O não-comentador


jmmcc,

José Sócrates respondeu hoje a Soares dos Santos, presidente do Grupo Jerónimo Martins, na sequência de este ter acusado o Governo de mentir sobre a situação do país: “Nem merece comentário” — comentou o primeiro-ministro — “e só prova que não basta ser rico para ser bem-educado.“

Soares dos Santos tinha dito ontem que “não vale a pena continuarmos a mentir“, que “não vale a pena pedir sacrifícios às pessoas sem lhes dizer a verdade“, porque “as pessoas têm de saber para que estão a fazer os sacrifícios“.

Curiosamente, disse também que “truques é para o Sócrates“, pois “ele é que gosta de truques“, no dia em que se soube que não-sei-quantos imóveis do Estado libertados pelo Governo e supostamente vendidos a privados foram, afinal, “comprados” por uma, mais uma, empresa pública, a Estamo-Participações Imobiliárias (que agora tenta vender esse património) — uma manha que baixa o défice e esconde as contas públicas, mas mantém a realidade na mesma para sermos os mesmos a pagar. Se isto não é um truque…

Curiosamente, Soares dos Santos responde ainda ao i que “seria uma bênção que o FMI entrasse em Portugal“, no dia em em que se soube pelo JN que o “TGV entre Caia e Poceirão fica 25% mais caro que na versão anterior“. Se não é uma mentira ter suspensa (?) uma obra que, afinal, avança à velocidade de milhões de euros…

O primeiro-ministro, assim apanhado em mais um périplo folclórico de primeiras-pedras e inaugurações, fez de conta que não sabe que há quem não tenha precisado de prometer empregos para empregar e conseguir crescer, mesmo perante um Governo que prometeu empregos para só empregar boys que todos pagamos e continuarmos a descer. Por isso é que Sócrates comentou que não comentava.

Fez também de conta que não sabe que a opinião sobre ele está longe de ser coisa de ricos. “Nem merece comentário e só prova que não basta ser rico para ser bem-educado” é mais do que um comentário: é uma não-verdade e um não-não-truque de retórica.

16 comentários em “O não-comentador”

  1. Anoto 3 pontos para comparação entre JS e ASS:
    1 – O Grupo Jerónimo Martins aumentou os seus colaboradores e atribuiu prémios / os funcionários públicos sofreram um corte de 5% na massa salarial.
    2 – O Grupo Jerónimo Martins tem uma estratégia de proximidade ao consumidor / JS está cada vez mais distante dos eleitores.
    3 – O Grupo JM tem uma internacionalização de sucesso / A internacionalização de JS passa por amizades com Chávez e Khadafi.

    1. Pelo que se vê mais abaixo, continuamos a ser um país de invejosos para com quem tem sucesso…

  2. “Não basta ser rico para se ser bem educado”. Assenta que nem uma luva nesta exemplar virgem ofendida.

  3. João, a obsessão socrática deste país de comentadores deixa-nos cegos!

    Só para confirmar, estamos a falar de Soares dos Santos, dono da empresa que é aqui descrita? http://correiopreto.blogspot.com/2011/02/o-tribunal-da-polonia-e-que-lhe-topa-os.html

    João, quando ouço estes Sr. que enriqueceram à custa da distribuição dá-me vómitos! Soares dos Santos, Belmiros e outros são muito responsáveis pelo estrangulamento dos nosso produtores! Veja-se a margens de lucro do leite! Uma vergonha!

    Em muitos aspectos não são diferentes dos políticos! Até digo mais, são piores!

    1. Meu caro Nuno, não tenho essa obsessão e não sei se sei bem o que isso possa ser. O que tenho é muito mais simples: estou sem saco para o Sócrates e companhia.

      Quanto ao presidente do grupo JM, que nem conheço, só posso dizer-lhe que não encontra uma palavra minha sobre problemas judiciais ou económicos. Sei apenas que é um empresário e investidos, que cresce e dá trabalho. Bem ao contrário das promessas e dos actos do governo — e isto é que acho uma vergonha, porque se trata da coisa pública.

      Se, ainda assim, quer concluir que não há grandes diferenças entre uns e outros, admito (sem generalizar, que é coisa que me arrepia) que seja um bocado assim: um dos nomes que V. refere e que conheço mais de perto não se distingue à custa das melhores razões. Mas tal não interfere no que escrevi, ao que me parece.

      Um abraço.

      1. Caro João,

        O que se comenta na surdina sobre as condições de trabalho na JM não é o que a CS divulga, para enfim!

        O que eu não gosto é de ver este Sr. darem lições de moral quando sabemos como foi que muitos construiram as suas fortunas!

        Mas foi um desabafo meu e não leve a mal a “obsessão socrática”! É um prazer ler as seus textos e dos restantes colegas blogueiros do Delito.

        Abraço.

        1. Eu percebi o que quis dizer, Nuno. Sei do que fala e do que se passa de pouco recomendável no mundo de alguns dos nossos maiores empresários. Mais: a crise de trabalho só agrava tais situações, que jamais ocorreriam se o país tivesse outra pujança — e é aí que entra a incompetência (e não só), crescente com o passar dos anos, dos políticos que temos.

          Obrigado pelas suas palavras, em nome de todos.

    2. Não podemos restringir o exercício da palavra ao país da obsessão socrática dos seus defensores. Convém que se fale também dos que enriquecem á custa dos cargos públicos que exercem como se fossem propriedade sua. Esses não distribuem, açambarcam e acumulam despudoradamente em proveito exclusivamente próprio.

      1. Caro João,

        O gosto é meu. Só não tenho tido muitas oportunidades de comentar.

        A noita passada estava com insónias e deu-me para parafrasear o Berardo em vários comentários.

        Fui um tanto rude, mas é cada vez mais o meu sentimento para com certa gente…

        Cumprimentos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *