A televisão pública está apurada como nunca.
Num noticiário de hoje sobre os medicamentos que o Governo anunciara que iam baixar de preço e que já não vão baixar de preço, o jornalista da RTP concluía que «o Estado vai poupar» não-sei-quanto ao dar-o-dito-por-não-dito. “O Estado vai poupar” é terminologia oficial e o jornalista, entregue ao menor esforço, embarcava na coisa fácil. O Estado vai poupar? O Estado somos nós, que não poupamos e ainda gastamos cada vez mais para o governo nos enterrar bem fundo e ainda pagamos esta espécie de jornalismo.
Poucas notícias adiante, a RTP surgia com a situação que se vive no Bahrain e o jornalista terminava a dizer que o nosso governo «ainda não recomenda que os portugueses se desloquem» àquele país. Falta óbvia de rigor: não se espera que o governo nos recomende deslocações a Espanha ou à Cochinchina; o que o jornalista queria dizer e não soube é que o governo ainda desaconselha (e não que “ainda não aconselha”). A falta de rigor foi grave? Não, mas foi uma amostra gratuita das permanentes faltas de rigor, umas mais importantes do que outras, num serviço público em que a hierarquia não se avalia pelas responsabilidades atribuídas, mas sim pelos salários auferidos.
Mais tarde, na RTP-N, ia começar a cerimónia de abertura do ano judicial no Supremo Tribunal de Justiça, que é costume iniciar-se com uma actuação musical (coral ou instrumental). Informava o repórter em directo do local que íamos assistir a «uns cânticos de entrada» e logo uma composição da banda da GNR desatou a tocar o Hino Nacional e outros “cânticos” para corneta e filarmónica…
A televisão pública está apurada como nunca.

A RTP está habituada aos cânticos celestiais do nosso primeiro-engenheiro, já tem o ouvido viciado.
… E nós temos o vício de andar a alimentar isso tudo!