Alguém lhe dá uma ideia?


jmmcc,

A recente declaração de Jerónimo de Sousa sobre a possibilidade de alinhar numa moção de censura ao Governo provocou esta reacção curiosíssima a um socialista: «O PCP nunca hesitou em tentar derrubar o governo do PS.» Quem foi, quem foi? Claro: o inenarrável Vitalino Canas. É certo que Canas nunca se destacou como um iluminado, mas devia haver limites. Alguém que esteja por perto se importa de lhe dar uma ideia da quantidade de gente que não tem a mais pequena hesitação para fazer o mesmo e que nem sequer tem o costume de se deixar embalar pelas posições de Jerónimo de Sousa?

E como vamos de abrantices?


jmmcc,

As coisas que a Lusa descobre: 37 por cento dos internautas portugueses já foram vítimas de um ataque de vírus informáticos, quando a média europeia é de 31 por cento, embora 86 por cento dos internautas portugueses utilizem software de protecção (anti-vírus ou firewall), quando a média de europeus protegidos é de 84 por cento. Era bom saber o que é que pode explicar esta desagradável desproporção. Será que a Lusa poderia apurar os motivos da nossa insegurança informática ao ainda ministro da Administração Interna? Palpita-me que os novos anti-vírus e firewalls encomendados não chegaram a tempo…

Já agora, também era importante divulgar os dados nacionais sobre os ataques abrantinos a blogues, face à média europeia de Abrantes atacantes.

Bruma de TGV


jmmcc,

Esta é uma bela imagem do ensaio do TGV da linha Poceirão–Ilhas de Bruma, cujo nevoeiro e maresia fazem parte do projecto apresentado pelo ainda ministro Mendonça por ordem dele mesmo, que não conseguiu eliminar o nevoeiro e a maresia do percurso, e que contou com o apoio do ainda ministro do Ambiente, seja lá ele quem for.

Por causa da bruma, aliás, este TGV tem de rolar à velocidade estonteante daquela velha automotora da linha Coimbra–Lousã, quando havia uma linha Coimbra–Lousã, pelo que se prevê que só venha a dar lucro e prémios de gestão ao presidente do conselho de administração da Bruma de TGV, PPP.

Sinais deste tempo


jmmcc,

Hoje sabe-se quando uma revolução está no bom caminho.

É quando são milhões e há flores.

É quando as mulheres têm voz.

É quando os militares também são povo e a solidariedade não tem fronteiras.

É quando a liberdade não tem idade e a resistência tem pão.

É quando todas as ditaduras são denunciadas e rejeitadas.

É quando existe informação sem fronteiras.

É quando as pedras servem para gravar mensagens.

É quando os exemplos dos outros não foram em vão.

É quando pessoas de religiões diferentes rezam juntas em público.

Pudera


jmmcc,

Leio no Correio da Manhã que «Angélico Vieira compra carro de 171 mil euros». Este título desperta-me a atenção. Vou ver. Certo. É um Audi R8. Se calhar tenho obrigação de saber quem é o homem, mas confesso que não sei. Por mim, o título era diferente: “Carro de 171 mil euros comprado por desconhecido”. Que agora já deve ser conhecido. Pudera. Assim também eu.

Bem mexe frei Tomás…


jmmcc,

António Mexia disse ao DN que «os governos mais pequenos são mais eficazes». Acho que o presidente do grupo EDP tem razão. E acho que os conselhos de administração dos grupos e empresas públicos e participados mais pequenos também são mais eficazes. E mais baratos, se não se atribuírem prémios por fazer o que é suposto fazerem.

A xenofobia persistente


jmmcc,

Como assinala aqui o nosso Rui Rocha, entre as variações do «tipo de etiqueta que acompanha frequentemente a notícia de um crime», pode dizer-se que «o rótulo da nacionalidade» tem uma relevância tão essencial quanto curiosa: «se o facto ocorrer no estrangeiro, a nacionalidade relevante é a portuguesa». Essencial porque determina e condiciona a nossa reacção; curiosa porque convoca a xenofobia mais calada que persiste em nós.

Dá-se o mesmo com a profissão que cada um exerce: no crime, ser jurista não é como ser jardineiro, nem ser político é como ser condutor de autocarro. E isto não resulta necessariamente da avaliar a preparação intelectual dos envolvidos, porque todos nós, por exemplo, ouvimos deputados a dizer as maiores barbaridades e conhecemos gente anónima e modesta que não lhes comprava um carro em segunda mão e que vive com inteligência e sensatez. Resulta (isso, sim) de um apelo incontido à xenofobiazinha, uma espécie de alimento (sob a capa daquele retrato intelectual) para a manter desperta. Vejamos.

1. Se uma notícia relatasse que um jovem egípcio tinha dado cabo do canastro a um maduro egípcio com grande selvajaria quando estavam hospedados no mesmo quarto de um hotel em Tóquio, alguém em Cantanhede tinha aberto uma conta bancária pelo sobrevivente ou tinha saído de casa à noite para dar a mão ao vizinho na praça principal da terra? E o Correio da Manhã faria do caso um folhetim diário de primeira página?

2. Se o pai de uma costureira matasse a tiro o ex-genro que era electricista, o Expresso substituiria o título «Pai de juíza mata advogado» por “Pai de costureira mata electricista”? E ninguém piava?

O aspecto mais estranho desta realidade é que a informação circula hoje na hora e pelas vias globais, o que nos aproximou e solidarizou definitivamente do nosso próximo — do próximo que antes estava muito longe para ser próximo — mas deixou-nos, contudo, a fezada de que a nossa paróquia ainda continua a ser o centro do mundo. Isto é: as tecnologias não nos globalizaram no que isso possa ter de bom, porque a ciência e o conhecimento não curam a xenofobia mais calada que persiste em nós.

A nova realidade financeira?


jmmcc,

José Sócrates foi hoje a Coimbra e garantiu que o Governo tem imensa vontade de continuar com o projecto do Metro Mondego, embora adaptado à nova realidade financeira do País.

O ainda ministro Mendonça ainda não percebeu que:

— basta Sócrates falar para ser exactamente o contrário do que diz;

— não há mais nada adaptável à nova realidade do País para lá das bolhinhas de sabão.

Vai daí, o ainda ministro Mendonça foi para o gabinete e mandou adaptar o projecto. Foi assim que nasceu o Monocarricleta, que junta a ideia do monocarril à da bicla para ligar Coimbra a Lousã só com metade dos carris.

Os especialistas de coisa nenhuma


jmmcc,

«Pai de juíza mata advogado com seis tiros» Este é o título de uma notícia em que pode ler-se o seguinte: «Um advogado foi hoje assassinado, em Oliveira do Bairro, com seis tiros atirados pelo antigo sogro», pai de «uma juíza de Ílhavo»; «a vítima, um advogado residente no Porto, estava separada da juíza, moradora em Mamarrosa, Oliveira do Bairro, mas o processo de divórcio era litigioso, já que os pais não se entendiam quanto à custódia da única filha do casal, de quatro anos de idade»; o antigo genro foi «atingido com pelo menos dois tiros»; o «homicida confesso entregou-se pouco tempo depois» e é «engenheiro de profissão».

Ora, se as profissões de cada um fossem relevantes para o caso, o título bem podia ser: “Engenheiro mata advogado». Mas as profissões não têm especial interesse, como não é certo que a morte tenha sido com seis tiros, já que a notícia, afinal, diz que o morto foi «atingido com pelo menos dois tiros».

Além disso, não pode ser verdade que estivesse em curso um processo de divórcio que «era litigioso, já que os pais não se entendiam quanto à custódia da única filha do casal». Faz tempo que a custódia de menores filhos de pais separados é preferencialmente partilhada com co-responsabilidade de ambos e, de resto, nenhum processo de poder paternal tem de correr apenso a um processo de divórcio (que não é nem deixa de ser por mútuo consentimento ou litigioso por razões de poder paternal).

Um jornalista, se não for outra coisa específica, tem de ser um especialista em generalidades. Mas há cada vez menos a saber isso.

O Estado Novo há 50 anos (1961)


jmmcc,

 

VII – COMEÇA A GUERRA COLONIAL

“O assalto às prisões de Luanda”

 

A 4 de Fevereiro de 1961, uma conjugação de acontecimentos em Luanda volta a abalar o Estado Novo. Desta feita, o abalo é para durar: formalmente, marca o início da longa guerra que Portugal vai travar nas colónias africanas, a que o regime vai chamar Guerra do Ultramar (para dar sentido ao fim da designação de “colónias” e à sua consagração, irrelevante, como “províncias ultramarinas”). A data é tão importante para Angola que o aeroporto de Luanda, depois da independência, vem a receber o nome de Aeroporto 4 de Fevereiro.

O conjunto de acções vulgarmente apelidado como “o assalto às prisões de Luanda” refere-se ao ataque concertado levado a cabo naquela cidade a 4 de Fevereiro, por militantes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contra a Cadeia de S. Paulo, a casa de reclusão militar, uma esquadra ou posto policial, as instalações da Emissora Oficial de Angola (Emissora Nacional) e outras repartições públicas.

 

A iminência de uma guerra inevitável já é sabida em Lisboa, naquela altura. Esse dia 4, de resto, não parece que tenha sido escolhido ao acaso: apesar do desfecho do “assalto ao Santa Maria” em terras do Brasil, na véspera, ainda muita gente espera que Henrique Galvão acabe por conseguir levar o paquete até Angola e, por isso, há uma quantidade de repórteres de vários países em Luanda, prontos a cobrir esse caso.

Tudo indica que é a possibilidade de ampla cobertura internacional que despoleta a acção do MPLA, interessado em ganhar visibilidade. A decisão tem de ser tomada rapidamente, para assim aproveitar a presença favorável de diversos órgãos de comunicação social estrangeiros.

 

É impossível escamotear a ligação entre a acção em Luanda e a revolta prolongada e mal pacificada na Baixa do Cassange, onde os negros que trabalham na cultura do algodão da poderosa Cotonang (luso-belga) se manifestam desde o início do ano contra as condições impostas e os salários. Ainda em Janeiro, à greve dos indígenas no Cassange contrapõe-se a força de militares e polícias mobilizados para essa região e que os perseguem por ar e por terra. Os tumultos agudizam-se e o regresso à normalidade — apenas aparente — dá-se à custa da chacina de muitos revoltosos e seus familiares, fuzilados entre os supostos cabecilhas da revolta.

A Baixa do Cassange é influenciada pela região vizinha do ex-Congo Belga, país já independente desde 30 de Junho do ano anterior, onde também se estendem  as imensas plantações de algodão que exploram mão-de-obra intensa e com obrigações que são praticamente impossíveis de cumprir. Com a deslocação de efectivos militares e policiais para controlar os protestos no Cassange, Luanda é uma cidade pouco segura nesse momento. A segurança precária e a presença de jornalistas estrangeiros são os aspectos determinantes, mas o primeiro objectivo do assalto às prisões consiste em soltar dirigentes do MPLA que estão presos.

 

Além de diversos atacantes mortos nesse 4 de Fevereiro, do lado oposto perdem também a vida um cabo do Exército e sete agentes policiais. O funeral destes em Luanda culmina em mais violência: previamente armados, vários elementos da população branca perseguem os indígenas pelas ruas da cidade e arredores, matando muitos deles (há quem fale em três mil mortos).

Estas feridas abertas juntam-se às hostilidades mais antigas. De acção em acção, de resposta em contra-resposta, estão traçados os contornos de uma guerrilha que opõe, numa visão grosseira, colonos e negros ou brancos e indígenas, sujeitos a um estatuto oficial que não concede igualdade de cidadania às duas partes. Lá no fundo, cresce e persiste a vontade de libertação, consubstanciada no direito à autodeterminação reivindicado pelos líderes, muitos deles possuidores de preparação intelectual e académica obtida em território continental — na velha Metrópole, que acorda tarde para a necessidade de ter quadros superiores no seu Ultramar.

 

A guerra colonial há-de estender-se à Guiné, em 1963, e a Moçambique, em 1964. Vai durar longos anos e, em certa medida, como que acaba por fornecer uma inesperada legitimidade ao salazarismo, que sai reforçado ao aproveitar para unir os portugueses, tanto quanto possível, em torno de uma causa nacional de relevância óbvia. Por outras palavras: há muito que não há uma causa que justifique o prolongamento do regime e essa defesa do solo pátrio vem dar um novo fôlego (apenas interno, que não externo) à manutenção do Estado Novo. Tratando-se de operações de guerrilha, é de fraca precisão tentar saber quem ganha ou quando e onde se ganha. Só se sabe que Portugal apresenta o maior esforço de guerra europeu no pós-Guerra e que, à época, as antigas colónias africanas pertencentes a países da Europa estão a obter a sua independência a bom ritmo.

O nosso país (leia-se: o regime) não quer abdicar dos territórios do velho Império, mas o quadro social muda substancialmente a partir de 1961. Por um lado, a emigração (clandestina ou “a salto”) tem mais uma razão de ser: fugir à guerra, o que significa recusar o cumprimento do serviço militar obrigatório. Por outro lado, as famílias portuguesas absorvem um novo ritual: a despedida dos seus filhos, pais, irmãos e maridos que embarcam no cais de Alcântara, o drama do adeus aos soldados que partem. Muitas vezes, é o último adeus.

 

Imagens

· Luanda: o Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro

· Monumento angolano aos Heróis do 4 de Fevereiro

· Placa com palavras de Agostinho Neto alusivas

à fundação do MPLA em 1956

· Primeiro dístico (raro?) do MPLA (integralmente

escrito em francês)

· Funerais em Luanda após o 4 de Fevereiro

· Embarque de tropas no Tejo

Afronta atrás de afronta


jmmcc,

Jorge Lacão não é um político especialmente simpático no tom das suas habituais intervenções, mas sempre tem a pasta dos Assuntos Parlamentares no actual governo. Era natural, por isso, que a sua proposta para futura redução do número de deputados fizesse parar para pensar os seus pares. Mas não: Francisco Assis recusou que o PS lhe desse atenção e já deu o caso por encerrado. O encontro que Lacão quer ter com o PSD sobre o assunto é, portanto, uma iniciativa sem qualquer significado que não seja afrontar os seus pares. Ele lá saberá porquê. Para os portugueses, fica a dúvida: entre os limites mínimo e máximo possível de deputados, mesmo com o país falido e com o saque institucional ao trabalho dos cidadãos, há algum motivo para o Parlamento continuar a ter o número máximo de deputados que a Constituição permite?

Desastrosa, no mínimo, é a declaração do ministro Silva Pereira para justificar o alheamento perante a proposta: o programa do governo não prevê qualquer alteração à Lei Eleitoral. Mas, com excepção dos homossexuais e transexuais, haverá alguma coisa na acção do governo que coincida com o programa que foi apresentado ao país, ou é outro tipo de afronta de mau gosto aos cidadãos?

Sabia que… (64)


jmmcc,

… conforme o Zodíaco chinês, este é o Ano do Coelho? Pois é verdade: começa hoje, 3 de Fevereiro de 2011 (ano lunar de 4709, no calendário tradicional chinês).

Quer saber quem é que nasceu em anos do Coelho e se tornou mundialmente conhecido? Assim de repente, que eu me lembre e sem qualquer ordem especial: Albert Einstein, Leon Trotsky, Frank Sinatra, Papa Bento XVI, Angelina Jolie, Brad Pitt, Johnny Depp, David Beckham, Tiger Woods e Whitney Houston, entre outros. E quem é que não se tornou conhecido? O Silva, a Vanessa não-sei-quê, o Mendes, o Armando qualquer-coisa e eu, por exemplo (se calhar não me lembro de mais por não serem conhecidos).

Em relação a Portugal, gostava de dizer o que podemos esperar deste Ano do Coelho, que se estende até 22 de Janeiro de 2012. A sério: gostava mesmo de dizer. Até fico entalado por não contar tudo. Mas talvez seja melhor não dizer, porque parece que o FMI tem orelhas muito compridas e os mercados ficam muito nervosos.

O Estado Novo há 50 anos (1961)


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VI – “OPERAÇÃO DULCINEIA”

O “assalto” ao Santa Maria (5)

(conclusão)

A 3 de Fevereiro de 1961, antes do desembarque no Recife, os passaportes dos passageiros portugueses e espanhóis do Santa Maria são carimbados com um visto assinado por Henrique Galvão e um selo do grupo rebelde, o DRIL, «numa cerimónia bem-humorada» e «sem qualquer formalidade», mas apenas porque «fará irritar certamente os funcionários de Salazar» (Henrique Galvão, O Assalto ao “Santa Maria”).

Nesse derradeiro momento, vê-se que Galvão conserva a preocupação de deixar uma boa impressão e quer descontrair aqueles com quem andou no mar treze atribulados dias.

 

A edição da revista Paris Match de 4 de Fevereiro sai para todo o mundo com uma reportagem amplamente ilustrada de 12 páginas. Na capa, dedicada por inteiro ao caso, a chamada para o «Exclusivo – A bordo do Santa Maria – Fotos e relato» é completada assim: «La fantastique aventure de Galvao et des pirates de la révolution». No interior, lê-se: «Désormais sur le paquebot de luxe règne l’aventurier de la révolution: Galvao». Referindo-se ao encontro com aquele a quem chama “aventureiro”, o jornalista descreve-o como um «adversário severo do presidente que governa Portugal há mais de 30 anos», um «capitão, autor dramático, deputado e evadido da prisão» e um «homem desesperado de 65 anos que fez a entrada mais espectacular no palco do mundo».

Sobre o paquete, diz que «o palácio flutuante era o “primeiro pedaço da pátria libertada”». A revista transcreve o que Galvão comunica quando se dirige aos passageiros no pequeno-almoço «dans les salles à manger où fument le thé et le café habituels», após assumir o comando do navio: «Mesdames, messieurs, vous êtes désormais sur une parcelle de Portugal libre… Nous ne nous rendrons à personne, mais nous nous portons garants de vos existences et même de votre confort…» Convenhamos que, apesar da forçada mudança de planos no início da acção — para desembarcar os feridos em Santa Luzia — a simbólica declaração de liberdade resulta em pleno: o golpe mais rude para o Estado Novo não é o desafio a Salazar, mas o velho regime passar a ser alvo de uma azeda atenção mundial.

 

O Santa Maria deixa o Recife no dia 7 para regressar a Lisboa e entrar engalanado no Tejo a 16. A 17, quando atraca perante uma multidão no cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, é recebido por Salazar em pessoa. “Obrigado, portugueses” — diz o presidente do conselho. “O Santa Maria está connosco.” No mês seguinte, o paquete passa de novo a operar e, sete anos depois, é alvo de uma boa remodelação e faz cruzeiros à Madeira, Canárias e Caraíbas.

Em 1973, ao sair do Tejo para uma viagem, o navio sofre uma avaria e já não parte. A desfocada visão da época (aliada a um regime político fechado) só tem olhos para o crescimento da aviação comercial e não percebe o caminho favorável que leva o mercado dos cruzeiros de luxo. Assim, é desperdiçado o potencial do Santa Maria, apesar do seu requinte e de ainda não ter 20 anos. Em resultado dessa falta de visão, o paquete é vendido a um sucateiro naval de Taiwan, onde acaba desmantelado. (O filme Assalto ao Santa Maria, de Francisco Manso, estreado em 2010, recorre ao navio-hospital Gil Eanes, no qual se introduzem alterações cénicas no convés para o efeito.)

 

Henrique Galvão fica a viver no Brasil. Continua a escrever e a encontrar-se com alguns opositores de Salazar, sempre na mira de conspirar contra o regime, e conserva uma ideia: ver Portugal longe do salazarismo e do comunismo.

Mentor e líder da “Operação Dulcineia”, a qual fica nos anais da acção política pela insólita tomada de meios aeronavais, acaba por não assistir ao enterro do Estado Novo. Morre exilado em São Paulo, a 25 de Junho de 1970, aos 75 anos, com a doença de Alzheimer.

 

Imagens

· Capa e página interior da Paris Match de 4 de Fevereiro de 1961

· Recife: Galvão e Delgado (no canto inferior direito) deixam o paquete

· Fotografia de Henrique Galvão na Paris Match

· Na ilha de Santa Luzia: lancha do Santa Maria que transportou

dois feridos, acompanhados por cinco tripulantes,

e cuidados hospitalares aí recebidos

· Regresso a Lisboa: o Santa Maria atracou engalanado em Alcântara

· O Assalto ao Santa Maria foi realizado por Francisco Manso

· Henrique Galvão ficou exilado até morrer, com 75 anos, em 1970

O Estado Novo há 50 anos (1961)


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V – “OPERAÇÃO DULCINEIA”

O “assalto” ao Santa Maria (4)

(continuação)

A 2 de Fevereiro de 1961, o Santa Maria dá entrada e fica ancorado no porto de Recife. Há centenas de jornalistas a cobrir o caso, o que chama a atenção da comunidade internacional para o regime político instalado em Portugal. Paralelamente, quem está também no Recife é Humberto Delgado, que chegara ao paquete na véspera, no barco de pesca alugado por repórteres da Time e da Life. A presença de Delgado e a maneira como ele quer sobressair gera grande desaguisado entre os rebeldes espanhóis, já crispados pela evidente liderança portuguesa da operação.

Dias antes, o francês Dominique Lapierre, jornalista do prestigiado semanário francês Paris Match, está nos EUA quando se sabe do caso na sede da revista. Recebe dez mil dólares (montante então apreciável) e instruções para voar para o Recife, a fim de obter toda a história da “Operação Dulcineia” da boca do próprio Henrique Galvão — e em exclusivo.

 

Ao chegar ao Recife, com o paquete ainda a movimentar-se ao largo da costa, Dominique Lapierre calcula que encontra aí um milhar de enviados especiais em reportagem e fica aflito. “Pela primeira vez vi um jornalista chinês!” — diz ele mais tarde. Acompanhado pelo fotojornalista da Paris Match Gil Delamare, percebe que tem de improvisar: aluga uma avioneta e toma parte entre os poucos que vão com antecedência ao encontro do paquete. Delamare até se lança do pequeno avião para fazer as primeiras fotografias e é recolhido da água pelos norte-americanos. Deste modo, já faz tempo que estão instalados a bordo quando começam a subir ao barco muitos outros repórteres.

Lapierre tem apenas de continuar a ser imaginativo para ganhar a confiança de Henrique Galvão e obter o exclusivo para a revista. Entrara disfarçado de bombeiro e não perde tempo ao avistar Galvão. Estende-lhe a mão e dispara: “Tem aqui dez mil dólares para a sua causa.” É assim que combinam encontrar-se numa cabina previamente destinada ao jornalista, onde este recebe do “pirata” português o relato pormenorizado da operação e a garantia do exclusivo (o que interessa a ambos, afinal). “Foi um exclusivo mundial” — conta Lapierre. “Falou um francês sublime durante toda a noite. Via-se que era um fidalgo.“

 

Salazar mandara agentes da PIDE e membros da Legião Portuguesa para o Recife: não podem actuar, mas podem ser úteis. Durante a noite daquela entrevista, alguns homens da PIDE estão já a bordo e mantêm-se à escuta do lado de fora da porta da cabina até às tantas da madrugada. No final, quando os dois saem para comer qualquer coisa, Lapierre mostra receio pelo perigo de serem surpreendidos pelos agentes, mas Galvão tranquiliza-o com ironia: “A polícia secreta de Salazar tem horários de funcionário público.“

O jornalista há-de recordar essa e outras passagens da conversa que mais o impressionaram, entre as quais a descrição do momento em que Henrique Galvão tinha mudado o nome do paquete. «Os passageiros estavam a tomar o pequeno-almoço quando ele falou aos microfones e disse: “Tenho a honra de vos informar que não estão mais no Santa Maria, mas no ‘Santa Liberdade’.”»

 

Os passageiros começam a mostrar-se nervosos e a tripulação está a ficar tensa. Já é dia 3 e ainda se sucedem as negociações entre os rebeldes e as autoridades norte-americanas (com o vice-almirante Allen Smith à cabeça) e brasileiras. Henrique Galvão está a assegurar que o desembarque e a entrega do navio hão-de correr pelo melhor. Sobretudo, apesar da impaciência de muitos passageiros, está a fazer render o tempo, não só para que o novo governo brasileiro entre plenamente em funções, mas também para deixar que continue a haver despachos noticiosos e reportagens para toda a parte.

Por fim, chega a hora de desembarcar os passageiros e, a seguir, a tripulação. O navio é entregue às autoridades do Brasil, que o devolvem aos representantes de Portugal: um comando e elementos da Legião Portuguesa entram a bordo nessa noite. Por seu lado, Galvão e Delgado sentem-se satisfeitos: acreditam ter provocado os estragos possíveis ao salazarismo e alertado a comunidade internacional para a realidade política que vigora em Lisboa. Pela mão de Lapierre, uma conhecida revista francesa vendida em muitos países está prestes a confirmar isso mesmo.

(continua)

Imagens

· O Santa Maria ancorado no porto de Recife

· O paquete (duas fotos) ao largo da costa de Pernambuco

· ‘Santa Liberdade’: os rebeldes conservam o novo nome até ao fim

· Recife: Galvão em dois momentos das negociações a bordo

(o vice-almirante Allen Smith à esquerda)

· Momentos (duas fotos) do desembarque dos passageiros