VI – “OPERAÇÃO DULCINEIA”
O “assalto” ao Santa Maria (5)
(conclusão)
A 3 de Fevereiro de 1961, antes do desembarque no Recife, os passaportes dos passageiros portugueses e espanhóis do Santa Maria são carimbados com um visto assinado por Henrique Galvão e um selo do grupo rebelde, o DRIL, «numa cerimónia bem-humorada» e «sem qualquer formalidade», mas apenas porque «fará irritar certamente os funcionários de Salazar» (Henrique Galvão, O Assalto ao “Santa Maria”).
Nesse derradeiro momento, vê-se que Galvão conserva a preocupação de deixar uma boa impressão e quer descontrair aqueles com quem andou no mar treze atribulados dias.
A edição da revista Paris Match de 4 de Fevereiro sai para todo o mundo com uma reportagem amplamente ilustrada de 12 páginas. Na capa, dedicada por inteiro ao caso, a chamada para o «Exclusivo – A bordo do Santa Maria – Fotos e relato» é completada assim: «La fantastique aventure de Galvao et des pirates de la révolution». No interior, lê-se: «Désormais sur le paquebot de luxe règne l’aventurier de la révolution: Galvao». Referindo-se ao encontro com aquele a quem chama “aventureiro”, o jornalista descreve-o como um «adversário severo do presidente que governa Portugal há mais de 30 anos», um «capitão, autor dramático, deputado e evadido da prisão» e um «homem desesperado de 65 anos que fez a entrada mais espectacular no palco do mundo».
Sobre o paquete, diz que «o palácio flutuante era o “primeiro pedaço da pátria libertada”». A revista transcreve o que Galvão comunica quando se dirige aos passageiros no pequeno-almoço «dans les salles à manger où fument le thé et le café habituels», após assumir o comando do navio: «Mesdames, messieurs, vous êtes désormais sur une parcelle de Portugal libre… Nous ne nous rendrons à personne, mais nous nous portons garants de vos existences et même de votre confort…» Convenhamos que, apesar da forçada mudança de planos no início da acção — para desembarcar os feridos em Santa Luzia — a simbólica declaração de liberdade resulta em pleno: o golpe mais rude para o Estado Novo não é o desafio a Salazar, mas o velho regime passar a ser alvo de uma azeda atenção mundial.
O Santa Maria deixa o Recife no dia 7 para regressar a Lisboa e entrar engalanado no Tejo a 16. A 17, quando atraca perante uma multidão no cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Alcântara, é recebido por Salazar em pessoa. “Obrigado, portugueses” — diz o presidente do conselho. “O Santa Maria está connosco.” No mês seguinte, o paquete passa de novo a operar e, sete anos depois, é alvo de uma boa remodelação e faz cruzeiros à Madeira, Canárias e Caraíbas.
Em 1973, ao sair do Tejo para uma viagem, o navio sofre uma avaria e já não parte. A desfocada visão da época (aliada a um regime político fechado) só tem olhos para o crescimento da aviação comercial e não percebe o caminho favorável que leva o mercado dos cruzeiros de luxo. Assim, é desperdiçado o potencial do Santa Maria, apesar do seu requinte e de ainda não ter 20 anos. Em resultado dessa falta de visão, o paquete é vendido a um sucateiro naval de Taiwan, onde acaba desmantelado. (O filme Assalto ao Santa Maria, de Francisco Manso, estreado em 2010, recorre ao navio-hospital Gil Eanes, no qual se introduzem alterações cénicas no convés para o efeito.)
Henrique Galvão fica a viver no Brasil. Continua a escrever e a encontrar-se com alguns opositores de Salazar, sempre na mira de conspirar contra o regime, e conserva uma ideia: ver Portugal longe do salazarismo e do comunismo.
Mentor e líder da “Operação Dulcineia”, a qual fica nos anais da acção política pela insólita tomada de meios aeronavais, acaba por não assistir ao enterro do Estado Novo. Morre exilado em São Paulo, a 25 de Junho de 1970, aos 75 anos, com a doença de Alzheimer.
Imagens
· Capa e página interior da Paris Match de 4 de Fevereiro de 1961
· Recife: Galvão e Delgado (no canto inferior direito) deixam o paquete
· Fotografia de Henrique Galvão na Paris Match
· Na ilha de Santa Luzia: lancha do Santa Maria que transportou
dois feridos, acompanhados por cinco tripulantes,
e cuidados hospitalares aí recebidos
· Regresso a Lisboa: o Santa Maria atracou engalanado em Alcântara
· O Assalto ao Santa Maria foi realizado por Francisco Manso
· Henrique Galvão ficou exilado até morrer, com 75 anos, em 1970








Foi, indiscutivelmente, uma acção cheia de panache. Infelizmente não conseguiram deixar de ser tratados como pirates de la révolution, o que quer que isso seja….
:)))
Tem razão, numa coisa e noutra. Mas acho que foi um sinal de novos tempos e um safanão no imobilismo.
Amanhã, Ariel, “começa a guerra colonial”.
Muito bem, compadre. Soma e segue.
É já a seguir.
Muito bom!
Gostei mesmo.
Uma das receitas que mais apreciei nesta série, além do enorme interesse histórico, como é óbvio, é poder fazer-se ou escrever História sem partidarismo ou paixão de momento. Porque a história é uma sucessão de factos, que à época são vistos de uma forma e naturalmente, História só se faz com uma visão mais distante, imparcial.
Parabéns!
Hum… Vindo de ti…
