A xenofobia persistente


jmmcc,

Como assinala aqui o nosso Rui Rocha, entre as variações do «tipo de etiqueta que acompanha frequentemente a notícia de um crime», pode dizer-se que «o rótulo da nacionalidade» tem uma relevância tão essencial quanto curiosa: «se o facto ocorrer no estrangeiro, a nacionalidade relevante é a portuguesa». Essencial porque determina e condiciona a nossa reacção; curiosa porque convoca a xenofobia mais calada que persiste em nós.

Dá-se o mesmo com a profissão que cada um exerce: no crime, ser jurista não é como ser jardineiro, nem ser político é como ser condutor de autocarro. E isto não resulta necessariamente da avaliar a preparação intelectual dos envolvidos, porque todos nós, por exemplo, ouvimos deputados a dizer as maiores barbaridades e conhecemos gente anónima e modesta que não lhes comprava um carro em segunda mão e que vive com inteligência e sensatez. Resulta (isso, sim) de um apelo incontido à xenofobiazinha, uma espécie de alimento (sob a capa daquele retrato intelectual) para a manter desperta. Vejamos.

1. Se uma notícia relatasse que um jovem egípcio tinha dado cabo do canastro a um maduro egípcio com grande selvajaria quando estavam hospedados no mesmo quarto de um hotel em Tóquio, alguém em Cantanhede tinha aberto uma conta bancária pelo sobrevivente ou tinha saído de casa à noite para dar a mão ao vizinho na praça principal da terra? E o Correio da Manhã faria do caso um folhetim diário de primeira página?

2. Se o pai de uma costureira matasse a tiro o ex-genro que era electricista, o Expresso substituiria o título «Pai de juíza mata advogado» por “Pai de costureira mata electricista”? E ninguém piava?

O aspecto mais estranho desta realidade é que a informação circula hoje na hora e pelas vias globais, o que nos aproximou e solidarizou definitivamente do nosso próximo — do próximo que antes estava muito longe para ser próximo — mas deixou-nos, contudo, a fezada de que a nossa paróquia ainda continua a ser o centro do mundo. Isto é: as tecnologias não nos globalizaram no que isso possa ter de bom, porque a ciência e o conhecimento não curam a xenofobia mais calada que persiste em nós.

8 comentários em “A xenofobia persistente”

  1. Viver no estrangeiro tem desvantagens, está-se longe do país, da família, etc. Mas também vantagens. Uma delas, é não assistir ao “folhetim diário de primeira página” do momento. Há outros. Mas, pelo menos, consigo estar uma semana inteira sem ninguém me falar do Renato Seabra.

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