Há 50 anos


Luís Menezes Leitão,

 

Faz hoje precisamente 50 anos sobre a operação Vijay, através da qual a União Indiana procedeu à tomada de Goa. Historicamente foi o início da queda do orgulhoso Império Português, que o regime de Salazar acreditava ser eterno. Goa não tinha à altura qualquer importância económica ou estratégica para Portugal, possuindo apenas um valor simbólico e cultural. Era por outro lado um território militarmente indefensável, pelo que só por obstinação o país poderia pretender conservá-lo após a declaração de independência da Índia.

 

A estratégia de Salazar em defender obstinadamente Goa representou por isso um irrealismo total, que não hesitou em pedir um sacrifício humano inaceitável. Salazar pretendia a morte de todos os militares portugueses em Goa, apenas com o fim de provocar uma condenação internacional da Índia. Ao mesmo tempo ordenou que fossem retiradas de Goa as relíquias de São Francisco Xavier, algo que seria traumatizante para os católicos de Goa.

 

O absurdo da estratégia de Salazar atingiu o ponto de solicitar ajuda à Inglaterra com base na antiga aliança para combater a União Indiana em Goa. Como se os ingleses que foram expulsos de toda a Índia fossem a seguir entrar em guerra com a Índia apenas por causa de Goa. Seria como se a Inglaterra fosse pedir a Portugal que entrasse em guerra com o Brasil se o Brasil decidisse invadir a Guiana Inglesa.

 

Perante esta estratégia absurda o governador Vassalo e Silva tomou as decisões que se impunham. Não aceitou conduzir os militares seus subordinados a uma morte inútil, nem devolveu a Portugal as relíquias do santo, uma vez que sabia perfeitamente que os goeses nunca lhe perdoariam se o fizesse. Tal valeu-lhe a fúria do regime, tendo ficado com a carreira militar destruída. Mas teve o devido reconhecimento dos habitantes de Goa. Quando uns anos mais tarde lá voltou, foi apoteoticamente recebido. Os goeses sabiam que tinha sido graças a ele que a libertação de Goa não ficou manchada por um banho de sangue.

O Estado Novo há 50 anos (1961)


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VIII — ANGOLA É NOSSA!

«Andar rapidamente e em força»

 

A 15 de Março de 1961, poucas semanas depois de ter estalado “oficialmente” a guerra em Angola, Lisboa assistia ao embarque no Niassa das primeiras tropas (quatro companhias de Caçadores) para reforçar a modesta guarnição angolana. Nesse dia, a União das Populações de Angola (UPA), de Holden Roberto, com apoio congolês, atacava brutalmente e de surpresa a região de Dembos, no distrito de Cuanza-Norte.

Era manhã. A estrada Luanda–Carmona, alargada e arranjada através de um investimento apreciável, continuava a ser em terra batida e ainda estava alagada e quase intransitável pelas chuvas fortes da época, à espera da estação do cacimbo que voltaria a secá-la e a alisá-la. O estado dessa longa “via do ouro” (pela qual transitavam muitas riquezas a caminho do porto de Luanda), encharcada e ladeada por matas espessas e cafezais extensos, não assustava os rebeldes negros: cedo, pelas 7 horas, já se movimentavam em direcção a Quitexe, onde não havia razão para que a sua presença nesse dia pudesse ser estranha. Uma hora antes, porém, começara a circular a notícia de que uma centena de homens tinham abandonado uma fazenda próxima e o chefe do posto administrativo decidira percorrer algumas roças da região para verificar se estava tudo normal.

 

As primeiras vítimas foram encontradas nessa ronda, em poucas horas: proprietários e famílias inteiras, bem como empregados e criados, jaziam em poças de sangue, mortos à catanada. Os grupos rebeldes perseguiam os que procuravam fugir, armar-se ou pedir socorro. Muitos empregados, previamente recrutados em segredo pelos revoltosos, foram os próprios carrascos dos patrões; os que não pertenciam aos rebeldes, tombavam também com os brancos. Propriedade atrás de propriedade, homens, mulheres e crianças, brancos e negros, foram procurados, apanhados, violados e degolados ou retalhados.

A Quitexe seguiu-se Nambuangongo, que ficava mais isolada e que, por isso, a UPA reivindicou como seu quartel-general. A chacina prolongou-se por outras povoações da região e passou de Dembos a Uíge e à zona fronteiriça com o Congo ex-belga. Pelo caminho, eram destruídas pontes e assassinados os chefes de posto e as mulheres e filhos. A falta de forças policiais, de pistas de aviação e de unidades militares impediu praticamente qualquer reacção à escala.

 

Há quem afirme que agentes da CIA apoiaram discretamente Holden Roberto, com os EUA a alimentar sonhos de petróleo angolano. Há igualmente quem afirme que a acção envolveu uns 200 mil rebeldes, para os quais o alvo era uma comunidade com cerca de 50 mil brancos. A verdade é que a rebelião irrompera do Congo, em grande parte, e a surpresa da operação, preparada fora de portas com a ajuda do exército congolês, permitira que as vítimas fossem facilmente cercadas.

O massacre espalhou o terror por todo o Norte de Angola, em poucos dias transformado num mar de sangue. O resultado da chacina impiedosa e de invulgar violência nem sequer serviu os interesses a prazo de Holden Roberto ou foi útil para a UPA. Contudo, o saldo de milhares de pessoas barbaramente mortas e mutiladas não se adivinha no comunicado oficial de 17 de Março que foi publicado pela imprensa angolana: «Verificaram-se na zona fronteiriça do Norte de Angola alguns incidentes a que deve atribuir-se gravidade por demonstrarem a veracidade de um plano destinado a promover actos de terrorismo que assegurem, a países bem conhecidos, um pretexto para continuarem a atacar Portugal perante a opinião pública internacional (…) Chegaram a Luanda alguns feridos que foram carinhosamente recebidos, e toda a população de Angola demonstra a mais clara determinação em colaborar com as autoridades (…)»

 

A comunidade internacional criticava Portugal e o salazarismo fingia ignorar o que todos sabiam há muito que ia passar-se. Assim, o Estado Novo reagia sempre tarde e mal. Mesmo quando Salazar se dirigiu ao País e tirou partido da indignação popular para promover a situação intocável de Angola através da sua defesa militar, dizer que «andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão» não evitou milhares de mortes nem pôs a salvo muitas famílias que tombaram cruelmente sem direito a qualquer protecção.

Já a 20 de Fevereiro a Libéria pedira uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para apreciação do caso angolano. Nesse mesmo dia 15 de Março, a reunião urgente terminava com uma moção a condenar a situação em Angola e a política portuguesa que a conduzia, moção essa que foi pela primeira vez votada simultaneamente pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Mas a guerra vai ser longa e revigora o salazarismo, que entende fazer peito não apenas aos EUA e URSS, como também às Nações Unidas. No isolamento de Portugal que se acentua, a marcha Angola É Nossa! há-de tornar-se uma espécie de hino angolano em tempo de guerra, só que cantado apenas do lado colonial.

 

Imagens

· Angola, 1961: elementos da Juventude da UPA

treinam com armas

· Vítimas do massacre de 15 de Março

· Manchete d’ O Século (Março de 1961)

O Estado Novo há 50 anos (1961)


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VII – COMEÇA A GUERRA COLONIAL

“O assalto às prisões de Luanda”

 

A 4 de Fevereiro de 1961, uma conjugação de acontecimentos em Luanda volta a abalar o Estado Novo. Desta feita, o abalo é para durar: formalmente, marca o início da longa guerra que Portugal vai travar nas colónias africanas, a que o regime vai chamar Guerra do Ultramar (para dar sentido ao fim da designação de “colónias” e à sua consagração, irrelevante, como “províncias ultramarinas”). A data é tão importante para Angola que o aeroporto de Luanda, depois da independência, vem a receber o nome de Aeroporto 4 de Fevereiro.

O conjunto de acções vulgarmente apelidado como “o assalto às prisões de Luanda” refere-se ao ataque concertado levado a cabo naquela cidade a 4 de Fevereiro, por militantes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contra a Cadeia de S. Paulo, a casa de reclusão militar, uma esquadra ou posto policial, as instalações da Emissora Oficial de Angola (Emissora Nacional) e outras repartições públicas.

 

A iminência de uma guerra inevitável já é sabida em Lisboa, naquela altura. Esse dia 4, de resto, não parece que tenha sido escolhido ao acaso: apesar do desfecho do “assalto ao Santa Maria” em terras do Brasil, na véspera, ainda muita gente espera que Henrique Galvão acabe por conseguir levar o paquete até Angola e, por isso, há uma quantidade de repórteres de vários países em Luanda, prontos a cobrir esse caso.

Tudo indica que é a possibilidade de ampla cobertura internacional que despoleta a acção do MPLA, interessado em ganhar visibilidade. A decisão tem de ser tomada rapidamente, para assim aproveitar a presença favorável de diversos órgãos de comunicação social estrangeiros.

 

É impossível escamotear a ligação entre a acção em Luanda e a revolta prolongada e mal pacificada na Baixa do Cassange, onde os negros que trabalham na cultura do algodão da poderosa Cotonang (luso-belga) se manifestam desde o início do ano contra as condições impostas e os salários. Ainda em Janeiro, à greve dos indígenas no Cassange contrapõe-se a força de militares e polícias mobilizados para essa região e que os perseguem por ar e por terra. Os tumultos agudizam-se e o regresso à normalidade — apenas aparente — dá-se à custa da chacina de muitos revoltosos e seus familiares, fuzilados entre os supostos cabecilhas da revolta.

A Baixa do Cassange é influenciada pela região vizinha do ex-Congo Belga, país já independente desde 30 de Junho do ano anterior, onde também se estendem  as imensas plantações de algodão que exploram mão-de-obra intensa e com obrigações que são praticamente impossíveis de cumprir. Com a deslocação de efectivos militares e policiais para controlar os protestos no Cassange, Luanda é uma cidade pouco segura nesse momento. A segurança precária e a presença de jornalistas estrangeiros são os aspectos determinantes, mas o primeiro objectivo do assalto às prisões consiste em soltar dirigentes do MPLA que estão presos.

 

Além de diversos atacantes mortos nesse 4 de Fevereiro, do lado oposto perdem também a vida um cabo do Exército e sete agentes policiais. O funeral destes em Luanda culmina em mais violência: previamente armados, vários elementos da população branca perseguem os indígenas pelas ruas da cidade e arredores, matando muitos deles (há quem fale em três mil mortos).

Estas feridas abertas juntam-se às hostilidades mais antigas. De acção em acção, de resposta em contra-resposta, estão traçados os contornos de uma guerrilha que opõe, numa visão grosseira, colonos e negros ou brancos e indígenas, sujeitos a um estatuto oficial que não concede igualdade de cidadania às duas partes. Lá no fundo, cresce e persiste a vontade de libertação, consubstanciada no direito à autodeterminação reivindicado pelos líderes, muitos deles possuidores de preparação intelectual e académica obtida em território continental — na velha Metrópole, que acorda tarde para a necessidade de ter quadros superiores no seu Ultramar.

 

A guerra colonial há-de estender-se à Guiné, em 1963, e a Moçambique, em 1964. Vai durar longos anos e, em certa medida, como que acaba por fornecer uma inesperada legitimidade ao salazarismo, que sai reforçado ao aproveitar para unir os portugueses, tanto quanto possível, em torno de uma causa nacional de relevância óbvia. Por outras palavras: há muito que não há uma causa que justifique o prolongamento do regime e essa defesa do solo pátrio vem dar um novo fôlego (apenas interno, que não externo) à manutenção do Estado Novo. Tratando-se de operações de guerrilha, é de fraca precisão tentar saber quem ganha ou quando e onde se ganha. Só se sabe que Portugal apresenta o maior esforço de guerra europeu no pós-Guerra e que, à época, as antigas colónias africanas pertencentes a países da Europa estão a obter a sua independência a bom ritmo.

O nosso país (leia-se: o regime) não quer abdicar dos territórios do velho Império, mas o quadro social muda substancialmente a partir de 1961. Por um lado, a emigração (clandestina ou “a salto”) tem mais uma razão de ser: fugir à guerra, o que significa recusar o cumprimento do serviço militar obrigatório. Por outro lado, as famílias portuguesas absorvem um novo ritual: a despedida dos seus filhos, pais, irmãos e maridos que embarcam no cais de Alcântara, o drama do adeus aos soldados que partem. Muitas vezes, é o último adeus.

 

Imagens

· Luanda: o Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro

· Monumento angolano aos Heróis do 4 de Fevereiro

· Placa com palavras de Agostinho Neto alusivas

à fundação do MPLA em 1956

· Primeiro dístico (raro?) do MPLA (integralmente

escrito em francês)

· Funerais em Luanda após o 4 de Fevereiro

· Embarque de tropas no Tejo

O Estado Novo há 50 anos (1961)


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VI – “OPERAÇÃO DULCINEIA”

O “assalto” ao Santa Maria (5)

(conclusão)

A 3 de Fevereiro de 1961, antes do desembarque no Recife, os passaportes dos passageiros portugueses e espanhóis do Santa Maria são carimbados com um visto assinado por Henrique Galvão e um selo do grupo rebelde, o DRIL, «numa cerimónia bem-humorada» e «sem qualquer formalidade», mas apenas porque «fará irritar certamente os funcionários de Salazar» (Henrique Galvão, O Assalto ao “Santa Maria”).

Nesse derradeiro momento, vê-se que Galvão conserva a preocupação de deixar uma boa impressão e quer descontrair aqueles com quem andou no mar treze atribulados dias.

 

A edição da revista Paris Match de 4 de Fevereiro sai para todo o mundo com uma reportagem amplamente ilustrada de 12 páginas. Na capa, dedicada por inteiro ao caso, a chamada para o «Exclusivo – A bordo do Santa Maria – Fotos e relato» é completada assim: «La fantastique aventure de Galvao et des pirates de la révolution». No interior, lê-se: «Désormais sur le paquebot de luxe règne l’aventurier de la révolution: Galvao». Referindo-se ao encontro com aquele a quem chama “aventureiro”, o jornalista descreve-o como um «adversário severo do presidente que governa Portugal há mais de 30 anos», um «capitão, autor dramático, deputado e evadido da prisão» e um «homem desesperado de 65 anos que fez a entrada mais espectacular no palco do mundo».

Sobre o paquete, diz que «o palácio flutuante era o “primeiro pedaço da pátria libertada”». A revista transcreve o que Galvão comunica quando se dirige aos passageiros no pequeno-almoço «dans les salles à manger où fument le thé et le café habituels», após assumir o comando do navio: «Mesdames, messieurs, vous êtes désormais sur une parcelle de Portugal libre… Nous ne nous rendrons à personne, mais nous nous portons garants de vos existences et même de votre confort…» Convenhamos que, apesar da forçada mudança de planos no início da acção — para desembarcar os feridos em Santa Luzia — a simbólica declaração de liberdade resulta em pleno: o golpe mais rude para o Estado Novo não é o desafio a Salazar, mas o velho regime passar a ser alvo de uma azeda atenção mundial.

 

O Santa Maria deixa o Recife no dia 7 para regressar a Lisboa e entrar engalanado no Tejo a 16. A 17, quando atraca perante uma multidão no cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, é recebido por Salazar em pessoa. “Obrigado, portugueses” — diz o presidente do conselho. “O Santa Maria está connosco.” No mês seguinte, o paquete passa de novo a operar e, sete anos depois, é alvo de uma boa remodelação e faz cruzeiros à Madeira, Canárias e Caraíbas.

Em 1973, ao sair do Tejo para uma viagem, o navio sofre uma avaria e já não parte. A desfocada visão da época (aliada a um regime político fechado) só tem olhos para o crescimento da aviação comercial e não percebe o caminho favorável que leva o mercado dos cruzeiros de luxo. Assim, é desperdiçado o potencial do Santa Maria, apesar do seu requinte e de ainda não ter 20 anos. Em resultado dessa falta de visão, o paquete é vendido a um sucateiro naval de Taiwan, onde acaba desmantelado. (O filme Assalto ao Santa Maria, de Francisco Manso, estreado em 2010, recorre ao navio-hospital Gil Eanes, no qual se introduzem alterações cénicas no convés para o efeito.)

 

Henrique Galvão fica a viver no Brasil. Continua a escrever e a encontrar-se com alguns opositores de Salazar, sempre na mira de conspirar contra o regime, e conserva uma ideia: ver Portugal longe do salazarismo e do comunismo.

Mentor e líder da “Operação Dulcineia”, a qual fica nos anais da acção política pela insólita tomada de meios aeronavais, acaba por não assistir ao enterro do Estado Novo. Morre exilado em São Paulo, a 25 de Junho de 1970, aos 75 anos, com a doença de Alzheimer.

 

Imagens

· Capa e página interior da Paris Match de 4 de Fevereiro de 1961

· Recife: Galvão e Delgado (no canto inferior direito) deixam o paquete

· Fotografia de Henrique Galvão na Paris Match

· Na ilha de Santa Luzia: lancha do Santa Maria que transportou

dois feridos, acompanhados por cinco tripulantes,

e cuidados hospitalares aí recebidos

· Regresso a Lisboa: o Santa Maria atracou engalanado em Alcântara

· O Assalto ao Santa Maria foi realizado por Francisco Manso

· Henrique Galvão ficou exilado até morrer, com 75 anos, em 1970

O Estado Novo há 50 anos (1961)


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V – “OPERAÇÃO DULCINEIA”

O “assalto” ao Santa Maria (4)

(continuação)

A 2 de Fevereiro de 1961, o Santa Maria dá entrada e fica ancorado no porto de Recife. Há centenas de jornalistas a cobrir o caso, o que chama a atenção da comunidade internacional para o regime político instalado em Portugal. Paralelamente, quem está também no Recife é Humberto Delgado, que chegara ao paquete na véspera, no barco de pesca alugado por repórteres da Time e da Life. A presença de Delgado e a maneira como ele quer sobressair gera grande desaguisado entre os rebeldes espanhóis, já crispados pela evidente liderança portuguesa da operação.

Dias antes, o francês Dominique Lapierre, jornalista do prestigiado semanário francês Paris Match, está nos EUA quando se sabe do caso na sede da revista. Recebe dez mil dólares (montante então apreciável) e instruções para voar para o Recife, a fim de obter toda a história da “Operação Dulcineia” da boca do próprio Henrique Galvão — e em exclusivo.

 

Ao chegar ao Recife, com o paquete ainda a movimentar-se ao largo da costa, Dominique Lapierre calcula que encontra aí um milhar de enviados especiais em reportagem e fica aflito. “Pela primeira vez vi um jornalista chinês!” — diz ele mais tarde. Acompanhado pelo fotojornalista da Paris Match Gil Delamare, percebe que tem de improvisar: aluga uma avioneta e toma parte entre os poucos que vão com antecedência ao encontro do paquete. Delamare até se lança do pequeno avião para fazer as primeiras fotografias e é recolhido da água pelos norte-americanos. Deste modo, já faz tempo que estão instalados a bordo quando começam a subir ao barco muitos outros repórteres.

Lapierre tem apenas de continuar a ser imaginativo para ganhar a confiança de Henrique Galvão e obter o exclusivo para a revista. Entrara disfarçado de bombeiro e não perde tempo ao avistar Galvão. Estende-lhe a mão e dispara: “Tem aqui dez mil dólares para a sua causa.” É assim que combinam encontrar-se numa cabina previamente destinada ao jornalista, onde este recebe do “pirata” português o relato pormenorizado da operação e a garantia do exclusivo (o que interessa a ambos, afinal). “Foi um exclusivo mundial” — conta Lapierre. “Falou um francês sublime durante toda a noite. Via-se que era um fidalgo.“

 

Salazar mandara agentes da PIDE e membros da Legião Portuguesa para o Recife: não podem actuar, mas podem ser úteis. Durante a noite daquela entrevista, alguns homens da PIDE estão já a bordo e mantêm-se à escuta do lado de fora da porta da cabina até às tantas da madrugada. No final, quando os dois saem para comer qualquer coisa, Lapierre mostra receio pelo perigo de serem surpreendidos pelos agentes, mas Galvão tranquiliza-o com ironia: “A polícia secreta de Salazar tem horários de funcionário público.“

O jornalista há-de recordar essa e outras passagens da conversa que mais o impressionaram, entre as quais a descrição do momento em que Henrique Galvão tinha mudado o nome do paquete. «Os passageiros estavam a tomar o pequeno-almoço quando ele falou aos microfones e disse: “Tenho a honra de vos informar que não estão mais no Santa Maria, mas no ‘Santa Liberdade’.”»

 

Os passageiros começam a mostrar-se nervosos e a tripulação está a ficar tensa. Já é dia 3 e ainda se sucedem as negociações entre os rebeldes e as autoridades norte-americanas (com o vice-almirante Allen Smith à cabeça) e brasileiras. Henrique Galvão está a assegurar que o desembarque e a entrega do navio hão-de correr pelo melhor. Sobretudo, apesar da impaciência de muitos passageiros, está a fazer render o tempo, não só para que o novo governo brasileiro entre plenamente em funções, mas também para deixar que continue a haver despachos noticiosos e reportagens para toda a parte.

Por fim, chega a hora de desembarcar os passageiros e, a seguir, a tripulação. O navio é entregue às autoridades do Brasil, que o devolvem aos representantes de Portugal: um comando e elementos da Legião Portuguesa entram a bordo nessa noite. Por seu lado, Galvão e Delgado sentem-se satisfeitos: acreditam ter provocado os estragos possíveis ao salazarismo e alertado a comunidade internacional para a realidade política que vigora em Lisboa. Pela mão de Lapierre, uma conhecida revista francesa vendida em muitos países está prestes a confirmar isso mesmo.

(continua)

Imagens

· O Santa Maria ancorado no porto de Recife

· O paquete (duas fotos) ao largo da costa de Pernambuco

· ‘Santa Liberdade’: os rebeldes conservam o novo nome até ao fim

· Recife: Galvão em dois momentos das negociações a bordo

(o vice-almirante Allen Smith à esquerda)

· Momentos (duas fotos) do desembarque dos passageiros