A RTP apurada como nunca


jmmcc,

A televisão pública está apurada como nunca.

 

Num noticiário de hoje sobre os medicamentos que o Governo anunciara que iam baixar de preço e que já não vão baixar de preço, o jornalista da RTP concluía que «o Estado vai poupar» não-sei-quanto ao dar-o-dito-por-não-dito. “O Estado vai poupar” é terminologia oficial e o jornalista, entregue ao menor esforço, embarcava na coisa fácil. O Estado vai poupar? O Estado somos nós, que não poupamos e ainda gastamos cada vez mais para o governo nos enterrar bem fundo e ainda pagamos esta espécie de jornalismo.

 

Poucas notícias adiante, a RTP surgia com a situação que se vive no Bahrain e o jornalista terminava a dizer que o nosso governo «ainda não recomenda que os portugueses se desloquem» àquele país. Falta óbvia de rigor: não se espera que o governo nos recomende deslocações a Espanha ou à Cochinchina; o que o jornalista queria dizer e não soube é que o governo ainda desaconselha (e não que “ainda não aconselha”). A falta de rigor foi grave? Não, mas foi uma amostra gratuita das permanentes faltas de rigor, umas mais importantes do que outras, num serviço público em que a hierarquia não se avalia pelas responsabilidades atribuídas, mas sim pelos salários auferidos.

 

Mais tarde, na RTP-N, ia começar a cerimónia de abertura do ano judicial no Supremo Tribunal de Justiça, que é costume iniciar-se com uma actuação musical (coral ou instrumental). Informava o repórter em directo do local que íamos assistir a «uns cânticos de entrada» e logo uma composição da banda da GNR desatou a tocar o Hino Nacional e outros “cânticos” para corneta e filarmónica…

 

A televisão pública está apurada como nunca.

O Estado Novo há 50 anos (1961)


jmmcc,

 

VIII — ANGOLA É NOSSA!

«Andar rapidamente e em força»

 

A 15 de Março de 1961, poucas semanas depois de ter estalado “oficialmente” a guerra em Angola, Lisboa assistia ao embarque no Niassa das primeiras tropas (quatro companhias de Caçadores) para reforçar a modesta guarnição angolana. Nesse dia, a União das Populações de Angola (UPA), de Holden Roberto, com apoio congolês, atacava brutalmente e de surpresa a região de Dembos, no distrito de Cuanza-Norte.

Era manhã. A estrada Luanda–Carmona, alargada e arranjada através de um investimento apreciável, continuava a ser em terra batida e ainda estava alagada e quase intransitável pelas chuvas fortes da época, à espera da estação do cacimbo que voltaria a secá-la e a alisá-la. O estado dessa longa “via do ouro” (pela qual transitavam muitas riquezas a caminho do porto de Luanda), encharcada e ladeada por matas espessas e cafezais extensos, não assustava os rebeldes negros: cedo, pelas 7 horas, já se movimentavam em direcção a Quitexe, onde não havia razão para que a sua presença nesse dia pudesse ser estranha. Uma hora antes, porém, começara a circular a notícia de que uma centena de homens tinham abandonado uma fazenda próxima e o chefe do posto administrativo decidira percorrer algumas roças da região para verificar se estava tudo normal.

 

As primeiras vítimas foram encontradas nessa ronda, em poucas horas: proprietários e famílias inteiras, bem como empregados e criados, jaziam em poças de sangue, mortos à catanada. Os grupos rebeldes perseguiam os que procuravam fugir, armar-se ou pedir socorro. Muitos empregados, previamente recrutados em segredo pelos revoltosos, foram os próprios carrascos dos patrões; os que não pertenciam aos rebeldes, tombavam também com os brancos. Propriedade atrás de propriedade, homens, mulheres e crianças, brancos e negros, foram procurados, apanhados, violados e degolados ou retalhados.

A Quitexe seguiu-se Nambuangongo, que ficava mais isolada e que, por isso, a UPA reivindicou como seu quartel-general. A chacina prolongou-se por outras povoações da região e passou de Dembos a Uíge e à zona fronteiriça com o Congo ex-belga. Pelo caminho, eram destruídas pontes e assassinados os chefes de posto e as mulheres e filhos. A falta de forças policiais, de pistas de aviação e de unidades militares impediu praticamente qualquer reacção à escala.

 

Há quem afirme que agentes da CIA apoiaram discretamente Holden Roberto, com os EUA a alimentar sonhos de petróleo angolano. Há igualmente quem afirme que a acção envolveu uns 200 mil rebeldes, para os quais o alvo era uma comunidade com cerca de 50 mil brancos. A verdade é que a rebelião irrompera do Congo, em grande parte, e a surpresa da operação, preparada fora de portas com a ajuda do exército congolês, permitira que as vítimas fossem facilmente cercadas.

O massacre espalhou o terror por todo o Norte de Angola, em poucos dias transformado num mar de sangue. O resultado da chacina impiedosa e de invulgar violência nem sequer serviu os interesses a prazo de Holden Roberto ou foi útil para a UPA. Contudo, o saldo de milhares de pessoas barbaramente mortas e mutiladas não se adivinha no comunicado oficial de 17 de Março que foi publicado pela imprensa angolana: «Verificaram-se na zona fronteiriça do Norte de Angola alguns incidentes a que deve atribuir-se gravidade por demonstrarem a veracidade de um plano destinado a promover actos de terrorismo que assegurem, a países bem conhecidos, um pretexto para continuarem a atacar Portugal perante a opinião pública internacional (…) Chegaram a Luanda alguns feridos que foram carinhosamente recebidos, e toda a população de Angola demonstra a mais clara determinação em colaborar com as autoridades (…)»

 

A comunidade internacional criticava Portugal e o salazarismo fingia ignorar o que todos sabiam há muito que ia passar-se. Assim, o Estado Novo reagia sempre tarde e mal. Mesmo quando Salazar se dirigiu ao País e tirou partido da indignação popular para promover a situação intocável de Angola através da sua defesa militar, dizer que «andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão» não evitou milhares de mortes nem pôs a salvo muitas famílias que tombaram cruelmente sem direito a qualquer protecção.

Já a 20 de Fevereiro a Libéria pedira uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para apreciação do caso angolano. Nesse mesmo dia 15 de Março, a reunião urgente terminava com uma moção a condenar a situação em Angola e a política portuguesa que a conduzia, moção essa que foi pela primeira vez votada simultaneamente pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Mas a guerra vai ser longa e revigora o salazarismo, que entende fazer peito não apenas aos EUA e URSS, como também às Nações Unidas. No isolamento de Portugal que se acentua, a marcha Angola É Nossa! há-de tornar-se uma espécie de hino angolano em tempo de guerra, só que cantado apenas do lado colonial.

 

Imagens

· Angola, 1961: elementos da Juventude da UPA

treinam com armas

· Vítimas do massacre de 15 de Março

· Manchete d’ O Século (Março de 1961)

O directo na SIC


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A cerimónia de tomada de posse do Presidente da República está por momentos. Na SIC-N, os repórteres em directo esfalfam-se a “encher pneus” e a asneirar. Sempre que está perto de Jaime Gama, Adelina Sá Carvalho, secretária-geral da Assembleia da República há vários anos, é repetidamente apontada como «mulher do presidente da Assembleia da República» e «esposa (esposa!) do presidente da Assembleia da República». A SIC já teve melhores jornalistas a cobrir cerimónias importantes. E melhores auriculares também. Ou gente mais atenta do outro lado dos auriculares.

O desacordo da burrice


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Leio aqui no Expresso qualquer coisa que envolve «o contato direto com especialistas». Alguém sabe dizer-me por que raio de razão caiu o c de “contacto”? Na mesma notícia, logo abaixo, são referidas «várias actividades». Acham que o c de “contacto” foi parar às “atividades”?

É apenas mais um caso menor do desacordo ortográfico. Certo jornalismo corre cheio de pressa atrás da moda, quando nem chegou a saber escrever direito antes do desacordo. Resultado: burrice estampada.

Está lá? Muammar? Sou eu, o Hugo!


jmmcc,

O olhar arguto não engana: Hugo Chávez apresentou ontem uma proposta de mediação de paz para a Líbia e continua em contacto telefónico com Muammar Kadhafi, no mesmo dia em que este usou a sua aviação militar contra os revoltosos na cidade de Brega.

Enquanto Kadhafi demonstra pela força o apreço que tem pelo “seu” povo, talvez fosse melhor Chávez não gastar os parcos neurónios em falinhas mansas com o tirano líbio e ir assistir ao desenrolar dos acontecimentos in loco para ver se apanha a ideia. Que tal mandá-lo abaixo de Brega?

Esta Justiça que nos consome (1)


jmmcc,

Estou absolutamente convencido de que a corrupção e toda a sorte (que termo mais apropriado, hem?) de crimes que lhe está associada constitui, na sua esmagadora maioria, aquilo que mais escapa das malhas da Justiça ou culmina sem consequências. Por outras palavras: corrupção, fuga ao fisco, branqueamento de capitais, etc. são os crimes que mais compensam.

A constante impunidade que resulta dos processos conhecidos e investigados mais os casos que apenas fazem parte de estatísticas presumidas confirma que há uma Justiça que nos consome e corrói. Porém, são precisamente esses os que mais prejudicam o Estado. E, prejudicando o Estado, prejudicam sobremaneira os cidadãos, condenados dia após dia, em processos sumaríssimos decididos unilateralmente pelo(s) Governo(s) e sem direito a defesa, a pagar o que não devem de facto.

Justiça mais injusta não há.

Esta Justiça que nos consome (2)


jmmcc,

1. Se não houver uma reflexão séria e alteração legislativa consequente sobre escutas telefónicas utilizadas na investigação de crimes, havemos de continuar a assistir incrédulos a processos judiciais importantes que vão parar ao arquivo sem o desfecho que seria suposto. Em tantos casos, do futebol à corrupção, escutas que poderiam ser as provas determinantes vêem-se retiradas dos processos por se considerarem ilegais, visto haver um (simples) desfazamento entre as gravações e a sua autorização judicial.

Foi o que ainda hoje se noticiou sobre o envolvimento de Horta e Costa no caso dos CTT: avança um incidente processual para requerer a retirada de escutas que podem sustentar o suposto papel suspeitoso de arguidos.

 

2. Coincidentemente, isto acontece no mesmo dia em que fico a saber que um jovem foi condenado a uma pequena pena por se ter declarado à namorada através de um graffiti que pintou numa parede da sua escola, que está coberta de pinturas de toda a ordem em tudo quanto é parede. Só não acho o caso uma caricatura da Justiça porque um jovem está preso em consequência de uma acção irreverente (mas menor e até com alguma poesia) própria da idade.

Se não houver uma reflexão séria sobre esta Justiça que nos consome, nada disto acabará bem, podem crer.

Orgulhosamente só


jmmcc,

Depois do encontro com a chanceler alemã, José Sócrates «salientou hoje o resultado “histórico” das contas públicas [portuguesas] em Janeiro e Fevereiro e garantiu que Portugal “tem condições para resolver os seus problemas sozinho“.»

É o que eu mais temia: a internacionalização da mentira. Não sei o que possa ter de histórico o excepcional resultado das contas destes dois mesitos, mas sei que Fevereiro acabou há dois dias incompletos e as contas ainda não estão fechadas.

Atão porquê?


jmmcc,

«Teixeira dos Santos assegurou hoje que, se necessário, serão implementadas medidas de austeridade adicionais para baixar o défice.»

Lembrei-me daquela gasta anedota da alentejana que começara a usar “baton” e a quem o marido perguntava porque é que ela andava a pintar os beços.

— P’ra ficar mais bonita — respondia ela.

— Atão porque é que nã ficas? — insistia ele.

Quanto mais se baixar o défice, melhor. Quanto mais se baixar o défice sem recurso a receitas e sim a menos despesa (mais austeridade), melhor. Há mais medidas adicionais que podem ser implementadas (palavra odiosa)?

Atão porque é que nã se implementam?

Censura a certo jornalismo


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1. «O líder do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, afirmou hoje que a moção de censura ao Governo é uma forma de corrigir as injustiças sociais e de trazer estabilidade e desenvolvimento ao País.» Perceberam? Eu também não.

 

2. Se Louçã tivesse uma pontinha de razão e conseguisse explicar muito bem explicadinho como é que censurar o Governo corrige as injustiças sociais e traz estabilidade e desenvolvimento ao País, era caso para cada grupo parlamentar, cada partido, cada cidadão cuidar de promover censuras permanentes ao Governo. Eu próprio, modestamente, podia ser laureado com um Óscar qualquer pelas censuras ao Governo que vou lançando e que, pelas minhas contas, já deviam ter-nos livrado da crise. Digam-me lá se tenho ou não tenho contribuído para corrigir as injustiças sociais e trazer estabilidade e desenvolvimento ao País.

 

3. A notícia em apreço e outras de igual teor pecam pelo mesmo motivo que pecam tantas outras notícias hoje em dia. Pecam de tal modo que já ninguém liga a isso. No caso, pecam porque Louçã lança a atoarda, diz o que lhe apetece, larga uma frase inconsequente e intraduzível, mas nenhum jornalista lhe pergunta o que seguramente não conseguiu entender. Não só nenhum jornalista entendeu e não pediu explicação, como ainda fez notícia do disparate. Só que não o publica como disparate, mas como notícia (que não é). Está na altura de pensar numa moção de censura a esta espécie de jornalismo que anda a minar o jornalismo propriamente dito.

Entre Muammar e Ana Gomes


jmmcc,

Além de criticar o Governo português pelo apoio ao regime de Kadhafi e pelo incentivo aos negócios com a Líbia, a eurodeputada socialista Ana Gomes criticou também o ministro dos Negócios Estrangeiros por ter manifestado o receio de que a queda do líder líbio possa dar lugar ao fundamentalismo islâmico. Às tantas, não tem razão a frontal eurodeputada e tem razão Luís Amado: nada de corrermos riscos fundamentalistas, quando podemos ter como amigo um facínora moderado…

Convenhamos que é um risco menor considerar que Sócrates e Amado, de há uns anitos para cá, têm mostrado maior compreensão pelo velho Muammar do que por Ana Gomes.