Com umas promessas de revisão constitucional e eleições, a vida no Egipto começa a regressar à normalidade: os manifestantes nas ruas vão desmobilizando, as palavras de ordem vão-se calando e os protestos vão-se silenciando, enquanto Mubarak volta a ganhar algum espaço de manobra. Foi isto que me fartei de ouvir a vários opinadores todo o dia na televisão, com a agravante de terem até (concluo eu) influenciado certos blocos noticiosos.
Afinal, todos sabemos já que o dia que está a terminar registou as maiores manifestações destas duas semanas que já leva a revolta egípcia. Pelos vistos, ainda e sempre, continua a haver quem insista em olhar para o ar, para não ver o que é e tentar ver o que quer. Lamentável, esta bacoquice cansativa.

Verdadeiramente espantoso é verificar como despontam do chão, como cogumelos, os «especialistas» em política do Médio Oriente em geral e do Egipto em particular. A dizerem os maiores disparates. Desde os que vêem peremptoriamente ‘guardas da revolução’ a espreitar a todas as esquinas egípcias, confundindo Teerão de 1979 com o Cairo de 2011, até aos que se vão plagiando uns aos outros, de ‘debate’ em ‘debate’, por não saberem o que hão-de dizer. Por exemplo: houve um que disse isto: «El-Baradai é mais conhecido no estrangeiro do que no Egipto». Logo três ou quatro papaguearam o mesmo disparate nos dias imediatos.
Enfim, percebem tanto disto como eu de lagares de azeite…
É o contra-senso dos círculos fechados do costume: dão-lhes visibilidade e ainda lhes pagam por cima.
João,
A partir do momento em que Obama tirou o tapete a Mubarak, a única questão que se levanta é saber o dia exacto em que abandona o poder.
Pedro, V. ainda vai provocar algum ataque de coração a certos opinadores da desgraça.
Estou para ver no que isto tudo vai dar. Sim, as manifestações continuam fortes. Sim, Obama parece ter tirado o tapete a Mubarak. Sim, o exército parece não ter decidido reprimir as manifestações. Sim, os comentadores encartados são essencialmente idiotas.
Só que há coisas a analisar. Shimon Peres veio defender o regime egípcio (especificamente Mubarak, mas essencialmente o status quo com Israel). Suleiman parece ter cada vez mais protagonismo. O exército, apesar de não terem tomado qualquer acção contra os manifestantes, ainda não tomaram qualquer outro partido e sabe-se que nestes regimes o exército é sempre o king maker. Há muito medo (real ou não é outra conversa) da Irmandade Muçulmana. Os media internacionais começam a refrear (mesmo nas simples reportagens) o entusiasmo dos dias anteriores. E os manifestantes, a certa altura, terão de abrandar os protestos devido aos simples limites das suas forças.
Isto faz-me pensar que haverá uma mudança de líder mas não necessariamente uma mudança de regime. As mudanças serão potencialmente semelhantes à primavera marcelista. Talvez eu esteja errado. Talvez eu esteja certo e a seguir à primavera venha o verão. Espero bem que sim. Seja como for, já estive mais entuisiasmado.
O retrato é adequado e a sua conclusão faz sentido. O meu ponto é que não falta por aí muito gente a fingir-se entendida e a deturpar propositadamente o retrato.
Há sempre o exemplo do Irão de 2009, em que grandes manifestações deram em nada. Mas aó o regime é mais repressivo e acossado.
Pois é. Mas também por isso não é preciso inventar.
Como se o que se diz em Portugal sobre o assunto influenciasse minimamente o que se vai passar no Egipto! Neste caso, a borboleta da Amazónia não se aplica, é mais para encher chouriços nos debates e noticiários.
Chouriços do piorio. Sempre com o mesmo sabor.