Nacional da TVI é um bom retrato daquilo em que se está a transformar este país.

Macho latino


jorgeassuncao,

 

Ainda a propósito disto (e sou absolutamente contra qualquer tipo de quota, diga-se), encontro isto na The Economist: Men enjoy more leisure time than women in every one of 18 countries examined by the OECD. Italian men have it easiest in comparison with women, lazing around for nearly 80 minutes more each than women who, apparently, clean the house. Other staunch Catholic countries also see big gaps between the sexes, and even in egalitarian Norway men manage to sneak an extra four minutes more to themselves. Portugal não aparece no gráfico, mas não deve andar muito longe do que se passa em Espanha, Itália ou França. Talvez isto ajude a explicar o porquê de nos últimos trinta e cinco anos, apesar das muitas melhorias que se verificaram para as mulheres, a sua felicidade subjectiva aparentemente baixou, quer de forma absoluta, quer de forma relativa face aos homens, nos países desenvolvidos.

Mais pobres e menos felizes


jorgeassuncao,

 

A OCDE publicou este mês o relatório Society at a Glance 2009 onde, entre outras coisas, é possível ter acesso aos gráficos que acompanham este post referentes aos dados sobre a satisfação média que as pessoas desses países aparentam ter para com a vida que levam. O que há a destacar no primeiro gráfico? Entre os 30 países em causa, Portugal está na quinta posição a contar do fim no que toca à felicidade (isto até permite algum spin, afinal de contas, há outros em situação pior que a nossa). Mas antes de ir à situação portuguesa, ainda sobre a interpretação destes gráficos, Thomas Kostigen aproveita para tentar estabelecer uma relação entre impostos e felicidade, isto porque os países mais felizes, são países com elevadas taxas de tributação. Matthew Yglesias afirma, como é óbvio, que não pode ser o acto de pagar impostos a deixar as pessoas mais felizes. Por isso, segundo este, é mais plausível atribuir estas diferenças às desigualdade de rendimento, no sentido em que países que apresentem maior igualdade, tendem a ser mais felizes. Will Wilkinson contesta, isto porque, entre outras considerações, os Estados Unidos, com o seu nível de tributação baixo e desigualdade grande, aparecem relativamente bem colocados no ranking. Wilkinson questiona mesmo porque as desigualdades de rendimento dentro de um país afectariam a felicidade individual? Diz este, provocando, que "as pessoas não experienciam coeficientes de Gini. Preocupam-se é com o carro dos vizinho".

 

Mas o que me chamou a atenção nos dados foi este gráfico:

 

 

E o quê que este gráfico nos diz? Que entre todos os países em análise, Portugal destaca-se por ser aquele onde a felicidade entre 2000 e 2006 mais diminuiu. Não é só o facto de estarmos cada vez menos felizes, contrariamente à tendência, mas pior que isso, somos o que tem a variação mais negativa no período em questão (aqui não há nenhum spin que valha). A questão é: porquê? A Kostigen não posso recorrer, afinal de contas, se algo aconteceu em Portugal neste período no que toca a impostos, foi a subida destes (e o futuro promete mais subidas). A Yglesias talvez faça algum sentido recorrer, segundo consta a desigualdade aumentou na sociedade portuguesa no período em questão. Mas, para mim, a desigualdade só por si não explica a situação, acredito mesmo que num país onde aumente a desigualdade, mas todos os estratos sociais vejam a sua situação melhorar, a felicidade tenderá a aumentar. O problema português é que a nossa riqueza estancou, deixamos de criar riqueza como até então. E com isto largos sectores da sociedade não só viram estancar o seu nível de vida como, pior que isso, encontraram-se de um momento para outro, contrariamente às expectativas geradas, a empobrecer. E se os dados ficam por 2006, não me admiro que de lá para cá a situação tenha piorado. Digo mais, perante aquilo que o futuro nos reserva, temo pelo que será deste país.

 

Voltando ao carro do vizinho a que Wilkinson faz referência, mas tomando-o noutro sentido, estou verdadeiramente preocupado porque são cada vez mais os carros dos vizinhos parados na minha rua nos dias da semana. E isso transmite uma realidade espelhada nos números do desemprego que vão sendo divulgados a cada mês que passa. E mais preocupado estou porque algumas destas pessoas não aparentam qualquer expectativa de encontrarem novo emprego tão cedo. O que os preocupa não é quando voltarão a ter emprego, mas muito mais se o governo prolonga ou não o subsídio a que actualmente têm direito. E esta é uma questão que devia ser central num ano em que se disputam três eleições: desde quanto nós, portugueses, aceitamos de bom tom continuar a empobrecer de ano para ano. Desde quando a apatia triunfou sobre a esperança. E se é viável uma sociedade onde tantos dependem do dinheiro público para sobreviver. Foi Alexis de Tocqueville quem afirmou que "a República Americana vai durar até o dia que o Congresso descubra que pode subornar o público com o dinheiro público", uma frase que pode e deve ser repensada para esta República Portuguesa, versão século XXI.

Incompetente


jorgeassuncao,

Segundo Francisco Louçã a gestão privada dos seguros às exportações "provou ser incompetente. Incompetente porquê? Porque só aceitam segurar operações que respeitem um nível de risco aceitável? É essa a noção de incompetência para o doutor Francisco Louçã? Mas agora chega a gestão pública competente. Aquela cujo risco passa a ser segurado por todos os contribuintes portugueses. Santa competência.

Aumento dos impostos


jorgeassuncao,

Diz a TSF que Lobo Xavier defende aumento dos impostos alargado a todos os contribuintes, sendo explicado no corpo da notícia que "o fiscalista, apesar de ressalvar que quer apenas responder a uma tendência socialista de aumento de impostos, gostaria, caso isso aconteça, que todos levassem pela mesma tabela". A reportagem é do jornalista Emídio Fernando, o mesmo autor do texto que o André Couto tinha feito referência aqui. Gostaria? Será mesmo isso que Lobo Xavier disse? Obviamente que não. O que é dito é que em caso de combate ao défice via subida dos impostos (refira-se que Lobo Xavier defende a diminuição da despesa), esta irá verificar-se para todos os contribuintes, ou seja, pensar que ficará limitada aos ricos é pura ilusão. Não se trata, portanto, de uma questão de gosto, mas tão só de uma inevitabilidade. Lobo Xavier procura chamar a atenção para aquilo a que Luís Campos e Cunha há uns dias fazia referência nas páginas do Público, dizia o ex-ministro das finanças que vamos ter um "aperto orçamental, para 2011 e anos seguintes, nunca visto na história da democracia portuguesa". Campos e Cunha dizia também que o aumento dos impostos estava "fora de causa", por isso previa que fosse a despesa a sofrer uma redução. Lobo Xavier, por outro lado, refere uma previsível "tentação muito grande" para usar os impostos no combate ao défice e é para isso que alerta. A avaliar pela história recente, acredito que é Lobo Xavier quem acerta, muito embora Campos e Cunha tenha razão. Claro que podemos sempre acreditar nas palavras do querido líder, quando questionado sobre os previsíveis sacrifícios futuros, respondeu que o "défice será reduzido com estabilizadores automáticos, não é preciso pedir sacrifícios especiais a ninguém". O primeiro-ministro tem parcialmente razão, mas está aqui espelhado o pensamento do optimista permanente, espero que por esta altura os eleitores já tenham percebido onde este tipo de pensamento nos colocou.

Fábrica de sonhos


jorgeassuncao,

"Washington Post elogia governação de Sócrates: José Sócrates passou os últimos quatro anos a implementar medidas para ter como recompensa uma crise que colocou o país sem margem de manobra em termos fiscais e que impulsionou o número de apoiantes do Partido Comunista, escreve o "Washington Post", num artigo onde sobressaem os elogios à governação do primeiro-ministro.". Isto conta-nos o Jornal de Negócios. O artigo original (uma coluna de opinião de Steven Pearlstein e não uma notícia do jornal, refira-se), encontra-se aqui (onde só por acaso, para além dos elogios a Sócrates, Manuel Pinho também merece uma ou outra referência elogiosa). Agora gostava de vos remeter para notícia do Diário de Notícias de 4 de Maio de 2009: "Ainda vamos ter um Verão difícil, mas depois disso a maior parte das coisas estarão resolvidas." Quem o diz é Steven Pearlstein, jornalista e colunista do Washington Post. "Ainda temos alguns anos de ajustamento aos preços correctos das coisas, em que não vai haver crescimento. E não há nada que o Governo deva fazer acerca disso", acrescentou o vencedor do prémio Pulitzer em 2008, que esteve em Portugal, na semana passada, numa conferência organizada pelo Ministério da Economia. Cada um que tire as suas conclusões.