Desemprego de longa duração


jorgeassuncao,

 

A propósito deste post do André Abrantes Amaral, com o qual concordo, convém olhar para os dados do quadro acima que deixam tudo mais claro. Muitas vezes no debate sobre o desemprego há quem não perceba que iguais taxas de desemprego podem esconder realidades sobre o mesmo bastante distintas. Em Portugal, dada a legislação laboral pouco flexível, o desemprego é um problema muito maior do que noutros países. A empresa, sabendo da dificuldade que a legislação coloca ao despedimento, pensa duas vezes antes de contratar alguém. Da mesma forma o trabalhador, conhecendo a dificuldade em encontrar novo trabalho, raramente arrisca abandonar uma empresa mesmo quando não se sente satisfeito com o trabalho que lá desenvolve [a propósito, refira-se este gráfico]. Quando tanto se fala no combate ao desemprego, talvez fosse boa ideia começar a ponderar seriamente combater de forma eficaz este problema social gravíssimo que é o desemprego de longa duração.

Da série “Esta notícia tem o rosto do Eng.º Sócrates”™ [157]


jorgeassuncao,

Os salários reais em Portugal vão cair 0,4% este ano, estima a Comissão Europeia, isto apesar de prever uma diminuição de 0,3% nos preços. Em trinta anos, apenas se registou uma redução real das remunerações em quatro, o último dos quais foi 2006 mas, nesse ano, a inflação foi de 3%.

 

Jornal de Negócios, 5 Maio 09

De quem é a culpa?


jorgeassuncao,

(fonte: OCDE)

 

No eixo vertical encontram-se representados os valores da taxa de crescimento real do PIB. Nos últimos sete anos crescemos sempre abaixo da média dos países das três zonas em análise. Foram anos de empobrecimento relativo, típicos de uma economia submergente. Os próximos anos não deverão ser muito melhores, embora constantemente nos estejam a vender um futuro mais risonho. A verdade é que a actual geração no poder está a preparar-se para legar uma sociedade mais pobre às gerações vindouras. A geração de 50 (Guterres [falha por meses], Barroso, Santana e Sócrates) soube trazer o espectáculo à política, mas com isso veio a falta de seriedade. Do Guterres do pântano, passando pelo Barroso do choque fiscal e o Santana da deslocalização de ministérios, até ao Sócrates dos 150 mil empregos, este país só andou para trás. Mas a culpa não se restringe aos partidos, a culpa é daqueles que os elegem na esperança que chegando lá nada mudem. Aquilo que até agora temos assistido é que qualquer dos governos da década, sempre que tentou fazer alguma reforma significativa, encontrou forte oposição no povo que sai para a rua em protesto. Em Portugal não importa ser reformista, importa parecer. É, afinal, o país do faz de conta.

 

Publicado inicialmente aqui.

Da Democracia na América


jorgeassuncao,

 

É, também, no respeito que os governantes têm por aqueles que governam que se encontra a grandeza do país em causa. E os jornalistas são, além de vigilantes para com os abusos do poder, os melhores intermediários que um povo pode ter na sua relação com quem exerce o poder.

 

A foto foi roubada daqui e uma óptima entrevista com o recém eleito presidente Obama pode ser encontrada aqui.

Bloco central


jorgeassuncao,

Em relação aos apoios anunciados para combater a crise, Manuela Ferreira Leite insistiu em que o Governo diga «onde foi buscar o dinheiro», manifestando «receio» de que este provenha da Segurança Social. «A ausência de informação, o facto de não haver um orçamento rectificativo e o facto de ver o ministro do Trabalho em silêncio pode significar que isto está a ser feito pela Segurança Social», sustentou, referindo como «bastante estranho» que o ministro do Trabalho «não queira comentar» o alargamento do subsídio social de desemprego.

 

Alguém perguntou ao governo "onde foi buscar o dinheiro"? Já está esclarecida a questão?

Os filmes das nossas vidas (3)


jorgeassuncao,

 

DO CÉU CAIU UMA ESTRELA: UM FILME INTEMPORAL

 

A segunda guerra mundial acabara no ano anterior, Frank Capra, que tinha passado os últimos anos a filmar quase em regime exclusivo filmes sobre a guerra, não encontrava grande apoio da indústria americana para a rodagem dos seus novos projectos e James Stewart, tendo participado na guerra como elemento da força aérea norte-americana, estava há mais de cinco anos sem participar num filme. Capra acabou por criar uma produtora sua para a rodagem do filme e Stewart, inicialmente relutante, acabou por aceitar retomar a sua carreira neste Do céu caiu uma estrela. O filme ainda foi nomeado para os óscares, mas não ganhou nenhum. A produtora de Capra foi à falência e Stewart interrogou-se sobre se o seu talento de actor havia desaparecido com a guerra. Contudo, este foi só mais um filme que não teve o reconhecimento merecido no imediato, mas cujo teste do tempo tratou de elevar à condição de obra-prima do cinema internacional. Enquanto referência, transversal a todas as gerações americanas que se lhe seguiram, transformou-se em presença obrigatória nas transmissões televisivas em período natalício.

O filme é hoje considerado pelo American Film Institute um dos 100 melhores de todos os tempos e na listagem do mesmo instituto para o filme mais inspirador de sempre, surge no destacadíssimo primeiro lugar. Reconheço a minha alergia a listas do género, mas no caso em questão a minha opinião pessoal coincide. Além do mais, este fazia parte do famoso pacote de 25 filmes que Barack Obama decidiu oferecer a Gordon Brown.

 

O filme é intemporal porque lida com temas recorrentes no ser humano: os sonhos, a amizade, o amor, a esperança. Traça uma linha clara entre o bem e o mal que perpassa o coração humano. É também um filme sobre o nosso crescimento pessoal, sobre o percurso e as escolhas que fazemos na vida e como estas influenciam aquilo em que nos tornamos. Mais do que isso, como aquilo que fazemos influencia a vida dos outros para o bem ou para o mal. Há quem diga que é excessivamente moralista, eu acho que sendo certo que Capra reproduz um modelo simplificado da realidade, exagera na caricatura, com isso também reforça a conclusão final. George Bailey (James Stewart) pode não existir na vida real, mas enquanto símbolo representa aquilo a que cada um de nós devia almejar. No banqueiro Henry Potter (Lionel Barrymore, na figura à direita) encontramos o némesis da personagem de Stewart. O banqueiro sem ética, nem moral (vêem como é apropriado aos tempos que correm), cuja única preocupação é servir-se da comunidade em proveito próprio.

 

George Bailey era um homem com sonhos, cujos acontecimentos da vida trataram de desfazer. A dada altura a desilusão é tão grande que ele pensa em "abdicar da maior dádiva de Deus". Mas, por intervenção divina, um "anjo de segunda classe" é enviado em seu auxilio, um anjo que lhe dará a "oportunidade de ver como o mundo seria sem" ele. Bailey depressa descobre que aquela cidade de onde sempre sonhou sair transformara-se num pesadelo. A Bedford Falls que ajudara a criar era agora Pottersville (em honra do banqueiro sem ética, nem moral); os membros da comunidade dos quais Bailey havia conseguido extrair o melhor que tinham para dar, eram amostras medíocres em relação à outra existência, como que com os defeitos maximizados e as virtudes escondidas; pior que tudo, Bailey encontra-se com a sua amada Mary (Donna Reed), aquela que em criança havia prometido amá-lo até ao dia em que morresse, e, não fosse o amor de ambos coisa do destino, esta era uma solteirona bibliotecária, uma sombra daquela a quem Bailey havia prometido entregar a lua caso fosse seu desejo. Afinal, George Bailey finalmente percebe, não era o sonho de criança que realizara, mas nem por isso deixava de viver uma vida de sonho.

Já vi o filme algumas vezes e em todas elas não consigo deixar de me emocionar na cena final. Nesta, Harry Bailey (Todd Karns), o irmão que regressava da segunda guerra mundial como herói, brinda "ao homem mais rico da cidade!". Não é a dinheiro que se refere, mas àquele tipo de riqueza que o dinheiro não pode comprar. Um filme para os tempos que correm, para todo o sempre.

Retórica e poder


jorgeassuncao,

Foi Bryan Caplan quem neste post afirmou a propósito da realidade política americana que a grande diferença entre o partido Democrata e o partido Republicano era nada mais, nada menos, do que a retórica. Embora não pareça, e a avaliar pelas reacções apaixonadas dos que ‘torcem’ por um ou por outro lado não parecerá mesmo, eu tendo a concordar com a ideia de Caplan. A grande diferença entre os dois principais partidos americanos é a retórica e o mesmo se pode dizer no caso português entre o PS e o PSD. Pior ainda, fruto do nosso quadro partidário onde outras forças ocupam as margens, PS e PSD tendem a convergir ainda mais naquilo que defendem. Tudo o que sobra então é a retórica, não é por isso de estranhar que se dêem ao espectáculo esquizofrénico de defenderem uma coisa enquanto oposição e fazerem outra enquanto governo: a propósito, veja-se o que dizia o PS quando era oposição ao governo PSD/CDS e o que agora faz, ou a posição do PSD em relação ao TGV enquanto governo e o que agora diz. E isto para não falar nas questões europeias, onde as posições de um e de outro partido, na essência, em nada diferem.

Mas o cúmulo foi quando Ferreira Leite submeteu-se ao silêncio para que o PS de José Sócrates não lhe roubasse as ideias. Maior sinal de que os partidos são iguais, ao ponto de um recear que o outro lhe copie as ideias, não há. E isto é tão mais verdade quando a comparação é entre as lideranças de José Sócrates e de Ferreira Leite.

 

Quero com isto dizer que é indiferente quem ganha as eleições legislativas? Obviamente que não. Não só porque, apesar de tudo, reconheço diferenças entre os dois partidos, mas principalmente pela questão do poder. Na célebre frase de Lord Acton, "o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente", encontra-se boa parte da justificação. Este PS de José Sócrates tem muitos dos tiques de quem foi corrompido pelo poder. Como alertava a Ana Margarida Craveiro aqui neste blogue não há muito tempo, o actual PS está irreconhecível face ao seu passado – confesso que ao ler o post em causa lembrei-me do Gollum d’O Senhor dos Anéis e com isso imaginei José Sócrates como que a suplicar pela sua preciosa maioria absoluta. Não sou um adepto de governos minoritários ou de coligações, mas sou um adepto confesso da alternância e limitação de poder – e neste momento a diminuição do poder socialista deve ser a prioridade. O poder o povo dá, o poder o povo tira. Já vai sendo tempo de tirar o poder a este PS.

Co-conspiradores


jorgeassuncao,

Ainda a propósito deste meu post e sobre a excelente literatura (não necessariamente alemã) que se vai produzindo nos dias que correm sobre o regime Nazi, recomendo este artigo muito interessante na The Atlantic. Neste, Benjamin Schwarz faz referência às mais recentes obras literárias sobre o holocausto. A mensagem central destas últimas análises históricas é que a maioria do povo alemão tinha conhecimento da "solução final para a questão judaica" adoptada pelo regime nazi e esse conhecimento era propositadamente fomentado pelo regime como forma de associar todo o povo aos crimes perpetrados pelos seus líderes. O objectivo era levar os alemães a empenharem-se ainda mais na guerra com receio do julgamento a que seriam certamente submetidos em caso de derrota. Como Shwartz tão bem conclui, The Final Solution had given the Germans no way forward but Armageddon.

Máquina do tempo (3)


jorgeassuncao,

01 de Junho de 2004: "Sentimo-nos com grande apoio das pessoas. Queremos sensibilizar as pessoas para a necessidade de irem votar e que de nada serve estarem revoltadas com a crise económica, com o desemprego, com este Governo, com as várias negociatas em que o Governo se vai metendo, se não expressarem isso no voto", insistiu o candidato socialista. O dia 13 de Junho, prosseguiu, será uma oportunidade para "dar uma lição à direita"

 

08 de Junho de 2004: O "número dois" do PS nas eleições europeias, António Costa, fez ontem um apelo ao voto nos socialistas no próximo dia 13 de Junho, que incluiu os "historicamente do PSD" que "vêem falta de clareza e transparência na coligação". […] No apelo, António Costa incluiu "os que há dois anos não votaram no PS porque pensavam que o PS tinha uma política de direita", os que "acreditavam que a direita era sinónimo de progresso" e os que "sentem grande desânimo", que "assobiam Paulo Portas e Manuela Ferreira Leite".

 

Estamos esclarecidos quanto às questões europeias?

Máquina do tempo (2)


jorgeassuncao,

06 de Junho de 2004: Respondendo ao apelo lançado ontem pelo Presidente – que lamentou o excesso de atenção dada nesta campanha às questões internas – Durão acusou os socialistas de não falarem na Europa por terem "chumbado no exame europeu", preferindo antes fazer "disputa política interna contra o Governo" e "inventando casos".

 

15 de Abril de 2009: O secretário-geral do PS, José Sócrates, afirmou hoje que quem não quer discutir questões europeias na próxima campanha para o Parlamento Europeu pretende esconder que não sabe nada da Europa

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Máquina do tempo (1)


jorgeassuncao,

13 de Junho de 2004: PSD pede a cabeça de Ferreira Leite e Carlos Tavares. Cinco anos passados e suspeito que teremos título semelhante (Carlos Tavares não incluído, obviamente).

 

06 de Junho de 2004: Vital Moreira diz que estas são as eleições europeias mais importantes. E o que diz agora: "Estas são, porventura, as mais importantes eleições europeias, desde sempre". Não nego a possibilidade lógica da coisa, mas podemos adivinhar o discurso para 2014.

A força do exemplo


jorgeassuncao,

 

O Pedro Correia escreveu recentemente dois posts que me puseram a reflectir (este e este). Não por acaso, o primeiro comentário em cada um deles foi meu. E não por acaso porque os temas em causa despertam o meu interesse. Um deles, onde era focado o juiz Roland Freisler, recordou-me o caso de Sophie Scholl, o outro tanto despertou o meu interesse pelo filme A Onda, entretanto já visto, como fez-me dar conta que alguns dos melhores filmes que visionei nos últimos tempos são alemães. Esta pujança do cinema alemão que nos últimos sete anos tem duas* vitórias no óscar de melhor filme estrangeiro e outras três nomeações, não é coincidência. O século XX alemão é um período no tempo carregado de agruras suportadas pelo povo – um século que abrange duas guerras mundiais que resultaram em derrota; um período de grande depressão e surto inflacionista; um regime fascista e, para os infelizes do leste, um regime comunista – dificil seria que isto não deixasse traumas na memória colectiva dum povo. Traumas que ainda hoje têm repercussão na sociedade alemã, desde o rigor que exigem na execução da política monetária por parte do Banco Central Europeu, até às restrições apertadas sobre toda e qualquer exibição de símbolos do tempo do senhor austríaco com bigode. E são estes alemães, atormendados pelo seu passado, que agora como que recorrem ao cinema para expurgar os seus demónios.

 

Lugar nenhum na África (2001); Adeus Lénine! (2003); A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich (2004); Sophie Scholl: Os Últimos Dias (2005); A Vida dos Outros (2006); O Complexo de Baader Meinhof (2008); A Onda (2008). Estes são alguns dos excelentes filmes que o cinema alemão nos presenciou durante este século e todos eles, de uma forma ou de outra, fazem referência às duas ideologias totalitárias que marcaram o século XX de forma negra. Longe vai o tempo em que as grandes encenações sobre o tema tinham produção exclusiva em Hollywood. Mas se Hollywood perdeu o predominio do tema foi porque os alemães decidiram, finalmente, transpô-lo para o grande ecrã e como que com isso reconhecer que era chegada a altura de assumir os erros do passado e encarar o futuro de forma descomprometida (esse objectivo fica por demais evidente no filme A Queda, através da figura da secretária pessoal de Hitler). Dados os fantasmas que habitam na história portuguesa do século XX, o que não falta é material aos realizadores portugueses para seguirem o caminho trilhado pelos colegas de profissão alemães, suspeito que o que falta, entre outras coisas, é qualidade e dinheiro, mas isso é tema para outro post.

 

 

Mas, voltando ao inicio do post, comecei por mencionar Sophie Scholl e é com ela que pretendo terminar. Foi a 18 de Fevereiro de 1943, com vinte e um anos, que Scholl foi presa pelo regime nazi por distribuir panfletos pacifistas em nome do movimento Rosa Branca, contra Hitler e a guerra sanguinária que este levava a cabo. Em 21 de Fevereiro, em conjunto com o seu irmão e um amigo pertencente ao movimento, compareceu perante o Tribunal Popular para ser julgada pelo juiz Roland Freisler, perante o qual Scholl justificou os seus actos, "Alguém, afinal, tinha de começar. São muitos os que acreditam no que escrevemos e dissemos. Apenas não se atrevem a exprimi-lo tal como o fizemos". Mas Freisler, com a cobardia habitual das pessoas pequenas que aparentam força, uma força que não é delas, mas tão só dos regimes opressivos que as sustentam, condenou-a à pena capital. Em tempo recorde, no dia 22 de Fevereiro de 1943, Scholl perdia a cabeça numa guilhotina. Morreu em consequência do que acreditava, nas palavras da própria: "Sou, agora como antes, da opinião que fiz o melhor que podia em prol da minha nação. Por isso, não me arrependo da minha conduta e irei suportar as consequências que advenham da mesma".

A sua condenação à morte servia, na ideia dos que a julgaram, como exemplo para todos os outros que ousassem criticar o regime. Nada mais errado. A sua condenação apressada serviu apenas para dar mais força a um exemplo, sim, mas não propriamente ao exemplo que o regime esperava. O exemplo de Sophie Scholl é que saiu reforçado, ao ponto de ainda hoje inspirar muita e boa gente – a outros, é certo, mais do que fonte de inspiração devia servir como fonte de aprendizagem, tal é a pequenez que por este mundo grassa. Recorrendo às palavras de Jud Newborn, "Não é possível medir o efeito deste tipo de resistência com base no número de pontes que foram destruidas ou na queda do regime… O movimento da Rosa Branca é de um valor mais simbólico, mas este é um valor muito importante.". Um valor que importa preservar, acrescento eu.

 

* não contando com o filme Os Falsificadores (2007), que venceu o óscar de melhor filme em representação da Áustria, mas na prática era uma co-produção austríaca e alemã.