VIII — ANGOLA É NOSSA!
«Andar rapidamente e em força»
A 15 de Março de 1961, poucas semanas depois de ter estalado “oficialmente” a guerra em Angola, Lisboa assistia ao embarque no Niassa das primeiras tropas (quatro companhias de Caçadores) para reforçar a modesta guarnição angolana. Nesse dia, a União das Populações de Angola (UPA), de Holden Roberto, com apoio congolês, atacava brutalmente e de surpresa a região de Dembos, no distrito de Cuanza-Norte.
Era manhã. A estrada Luanda–Carmona, alargada e arranjada através de um investimento apreciável, continuava a ser em terra batida e ainda estava alagada e quase intransitável pelas chuvas fortes da época, à espera da estação do cacimbo que voltaria a secá-la e a alisá-la. O estado dessa longa “via do ouro” (pela qual transitavam muitas riquezas a caminho do porto de Luanda), encharcada e ladeada por matas espessas e cafezais extensos, não assustava os rebeldes negros: cedo, pelas 7 horas, já se movimentavam em direcção a Quitexe, onde não havia razão para que a sua presença nesse dia pudesse ser estranha. Uma hora antes, porém, começara a circular a notícia de que uma centena de homens tinham abandonado uma fazenda próxima e o chefe do posto administrativo decidira percorrer algumas roças da região para verificar se estava tudo normal.
As primeiras vítimas foram encontradas nessa ronda, em poucas horas: proprietários e famílias inteiras, bem como empregados e criados, jaziam em poças de sangue, mortos à catanada. Os grupos rebeldes perseguiam os que procuravam fugir, armar-se ou pedir socorro. Muitos empregados, previamente recrutados em segredo pelos revoltosos, foram os próprios carrascos dos patrões; os que não pertenciam aos rebeldes, tombavam também com os brancos. Propriedade atrás de propriedade, homens, mulheres e crianças, brancos e negros, foram procurados, apanhados, violados e degolados ou retalhados.
A Quitexe seguiu-se Nambuangongo, que ficava mais isolada e que, por isso, a UPA reivindicou como seu quartel-general. A chacina prolongou-se por outras povoações da região e passou de Dembos a Uíge e à zona fronteiriça com o Congo ex-belga. Pelo caminho, eram destruídas pontes e assassinados os chefes de posto e as mulheres e filhos. A falta de forças policiais, de pistas de aviação e de unidades militares impediu praticamente qualquer reacção à escala.
Há quem afirme que agentes da CIA apoiaram discretamente Holden Roberto, com os EUA a alimentar sonhos de petróleo angolano. Há igualmente quem afirme que a acção envolveu uns 200 mil rebeldes, para os quais o alvo era uma comunidade com cerca de 50 mil brancos. A verdade é que a rebelião irrompera do Congo, em grande parte, e a surpresa da operação, preparada fora de portas com a ajuda do exército congolês, permitira que as vítimas fossem facilmente cercadas.
O massacre espalhou o terror por todo o Norte de Angola, em poucos dias transformado num mar de sangue. O resultado da chacina impiedosa e de invulgar violência nem sequer serviu os interesses a prazo de Holden Roberto ou foi útil para a UPA. Contudo, o saldo de milhares de pessoas barbaramente mortas e mutiladas não se adivinha no comunicado oficial de 17 de Março que foi publicado pela imprensa angolana: «Verificaram-se na zona fronteiriça do Norte de Angola alguns incidentes a que deve atribuir-se gravidade por demonstrarem a veracidade de um plano destinado a promover actos de terrorismo que assegurem, a países bem conhecidos, um pretexto para continuarem a atacar Portugal perante a opinião pública internacional (…) Chegaram a Luanda alguns feridos que foram carinhosamente recebidos, e toda a população de Angola demonstra a mais clara determinação em colaborar com as autoridades (…)»
A comunidade internacional criticava Portugal e o salazarismo fingia ignorar o que todos sabiam há muito que ia passar-se. Assim, o Estado Novo reagia sempre tarde e mal. Mesmo quando Salazar se dirigiu ao País e tirou partido da indignação popular para promover a situação intocável de Angola através da sua defesa militar, dizer que «andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão» não evitou milhares de mortes nem pôs a salvo muitas famílias que tombaram cruelmente sem direito a qualquer protecção.
Já a 20 de Fevereiro a Libéria pedira uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para apreciação do caso angolano. Nesse mesmo dia 15 de Março, a reunião urgente terminava com uma moção a condenar a situação em Angola e a política portuguesa que a conduzia, moção essa que foi pela primeira vez votada simultaneamente pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Mas a guerra vai ser longa e revigora o salazarismo, que entende fazer peito não apenas aos EUA e URSS, como também às Nações Unidas. No isolamento de Portugal que se acentua, a marcha Angola É Nossa! há-de tornar-se uma espécie de hino angolano em tempo de guerra, só que cantado apenas do lado colonial.
Imagens
· Angola, 1961: elementos da Juventude da UPA
treinam com armas
· Vítimas do massacre de 15 de Março
· Manchete d’ O Século (Março de 1961)




Excelente, como sempre.
[Estou a repetir-me, mas é só mesmo para saber que estive aqui :-)]
Repita-se sempre. Além da bondade, é um afago. Obrigado, Nicolina.
Muito bem, compadre. Continuas a fazer uma excelente crónica daquele ano tão fértil em acontecimentos – e também em tragédias, como este massacre de 15 de Março, que ainda hoje choca e comove qualquer pessoa bem formada, seja qual for a sua ideologia.
Obrigado, compadre. E tens toda a razão no que dizes.
João, em Moçambique lembro-me de ter visto às escondidas, não sei se era nalguma revista, não tenho presente era muito miúda, as fotos da matança, que estavam escondidas no guarda-fatos dos meus pais.
Uma coisa horrível, sem dúvida, essas imagens do terror, Ariel.