O retrato do país que temos


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O Estado a Que o Estado Chegou – O Verdadeiro Retrato de Portugal (Grande Investigação DN) é uma obra de vários autores editada pela Gradiva que vai ser lançada na quinta-feira em Lisboa (no El Corte Inglés, às 18 horas e 30), apresentada pelo presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d’ Oliveira Martins.

O livro reúne um vasto trabalho de investigação efectuado e publicado pelo Diário de Notícias em Janeiro passado e pretende dar conta da derrapagem financeira verificada em Portugal na última década. Os autores quiseram pôr a nu, com profundidade e minúcia, o verdadeiro peso do Estado na nossa economia, com números que nem o próprio Estado possui ou é capaz de fornecer.

Esta edição colectiva é, em suma, serviço público: interessa não apenas a líderes políticos, económicos e sociais, mas também aos cidadãos em geral, porquanto serve para que todos possamos reflectir sobre uma cidadania mais séria. E é dada à estampa precisamente quando mais se ouve falar em rigor, excelência, cumprimento, ética, etc., neste tempo em que tamanha insistência talvez menos corresponda à realidade.

Mário Crespo é um pândego


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A SIC invoca razões de «ponderação» para que o programa semanal de Mário Crespo Plano Inclinado (SIC-N, com Medina Carreira) tenha sido suspenso (?), decisão que é obviamente do foro interno da estação e que apenas num ponto achei intrigante. É que Crespo acrescenta que «não é a primeira vez»: «Também interrompemos no Natal.»

Creio que é uma tradição. No Natal e no pré-Carnaval. Só o bom do Mário para me tirar do sério. Daqui lhe envio os meus votos de boas-festas, extensivos aos restantes intervenientes no programa.

Há-de acabar


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A UE e os EUA parece que usam libré e luvas brancas de serviçais com medo de chamar os bois pelos nomes. Já há um banho de sangue e a artilharia pesada nas ruas prepara o massacre anunciado. Espera-se que o exército perceba quanto antes que também é povo. Porque…

… mais-gravata-menos-gorro, mais-petróleo-menos-tenda…

… é tal-pai-tal-filho sempre de dedo pronto a disparar…

… mas isso há-de acabar por mudar.

Ao cuidado dos clientes da banca


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Estamos em crise agudíssima, cresce a pobreza, a banca estrangula o crédito. Pois é: faz parte. Também é verdade que os bancos não são contribuintes como os outros, mas é (quase) surpreendente que tenham apresentado um aumento invejável de lucros. De tal modo que, depois do contrato publicitário do BES com o Ronaldo, agora é o BCP que está em campanha promocional com o Mourinho. São, talvez, os maiores investimentos de sempre feitos em comunicação no mercado nacional.

Deixem-me ver se adivinho a quem é que a banca debita a despesa…

Sabia que… (66)


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… o novo Mercedes-Benz Maybach 62S é a nova coqueluche dos meios em que os ricos pagam a crise e ainda lhes sobra muito? Nem mais: nos EUA custa perto de meio milhão de dólares e em Hong Kong atinge o dobro (oito milhões de dólares de Hong Kong, em que metade é o imposto de luxo). Isto são valores do carro sem qualquer um dos diversos extras opcionais. Só em Hong Kong, o concessionário da marca vendeu em oito meses as 60 primeiras unidades disponíveis e tem uma lista de espera para mais oito meses de entregas.

O 62S (62 pelos 6,2 metros de comprimento e S de special) foi lançado para disputar o mercado de topo com o Rolls-Royce Phantom e com os Bentley Arnage e Flying Spur, mas os seus doze cilindros (V12 de 5,5 litros) e jantes de 20 polegadas permitem-lhe chegar dos 0 aos 100km/h em 5 segundos (menos um segundo do que a maioria dos carros desportivos luxuosos, o que é obra para uma limousine) e atingir a velocidade máxima de 250km/h. Entre as 18 cores possíveis, o grande sucesso é o new Bahamas blue (um azul-céu escuro).

Por dentro, a coisa oscila entre o salão de estar e o quarto de dormir: couro de primeira, mesas e mini-bar escamoteáveis, lugares traseiros idênticos às cadeiras de primeira classe dos aviões comerciais com 84,5 centímetros de espaço para as pernas, assento traseiro reclinável até ficar quase horizontal e apoio suplementar para as pernas, mesa-de-cabeceira, perfumador de ambiente à escolha no ar-condicionado, sofisticados sistemas de navegação, duas TV LCD com controlo remoto, equipamento de som de 21 saídas com a qualidade de uma sala de concertos, tecto opaco ou transparente à escolha do momento e tudo o mais que se queira.

Em Portugal, por ser um costume que se reforça em tempos de crise, o Governo não deve tardar a encomendar este novo Mercedes topo-de-gama. O Governo e a Águas de Portugal, é claro. Até para servir de exemplo à opção por carros eléctricos: o Maybach não sai do sítio sem ter uma bateria. Portanto, deve ser eléctrico.

O atestado e a pouca-vergonha


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Depois de ler isto que a nossa Ana Vidal trouxe ao DO, não resisto: o suposto doente foi observado e a doença confirmada, o atestado médico foi passado na hora com toda a consciência e profissionalismo? O suposto doente saiu e foi tomar a medicação ou foi tomar um avião? E foi viajar ou foi pescar robalos?

Exijo saber os detalhes, porque ando há longos anos a ouvir falar da pouca-vergonha que são certos atestados médicos. Quanto à pouca-vergonha do protagonista, essa trata-se de outra maneira e com outra receita, que não na farmácia.

O não-comentador


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José Sócrates respondeu hoje a Soares dos Santos, presidente do Grupo Jerónimo Martins, na sequência de este ter acusado o Governo de mentir sobre a situação do país: “Nem merece comentário” — comentou o primeiro-ministro — “e só prova que não basta ser rico para ser bem-educado.“

Soares dos Santos tinha dito ontem que “não vale a pena continuarmos a mentir“, que “não vale a pena pedir sacrifícios às pessoas sem lhes dizer a verdade“, porque “as pessoas têm de saber para que estão a fazer os sacrifícios“.

Curiosamente, disse também que “truques é para o Sócrates“, pois “ele é que gosta de truques“, no dia em que se soube que não-sei-quantos imóveis do Estado libertados pelo Governo e supostamente vendidos a privados foram, afinal, “comprados” por uma, mais uma, empresa pública, a Estamo-Participações Imobiliárias (que agora tenta vender esse património) — uma manha que baixa o défice e esconde as contas públicas, mas mantém a realidade na mesma para sermos os mesmos a pagar. Se isto não é um truque…

Curiosamente, Soares dos Santos responde ainda ao i que “seria uma bênção que o FMI entrasse em Portugal“, no dia em em que se soube pelo JN que o “TGV entre Caia e Poceirão fica 25% mais caro que na versão anterior“. Se não é uma mentira ter suspensa (?) uma obra que, afinal, avança à velocidade de milhões de euros…

O primeiro-ministro, assim apanhado em mais um périplo folclórico de primeiras-pedras e inaugurações, fez de conta que não sabe que há quem não tenha precisado de prometer empregos para empregar e conseguir crescer, mesmo perante um Governo que prometeu empregos para só empregar boys que todos pagamos e continuarmos a descer. Por isso é que Sócrates comentou que não comentava.

Fez também de conta que não sabe que a opinião sobre ele está longe de ser coisa de ricos. “Nem merece comentário e só prova que não basta ser rico para ser bem-educado” é mais do que um comentário: é uma não-verdade e um não-não-truque de retórica.

O peixe graúdo e o cadáver


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Na fase actual do processo “Face Oculta”, não passa um dia sem que os advogados dos arguidos venham a público dizer que o caso está politizado, que o juiz não terá coragem para fazer o que eles acham evidente, que o nome do primeiro-ministro condiciona a avaliação acusatória, etc., etc., etc., contribuindo eles mesmos para aquilo de que se queixam: a mediatização do processo e o envolvimento político que a ele se colou.

Temos de evitar deixar-nos enredar por essas sucessivas declarações, que pouco ou nada esclarecem e só confundem. Todo o cuidado é pouco, se queremos traduzir bem o que eles dizem. Por exemplo: ainda hoje, o defensor de um dos arguidos se queixou da avaliação das provas apresentadas só por o seu cliente ser “peixe graúdo” no processo, mas que o próprio processo “é um cadáver”. O que quer isto dizer? Simples: que o robalo é bom, mas não é fresco.

Mais encanto


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Enquanto o metro do Mondego não-ata-nem-desata, o DELITO soube que vai ser alargada a linha do Portugal dos Pequenitos. Não é bem o que Coimbra precisa, mas não há dúvida que tem mais encanto. Talvez até justifique mais alguns administradores.

Pode ser que sim — ou que não


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Segundo o Diário Económico online, «os serviços de atendimento da Segurança Social em Lisboa podem estar hoje fechados durante todo o dia». A confirmar-se, não valia a pena esta greve: não está longe o tempo em que os serviços da Segurança Social ficarão fechados de vez.

O Diário Económico online é que parece estar em greve: passa do meio-dia e o melhor que tem para informar é que a Segurança Social pode estar hoje em greve. Também pode não estar…

Governos minoritários?


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«Freitas do Amaral disse acreditar na possibilidade de o actual Governo cair através da aprovação de uma moção de censura no Parlamento, considerando que esse é o “destino dos governos minoritários“.» Ora, isso não é destino — é fado. Destino é coisa dos outros, dos estrangeiros, que têm governos que vencem eleições e cumprem quase sempre mandatos completos. O fado é nosso, muito nosso, que mais ninguém tem. E o nosso fado começa logo nesta singularidade de termos governos maioritários aparentemente iguaisinhos aos de lá de fora, mas aos quais passámos agora a chamar invariavelmente “governos minoritários” só por não terem obtido a excepcional maioria absoluta.

Lembram-se dos poucos governos de maioria absoluta que já tivemos? Em pouco tempo, estamos todos a lamentar os tiques de absolutismo que lhes encontramos, não é? Pois. Também é fado, mas na variante fado-canção, ou fado-corrido, ou outra qualquer. Não querem mais fado nenhum? Simples: basta congregar os partidos em dois blocos, ao jeito britânico e norte-americano, por exemplo. Ou estabelecer as eleições legislativas à maneira das eleições presidenciais. Ou ainda proibir as guitarras e violas, para mandarmos o fado às urtigas e começarmos a ter um destino civilizado, um destino como os outros.

Os políticos não-não


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O inenarrável secretário de Estado Valter Lemos disse ainda há pouco tempo uma não-verdade ao garantir que o desemprego tinha estabilizado. Acabámos de saber que o emprego registou um não-crescimento e uma não-estabilidade. A ministra do Trabalho já garantiu que vai não-baixar os braços e Valter Lemos enrugou ainda mais do que o costume a testa baixa para explicar que é impossível encarar uma não-continuação das medidas muito intensivas em curso — que têm demonstrado uma não-eficácia.

Quer isto dizer que, se os números recentes fossem exactamente ao contrário e que, portanto, tivesse havido uma pequena recuperação do não-desemprego, seria possível um não-levantamento dos braços e mandar as tais medidas para um certo não-sítio?

Por estas e por outras é que temos entre nós uma geração de jovens nem-nem. Jovens que tiveram o azar de esbarrar com uma geração de políticos não-não, que nunca chamam pelos nomes os nomes que as coisas têm. Como nós também esbarrámos, essa é que é a não-inverdade.

Sabia que… (65)


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… há uns meses, foram encontrados no deserto do Utah (EUA) alguns fósseis, entre os quais ossadas dos dinossauros com as cabeças mais bem ornamentadas de todos? Pois é verdade. Segundo os cientistas de Salt Lake City que os acharam, um deles era uma besta aí de quatro toneladas e com uns 6,7 metros de comprimento.

Os mesmos cientistas disseram que os fósseis foram encontrados no sul daquele deserto e que dois desses dinossauros pertencem a uma espécie muito próxima dos Tricerátopos. Um destes (o maior) percebe-se que tinha uma grande cabeça e que esta era de tal modo ornamentada que ostentava 15 chifres: um Kosmoceratops richardsoni, considerado o dinossauro com a cabeça mais ornamentada até agora conhecida. Sobre o outro bicho, cuja cabeça era enfeitada com a módica quantidade de cinco cornos, ainda falta esclarecer se é um Utahceratops gettyi (ou talvez outro qualquer que tenha sido valentemente encornado em vida?).

O certo é que a descoberta, como se conclui, foi uma autêntica exposição de cornudos. Um paleontologista do Museu de História Natural do Utah sublinhou que «não é todos os dias que se descobrem dois dinossauros “tamanho rino” tão diferentes de outros dinossauros encontrados na América do Norte». Ainda por cima — diga-se de passagem — tão invulgarmente chifrudos que só um corpanzil à rinoceronte é que podia aguentar tamanha cornadura.

Cá por Portugal, o achado deste tipo mais recente data de há ano e meio, mas não despertou a comunidade científica. Foi na Assembleia da República, não passou de um modesto par de cornos tradicional e acabou com a imediata exoneração de um ministro.

Planos


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Contaram-me que o ainda ministro Mendonça não perde tempo: enquanto o TGV está suspenso, tem outros planos ferroviários. São vários planos, pelos vistos. Planos em socalcos. Planos inspirados nas vinhas do Douro, a bem dizer.