Os talibãs e os comboios


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«Os talibãs afegãos acreditam que o governo no Afeganistão, apoiado por Washington, será o próximo a ser derrubado pelo povo, depois da queda do presidente egípcio Hosni Mubarak.» Se isto não for um problema de tradução, os talibãs estão para o Afeganistão como o TGV está para Portugal: às segundas, quartas e sextas avançam; às terças, quintas e sábados recuam. Mas todos sabem que o caso culminará numa terça, numa quinta ou num sábado.

‘Artitectura’: os mal-amados (20)


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Kowloon Walled City, em Hong Kong

A Kowloon Walled City é uma zona urbana delimitada do território de Hong Kong. (Ao contrário do habitual nesta série, este número não trata de apreciar uma construção ou edifício específico, mas sim um sítio, uma área intra-muros que fica em Kowloon, do lado continental da actual Região Administrativa Especial de Hong Kong, mesmo em frente à ilha de Hong Kong propriamente dita e nas proximidades do perímetro oeste do enorme porto de mar.)

Em meados da década de 70, a área começou a transformar-se. Foram surgindo edifícios de base quadrangular, prédios-caixotes encostados uns aos outros que cresceram como formigas em açúcar e sem o mais pequeno rasgo arquitectónico, pois mais não eram do que construções apressadas para abrigar o boom populacional registado na segunda metade do século XX. Além do desprezo arquitectónico, faltava-lhes qualquer padrão mínimo de qualidade e a área ocupada, que se alastrou como lume em gasolina, também nunca obedeceu a qualquer critério de urbanismo.

Foi preciso responder às necessidades galopantes à margem do senso comum, com construtores e empreiteiros deixados à rédea solta na ânsia da especulação, enquanto o preço do centímetro quadrado atingia valores impensáveis e sempre crescentes.

A par do pandemónio que se instalava, as famílias faziam obras de remedeio para se desenrascar e ainda imperava o mau gosto dessa população nova de origem rural e totalmente impreparada para viver num meio citadino que se oferecia simultaneamente atraente para os negócios e limitado pela fronteira próxima entre o território governado pelos britânicos e a China comunista. Quer isto dizer que ganharam rapidamente relevo milhares de modificações sem intervenção de arquitectos ou engenheiros.

A pequena cidade (uma espécie de cidadela, a bem dizer) tornou-se monolítica. Rebentava pelas suas costuras, nas ruelas e caminhos labirínticos (iluminados por lâmpadas fluorescentes, porque só raramente o sol chegava ao chão) cuja existência nem as autoridades reconheciam e muito menos controlavam. Passou a ser não só a morada da imigração ilegal, mas também de toda a ilegalidade: proliferavam bordéis, casinos sombrios, quartos alugados para consumo de ópio, postigos de venda de cocaína, tascos imundos a servir carne de cão e fabriquetas “secretas” dos mais variados artigos e imitações.

No início dos anos 80, estimava-se que a população na Kowloon Walled City rondaria os 35 mil habitantes, mas em 1984 já era de 50 mil, numa área que mal chegava aos 26 mil metros quadrados, o que representava uma das mais elevadas densidades populacionais à face da Terra.

Para os construtores, havia só duas regras a cumprir: o fornecimento de electricidade (para prevenir incêndios num labirinto em que os bombeiros não conseguiam mover-se) e o limite em altura de 14 pisos, por o (antigo) aeroporto estar muito próximo. A água era distribuída a partir das oito condutas existentes (embora pudesse haver mais a partir das encostas ali perto).

Em 1987, a solução já não podia ser outra: demolir a Kowloon Walled City, arrasar toda aquela tenebrosa zona delimitada. Mas da decisão à prática ainda passaram seis anos.

Depois da demolição, de 1993 a 1994, começou a nascer um parque nesse precocemente envelhecido e degradado antro do crime. Em 1995, era inaugurado o Kowloon Walled City Park. Num território cuja extraordinária paisagem urbana é do conhecimento obrigatório dos arquitectos de todo o mundo, bem que o parque fazia falta.

Só que ficaram por lá uns resquícios “para memória futura”, porque ninguém se atreveu a deitar abaixo pequenos templos e coisas assim. Com a agravante de Hong Kong pós-britânicos passar por um novo boom dos que iludem as autoridades para viver a qualquer preço do lado rico da China.

Adivinham-se mais núcleos caóticos ao modo tradicional chinês. E não só no perímetro da Kowloon Walled City mal-amada, que estas coisas (como se viu) aparecem enquanto o diabo esfrega um olho…

Ex-ministra esqueceu o passado


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«O sistema democrático assenta nalgumas regras que nos devemos esforçar por cumprir, designadamente a dos mandatos do Governo» — disse ao DN Maria de Lurdes Rodrigues, presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). «Desde a saída do primeiro-ministro António Guterres que se criou um precedente de acabar com os mandatos legislativos a meio.» Mas «houve eleições há muito pouco tempo, foram claros os resultados eleitorais» e «os mandatos devem ser para cumprir».

Assim de repente, a actual presidente da FLAD parece cheia de razão. Porém, ao afirmar que «o primeiro-ministro é uma pessoa de grande coragem, invulgar coragem e determinação, e isso tem sido um benefício para o país», deixou cair uma nódoa no pano: o país não só não tem ganho qualquer benefício com o ainda primeiro-ministro, como tem sentido que a extensão do seu exercício é um malefício agravado. Se Maria de Lurdes Rodrigues tivesse razão e como José Sócrates não está a cumprir as promessas eleitorais e o programa do Governo, isso significa que as promessas e o programa constituíam um conjunto de disparates. Ou seja: se ele estivesse a cumprir, não poderia estar a beneficiar o país, conforme se conclui daquela declaração.

A razão que Maria de Lurdes Rodrigues perdeu ao expor o seu ponto de vista explica-se, afinal, de modo muito simples: um mandato é (ou devia ser) uma via com dois sentidos, o que implica (ou devia implicar) que o Governo cumprisse o seu programa para merecer cumprir o mandato. Porque o programa é dele, mandatado, mas o mandato é nosso.

Não cumprindo um único ponto relevante do que assumiu fazer, resta ao Governo cair. E resta à ex-ministra da Educação perceber que a democracia assenta em regras, sim, e também que é normal que elas tenham um efeito de vai-vem: aplicam-se para cá e para lá. Para quem tem um passado esquerdista da maior vivacidade, a ex-ministra deixou um bocado a desejar.

O Metro do Mondego…


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… continua em actividade por causa do novo e revolucionário projecto de ligação Coimbra–Lousã, cujos custos estão a ser revistos em baixa. Trata-se do inovador TGV sem carris. Dois modelos estão já em ensaios: linha azul (para pisos escorregadios) e linha amarela (todo-terreno). As duas linhas sem linhas.

“The Egypt’s ousted leader Mubarak may be richer than Bill Gates”


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There are no Mubaraks on the Forbes list of the world’s richest people, but there sure ought to be.

The mounting pressure from 18 days of historic protests finally drove Egyptian President Hosni Mubarak from office, after three decades as his nation’s iron-fisted ruler. But over that time, Mubarak amassed a fortune that should finance a pretty comfortable retirement. The British Guardian newspaper cites Middle Eastern sources placing the wealth of Mubarak and his family at somewhere between $40 billion and $70 billion. That’s a pretty good pension for government work. The world’s richest man – Mexican business magnate Carlos Slim – is worth about $54 billion, by comparison. Bill Gates is close behind, with a net worth of about $53 billion.

Mubarak, of course, was a military man, not a businessman. But running a country with a suspended constitution for 30 years generates certain perks, and Mubarak was in a position to take a slice of virtually every significant business deal in the country, from development projects throughout the Nile basin to transit projects on the Suez Canal, which is a conduit for about 4 percent of the world’s oil shipments. “There was no accountability, no need for transparency,” says Prof. Amaney Jamal of Princeton University. “He was able to reach into the economic sphere and benefit from monopolies, bribery fees, red-tape fees, and nepotism. It was guaranteed profit.” (…)

U.S.NEWS /  / Yahoo Finance

Um jantar à minha espera


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Hoje é Dia dos Amigos. As três próximas quintas-feiras serão o Dia das Amigas, o Dia dos Compadres e o Dia das Comadres. Há jantares especiais e pequenos espectáculos um pouco por todos os lados, nestas quintas-feiras anuais. Uma tradição que os Açores não perdoam.

Mais um processo?


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«Compreendo que haja, num Estado de Direito, esta espécie de parceria entre a Justiça e a comunicação social» — disse Armando Vara na qualidade de arguido no processo “Face Oculta”. «A parte má é que há um linchamento na praça pública, porque uma parte vai deixando sair peças ao longo do tempo de forma a criar na opinião pública um culpado e as defesas não têm os mesmos meios.» E ainda acrescentou: «a mediatização do processo tem sido milimetricamente comandada pela acusação» e é «óbvio» que o acusador, o Ministério Público, está «obcecado pelo primeiro-ministro».

Com esta denúncia sobre o comportamento do MP feita publicamente, Vara candidata-se a mais um processo. Ou não?

MeiA Bola e força


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1. É certo que esta notícia foi escrita n’ A Bola, mas isso não serve de desculpa. «Cynthia Nixon e a namorada festejam o nascimento de um filho» — diz o título. Mentira. Leia-se o que diz o texto completo.

«Cynthia Nixon, a ruiva Miranda de ‘Sexo e a Cidade’, foi mãe pela terceira vez, mas não da forma convencional. Há sete anos a namorar com a professora Christine Marinoni, foi esta quem deu à luz um rapaz.
Cynthia, 44 anos, assumiu há três anos ser lésbica, depois de um casamento com o fotógrafo Danny Mozes e de ter tido com este dois filhos, Samantha, 14 anos e Charles, 8.
Em 2004 assumiu o namoro com Christine, 43 anos. A paternidade da criança que o casal agora acolhe é desconhecida.»

Devem ter reparado que o texto diz que a senhora «foi mãe pela terceira vez», que namora com uma professora e que «foi esta quem deu à luz». Portanto, a professora é que foi mãe.

Esclarecido este caso de maternidade, restaria a Cynthia ficar com a paternidade! Mas parece que nem isso: não se sabe quem é o pai, mas ele existe e não deve chamar-se Cynthia…

 

2. Agora, à margem do disparate da notícia, aproveite-se para lembrar que a nossa língua não é anglo-saxónica. Escrever «Cynthia, 44 anos» pode parecer muito moderno, mas a forma correcta ainda continua a ser “Cynthia, de 44 anos” ou “com 44 anos”. Num texto tão curto, fazê-lo quatro vezes é inventar muito.

Tudo isto tresanda a jornalismo modernaço de meia-bola-e-força, não é?

De TGV até aos Pirinéus


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Esta é a bela estação de caminhos-de-ferro de Lérida-Pirinéus (Catalunha)…

… e este é o TGV que o ainda ministro Mendonça está a estudar para a linha Poceirão–Lérida…

… com ligação a Andorra-a-Velha, onde não há estação de comboios, mas há uma paragem para transportes públicos e várias estações de esqui cheias de portugueses.

Bacoquice lamentável


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Com umas promessas de revisão constitucional e eleições, a vida no Egipto começa a regressar à normalidade: os manifestantes nas ruas vão desmobilizando, as palavras de ordem vão-se calando e os protestos vão-se silenciando, enquanto Mubarak volta a ganhar algum espaço de manobra. Foi isto que me fartei de ouvir a vários opinadores todo o dia na televisão, com a agravante de terem até (concluo eu) influenciado certos blocos noticiosos.

Afinal, todos sabemos já que o dia que está a terminar registou as maiores manifestações destas duas semanas que já leva a revolta egípcia. Pelos vistos, ainda e sempre, continua a haver quem insista em olhar para o ar, para não ver o que é e tentar ver o que quer. Lamentável, esta bacoquice cansativa.